Joyce Flynn

Joyce Flynn, uma mulher que tinha trinta e dois anos, morava em Greenfield, no estado de Utah, desde que nasceu. Recém-nascida, virou assunto na cidade. Seus olhos eram azuis como os da mãe, mas de quem herdara a pele mestiça? Pai e mãe tinham a pele branca como a de qualquer mórmon.

Quando foi para a escola, que funcionava na igreja, seu silêncio também era assunto na cidade.

O padrasto de Joyce era coveiro no cemitério e vivia embriagado. Ele teve uma infância esquisita e sua história merecia ser contada por alguém.

Com seus trinta e dois anos Joyce era baixa e um tanto gordinha. Seus olhos azuis eram pequenos e pareciam duas gotas solitárias. Seus ombros não eram tão largos quando era magra. Tinha os cabelos dourados e compridos até o meio das costas. Continuava calada, mas dentro dela havia um vulcão permanente desde que descobriu o amor de sua vida.

Quando era uma adolescente de quinze anos, Joyce se encantou com um rapaz. O rapaz, chamado Brian Lincoln, tinha vinte e um anos. Ele trabalhava no Greenfield Daily, o jornal da cidade e sempre que podia o rapaz ia vê-la à noite. Juntos caminhavam pelas ruas ao longo dos postes, trocavam dúvidas e anseios sobre o futuro de suas vidas. Joyce, naquela época, era uma menina muito bonita e Brian, mais experiente, sabia como tomá-la nos braços e beijá-la. Quando a abraçava, ele sentia as taquicardias dos homens e dizia palavras que não tinha planejado dizer. Joyce, fisgada pelos braços fortes e pela barba cerrada do rapaz, afeiçoada ao sonho de um romance perfeito que a tirasse da mesmice daquela cidade, excitava-se e mais de uma vez questionou sua virgindade. Encostados numa árvore mais afastada ou atrás de um muro, Joyce escutava palavras que o rapaz dizia e mexiam com sua lucidez, sua pele exalava o vapor quente das adolescentes indóceis. Toda sua quietude desabava e ela naufragava nas emoções de ter encontrado um amor único, um amor puro, eterno e verdadeiro.

Um ano se passou e Joyce completou dezesseis anos. Uma semana depois, Brian foi para Portland onde acreditava que poderia conseguir uma vaga no maior jornal da cidade. Queria crescer na vida. Ela quis ir embora com ele e lhe disse: “Numa cidade grande eu posso trabalhar e juntos economizaremos o bastante para comprar nossa casa. Podemos viver sem estarmos casados. Ninguém nos conhece lá, não vão prestar atenção para fofocar sobre nossas vidas”. Brian não esperava aquela disposição de sua amante. Era assim que via a menina. Todavia, com aquela declaração, sentiu apreço pelos sentimentos dela mas não estava em seus planos levá-la. “Você não sabe como é a cidade grande”, ele disse de um modo um tanto indelicado; “não posso permitir que você passe qualquer necessidade, não estarei tranquilo se você for. Assim que eu estiver estabilizado, volto para te buscar”. Brian pegou no queixo dela com ternura, olhou em seus olhos e concluiu: “Fique aqui e me espere”.

Na noite que foi a véspera de sua partida, Brian arranjou uma carroça e buscou a garota para um passeio pelos campos, conforme tinham combinado. A lua brilhava no céu e ambos estavam tristes. Não diziam nada. A carroça passava entre árvores escuras, depois cruzou um campo aberto com o céu estrelado e chegou às margens do riacho Waterfield. Desceram da carroça. Havia o som da água cintilante sob o luar, havia uma brisa silenciosa e uma aflição no olhar. Sem testemunhas, amaram-se.

Passava da meia-noite quando estavam de volta à cidade. Havia uma espécie de felicidade em suas almas. Nada no futuro poderia arruinar tal sentimento. Estavam em êxtase. Era um momento sublime. Joyce desceu da carroça com sua mão agarrada à mão dele. “Vamos proteger nosso amor, não importa o tempo que passe. Precisamos fazer isso”, disse Brian. Ela lhe respondeu com um sorriso de anjo e um olhar de fé. Quando as mãos se soltaram ela soprou sobre a palma de sua mão. Um beijo invisível foi em direção ao seu amado. Brian esperou que ela entrasse na casa dos pais.

Ele não conseguiu o emprego que tanto queria, em Portland. Após um mês e meio, frustrado, decidiu conseguir qualquer coisa noutro lugar. Então seguiu para o norte, ao Canadá. Conseguiu hospedar-se numa pensão. Com pouco dinheiro, pagava sua hospedagem com aulas de gramática para o filho único dos proprietários da pensão. À noite, escrevia cartas para Joyce. Sentia-se solitário. Sua dor aumentava quando via lua. Era como um pedaço de neve no céu. Era também um pedaço de saudade. No final de cada carta, copiava um dos poemas de um livro que foi proibido pela igreja, de autoria de um padre medieval espanhol, Padre Juan Ignácio de Albarracín.

 

“Magnífica solidão”
“Toda e qualquer distância é cúmplice do sentimento que me invade agora. Estou como nem pude imaginar, acorrentado pela saudade, amordaçado pelo último beijo, refém do amor que me pune pelas horas que não te tenho. Sinto-me no alto de uma torre esquecida em algum deserto, e a vidraça mal cuidada da janela permite-me assistir a meu insólito destino sobrevoar a linha triste do horizonte. Meu grito ecoa pelo aço dos sinos de uma igreja em ruínas. Pensar em ti enche minhas artérias de vida na ilusão de ver rompido o meu abandono pelo rasgo do teu sorriso. Quando vem a noite e ela esparrama em mim sua imensidão, agarro-me à lembrança dos teus olhos”.

“Jefé Mavi, 1498”.

P.S. O Padre Juan Ignácio de Albarracín assinava seus textos com o pseudônimo Jefé Mavi, mas foi descoberto e perseguido pela inquisição. Sou grato a este monge medieval por escrever o que eu gostaria de te dizer, meu amor.
Brian L.

 

Joyce recebia suas cartas durante alguns meses. Brian, aos poucos, conhecia outras pessoas na cidade. Fez amizades e desenvolveu interesses por jogos de cartas e música. Comprou um violão. Na pensão em que vivia, já dava aulas de gramática para os filhos da vizinhança. Numa noite qualquer, enquanto lia um livro sentado num sofá da recepção da hospedagem, viu quando chegou uma mulher jovem, cabelos castanhos crespos. Ela entrava sozinha com sua mala. Chegava de Fênix, no Arizona. Ainda não tinha anoitecido. Brian ficou ali até o momento em que a linda mulher voltou de seu quarto e foi ao restaurante da pensão. Devia ter a idade dele. Ele fechou o livro de poemas do padre medieval e foi atrás dela. No restaurante da pensão, aproximou-se e conversaram. Ela estava em busca de uma nova vida e, por isso, mudou-se para o Canadá. Cansou-se da violência de sua região onde havia conflitos por causa da exploração de cobre e prata. Ficaram amigos e aquela relação se intensificou. Brian parou de escrever cartas para Joyce. A verdade é que já não se interessava mais por ela.

Depois de quase um ano sem receber notícias de seu amado, sem receber respostas para as cartas que escrevia, Joyce enviou-lhe uma carta pela última vez.

 

9 de setembro de 1899
Hoje descobri que o futuro não existe. Meu futuro foi desinventado. Eu pensava que viver o presente era fazer planos para um futuro certo. Acho que entendo. O passado ficou lá atrás como todos os passados ficam. O presente vem num dia de cada vez e o futuro é um tipo de esperança. Neste momento penso em você. Desde que estive com você eu penso em você, e como não estás aqui o futuro também não está. Descobri que a palavra eternidade é gêmea do passado, e o futuro são restos de coisas que aprendemos a colecionar antes da hora.

Hoje acordei mais cedo. Ouvi um galo cantando, devia estar a quilômetros de distância porque o canto dele chegava sem eco. Eu me levantei. O céu já mostrava a cor do sol prestes a nascer. Caminhei até a cozinha, fiz um café e comi um pedaço de bolo de milho, aquele que você gosta. Fui até a varanda e a rua mal iluminada não tinha os rastros da sua carroça. Com certeza não tinha. Você está agora em algum lugar. Eu queria que o futuro existisse.
Chame do que quiser: paixão, amor, loucura, insanidade, agonia, incerteza, taquicardia, ansiedade, ou simplesmente: você.
Você tem visto a lua?
J. F.

 

A carta chegou, mas Brian nunca a abriu. Já não tinha interesse no conteúdo. Jogou-a fora como fez com as outras. Fechou a tampa da lixeira e disse em voz alta: “as coisas são como são”.

Em Greenfields, a menina que ouviu promessas e se sentiu amada, completava dezessete anos. Viu seu padrasto morrer de cirrose hepática. Sua mãe conseguiu-lhe um emprego no Correio da cidade. Joyce vendia selos e aprendeu a suportar sua rotina. Certas vezes, algo acontecia em sua cabeça porque além de vender selos, lia com um olhar secreto os nomes de todos os destinatários nos envelopes. Embora o tempo passasse, ela não conseguia acreditar que Brian não voltaria.

Decidiu juntar dinheiro. Pois chegaria a hora de partir para reencontrar seu amor. Iria até onde fosse necessário. Tinha certeza de que ao reencontrá-lo o ganharia para sempre. Por nutrir tal desejo, chorava escondida muitas vezes a qualquer hora do dia, pois se arrependera de ter escrito as palavras que escreveu em sua última carta. Talvez por isso ele nunca lhe tenha respondido. Com vergonha, nunca lhe enviou outra.

Joyce se lembrava com orgulho o que aconteceu entre eles à beira do riacho naquele luar. Tinha certeza de que não seria esposa de nenhum outro homem. Quando percebia o interesse de outros jovens julgava abominável a ideia de entregar a eles o que pertencia a Brian. Seu corpo e sua alma pertenciam a um único homem. Quando andava pela rua, às vezes dizia em voz alta “o nome do meu marido é Brian, seja lá onde ele estiver”. As ideias que começavam a circular sobre a mulher ser dona do próprio destino, era algo incompreensível para ela.

Joyce trabalhava no Correio das 9h às 17h. Tinha uma hora de almoço. Tempo suficiente para ir em casa e voltar. Sua mãe gostava de frequentar as festas de música country e não perdia nenhum rodeio nos finais de semana. Depois de ficar viúva do coveiro alcoólatra, entendeu que ser uma mulher moderna significava dormir com os caubóis que quisesse. Quando ouvia Joyce chorando no quarto, achava que a filha sentia desgosto dela. A Sra. Elizabeth Flynn, gritava com frequência pelo corredor coisas como “esse choro não serve pra nada, trate de arranjar um marido, você está ficando velha e vai acabar tendo que se pendurar em algum viúvo desse fim de mundo”; noutras vezes apenas murmurava atrás da porta da filha “prometo que nenhum vaqueiro volta a pisar aqui, minha filha”.

Os anos se passavam e a solidão inventava novos hábitos nela: o primeiro deles foi substituir o choro pelo hábito de escrever cartas ao seu amado. Mas nunca as enviou. Havia cartas acumuladas embaixo da cama, cartas soltas no guarda-roupas, dentro das botas, dentro das gavetas dos móveis, …cartas dentro das fronhas. Outro hábito era fazer orações quando tinha insônia, dizia palavras parecidas com aquelas que lhe foram ditas no riacho enquanto era possuída por Brian. O velho hábito de juntar dinheiro para ir procurá-lo ainda existia, mesmo depois de ter abandonado essa ideia. Com o passar dos anos, tinha uma soma considerável de dinheiro. De vez em quando tinha surtos: “amanhã mesmo vou embora e Brian ficará feliz em me ver”; e noutros momentos dizia “onde você está Brian”? E ao contar seu dinheiro sua voz na cabeça dizia “tenho dinheiro suficiente para cuidar de mim, dele e de quantos filhos tivermos”.

Desde que se encantou por Brian até seus dezoito anos, nada tirava suas certezas sobre o significado do amor. Na manhã em que completou dezenove anos, amanheceu chovendo. Era um domingo. Duas coisas inesperadas aconteceram. A primeira delas se deu quando foi até a janela. A chuva escorria pela vidraça. Joyce usou uma das mãos para limpar a janela embaçada. Na área que ficou transparente encostou sua testa e aguçou os olhos como se tivesse escutado a voz dele. “Estou aqui meu amor”, imaginava. Lembrou-se de quando sua mão estava agarrada à dele, ao descer da carroça, e ele disse “fique aqui e me espere”. Ela passou a mão outra vez na janela embaçada. A chuva estava espessa, mas ele haveria de surgir numa carroça, descer com pressa e cruzar as poças de lama com seus passos firmes até sua porta. Ela foi até a porta e abriu-a. Uma rajada de vento frio e chuva tomou conta do seu rosto. Não havia ninguém ali. Ela fechou a porta sem nenhuma pressa. Enquanto a fechava cresceu em seu peito um sentimento novo, algo inesperado: o medo. O medo de que ele nunca mais voltasse. Com a porta fechada, sentiu uma lágrima morrer em sua boca. Passou a mão no rosto e foi até a cozinha. Caminhava como se houvesse uma algema nos pés. Na cozinha se deparou com outra coisa que jamais lhe ocorrera imaginar: havia um bolo de milho e um bilhete ao lado.

 

3 de agosto.
Querida filha. Estou na casa do Joe. Não me procure. Iremos viver num rancho, no Colorado. A casa agora é toda sua.

P.S. Feliz aniversário.

 

No ano seguinte, quando surgiu o céu da primavera, os pastos, as montanhas, o riacho, as árvores, o ar, tudo era um convite para se aproveitar a vida. Fazia quatro anos que ela não saía das fronteiras da cidade. Era feriado de quatro de julho. A cidade estava enfeitada. Joyce escolheu um vestido florido, desses que os rapazes gostam de ver numa garota de dezenove anos. Ao mesmo tempo, não queria conversar. Caminhou no sentido contrário ao da festa, em direção aos campos. Quando os sons do vozerio se tornaram rarefeitos, quando o silêncio do vento abraçou o silêncio de sua voz, então escolheu um lugar para se sentar. Puxou o vestido acima dos joelhos. Notou alguma diferença em suas coxas e, antes de pensar que poderia estar engordando, foi tomada pelo pensamento da idade. Daqui a pouco faria vinte anos, depois trinta e logo estaria de fato velha. Apavorou-se. Levantou-se de uma vez. Puxou o elástico do decote e mirou os seios. Olhou a palma das mãos, depois passou a mão no rosto, depois examinou o tamanho de seu cabelo e confirmou que ainda era jovem e quando chegasse em casa jogaria no lixo aquela pilha de cartas guardadas e que nunca enviaria. Aquela sensação ruim que tivera quando abriu a porta naquela manhã chuvosa, veio à tona debaixo daquele sol morno das nove da manhã. Era óbvio que foi abandonada. Um grito estava prestes a voar de sua garganta. Baixou os olhos. Lá dentro, ela sabia que Brian não tinha culpa de nada. Nem mesmo ela era culpada. As coisas são como são.

“Não vou mentir para mim”, disse em voz alta, enquanto caía de joelhos na grama com o peso daquela lucidez. Ergueu os braços para o céu e pela primeira vez, desde que perdera seu amor, gritou. Gritou para ser ouvida por Deus. Gritava perguntas: “por que, meu Deus, por que fui abandonada”? Depois gritou mais alto uma convicção que rasgava sua voz: “Eu sei que nunca serei feliz, nunca”. Seus braços tombaram e seu corpo se inclinou além dos joelhos. Ela mergulhou o rosto na grama que escondia um choro preso e cortado por soluços desesperados. Quando se levantou, ajeitou seu vestido e tinha um certo olhar de alívio. Na verdade, era um olhar triste, derrotado, mas preferia pensar que estava aliviada pela coragem de finalmente enfrentar a realidade.

Voltou para casa. A caminhada de quase uma hora foi suficiente para que ela desistisse de jogar fora as cartas. Ao contrário, resolveu abri-las uma a cada dia, depois que chegava do trabalho. Os meses se passaram e, após ler todas, ela as tinha organizadas por data. Então, releu-as outra vez em ordem cronológica.

Quando fez vinte e cinco anos, recebeu uma carta de sua mãe. Estava feliz porque tinha mandado o Joe “para os quintos dos infernos” e tinha se casado com o dono de um cassino, no Texas. O Cassino era clandestino. Funcionava nos fundos de uma funerária que também era de propriedade do novo marido. O envolvimento de sua mãe com os homens pareciam sublinhar seu isolamento. Quando acabou de ler a carta chegou a pensar: “Quando Brian chegar e me encontrar assim, gorda, não vai me querer”. Em sua rotina no Correio, observava os clientes e pensava: “Os homens ficam melhores com a idade, mantêm um vigor no sorriso, a voz fica firme e as mulheres jovens os disputam”. Quando observava as mulheres no mercado, não via diferença dela com as outras.

Quando o proprietário do Correio faleceu, seu filho mais velho decretou que a loja ficaria fechada por dois dias. Era um jovem de trinta e dois anos, um homem de beleza rara naquele lugar. A cidade toda compareceu ao velório realizado dentro da Igreja. Taylor Jr. e suas irmãs, mais jovens que ele, recebiam os cumprimentos quando ele notou que Joyce caminhava em direção à saída da igreja. Deixou as irmãs com as pessoas que faziam fila para apresentar condolências, e correu pela porta lateral para alcançar a funcionária predileta de seu pai. Prestes a virar a esquina, ela ouviu os passos dele e parou. Tinha os olhos vermelhos e disse ao rapaz: “vou sentir falta do Sr. Taylor”. Notou que o filho usava o mesmo bigode do pai, uma linha fina sobre o lábio superior. Taylor Jr. lhe agradeceu: “Muito obrigado por sua dedicação ao trabalho que meu pai ergueu quando chegou nessa cidade. Após os dois dias de luto, gostaria de conversar com você a respeito do Correio. Vamos precisar de alguém para tomar conta e administrar os funcionários. Espero que pense no assunto. Até logo”.

Joyce aceitou sua nova posição. Na ausência do velho dono, o Sr. Milton Caldwell, um amigo de infância do pai de Brian, a esperou do lado de fora no final do expediente numa sexta-feira. Ele a abordou antes que ela atravessasse a rua principal. Todos se conheciam na cidade. Ele não era um estranho. Ela aceitou o seu convite para lancharem na sorveteria da família Thompson. Não era segredo pra ninguém o interesse dele naquela jovem. O Sr. Milton era um fazendeiro com muitas posses. Tinha terras na região do Arizona e no Colorado. Por ser ateu, sabia que o falecido Taylor jamais permitiria que sua funcionária, órfã de um pai desconhecido, criada por um padrasto alcoólatra e uma mãe desvairada, se casasse com pessoas que não temessem a Deus. E, principalmente, pessoas ligadas à disputa de terras com algumas mortes suspeitas na região. O Sr. Milton não poderia negar que uma vez, com certeza, se viu obrigado a puxar o gatilho. Noutras vezes o que estava em jogo era o conforto material de sua família.

Enquanto caminhavam na rua, e depois dentro da sorveteria, Joyce não percebia o olhar de cumplicidade das pessoas. Finalmente, “a moça virgem”, como era chamada pelas costas, estava acompanhada. O velho pensava em silêncio “posso levar esse rosto bonito ao lar dos Caldwells”. O Sr. Milton Caldwell não foi direto ao assunto, ela tampouco se interessava pelo motivo do convite nem pelo que ele estivesse dizendo. Ela tomava seu sorvete enquanto ruminava na cabeça: “não aceitarei que isso se torne um hábito”. De vez em quando dava um sorriso teatral para o velho. Ele retribuía com os olhos arregalados, como se sua conversa tivesse aprovação, e quando se sentia aprovado passava a mão no cavanhaque. Enquanto sua boca se mexia para falar não importa o quê, Joyce pensava “eu posso consentir que ele me leve em casa algumas vezes. Isso não é nenhum pecado. Meu Brian vai gostar de saber que um homem rico se interessou por mim, e que eu mantive meu corpo guardado do jeito que ele deixou”. De repente, o Sr. Milton soltou uma gargalhada, rindo de algo que falou e achou engraçado. Joyce reagiu a tempo com um sorriso mudo. Quando o Sr. Milton a deixou em casa, perguntou se podia ir buscá-la no Correio no dia seguinte. Ela abriu um sorriso angelical, seus olhos azuis estavam mais azuis e sua voz parecia a voz de um anjo. Respondeu: “meu marido não vai gostar”. Deu-lhe as costas, entrou em casa sem olhar pra trás com o objetivo de reler aquelas cartas que nunca enviou.

Quando estava com trinta e dois anos, passou a conversar com os objetos. Antes eram apenas os objetos de seu quarto. Conversava com o abajur depois de apagar a luz, ouvia conselhos de uma boneca antiga. Depois passou a conversar com tudo que não se mexia em toda a casa. Certa tarde discutiu aos palavrões com as lâmpadas de todos os cômodos. Naquela noite a casa ficou mergulhada no escuro. Quando se deitou soube que estava gorda de verdade. Resolveu que queimaria as cartas no dia seguinte. Era sexta-feira. Decidiu tomar seu café da manhã e não ir trabalhar. Depois do café, andava pela casa como quem anda num labirinto. Ligou o rádio. Dançou um tango com a vassoura. Depois da música veio a notícia de que Hitler invadira a Polônia durante a madrugada. Ela ergueu o cabo de vassoura e foi para a porta dos fundos do quintal. No lugar onde um dia seu padrasto organizou um jardim, havia uma matagal que quase não deixava se ver o céu. Ela apontou o cabo de vassoura pra lá e com a boca cheirando a café gritava: “morram, morram, morram”, com sua metralhadora de madeira. Quando se viu suada e sentiu calor em suas gorduras, levou o cabo de vassoura até seu quarto. Colocou-o apoiado no guarda-roupas. Pediu que ele não se mexesse e com o indicador nos lábios, pediu silêncio. Abaixou-se de joelhos e olhou para debaixo da cama. Puxou uma mala, depois outra e outra e outra até conseguir puxar um vestido enrolado. Levantou-se com dificuldade. Sentou-se na beira da cama com a respiração dificultada e desenrolou o vestido até surgir um envelope. Mostrou-o ao cabo de vassoura e fez outra vez o gesto de silêncio. Disse: “vou ler esta carta”. O cabo de vassoura permanecia imóvel. inclinado numa das portas do guarda-roupas. Ela abriu o envelope e tirou a carta que escrevera naquele quatro de julho. Abriu o papel que estava dobrado e o leu:

 

Faíscas, lampejos, vácuos, clarões, estrondos, espaços, labirintos, texturas, fumaças, desejos, ritos, segredos, explosões, vidraças, brisas, sal, doce, espumas. De que mais é feita a alma humana?

 

Ao final da leitura, balançava a cabeça pra lá e pra cá, num gesto de incompreensão. Como se alguém lhe dissesse algo que não entendia. Sem perceber amassou a carta. Levantou-se da cama com a carta dentro da mão. Tomou o cabo de vassoura e disse : “venha comigo”. Foi ao banheiro. Apoiou o cabo de vassoura ao lado do espelho. Colocou a carta amassada entre os dentes. Tirou toda sua roupa e contemplou sua nudez diante do espelho. Não conseguia ver o corpo inteiro. Deu um sorriso feliz, com a carta presa aos dentes, ao ver seus mamilos rosados. Deu as costas ao espelho e foi até a banheira. Encheu-a. Observava a água com a carta presa à boca. Sua mente repetia a lembrança daquela noite à beira do riacho. Apertou os olhos quando se lembrou da barba cerrada em sua nuca de menina… arregalou os olhos ao recordar aquelas palavras, aquelas promessas saídas da boca úmida, quente e única do seu único amor. Quando a banheira transbordou, ela ainda estava naquela noite dentro do seu vestido, mas ele o retirou e a tomou nua nos braços. Deitaram-se de corpo e alma. Olhava a lua enquanto era amada. A água da banheira já escorria para o corredor. Ela tirou a carta da boca com uma mão e com a outra fechou a torneira. Foi até o espelho para pegar o cabo de vassoura e entrou com ele na banheira. Abraçada ao objeto, cochichava palavras proibidas, depois o encostava no ouvido para escutar suas confissões, soltava gargalhadas, beijava-o e dizia “é nosso segredo, o Brian não pode saber”. Dava beijos avulsos na extensão do cabo e, subitamente, o arremessou para fora da banheira. Berrou: “sou mulher de um homem só, seu desgraçado”.

Seu corpo estava submerso na água transparente da banheira, seus olhos abertos dentro d’água miravam a lâmpada fluorescente no teto. Planejou o suicídio meses atrás. A cidade lá fora dormia naquela noite quieta e cúmplice do silêncio, como se a escuridão fosse a melhor rima para o fim da vida.

Mas não. Joyce ergueu-se da água e pôs-se de pé com os cabelos grudados na cara. Olhava para o vazio e respirava imóvel dentro de seu corpo encharcado. Sua cabeça não estava quieta, tampouco estava ali. Saiu da banheira, deixou a luz acesa e caminhou até seu quarto sem se preocupar em molhar o chão. Deitou-se nua na cama. Um pedaço do céu estrelado entrava pela sua janela. Olhava para o infinito como quem ouve a voz de um futuro longe dali.

Sambajazz

Quando o assunto é música muitos temas podem fazer parte da conversa. A harmonia, o ritmo, a levada, o estilo, o improviso, a orquestração, o arranjo, a composição, os modos gregos, o contracanto, o virtuosismo, o gosto musical… a lista é infinita.

Da lista infinita vou escolher o assunto “Sambajazz”. O Youtube está cheio de exemplos desse estilo musical que marcou a história da música brasileira nos anos 50, 60, 70 e até hoje há pessoas dedicadas a falar do sambajazz. Em Brasília, a referência no assunto é o baterista Sandro Souza. Fundador do grupo Brasília Sambajazz, traz em sua bagagem musical um jeito de falar contagiante, didático e preciso. Nos ensaios, explica aos músicos a essência da linguagem do sambajazz caracterizada pelo diálogo da bateria com a melodia em que células rítmicas calculadas encontram um lugar específico para dar relevo à música. O contrabaixo funciona como o fio condutor que sustenta o diálogo.

Ouvir o sambajazz ao vivo no Brasil é uma raridade. Todavia, graças à pesquisa deste importante músico brasileiro, Sandro Souza, o público brasiliense tem o privilégio de saborear ao vivo o sambajazz. Entretanto, a agenda de apresentações não está disponível a todo momento. Por isso, o público brasiliense aguarda sempre com ansiedade a data da próxima apresentação. Assim, anote em sua agenda a data de 9 de novembro de 2019, sábado, às 21h no Clube do Choro de Brasília.

O público privilegiado da cidade poderá, mais uma vez, entrar em contato com esse estilo único, histórico, ímpar e decisivo na formação da música instrumental brasileira moderna.

Brasília agradece a você, Sandro Souza, por manter viva a história de nossa música e por este presente musical para a cidade.

 

Farlley Derze, pianista

4 de novembro de 2019.

sambajazz-09nov2019

Cartola-As rosas não falam

Fluxos

Fluxos

O chiado de uma cigarra disputa sua atenção com o som da água do riacho que desliza atrás de você. Uma borboleta negra cruza a sua frente dentro do silêncio de suas asas, e pousa sobre uma pétala vermelha da única flor que eclodiu no jardim. Talvez por isso, não pela flor mas pelo pouso da borboleta, a cigarra reforça seu chiado como quem diz “presta atenção”. A borboleta negra une suas asas e agora ela mesma se parece uma pétala, pétala esquecida pela primavera porque já é verão e você carrega o inverno nos olhos. O riacho segue seu destino como quem nada tem a ver com isso, porque já estava ali antes de você, antes da flor, antes da borboleta ou da cigarra. Estava inclusive antes de centenas de primaveras, verões, outonos e invernos que vêm e vão, como qualquer coisa que nasce para depois desaparecer. Quando a borboleta cruzou a sua frente desenhou no ar algumas memórias de infância. Mas quando pousou e recolheu as asas, fez se calarem as memórias e o silêncio dos idosos se impôs como uma sombra.

Quantas flores de primaveras já secaram nas cabeceiras dos túmulos?

O riacho corre às suas costas com suas moléculas que fluem de mãos dadas, vindas de um lugar onde você nunca esteve e seguem unidas para outro lugar onde você nunca estará. Por ora, você está aqui como a flor, a cigarra e a borboleta. Ninguém sabe quem que se dá conta do outro enquanto o tempo os emoldura numa janela do espaço; ou enquanto o espaço os emoldura numa janela do tempo.

A cigarra está inquieta com seu cântico feito um minimotor elétrico. A borboleta permanece com suas páginas fechadas. A flor isolada no jardim sonha ter suas raízes beijadas pelo riacho que flui anonimamente.

Haverá um tempo em que outra pessoa estará aqui em seu lugar. Mas não chegará a tempo de ouvir a cigarra, nem conhecer esta solitária flor vermelha nem a borboleta negra que agora mexe suas antenas. Essa pessoa do futuro poderá, quando muito, caso venha, apenas escutar e ver o riacho que penteia pedras e espuma-se de segredos incompreensíveis.

A borboleta voou.

Sonho morto

Sonho morto

Com as mãos trêmulas tira da prateleira a xícara e o pires de porcelana.

Com as pernas do passado caminha até a mesa e, sem fazer ruído, pousa o pires, a xícara e a sua solidão.

Retorna à prateleira com os olhos vazios e retira o pote de café. Abre uma das gavetas onde dorme uma colher de aço que sobreviverá ao tempo.

Caminha até a mesa como um relógio que anda para trás.

Abre o pote de café e afunda nele a colher, mas se dá conta de que se esqueceu do bule, do filtro e da garrafa térmica.

Deixa a colher mergulhada no pó como uma pá cravada num cemitério.

Abre outra gaveta e seus dedos se movem como se tateassem algodão. Tira de lá o filtro de pano encardido de memórias. Abre a portinha superior do armário onde guarda o bule e a garrafa térmica.

Coloca o conjunto sobre a pia ao lado do fogão.

Encaixa o coador de pano e faz uma pausa para respirar.

Busca o pote de café e o coloca ao lado do filtro. Retira dele três colheres rasas para preencher o fundo do coador.

Enche o bule até a metade com a água da torneira.

Acende o fogão com um fósforo porque não gosta dos ruídos do funcionamento elétrico.

Deposita o bule sobre as chamas e observa a água tão calma como sua rotina sem palavras.

De repente um facho de sol raspa em sua janela e distrai sua atenção.

Observa o friso de luz que parece vasculhar sua intimidade, sua casa, seu resto de madrugada.

Entrevista o silêncio sem querer respostas. Que seja apenas o que tem sido, ora um confidente ora um vilão.

Borbulhas da fervura da água reclamam sua atenção.

Apaga o fogo e observa a água acalmar-se debaixo do vapor que desaparece no ar como tantas outras coisas.

Despeja a água no filtro sem nenhuma pressa, como quem derrama saudade e dor.

Vê o café atravessando o filtro feito um fiapo de escuridão solitária que se mistura nas espumas do tempo.

Conclui que cada dia é uma lâmina que disseca ilusões.

O sol faz mais força para invadir.

Suas mãos erguem a garrafa térmica como um troféu aposentado.

Caminha na frente da própria sombra em direção à mesa.

Apoia seu corpo com uma das mãos espalmada sobre aquela fração da eternidade, e senta-se ao som do próprio suspiro.

Olha sua xícara vazia e a cadeira vazia ao lado.

O aroma do café lhe sussurra uma lembrança.

Despeja o café na xícara como quem enxerga um sonho morto.

Pega na xícara com a mesma lentidão dos dias anteriores. Toma um gole na esperança de que o futuro realize seu último segredo.

300 & Jazz


 

Festival do Buraco do Jazz , Eixão do lazer na 214 sul, Brasília, 30/4/2017.

Dia 30/04/17, domingo, das 11 às 13 horas,  a 300 & JAZZ vai abrir o Festival do Buraco do JAZZ no eixão do lazer, na altura da SQS 214. VENHAM! Boa oportunidade de curtir músicas de qualidade, acompanhados de filhos, vovós e até os bichinhos de estimação, além dos amigos é claro. Recomenda-se trazer cadeira de praia, toalha de piscina, esteiras e etc., para esticar no gramado e ficar confortavelmente instalado. Vários food trucks estarão no local, garantindo serviço gastronômico.

300&Jazz-30abr2017

300 & Jazz

Voz: Renata Levi

Voz: Renato Ramos

Bateria: João Ricardo Denicol

Baixo: Pablo Oliver

Guitarra: André Moura

Teclado: Farlley Derze

Sax: Esdras Veloso

Empresária: Rosana Lepletier

Roadie: Léo Levi


9º Festival Internacional de Filmes Curtíssimos, Cine Brasília, 30/4/2017.

No dia 20 de abril de 2017 a banda 300 & Jazz foi convidada para animar a abertura do 9º Festival Internacional de filmes curtíssimos. No repertório, canções selecionadas para atender a diversidade do público presente. Quem estava no evento pode escutar algumas jóias do música internacional, com arranjos refinados tais como:

ALL OF ME
SUMMERTIME
GEORGIA
REHAB
I PUT A SPELL ON YOU
COUNTRY MAN
UNCHAIN MY HEART
HOUND DOG
MISTY
MOON RIVER
SKYLINE PIGEON
FLY ME TO THE MOON
JUST THE WAY YOU ARE
I’M NO GOOD
FEVER
AIN’T NO SUNSHINE
ABILOLOU (autoral)
AT LAST
STAND BY ME
MY WAY

300 & Jazz

Voz: Renata Levi

Voz: Renato Ramos

Bateria: João Ricardo Denicol

Baixo: Pablo Oliver

Guitarra: André Moura

Teclado: Farlley Derze

Sax: Esdras Veloso

Empresária: Rosana Lepletier

Roadie: Léo Levi

Cursos

TEORIA MUSICAL

focus point on the center of the photo ,for your design nand art-work

 

Descrição: o estudo da teoria musical é uma forma de compreender os elementos estruturais da música.

Nível: Básico

Carga Horária: 12 horas

Programa do curso:

  • Propriedades do Som
  • Pentagrama
  • Claves
  • As notas
  • Escalas
  • Intervalos
  • Compassos
  • Ligadura, ponto de aumento e fermata

Valor do curso: 900,00


 

Nível: Intermediário

Carga Horária: 12 horas

Programa do curso:

  • Andamento
  • Dinâmica
  • Enarmonia
  • Tons relativos e tons vizinhos
  • Modulação
  • Solfejo

Valor do curso: 900,00


 

Nível: Avançado

Carga Horária: 12 horas

Programa do curso:

  • Transposição
  • Introdução a harmonia: formação de tríades e tétrades
  • Estética musical

Valor do curso: 900,00


 

HARMONIA
 HARMONIA

Descrição: O estudo da harmonia favorece a compreensão  do funcionamento dos acordes que acompanham uma melodia. Visa oferecer caminhos e ideias para o participante tomar decisões sobre os acordes que vai empregar nos diferentes trechos da música.

Nível: Único

Carga Horária: 20 horas

Programa do curso:

  • Origem da harmonia na música ocidental
  • Tipos de acordes
  • Inversão de acordes
  • Função dos acordes
  • Harmonização com acordes
  • Harmonia número 8
  • Padrão 7/13 com melodia num único dedo.
  • Exercício e Prática de harmonização
  • participante apresentará a harmonização de 3 músicas a escolher

Valor: 1.500,00


 
 
PIANO PERFORMANCE
 
PIANO PERFORMANCE
Descrição: sistema de consultas, em que o atendimento é feito por banco de horas, pelo período de tempo que o participante desejar.

Nível: Único

Carga Horária: A escolher

Programa do curso: composição, improviso, modelagens, trilha sonora para poemas, interpretação, técnica pianística.

Valor: 75,00 por hora


 

COMPOSIÇÃO MODELAGEM MUSICAL

COMPOSICAO

Descrição: Este é um curso de composição para quem deseja compor suas próprias músicas. Utiliza um método original desenvolvido pelo autor: modelagem musical (m-modeling).

Nível: Único

Carga Horária: 16 horas

Programa do curso:

  • Técnica da modelagem
  • Estética da composição: estrutura, forma, dinâmica e intenção
  • Notação musical
  • O participante apresentará 3 composições próprias ao final do curso

Valor: 1.200,00


 

IMPROVISAÇÃO IDIOMÁTICA

IMPROVISACAO

Descrição: o curso visa estimular a criatividade com base em referências obtidas de uma variedade de escalas musicais.

Nível: único

Carga Horária: 16 horas

Programa do curso:

  • Notas do acorde com células rítmicas
  • Notas do acorde sem células rítmicas
  • Melodias emprestadas
  • participante apresentará suas improvisações em 3 músicas a escolher

Valor: 1.200,00


 

IMPROVISAÇÃO EXPERIMENTAL (INTUITIVA)

IMPROVISACAO EXPERIMENTAL

Descrição: o curso visa a elaboração do improviso com base na intuição melódica advinda do exercício da imaginação.

Nível: Único

Carga Horária: A escolher

Programa do curso: solfejar fragmentos melódicos intuitivos e anotar sua estrutura rítmica, sua vertente tonal ou atonal, explorar a transposição dos fragmentos em relação à harmonia, executar em diferentes velocidades.

Valor: 75,00 por hora


 

MASTERCLASS

MASTERCLASS

Descrição: Bate-papo interativo com os ouvintes sobre a prática de interpretar uma música baseada em variações de compasso, dinâmica e re-harmonização.

Mínimo de participantes: 10

Carga Horária: 1 hora

Valor: 750,00 (equivalente a 75,00 por pessoa).


 

WORKSHOP MODELAGEM MUSICAL

MODELAGENS

Descrição: o autor apresenta ao vivo o seu método de composição.

Mínimo de participantes: 10

Carga Horária: 1 hora

Valor: 750,00 (equivalente a 75,00 por pessoa).


 

LEITURA DE PARTITURA – CURSO PARA LEIGOS E INICIANTES

LEITURA DE PARTITURA

Descrição: Capacitar o participante à leitura e escrita da partitura, pela compreensão da função de seus símbolos.

Cada indivíduo traz consigo alguma vivência musical. Todavia, embora sejamos familiarizados com a música (desde a infância), raramente alguém tem a oportunidade de compreender a estrutura da música. O mesmo acontece no campo dos símbolos enquanto imagens que representam alguma coisa. Este curso deseja unir as experiências auditivas e visuais. Assim, a partitura será apresentada com um delimitado conjunto de símbolos de modo a se associar imagens a sons que servirá de parâmetro para se compreender como funciona uma partitura e por meio dessa compreensão promover a criatividade e a composição. Cada participante pode compor uma música por meio dos símbolos da partitura. As composições serão tocadas pelo professor em um piano.

Máximo de participantes: 10

Carga Horária: 3 horas

Valor: 225,00 por pessoa.

Para um grupo fechado de 10 pessoas: valor total 1.500,00 (equivalente a 150,00 por pessoa).


 

HISTÓRIA DA MÚSICA

HISTORIA DA MUSICA

Descrição: O participante vai compreender os padrões de melodia, ritmo e harmonia da música erudita ocidental produzida nos seguintes períodos históricos: Idade Média, Renascimento, Barroco, Classicismo, Romantismo, Modernismo. Em paralelo, conhecerá as origens do blues, do jazz, do rock, do choro, do samba, da bossa-nova, da MPB, além das vertentes populares regionais como baião, frevo, maracatu, milonga, fandango, toada, ciranda.

No curso, as músicas de cada período são tocadas ao vivo com a explicação daquilo que o ouvinte deve focar em audição para aprender a diferenciar as músicas e seus estilos.

Máximo de participantes: 10

Carga Horária: 4 horas com intervalo de 15 minutos.

Valor: 100,00 por pessoa.

Para um grupo fechado de 10 pessoas: valor total 500,00 (equivalente a 50,00 por pessoa).

Estudar música

O músico durante sua formação tem muitas preocupações para atingir bons resultados técnicos e artísticos: o estudo da teoria, o estudo e a repetição de escalas e exercícios típicos para o seu instrumento, a formação de um repertório, tocar sozinho, tocar em grupo, e encontrar as melhores oportunidades profissionais, dentre outras necessidades com as quais vai lidar durante seu desenvolvimento. Este post eu preparei para aqueles músicos interessados numa metodologia de estudar música.
 
Se fosse possível, eu adoraria saber como Chopin, Bach, Villa-Lobos, Oscar Peterson, Bill Evans estudavam, isto é, como era a rotina de estudos de cada um, o método que usavam para se desenvolver como instrumentista e compositor.
 
Eu vou disponibilizar aqui o meu método de estudo, composto de sete propostas para você testar.
 
1 – Referência afetiva
 
Um músico costuma ser fã de muitos músicos, compositores e instrumentistas. Eu optei por conhecer e estudar o máximo de composições de um mesmo compositor. Vi que seria uma oportunidade de compreender os padrões melódicos, harmônicos e rítmicos no conjunto da obra daquele compositor. Eis os artistas cujas obras estudo sistematicamente: Chick Corea, Chopin, Debussy. Busco manter na minha rotina a manutenção de um repertório com músicas destes três compositores. Esta referência afetiva começou quando ouvi pela primeira vez “La fiesta” (Chick Corea), “Prelúdio Opus 28 n. 4” (Chopin) e “Clair de lune” (Debussy). Foi uma espécie de “amor à primeira vista”.  Assim, passei a estudar outras composições deles.
 
2 – Desafio racional
 
Escolho uma música que eu já toque com desenvoltura. A tarefa consiste em tocá-la noutra tonalidade com a execução perfeita da melodia e dos acordes sem falhas rítmicas, ao final de no máximo trinta minutos. O estudo fica cada vez mais rico à medida que se escolhem novas tonalidades para tocar a música.
 
3 – Reflexo auditivo
 
Pelo menos uma vez por mês vale à pena tocar, ao mesmo tempo em que se escuta, uma música que esteja na moda e são veiculadas nas rádios, na TV, no YouTube. Isso não tem a ver com o gosto musical. Em termos de estudo é uma atividade que tem muito valor para apurar o reflexo auditivo, além de nos preparar para a realidade profissional.
 
4 – Leitura à primeira vista
 
Uma vez por semana escolho uma partitura para treinar a leitura à primeira vista. Geralmente escolho um chôro (Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Waldyr Azevedo, Patápio Silva, Zequinha de Abreu, Dilermando Reis, João Pernambuco). O chôro tem uma “arquitetura” consolidada:
 
-forma A-B-A-C-A
-modulações 
-síncopes
 
Além disso é comum ter semicolcheias que funciona como um estímulo para aprimorar a leitura à primeira vista.
 
5 – Repertório obrigatório 
 
Faz parte do estudo ter embaixo do dedo algumas músicas. Não falo aqui das “músicas de sucesso” do momento, como a bela “Love yourself”, cantada por Justin Bieber. Isso fica resolvido com a prática do item 3 do meu método de estudo. Sobre “repertório obrigatório”, refiro-me às músicas populares do repertório nacional e jazzístico que sobrevivem ao modismo. Por exemplo, é inconcebível um músico profissional não saber tocar o Hino Nacional, Carinhoso, Garota de Ipanema, All the things you are (Hammerstein/Kern), Stella by starlight (Victor Young), A night in Tunisia (Dizzy Gillespie), Spain (Chick Corea), All of me (Jimone/Marks), Cantaloop Island (Herbie Hancock), Satin doll (Duke Ellington), etc. Isto é, aquelas músicas que numa Jam Session todo mundo sabe tocar. O ideal é saber solar a música, além de conhecer a harmonia.
 
6 – Refinamento da técnica
 
Cada instrumento requer dedicação ao estudo e refinamento da técnica. Significa a adoção de livros destinados a exercícios de repetição de escalas, arpejos e composições específicas para a independência das mãos e dos dedos. No meu caso que sou pianista, os exercícios para piano que adotei a partir da orientação do conservatório onde estudei foram os dos seguintes autores: Hanon, Czern, Cramer e Beringer.
 
7 – Modelagens
 
Trata-se do método que desenvolvi para a criação de minhas composições. As composições baseadas em “modelagens” fazem parte de meu próximo álbum chamado “Music and emotion”. Comecei a desenvolver este método de composição por “modelagens” nas horas vagas de estudo. Mais tarde, percebi o valor das modelagens como um tipo de estudo à parte, e testei o método com três alunos tanto para o desenvolvimento de novas harmonias como para o tratamento melódico empregado em novas composições e improvisação.
 
Eu moro em Brasília, e mantenho-me à disposição para trocar ideias sobre como estudar música.
Farlley Derze
info@farlleyderze.com

Consuelo

Consuelo

Meus queridos amigos do sexo masculino, tem coisas na vida que acontecem apenas uma vez. Vocês sabem do que estou falando: o arrependimento!

Óbvio que arrependimentos ocorrem mais de uma vez. Mas tem aquele que volta e meia espeta a memória de modo que faz a gente sentir uma dor daquelas. E hoje recebi uma dose letal.

Foi assim: eu precisei fazer uma limpa no álbum de fotos do meu celular. Sabem como é né, a gente sai clicando, fotografando tudo e um belo dia a memória do telefone explode. Fui selecionando aquele monte de fotos que a gente sabe que já dá pra deletar…fotos de 2016…fotos de 2015 e, de repente, surge uma foto que fiz quando estava morando em Madri. Primeiro olhei a foto com um sorriso de canto de boca, um sorriso silencioso que logo foi seguido pelo nefasto sentimento do qual falei lá em cima: o arrependimento!

Explico-lhes meus nobres amigos.

Foi assim. Era novembro de 2015 em Madri. Ou seja, era outono, uma estação de belíssimas paisagens. Eu pensei comigo mesmo: “poxa, to aqui morando na Europa…e hoje é um bom dia para andar sem rumo pelas ruas, entrar numa cafeteria, sentar no banco de uma praça, admirar a folhagem no chão, levo um livro comigo e só volto ao anoitecer”.

Antes, porém, naquela manhã preparei o café para minha esposa e meus filhos e fiz um banquete que foi muito elogiado por todos. Daí lhes disse: “ah, hoje to super animado, vou andar pelas ruas de Madri, sem destino”. Meus filhos são adolescentes com diagnóstico de dependência em estágio avançado da internet. Minha esposa leva quase uma hora para despertar de verdade, mesmo após o café, de modo que peguei o livro na estante, contei quantos euros eu levaria no bolso, dei um beijo em todo mundo e fui-me.

Eu estava morando há onze meses em Madri e era meu primeiro outono naquela cidade charmosa.

Abri a porta, desci os três andares pela escada pensando “por onde começo?”. Saí do prédio, na Avenida Reina Victoria, olhei para direita, olhei para esquerda e decidi ir pela esquerda, rumo a Cuatro Caminos e de lá rumo à Calle Fuencarral.

Nenhuma pressa!

Eram 8:50 da manhã.

Vou pular os detalhes da caminhada e avançar a narrativa até o banco numa praça da Calle Fuencarral, onde sentei-me para tomar um sorvete de banana caramelada, nozes e amarena.

Apoiei o livro no banco, olhei aquelas três bolas de sorvete, olhei para o céu com vários galhos secos ao redor, fechei os olhos, inspirei o ar daquela manhã e quando abri os olhos para começar a tomar o sorvete, uma moça estava de pé à minha frente e… sorrindo.

Atrás de seu sorriso veio o som de sua voz:

– Buenos días.
– Buenos días, respondi.

E sorrindo me perguntou:
– ¿Usted podría sacarme una fotografía?
– Por supuesto, respondi.

Coloquei o sorvete ao lado do livro, ela me deu o seu celular para fazer a foto. Foi naquele momento que o destino resolveu interferir, de tal modo que hoje estou aqui contando esta história para vocês, meus amigos que certamente guardam na memória alguma lembrança que ao ser acessada vem como uma lâmina para fazer sangrar a dor do arrependimento.

Pois bem, naquele momento o destino fez o seguinte: na hora que ela se posicionou para a foto, eu mirei o celular nela e disse: “Yo le haré dos fotografías, una de su sonrisa y otra más distante con usted en la calle”.

E aí…

É ! O destino entrou em cena. A bateria do celular dela estava tão baixa que se desligou no exato momento que eu fazia o zoom para capturar o sorriso dela. Eu lhe disse: “lo siento pero su teléfono se ha apagado”.

Ela disse sorrindo que se esquecera de carregar durante a noite. E o destino deu sua prova de amizade por mim, pois meu celular estava com 100% de bateria. Eu tinha o outono daquele dia para fotografar, mas a primeira foto do dia foi o sorriso daquela moça.

Antes, porém, vi seus olhos se espantarem de repente ao olhar para o banco onde eu estava sentado e disse “perdóname, tu helado se pone a derretirse”.

Aquelas três bolas de sorvete começavam a formar uma amálgama. Todavia, eu sorri e ela sorriu, e o destino fez-me outro favor. Ela disse que compraria um sorvete para ela e voltaria.

Eu a acompanhei e a fotografei dentro da sorveteria. Ela adorou e me perguntou: ¿”tu podrías enviármela por email”?

Anotei o email dela e saí para esperá-la.

Eu a vi na fila, abri o celular, olhei a foto e pensei “isso não está acontecendo” !!!

Ela voltou com uma bola de “dulce de leche”. Sorridente, estendeu-me a mão dizendo “encantada, me llamo Consuelo”.

Eu disse meu nome e ela certamente percebeu meu sotaque, pois me perguntou se eu era das Ilhas Canárias. Respondi que era brasileiro e ela citou imediatamente Paulo Coelho, Gisele Bündchen, Neymar e Tom Jobim. Ela me contou que era de Málaga e estava passando três dias em Madri, depois iria conhecer El Escorial onde estão os túmulos de todos os reis da Espanha, desde a renascença. Eu disse que já havia visitado o local e achei belíssimo.

Sentamo-nos no banco da praça e depois de algumas colheradas de sorvete, ela percebeu o livro que eu trazia comigo e perguntou que história era. Eu contei que era uma história triste de um casal que vai para a maternidade para ganhar o primeiro filho, e a criança nasceu morta. Ela tirou um bloquinho da bolsa e anotou o nome do livro: “El nadador en el mar secreto (William Kotzwinkle)”.

Agora vem a parte do arrependimento.

Quando o sorvete acabou ela me disse que iria para El Escorial no dia seguinte e perguntou-me se eu gostaria de acompanhá-la numa viagem de trem. Eu olhei sutilmente de canto de olho pra aliança em meu dedo, pensei imediatamente na dificuldade de dizer à minha esposa que passaria o dia seguinte fora novamente, coisa que ela estranharia porque não é do meu feitio, daí cogitei contar-lhe tudo isso que estou contando pra vocês meus amigos, e óbvio que a resposta dela seria um sonoro NÃO, e a moça perguntou “¿tú vienes mañana conmigo?”… respondi sem querer de supetão: NÃO. Bem-dizer ouvindo a voz da minha esposa. E amenizei a resposta dizendo que tinha uma reunião na universidade e blá blá blá, sabe quando você diz coisas sem vontade dizer…hein meus amigos?!!

To quase acabando a história.

Aí ela diz “qué lástima, pues tú podrías ayudarme a sacar muchas fotos”.

Ela se levantou e disse que aguardaria o email com a foto que fiz dela. Eu a vi cruzar a rua com uma mão apoiada sobre o chapéu em sua cabeça, as folhas do outono caindo sobre ela e se foi…perdi de vista. Olhei pra minha aliança, olhei pro copo vazio do sorvete, olhei de novo pro outro lado da rua…mas ela já havia se misturado aos demais pedestres. Amassei sem perceber o copo de papelão e falei em voz alta “calma, levanta, bota esse copo na lixeira bem ali e vai atrás dela”.

E fui!

Ao chegar à primeira esquina veio aquele golpe fatal do destino quando não perdoa uma resposta negativa para algo bom. Na esquina me deparei com o metrô da estação Quevedo, gente subindo as escadas, gente descendo, gente que estava andando na calçada…eu pensei “e agora…ou ela desceu para pegar o metrô, ou seguiu pela rua”.

Fiquei ali paralisado como se o destino me dissesse “eu fiz a minha parte e você não fez a sua”.

Cheguei em casa de noitinha, tendo passado o resto do dia sentado no mesmo banco onde aquela moça surgiu parada à minha frente. Fiquei ali com aquela esperança tola dos homens de que ela pudesse passar de novo, e minha resposta seria “sim, Consuelo, posso acompanhar-lhe até El Escorial”.

Eu já tinha a desculpa per-fei-ta para passar o dia fora.

Enfim, meus amigos. Nada feito!

Daí, enviei o email pra ela, anexei a foto com o seguinte texto:

– Hola, Consuelo. Muy encantado conocerte y cuando vuelvas de El Escorial, llámame y tomamos otro helado juntos”.

Recebi sua resposta duas semanas depois, dizendo que estava em Granada, gostou muito da fotografia e me agradeceu mas não disse “hasta la vista” e terminou simplesmente com “muchas gracias” e ponto final.

Hoje, aqui na Flórida onde estou passando uma temporada e, como disse no início da história, eu estava fazendo uma limpa nas fotos para aliviar a memória cheia de meu celular, eu me deparei com a foto dela. Eu fiquei olhando um bocado, titubeante nos pensamentos que sobrevoavam avulsos como pássaros que disputam um lugar no ninho da memória de algo que podia ter acontecido no vagão de um trem, um vinho sobre a mesa, a paisagem do outono lá fora, o sorriso dela lá dentro e eu reluzente com aquele presente do destino.

Salvei a foto dela no meu computador, numa subpasta de outra pasta onde salvo minhas partituras.

Óbvio que já enviei outros emails pra ela e mais óbvio ainda que jamais me respondeu.

Meus amigos, se algum dia um de vocês for passear na Espanha, for conhecer Málaga e encontrar a Consuelo por acaso, diga a ela que seu amigo aqui se arrependeu. E diga que guardo a foto dela junto com minhas partituras. Diga que o sorriso dela é a música que jamais esqueci.

Dominique

Dominique

Meus amigos, alguém me ajude.

Aliás, antes de mais nada, estou me dirigindo aos amigos homens, então…as mulheres nem precisam ler o que vou relatar aqui.

Amigos homens, help !

Na manhã de hoje eu estava numa boa, plena terça-feira, onze da manhã, dirigindo e cantando uma super música que tocava no rádio do carro. O sinal fechou e meus amigos, era preferível que fechasse depois de eu passar. Ou não.

Meus amigos, eu parei certinho antes da faixa de pedestres e estava cantando o refrão da música “killing me softly” e PÔW !!!!

Calma. Não foi nenhum caminhão me alborroando pela traseira, mas uma mulher que cruzava a faixa de pedestres. Adeus refrão da música. Meu carro – PÔW – virou uma bolha de silêncio. Meus olhos…ah….meus olhos, há quanto tempo não via nada igual. Era uma mulher andando e digitando no celular sem nenhuma pressa, vinha lá do outro lado da rua e passaria bem ali, defronte meus olhos, raspando no capô do carro e assim foi, chegou, passou e até fez uma pausa antes de subir na calçada, para não tropeçar no meio-fio. E ao subir a calçada ficou ali, digitando, eu olhei o semáforo com as mãozinhas postas dizendo com a boca fechada “não abre agora, não abre agora”, mas puta que pariu de sinal, abriu e ela ali digitando no celular, e eu com a marcha preguiçosa saindo sem vontade de sair, mas tive que sair e vi pela janela do carona a moça, depois conferi pelo retrovisor e ela ali no mesmo lugar e pronto: fui forçado (amigos: juro, vocês hão de entender, fui compelido entendem?) a dobrar a primeira rua à direita e me deparei com a sorte de uma em um milhão de chances, a de um carro saindo de uma vaga ao longo do meio-fio, liguei a seta como quem tem o direito urgente de parar ali e oba: estacionei. Ela tinha que estar ainda naquela calçada defronte ao semáforo! Tinha que estar!!! Daí, claro né, ninguém pensa que numa metrópole é só chegar, estacionar na rua e tudo bem. Não mesmo. Tem que pagar, tem que comprar o ticket para não dar moleza pro reboque ou aquelas multas pesadas.

Adivinhem!!!

Isso mesmo meus amigos. Corri até a esquina e conferi: ela estava ali, de pé, digitando. Então, corri de volta em direção ao meu carro igual barata tonta, olhei ao redor e não via onde comprar o ticket, entrei numa cafeteria e pedi essa informação e obviamente eu estava cego. A cinco metros estava o aparato pra comprar o ticket e deixá-lo exposto, no interior do veículo, acima do painel. Pensem comigo, meus amigos homens da gloriosa mentalidade masculina: vocês comprariam um ticket de quinze minutos ou sessenta minutos?

Abri o carro, deixei lá o papelzinho e corri em direção à moça…à mulher…à deusa que só aparece de mil em mil anos. Foi só eu dobrar a esquina e a vi, finalmente, tirando os olhos do celular e caminhando em direção ao fundo da avenida. Fui atrás, puxei meu iphone do bolso, acionei o timer e marquei lá cinquenta minutos, afinal em dez minutos (de onde quer que eu estivesse) eu poderia estar de volta ao meu carro.

Agora vamos lá: quem de vocês meus amigos (e sinceros amigos) nunca na vida, na adolescência, na idade adulta, no shopping, no coração, na agonia, nunca seguiu uma mulher sem ela saber? Vocês sabem do que estou falando né?! Muito bem, agora vamos às perguntas de vocês:

– “era loira”?
– sim, meu amigo!
– “vestido curto ou calça comprida”?
– um shortinho jeans com aqueles fiapos soltinhos.
– “qual era o tamanho do short”?
– eu disse shortinho! …inho, inho, inho.
– “camiseta branca, aposto”!!!
– na mosca.
– “camiseta sem manga e frouxa”!
– acertou.
– “camiseta recortada mostrando a barriguinhha”.
– e que barriga, que umbigo lindo meus amigos.
– “mas…tava cortada até que altura essa camiseta”?
– logo abaixo dos seios.
– “com ou sem sutiã”?
– imagine e vai acertar !!!
– “óculos escuros, aposto”!
– com certeza, meu amigo.

Então meus nobres, sabe aquela mulher deliciosamente solta, deliciosamente liberta? Pois é!

Deixa eu contar !!! Olha só…eu estava numa boa, cantando dentro do carro e me deparo com aquela coisa que parecia que tinha levantado da cama às dez da matina, sem compromisso e só ajeitou os cabelos com os dedos avulsos, deixou a camisola largada na cama, lavou o rosto com água fria, escovou os dentes e saiu do banheiro sem se olhar no espelho (mas benza-deus, nem precisa se olhar no espelho viu), deve ter aberto o guarda-roupa e tirou de lá o que estava mais perto, shortinho, camiseta e uma sandália que deve acompanhar seus passos desde a adolescência e saiu assim, bagunçadinha com o celular na mão, e agora eu estava ali calculando os metros atrás dela. De repente ela parou, olhou ao redor e entrou numa lanchonete. Tá, vou dizer o nome: era um McDonalds. Que maravilha, pensei. Posso entrar sem levantar suspeitas.

Caramba: eu ali na fila, atrás dela. Aaah, meus amigos, ela fez um gesto de jogar os cabelos com uma das mãos que fez evaporar um aroma guardado atrás do pescoço, aquele cheiro gos-to-so de hidratante que espetou meu peito e fez minha taquicardia subir mais dez pontos. Senti a pressão na jugular. Chegou a vez dela fazer o pedido e sorte de vocês que não estavam lá, porque vou levar o som daquela voz para o meu túmulo. Honestamente, é impossível descrever a música daquela voz.

Na minha vez pedi o mesmo: McFish e suco de laranja. Só ali pensei na idade dela.

Óbvio. Lógico. Claro que me sentei bem pertinho numa mesa vizinha, e naquele momento cheguei a cogitar que ela sabia. Ela devia ter certeza que eu a seguira. Mas em nenhum momento me olhou, como desde o semáforo não olhou pra ninguém.

Eu acho que ela acordou tarde e agora estava ali tomando seu café da manhã.

Dei uma olhada geral e claro, né: vários homens olhando pra ela disfarçadamente com olhos de crocodilo e o canudo na boca. Eu era o mais próximo daquele aroma pecaminoso, daquela penugem que recobria o par de coxas mais escandalosamente lindo que um homem deseja ver na face da terra, aqueles cabelos que foram penteados com os dedos, aquela camiseta sem manga e vejam meus amigos o tamanho de minha sorte: ela estava sentada de perfil, a uma distância que dava para ouvir a mordida dela no pão macio, e nenhum de vocês me perguntou mas digo agora: numa das mordidas a camiseta frouxa se desgrudou e pude ver que era rosinha e meu ângulo privilegiado deixou ver a tatuagem de uma borboleta voando na direção do néctar.

Meus amigos: estou de peito aberto relatando o que me ocorreu nesta manhã de 1° de março de 2016, e retirem já qualquer interpretação pornográfica. Calma lá! Vejam a coisa toda do jeito que merece ser vista: poeticamente, please!

Daí, meus amigos, a bateria do celular dela acabou porque ela estava digitando e de repente reagiu como qualquer um de nós quando isso acontece. Um olhar de frustração. Só que…ela olhou ao redor e viu numa mesa lá do canto um magrelo barbudo com o celular sobre a mesa e o carregador na tomada. Adivinhem!!!!

Pois é. Ela se levantou e foi até o sujeito e “nossa senhora”, “benza-deus”, “putaquilpariu”, que visual!!!

Óbvio que o cara emprestou o carregador. Ela plugou o celular dela e deixou ali mesmo na mesa do sujeito e voltou à mesa dela. Todos os homens pareciam estátuas naquele momento.

Eu prometo a partir de hoje andar com meu carregador do iphone no bolso.

Ela terminou o lanche e eu sequer tinha mordido meu sanduíche e o canudo do suco ainda lacrado sobre a mesa. Daí ela se levantou e foi pra fila outra vez. Todos sem exceção, inclusive as mulheres, olharam pra ela e o silêncio de cada um valia mais que mil elogios.

Ela voltou com um sundae de morango. Nunca vi um sundae tão caprichado. Mas desta vez ela foi se sentar na mesa perto do celular e claro que veio aquela angústia (que todos vocês caros amigos sabem qual é) de o sujeito puxar assunto, e tal… e se ela corresponder e se no meio do papo soltar aquela gargalhada bacana, já viu né: c’est fini !!!!

Vocês estão calculando o tempo? Pois é! O timer do meu celular tocou e agora eu tinha dez minutos para abandonar um lanche intacto e voltar para o estacionamento.

O que vocês fariam, meus amigos?

Lembrem-se…o aroma que o pescoço dela exalava, a camiseta frouxa, a tatuagem bem ali, a penugem naquela pele de pêssego e ok, hora do xeque-mate: ela tirou os óculos escuros para comer o sundae e os pousou sobre a mesa em qualquer posição, deu uma olhada lá pra fora, a luz do dia enchia o salão e quando ela virou o pescoço eu naufraguei naqueles olhos azuis, de modo que…meus amigos, honestamente, eu senti pena de mim. Vocês sabem do que estou falando. A gente cresce ao longo da adolescência e adentra na fase adulta fazendo centenas de combinações para idealizar a mulher com a qual sonhamos nos casar. A gente mede tudo, o tamanho disso, o tamanho daquilo, o formato da boca, a cor dos olhos e dormimos muitas noites fazendo ajustes, porque ora a gente quer se casar com uma ruiva ora com uma morena, ora com uma de cabelo curto ora com outra do cabelão, enfim vocês sabem do que estou falando…nossa mais antiga penitência: sonhar com a mulher ideal.

Daí eu fiz o timer do celular se calar antes de disparar o alarme e pensei: “e se eu deixar vencer o ticket do estacionamento”?

Meus amigos, será que logo naquele dia eu seria injustiçado com uma multa grudada no meu pára-brisas? O que você faria, hein?

Pois é, foi o que eu fiz.

Outra coisa: tirei a aliança do dedo.

Daí ela terminou o sundae dela e apesar de meia-dúzia de palavras trocadas com o sujeito que lhe emprestou o carregador, nenhum sorriso foi trocado, ok, ufa, graças a Deus. Ela se levantou, pegou o celular e quando disse “muito obrigada” indo em direção à saída, o sujeito virou discretamente o pescoço e só ali deu pra ver que era um japonês, ou seja, que sorte hein. Se fosse um carioca, um baiano, um espanhol, um libanês…já sabe né…

Ela saiu.

Fui atrás e ela digitava…parou para cruzar a rua transversal, fui atrás…e ela entrou numa loja dessas que vende brincos, pulseiras…daí complicou né. O que um cara como eu ía fazer lá dentro? Se você entra sozinho numa loja dessas vai sempre parecer um cara comprometido em busca de um presente para a esposa, a namorada. Olha, eu até entraria (puta merda, eu sei que vocês me entendem) porque sou casado e compraria com todo meu amor (isso vocês entendem também) um brinco para minha esposa, ou um colar. Mas a prudência me exigiu que eu ficasse do lado de fora.

Então, fingi que estava digitando no meu celular de costas para a loja. Acionei a câmera e coloquei no modo self, e assim podia ver como no retrovisor o momento que ela se preparasse para sair da loja. Fiquei ali com um olho no padre e outro na missa. E aí aconteceu um milagre. Uma voz atrás de mim: – oi, minha bateria acabou, você deixa eu dar um telefonema?

Quando me virei: BUM !!! Aqueles olhos azuis reluzentes, aquela boca rosada, e meus olhos escorregaram pela camiseta dela e duas setas pontiagudas apontavam pra mim e aquela voz complementa seu pedido, sua ordem, sua lei gravitacional: – é uma ligação rápida, deixa?

Eu entreguei o celular e descobri que hipnose existe !!!

Aí ela falou: – tá bloqueado!

Eu entendi outra coisa e fechando a boca, estalei os olhos e disse: “ãnhnn”?
– tá bloqueado, tá pedindo a senha.

E eu disse: 1963.

Ela digitou a senha e abriu um sorriso tão angelical, tão iluminado…e sorrindo me disse “você me deu sua senha”!

E enquanto teclava um número de telefone eu pensava que além da senha eu lhe daria meu abraço, meu beijo, minhas promessas, outro abraço, outro beijo agora malvado, meu corpo, minhas armas, minha vida de novo…

Ela tirou o cabelo pro lado e colocou no ouvido o celular (o meu celular)…viva a Apple, viva a conexão 4G, viva o semáforo vermelho!!

– Oi, sou eu. Você pode me levar no clube de xadrez hoje à tarde e na loja de pianos amanhã de manhã?

Meus amigos, HELP!

Não sei vocês, mas eu jogo xadrez, eu toco piano e…ok, sou casado. Mas, sabemos o que está acontecendo certo? Todos unidos, ok…vamos ouvir o resto da conversa.

– Sério? Você volta quando?

Ôpa, ôpa, meus amigos!

– Então aproveita bem a viagem, eu vou de ônibus mesmo e vai lá em casa quando voltar, beijo Kakáu.

E me devolveu o celular ao mesmo tempo que recolocava os óculos escuros, dizendo “muito, muito obrigada”.

Eu nem estendi a mão para pegar o celular. E fiz o que o destino implorou para eu fazer. Eu disse com a calma dos monges tibetanos:

– Você joga xadrez e precisa de carona? Seu namorado (pô meus amigos Kakáu podia ser Carla ou Carlos, eu tinha que tirar essa dúvida) não pode lhe levar? Eu amo jogar xadrez. Será um prazer lhe levar.

Então né!!!! Quantas vezes uma situação dessas exige a nossa mais fingida calma? Pois eu fui. A gente carrega nossas granadas, nossa mira telescópica, nossa bússola e agora eu tava do outro lado do arame farpado.

– Não…eu não tenho namorado. Kakáu é minha irmã.

Eu emendei dizendo que o sol estava quente, e a gente em pé ali na rua…perguntei onde ela morava, ela apontou com o dedo para um prédio todo branco, na direção da bendita faixa de pedestres.

– Mas a gente nem se conhece e você me oferece carona até o clube de xadrez?

E respondi pausadamente:

– E uma carona amanhã para a loja de piano.

Meus amigos, eu juro…juro de pés juntinhos…ela soltou uma gargalhada tão gostosa, daquelas que a gente espera anos pra ouvir e obviamente eu correspondi. Eu já tinha saído do piloto automático e estava no câmbio manual. Cada reação tinha uma medida arquitetônica, milimétrica, exata. O alvo caminhou em direção à flecha!

Enquanto caminhávamos de volta em direção à casa dela, contou-me que se formou em piano, tem doutorado em astronomia, é campeã internacional de xadrez com um rating de 2300, mora em Quebec, no Canadá e tirou uma licença da universidade onde leciona a física da trajetória dos asteróides, para participar de um torneio de xadrez aqui na Flórida, onde estou passando uma temporada. Perguntei sobre o motivo de ir a uma loja de pianos e me disse que comprou pela internet um modelo de piano de meia-cauda e precisava acertar os detalhes do pagamento do transporte até o Canadá.

Chegamos à faixa de pedestres onde tudo começou, ela apontou pro outro lado da rua e disse: – eu moro ali, terceiro andar, apartamento 35…é do meu pai…ele deixa a chave comigo desde que foi morar em Paris. Você jura que pode vir me buscar mais tarde? Às cinco?

Eu dei aquela olhada pra ela com os olhos por baixo das sobrancelhas, ali com o som dos automóveis ao redor, como se ela não soubesse como funciona um homem determinado.

Abri a boca e com uma voz falsamente calma disse sim, o semáforo ficou verde para os pedestres, ela se foi e eu devo ter ficado ali mais uns vinte minutos depois dela entrar no prédio. Eu sei, meus amigos, vocês também ficariam.

Dobrei a esquina e antes de entrar no carro estava ali, grudada no meu pára-brisas uma linda multa de U$485 dólares por manter o carro ocupando vaga de estacionamento com o ticket vencido.

Meus amigos, HELP!

Minha conta bancária é conjunta com minha esposa. Não tem mágica. Vão sumir U$485 dólares da conta e, vocês sabem: ela vai perguntar como um cara como eu que usa o timer até pra cozinhar ovos, timer pra ser avisado do início do UFC aos sábados, sempre sempre sempre uso o timer quando estaciono e nunca deixo vencer o horário, e dessa vez o horário venceu ! Já estão imaginando a sequência de perguntas né, e os intermináveis contra-argumentos né…

Amigos, vocês fariam uma vaquinha de U$485 dólares? To colocando esse assunto aqui no grupo do WhatsApp e quem se dispuser a me tirar dessa enrascada, eu envio meus dados bancários pelo inbox.

Eu já escondi a multa, já levei a Dominique ao clube de xadrez, trouxe-a de volta ao apartamento dela e estamos aqui ouvindo “killing me softly” no YouTube.

Prometo contar o resto da história no inbox de cada um que me ajudar.

Meus amigos, HELP !

Malos vecinos

Malos vecinos

Alguien que vive dentro de mí preguntame si yo cerré la puerta. “No me molestes”, le contesté y añadí “recuerdate que tras nuestra última charla dije que la dejaría abierta”.

Lo que pasa es de haber mucha gente que ha logrado tener un sitio en mi cabeza.

Según mis teorías hechas mientras tomo mis desayunos, no tenemos capacidad de soportar la soledad.

Otro día, en un miércoles (qué coño, ni siquiera era un lunes) uno se acercó de la zona de mis mejores recuerdos y empezó a me decir tonterías de las que yo no podría decir aqui. “¡Basta! ¡cállate!”, yo grité. Y hablaba docenas de palabras tras palabras como una pistola automática. “¡Qué puta madre!”, pensé y me puse a balbuciar sonidos para suprimirle la voz, pero no, nada y nada, y peor, mucho peor, se puso a decir que mis historias, mis hechos, incluso mis sonrisas de antaño eran disfraces de una vida vacía. “¿Y qué?”, grité con la taza caliente de café que eché de golpe en la mesa. Y salí a las calles, y muy inteligentemente descendí las escaleras hacia al fondo de la línea 6 del metro, y me lancé al centro de la turba que, desde el andén hasta al coche, todo y todos se convirtieron en una masa disforme de sonidos de personas hablantes en sus móviles que pisoteaban en sus propias sombras y sí, por supuesto, la voz insoportable desapareció tal cual el tren que se sumergió en el destino penumbroso del mundo subterráneo.

A unos la ideia de disfrutarse de la soledad es una ambición muy utópica. La realidad (muy cruda y dolorosa) es que en la cabeza viven muchos vecinos indeseables, unos con sus derrotas otros con sus vicios de victoria sobre nuestra paz.

Ayer por la noche una voz me despertó con gritos de un ahogado, una voz que reside hace tiempo en un rincón donde me guardo la historia de un amor fracasado, cuando tenía yo mis veinte y tantos años. “¡Qué mierda lo de no tener mi privacidad para dormir!”, pensé mientras me levantaba. Me fui hasta la cocina y cogí de la nevera una botella de cerveza. Así que, tras cuatro botellas logré dominar la voz que repetía sin parar “lo de amor no existe porque no lo sabe, y no lo sabe porque no lo intentaste, y no lo intentaste porque eres un cobarde…”, y esas palabras infames se las repetían en mi cabeza por tal vecino invisible, es decir, “cobarde eres tú, hijo de puta”, le dije yo con mi cerveza apuntada al techo. Sí, por supuesto, se calló.

Al amanecer me desperté con los rayos de sol en la ventana de la cocina como pinchos abriendo agujeros en mis párpados.

Cuatro botellas en la mesa y tres en el suelo. Quizá hasta la noche me quedaré sólo en mi cabeza, este territorio que día tras día es invadida por malos vecinos.


Maus vizinhos

Alguém que vive dentro de mim pergunta-me se fechei a porta. “Não me incomode”, respondi e acrescentei “lembre-se que depois da nossa última conversa eu disse que a deixaria aberta”.

O que acontece é que há muitas pessoas que conseguiram ter um lugar na minha cabeça.

De acordo com minhas teorias pensadas enquanto tomo meu café da manhã, nós não temos a capacidade de suportar a solidão.

Outro dia, numa quarta-feira (que porra, não era nem uma segunda-feira) alguém se aproximou da área de minhas melhores lembranças e começou a me dizer bobagens que eu não poderia dizer aqui. “Pare! Cale a boca”! E falava dúzias de palavras atrás de palavras como uma pistola automática, “que filho da puta”!, e pior, muito pior, ele começou a dizer que minhas histórias, meus feitos, inclusive meus sorrisos do passado eram disfarces de uma vida vazia, “e daí?”, gritei com a xícara de café quente que bati na mesa. E saí para as ruas, e muito inteligentemente desci as escadas até o final da linha 6 do metrô, e me joguei no centro da multidão que da plataforma até o trem tudo se tornou uma massa de sons distorcidos de pessoas em seus telefones celulares falando e pisando em suas próprias sombras e sim, claro, a voz insuportável desapareceu como o trem que submergiu no sombrio destino do mundo subterrâneo.

Para alguns, a ideia de desfrutar da solidão é uma ambição muito utópica. A realidade (muito crua e dolorosa) é que muitos vizinhos indesejáveis vivem na cabeça, uns com suas derrotas outros com seus vícios de vitória sobre nossa paz.

Ontem à noite uma voz me acordou com gritos de um afogado, uma voz que tem residido por algum tempo num canto onde guardo a história de um amor sem sucesso, quando eu tinha vinte e poucos anos. “Que porra não ter minha privacidade para dormir”!, pensei enquanto me levantava. Fui até a cozinha e peguei uma garrafa de cerveja na geladeira. Então, depois de quatro garrafas eu consegui dominar a voz que repetia sem parar “o amor não existe porque você não o conhece, e você não o conhece porque nunca tentou, e não tentou porque é um covarde…” e essas palavras infames foram repetidas na minha cabeça por um vizinho invisível, isto é, “covarde é você, filho da puta”, eu disse com a minha cerveja apontada pro teto. Sim, claro, se calou.

Ao amanhecer eu acordei com os raios de sol na janela da cozinha como espinhos abrindo buracos em minhas pálpebras.

Quatro garrafas na mesa e três no chão. Talvez até a noite eu fique só na minha cabeça, esse território que dia após dia é invadido por maus vizinhos.

A imperatriz

 

Farlley Derze,  2005


Hoje acordei de várias maneiras.

Na primeira vez ainda não havia luz lá fora. Só o silêncio e alguma incerteza.

Na segunda vez foi o som da chuva e os rascunhos de luz vazando pela cortina.

Na última vez o som da chuva era ainda mais forte. Fechei os olhos que olhavam para o teto e correntezas de lembranças começaram a me levar.

Passadas em alta velocidade, sob minhas retinas, tantas variedades de imagens, cores e sensações, indo e vindo na velocidade da chuva, de repente, tudo some exceto uma imagem. Puxo o lençol um pouquinho para me recobrir, e fico inerte entre as paredes e os sons das águas, quieto como o mármore, para resguardar aquela imagem que se fixou, vinda do fundo das outras.

Abaixo de minhas pálpebras, presa em minha respiração morna e lenta, eis o rosto dela.

Silêncio.

Uma imperatriz.

Gotejam os pingos em minha janela, ouço os sons e uma sinfonia inicia o seu tráfego, os seus     acordes, notas transcrevendo um mapa de mistérios.

O rosto dela permanece, preenchendo toda a tela de minha visão.

Minhas pálpebras resguardam a bela imagem, como uma porcelana.

Rosto de pele branca, suavidade encoberta como um pêssego.

Sob os olhos emergem um promontório de sinais discretos que recobrem e transpassam o nariz, de     um    lado a outro, como uma discreta ferrugem.

Atrás de seu olhar repousam cabelos… tantos… quietos.

Composição feita de cor, sinais e olhar, suavidade e mistério.

Antes fosse apenas beleza com a qual se afeiçoam os homens.

Antes fosse apenas vontade de dizer e ouvir.

Antes fosse um truque com palavras e gestos.

Antes fosse uma sinfonia que começa e acaba, uma chuva que nos acorda e depois seca, uma luz que escapa, um dia que torna um homem feliz.

Antes fosse, tantas coisas possíveis.

Mas a poesia prefere o impossível, a prece, o intocável, o vivo.

Ontem ouvi a voz desta imperatriz.

Não lembro bem suas palavras, porque me dizia mais o próprio som.

Debaixo dos lençóis e das pálpebras, seu rosto e sua voz. Lá no fundo, a minha sinfonia predileta, minha          respiração esquenta, acelera, o peito sobe e desce, minha pele se fragiliza como o tecido de uma bandeira presa ao vento.

Meu ritmo sai do compasso da música.

O rosto dela cresce em minhas retinas, cresce e se agiganta.

Aperto os lençóis, mordo os lábios, escuto o som da voz, meu coração interfere com seu ruído veloz, o ar desorganiza-se em minhas narinas, a bandeira e a ventania, seus olhos estão mais perto dos meus,

a fina ferrugem, o hálito juvenil, sou tragado e águas lá fora carregam folhas e outras incertezas.

Abro os olhos e … Silêncio entre mim e o teto, entre o quarto e a chuva que se foi há tempo.

Lá fora as folhas rolam entre o seco e o molhado.

Dentro de mim novas incertezas, e uma voz morna e escondida.

A semente

Farlley Derze, 2001.


Você é convidado a entrar num palácio. Grande, suntuoso. Você entra e seus olhos mal podem se fixar tamanha a variedade de objetos raros, obras de arte, tapetes, lustres, uma música que vem de algum lugar…, tudo limpo e calmo. Sobe a escadaria, a música se torna mais presente, uma brisa passou de repente, e no andar de cima dois corredores, um de paredes e outro, com portas. O corredor das paredes intriga por não conter nada além das paredes cuidadosamente pintadas. Mas o corredor das portas…

Ao abrir a primeira porta, entra e depara-se com uma sala cujo chão, teto e paredes, tudo é espelho, nenhum móvel no ambiente completamente espelhado. Você entra e se percebe no centro do infinito. Uma certa sensação de desequilíbrio, nada em volta onde se segurar, nenhum objeto. Você se recompõe diante de sua imagem pluralizada, multiplicada, um monte de “eus”. Você faz gestos, começa a brincar e vê que todos eles lhe imitam com exata perfeição. Você sorri, brinca mais, inventa gestos e mais gestos, e se enxerga rodeado da mesma figura ali se divertindo aos montes. Sai da sala, expira o ar que se acumulou com a experiência e gira a maçaneta da porta à frente. Um vendaval lhe descabela completamente e você rapidamente fecha a porta, e só pôde ver as cortinas esvoaçantes, enquanto realinha os cabelos. Encosta o ouvido na porta e ouve aquela música que tocava enquanto subia as escadas. Que estranho! Olha para o fundo do corredor e segue em direção à outra porta, contígua à sala do vendaval. Abre-a com extrema suavidade, curvando-se remediadamente para trás. Nada. Abriu-a então e era um aposento muito bem arrumado, roupa esticada na cama, fotos sobre um armário, o tic-tac de um relógio de parede com pêndulo e ponteiros reluzentes. Permaneceu ali ao som das horas até perceber que os ponteiros não se moviam, embora ouvisse o tic-tac. Sentindo-se um invasor, retira-se e fecha a porta cautelosamente. Olha a porta da sala dos espelhos, a porta do vendaval e aquela que acabara de sair. De repente uma porta ao fundo se abre e saíram de lá dois homens abraçados, bateram a porta dando gargalhadas e dirigiram-se às escadas. Você foi até aquela porta e percebeu que lá dentro muitas outras vozes gargalhavam. Você girou a maçaneta duas vezes e nada. Desiste e caminha em direção à última porta que faltava abrir naquele corredor. Antes de abri-la encosta o ouvido e nota um profundo silêncio. Abre-a! É uma sala de aparência doméstica com várias bacias pequenas distribuídas pelo chão. Você as conta: são trinta e duas bacias. Aproxima-se pé ante pé por entre as bacias, olhando uma a uma, e nota que há terra seca em cada uma, exceto numa que estava úmida onde havia uma semente pousada no centro. Sem saber o que pensar, seu instinto faz com que pegue a semente da bacia. Abaixa-se e a toma nas mãos e a observa ali, naquela posição de cócoras. Olhou ao redor e só o silêncio lhe fazia companhia. Deu-se conta de que deixar a porta aberta. Caminhou até ela com a semente na mão. Todavia, algo inesperado aconteceu. Você não conseguia atingir a porta. À medida que caminhava em direção à mesma, ela se movia de modo a se afastar de você. Depois de cruzar pelo local onde estava a porta, você pára e nota que a porta também pára. Você olha para trás e conclui que apenas o trecho por onde você caminhou foi alterado, como se fosse um espaço elástico. Você olha outra vez a porta e dá mais dois passos em sua direção, todavia ela também se afasta. Você resolve correr e porta parece flutuar sobre o solo e permanece à distância ao deslocar-se com a mesma velocidade que a sua. Você pára outra vez e se pergunta onde estão as outras portas. Ah, sim, estão todas no mesmo lugar. Você as vê embaçadas pelo espaço distorcido. Decide voltar à sala das bacias. À medida que caminha dá uma olhadela para trás e vê que porta também regressa, em velocidade amena como a sua. De propósito você pára. Ela também. Você caminha, ela vem. Finalmente, ao chegar à sala, dirige-se à bacia de onde retirou a semente. Abaixa-se e a recoloca no mesmo lugar. Ao levantar-se, a porta está no devido lugar. Você se levanta, vai em direção à saída com os olhos fixos na porta e a cruza se nenhum problema. Uma brisa fecha a porta delicadamente e você está outra vez naquele corredor. Você decide ir embora e segue em direção à saída, em direção ao portão por onde chegou. O corredor é longo e você avista a luz do dia lá no fundo, distante. Quando chegara ali, não percebera a distância entre o portão e a porta dos fundos onde estão as bacias. Você passa pela porta das gargalhadas, depois a dos espelhos, depois a porta do vendaval e só lhe resta o corredor bem pintado e sem portas à frente, mas percebe que nunca atinge o portão. O corredor parece longo. Você caminha, você aperta o passo e nota que nada se altera. Olha para trás e está tão distante que não consegue mais ver aquelas portas. Aperta ainda mais a passada em direção à saída, mas a luz que vem de lá parece tão longe. Você não ouve nada ao redor, nada se altera. Você decide caminhar sem pressa e nunca saberá que o corredor é infinito.

A sala do vendaval tinha uma janela !

PRÁTICA ARTÍSTICA

Farlley Derze, Thiais, France, 2012.

Farlley Derze, Thiais, France, 2012.

1985    Foi Diretor Cultural da Sociedade de Alunos da Escola de Especialistas de Aeronáutica (Guaratinguetá, SP).

1986    Pianista da Academia de Ballet Valéria Moreira, no Centro de Dança (Rio de Janeiro).

1986    Tecladista da banda de baile OS DELTAS.

1986    Gravou uma faixa no disco “Tributo a Ary Barroso”, a convite da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro).

1987    Tocou na solenidade de inauguração do Espaço Cultural Sérgio Porto – RJ, presidida por Darcy Ribeiro.

1987    Tecladista da banda de baile PIQUE TOTAL.

1988    Tecladista da banda TURBA MULTA, de música instrumental autoral, com Samuel Lima (sax), Juninho (Bateria), Ramatis Moraes (Baixo).

1988    Tecladista da banda da cantora Claudinha Telles.

1988    Montou com o ator Guilherme Bozzeti o musical “DOIDO PELO PIANO”, viajando pelo Brasil durante quatro anos.

1989    Tecladista, arranjador e diretor musical do cantor Elymar Santos, até 1995.

1991    Compôs a trilha de abertura do Show ÓPERA ROCK, no CANECÃO, do guitarrista Robertinho de Recife.

1992    Esteve no JÔ SOARES ONZE E MEIA, com o grupo METABOLAR, do qual era integrante juntamente com Luiz Alberto de Filippo e Dom Fla, em entrevista que culminou com apresentação da música CAÇADA de sua autoria.

1995    Tecladista do grupo de samba RAZÃO BRASILEIRA, até 1997.

1998    Integrou, como pianista, o elenco do Musical DESGRAÇAS DE UMA CRIANÇA, de Martins Pena, dirigida por Wolf Maia e encenada por Cláudia Ohana, Eduardo Dusek, Hélio Ary, Marcelo Antony e Malú Vale.

1998    Pianista da Rio Jazz Orchestra, até 1999 (Rio de Janeiro).

1999    Tecladista da banda de Cláudio Lins, e Orquestra ARTFOLIA (Rio de Janeiro).

2000    Diretor musical e compositor da trilha do espetáculo O MUNDO NOVO DO TOPETÃO, produzido por Xuxa Meneguel, com direção geral de Eduardo Martini.

2000    Foi pianista suplente do musical DOLORES, a história de Dolores Duran, com direção musical de Tim Rescala.

2000-2002       Gravou três CDs: “Gênese” (2000), “Naquelas Noites de Natal” (2001) e “Acalanto” (2002).

2001-2002       Pianista da Brasília Popular Orquestra (Brasília).

2002    Ganhou o 1º lugar no Festival de Música do Gama, com sua música MEMÓRIAS, tocada ao piano com letra de José Roberto Gabriel e interpretação vocal de Janette Dornellas.

2002    Tecladista da Toccata Produções Artísticas, até 2014 (Brasília).

2004    Pianista brasileiro no 1o Festival Internacional de Jazz de Cabo Verde (África).

2004    Participou do lançamento em Cannes, Paris e Marselha, do livro “MÚSICA POPULAR BRASILEIRA”, editado pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil, acompanhando nos eventos a cantora Simone Guimarães.

2004    Participou do Festival de Jazz à Vienne, França. Turnê em Marselha e Paris.

2005    Pianista, representante brasileiro no Ano do Brasil na França (Paris).

2005    Compôs a Trilha Sonora para os documentários sobre o Timor Leste (de Ivan Canabrava) e a vida de Santos Dumont (de Pedro Jorge), e dos filmes “Jorge Buche” (de Cristiano Vieira) e “A Vingança da Bibliotecária”, (de Santiago Delape), este último, um curta concorrente no Festival de Cinema de Brasília que ocorreu entre 22 e 25 de novembro de 2005.

2006-2012       Pianista do Programa de Radio “Um piano ao cair da tarde”,FM 89,9 Mz (Brasília).

2010    Organizador de uma banda com músicos do Uruguai, México, Cuba e Grécia para levar a música brasileira à Ilha de Creta (Grécia).

2012    Participação como pianista no 4º Festival de Bossa-Nova, em Orly, (França).

2015    Participação como convidado do Trio LSP na primeira edição do Rendez-vouz Jazzonotes, em Thiais, França, 21 Mars 2015 .

2015    Concerto Paisagens da Música Brasileira, em Munique, Alemanha, 19 Jun 2015. Convidada especial: a cantora e compositora brasileira Maria Rita Stumpf.

Entre 1988 e 2015 teve a honra de como pianista e tecladista participar de shows e gravações de CD com os seguintes artistas: Jorge Benjor, Eduardo Dusek, Cláudio Lins, Lucinha Lins, Antenor Bogéa (Rio de Janeiro, Brasília, São Luís, Salvador, Mar Chipre, França, Grécia, Cabo Verde), Sandra Dualibe, Janette Dornellas, Jorge Aragão, Robertinho de Recife, Zeca do Trombone, Dudu Nobre, Cláudia Telles, Golden Boys, Danilo Caymmi, Elza Soares, Luís Alberto de Filippo, Dom Fla, Juliano Torres (argentino no RJ), Sandra Bonilla (chilena no RJ), Debbie Wicks (estadunidense no RJ), Elymar Santos (turnê nacional), Claudete Ferraz, Lívia Diniz, Razão Brasileira (turnê nacional, Paraguai, Japão), Samuel Lima, Murilo Brito, Cristine Soares, Coral Arcanjos da Força Aérea, Canuto, Zila Siquet, Demétrio Bogéa, Jean-Phillipe Crespin (França, Grécia), Sylvan Sourdeix (França), Ramatis Moraes, Robson Rodrigues, Cadu (República do Chipre), Simone Guimarães (Cannes, Paris, Marselha), Maitê Tchu, Jards Macalé, Nando Gabrielli, Vanessa Barum, Falcão, Mièle, Maria Rita Stumpf (Rio de Janeiro, Curitiba, Alemanha).

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