Pois é

Eu não quero escrever ou falar de mim ou de minha mãe. Deixem eu abrir um parênteses, voltar no tempo e me ver dentro de um fusca que minha mãe dirigia com o rádio ligado… e isso aconteceu várias vezes, inclusive quando noutra época já estava com outro carro. Quando uma música acabava ela me perguntava “de quem é esta música”? Ela percebia que eu não sabia e dizia “essa é do Pixinguinha”. Cresci com aquelas perguntas e as respostas, não importava se estávamos dentro do carro ou dentro de casa. Se uma música tocava no rádio ou na TV, minha mãe sabia o nome do compositor e também queria que eu soubesse. Agora eu fecho esse parênteses daqueles saudosos anos 70.

Em 2004 eu estava em Cabo Verde, na África, para tocar no primeiro festival de jazz de Cabo Verde. Minha estadia lá e minha participação no festival podem até merecer uma história, mas eu prefiro falar de outra coisa. Em dado momento, numa manhã em que estávamos (músicos franceses, italianos, etc.), e eu também, diga-se de passagem, num restaurante para tomar nosso café da manhã, ouvi uma música que soava nas caixas fixadas no teto. Era “Brasileirinho”. Eu saboreava a música com um certo orgulho nacional, enquanto degustava um iogurte com granola. Quando a música acabou, ouvi dois franceses próximos a mim dizerem “Henri Salvador”. Eu levantei as sobrancelhas. E minhas orelhas se esticaram até eles. Eu queria saber se estavam comentando sobre Henri Salvador ser um compositor de Cabo Verde, ou… “sim, sim, esta música é de Henri Salvador”. Ou seja, mal comecei a xeretar a conversa e eles confirmavam entre si que “Brasileirinho” era uma composição de Henri Salvador. Ora, Henri Salvador é extraordinário. Sou fã. Mas o compositor de “Brasileirinho” é um brasileiro. Minha mãe e e sabemos disso. Claro que não me contive. Da mesa onde eu estava eu lhes disse um bonjour e fui direto ao ponto. Eu lhes informei que “Brasileirinho” não era uma composição de Henri Salvador. Um deles respondeu “Ah bon?”. É como se dissesse “Sério”? Eu respondi com a cabeça e com um olhar do tipo “pois é”. Mas o outro não acreditou em mim e disse que sim, a música era de Henri Salvador. Eu lhes perguntei se eles já tinha ouvido falar do nome Waldir Azevedo. Ambos balançaram a cabeça negativamente. Eu os encarei com as sobrancelhas levantadas como quem diz “pois é”. Fiz outra pergunta. “Que instrumento fazia o solo da música que acabámos de ouvir”? Um deles respondeu “cavaquííínhú”. “Voilà”, disse para lhes mostrar que eu concordava. Então lhes perguntei “qual é o nome da música”? O outro respondeu “Brasilerííínhú”. “Voilà”, concordei outra vez. Então lhes perguntei “se Waldir Azevedo era brasileiro, tocava cavaquinho e o nome da música era Brasileirinho, como Henri Salvador teria feito a música se não era brasileiro, nem tocava cavaquinho?”. Eles se entreolharam. Eu complementei. “Se a música fosse de Henri Salvador, ele teria que ter contratado alguém para escrever a partitura, ou alguém para tocar o cavaquinho, ou simplesmente chamar a música de “Cabo-verdinho”. Um deles disse “faz sentido o que você nos diz”. Eu acenei com a cabeça. E o outro disse “merci beaucoup”.

No ano seguinte (2005) eu estava na França para tocar piano no “Ano do Brasil na França”. Num dia de folga fui convidado por um saxofonista francês a ir até a casa dele para desgustar um churrasco. Enquanto a carne assava, ele colocou um vinil pra tocar. Entendi que ele queria me agradar, já que eu era um brasileiro em terras francesas e a música no vinil era “Desafinado”. Se eu estivesse no carro de minha mãe, lá nos anos 70, ela me perguntaria “quem é o compositor”? Lembrei-me da experiência que tive no ano anterior com os franceses lá em Cabo Verde. Antes de satisfazer uma certa curiosidade de perguntar ao francês anfitrião quem era o compositor da música que tocava, eu o agradeci por ter colocado na vitrola um vinil com a música “Desafinado”. Não sei se você prestou atenção quando no início deste parágrafo eu disse que um francês que tocava saxofone me convidou para um churrasco. A palavra-chave aqui é “saxofone”. A música “Desafinado” que ele colocou era instrumental e o solo era de saxofone. Eu já conhecia aquela gravação, mas eu queria puxar assunto e satisfazer aquela curiosidade secreta de saber se o francês conhecia o compositor. Então eu puxei assunto e disse “que solo bonito, parece um saxofone tenor”. Ele ergueu a garrafa de cerveja em direção ao meu copo e disse “voilà”. E complementou “j’aime beacoup ce musicien”. Eu perguntei quem era o músico e a resposta foi “Stan Getz”. Cheguei a me perguntar por onde andava o meu vinil do Stan Getz do tempo em que eu morava com meus pais. Sorridente, ele permaneceu no assunto e disse como se todo mundo soubesse que “Stan Getz foi muito feliz ao compor essa música”. Senti uma pontada, mas disfarcei. Em vez de corrigi-lo, eu apenas perguntei se eu podia ver a capa do vinil. Ele colocou a cerveja dele numa mesinha e foi lá dentro. Voltou com a capa e um sorriso. Afinal, era como se ele tivesse acertado no modo de agradar um convidado. Com a capa do vinil nas mãos, agradeci e corri os olhos atrás dos nomes de Tom Jobim e Newton Mendonça. Não estavam lá, nem mesmo os outros compositores das demais músicas. Na capa dizia apenas “Stan Getz Greatest Hits”. Perguntei-lhe se havia algum encarte, mas ele não se lembrava ou não sabia onde estava. Daí eu joguei o anzol e disse “eu queria ver o nome dos compositores”. Ele franziu as sobrancelhas como se eu, um músico, não soubesse que “Desafinado” era de autoria de Stan Getz. Ainda com suas sobrancelhas em pé me disse “cette musique a été composée par Stan Getz”. Eu lhe disse que eu tocava “Clair de lune” no piano. Ele não entendeu o que tinha a ver “Clair de lune” com “Desafinado”. Fiz de propósito. Falei-lhe que o fato de eu tocar “Clair de lune”, do compositor francês Claude Debussy não me dava o direito de dizer que a música era minha. E que “Desafinado” era uma música dentre outras gravadas pelo saxofonista Stan Getz, todavia os compositores eram Tom Jobim e Newton Mendonça. O francês ficou sério numa fração de segundos, e em seguida abriu um sorriso, ergueu sua cerveja e disse “salut à la musique brésilienne”.

Em 29 de fevereiro de 2014, no canal do youtube de “Erin Propp”, foi publicada a música “ O barquinho (Little boat)” com os créditos da composição destinados a Ronaldo Fernando Boscoli, Buddy Kaye e Roberto Menescal. Mas quem é esse nome “Buddy Kaye”? Este nome não é citado no site “Brasil imperdível” no link “história da canção o barquinho”. Mas se você sabe como funciona a indústria fonográfica, pode entender (a contra-gosto) porque este tal Buddy Kaye é citado como compositor. Foi um produtor e editor de músicas, citado no wikipedia também como “compositor”. A gente sabe que o pessoal mais desavisado confia cegamente em informações do wikipedia. A coisa não para por aí. Numa das edições do Real book, “O barquinho” está com o título em inglês “My little boat” e o compositor é um tal Imo Schmortz.

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Daí você digita esse nome no google e, obviamente, o dano está feito. Pois se está no google está no planeta Terra e você vai ver em sites da Alemanha a informação de que este tal Imo Schmortz é o compositor de “O barquinho”, ou melhor, “My little boat”.

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Como a internet é uma garganta aberta, a gente se depara de vez em quando com alguns vômitos, ou seja, porcarias. Num fórum da internet eu localizei um sujeito da cidade de São Francisco, Califórnia (CA) que mostrava o erro do “fakebook” (é o nome técnico para livros como o Real book), ao dar o crédito da composição ao tal Imo Schmortz. Daí, um sujeito de Levittown, Pensilvânia (PA), discordou e disse que o livro estava correto.

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Eu tenho em casa a quinta edição do Real book, e nesta edição já consta o nome de Roberto Menescal como compositor de “My little boat” (O barquinho).

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Como o livro foi feito por americanos, você não vai encontrar o título “O barquinho”, mas sim “My little boat”. E para os músicos do planeta Terra que adquiriram edições anteriores, muito provavelmente vão jurar de pés juntos que Imo Schmortz “é” o compositor dessa música brasileira.
Todo mundo quer assinar o que é bom.
Pois é!

Farlley Derze


04jun19, 09:11.

Metabolar

12 de maio de 2015, 19:05

Era assim: tinha um tubo transparente que ficava suspenso a um metro e meio do chão. O tubo tinha um diâmetro que dava para fazer rolar uma laranja. Mas não era o caso. A ideia era fazer um rato doméstico passar por dentro dele. Para isso, nas extremidades do tubo foram fixadas duas pequenas caixas de madeira. Bastava bater a mão na caixa onde o rato estava e ele saía em direção à outra caixa através do tubo. Não! Não é um teste de laboratório. É um instrumento de percussão criado por Dom Fla, um percussionista brasileiro que vivia por 20 anos na França. Habitualmente, escrevia cartas para seu amigo Luiz Alberto, nascido em Ubá, Minas Gerais, que vivia por uns anos no Rio de Janeiro para estudar canto lírico com o tenor Paulo Fortes. Para incrementar o aparato, Dom Fla conseguiu fixar guizos e sinos no interior do tubo transparente, de uma ponta à outra. Nos espetáculos levava seu arsenal de instrumentos de percussão, e escolhia alguns momentos para dar um tapinha suave na caixa de madeira e a plateia podia ver seu rato de estimação cruzar o tubo esbarrando nos guizos e nos sinos que soavam magicamente.

Cartas e cartas trocadas entre aqueles dois amigos e um belo dia Dom Fla retorna ao Brasil, para o Rio de Janeiro, onde tinha um apartamento de herança de família e onde seu amigo Luiz Alberto me levou para conhecê-lo. Neste mesmo apartamento, numa das tardes em que nos reuníamos, o Luiz Alberto pediu que Dom Fla e eu sentássemos no sofá e ouvisse uma coisa. Luiz se pôs de pé em frente ao sofá e com seus quase dois metros de altura e dez ventanias na cabeleira, abriu os braços como uma cruz de mármore e, sem ler, começou a recitar a “Ode triunfal”, de Álvaro de Campos. Dom Fla mantinha seu semblante sereno enquanto piscava involuntariamente seus olhos azuis que boiavam brilhantes abaixo de seus cabelos grisalhos que tinham a forma dos negros da black music dos anos 70, embora tivesse a pele branca e rosada do sol de Ipanema. Quanto a mim, ouvia pela primeira vez aquela “Ode” e me senti dentro de um berço construído por Netuno para ser testado em seus mares.

Quando Luiz parou, Dom Fla espalhou no chão seus instrumentos de percussão: flautas de kamaiurás, apitos de curupira, chocalhos de pataxós, sementes de açaí, pandeiros da Angola, reco-reco da Estácio de Sá, djambê, barduka, colares e respirações, e eu grudado no sofá.

Aqueles dois estavam materializando aquelas cartas entre o Brasil e a França, como dois gigantes da originalidade artística.

Ali naquele apartamento eu recebi deles o meu batismo de músico. Luiz Alberto e Dom Fla eram autores de suas próprias vozes. Nas cartas que trocavam antes de Dom Fla retornar ao Brasil, ecoava a palavra “Metabolar”. Essa palavra foi o útero que abrigou músicos como Jayme Vignolli (cavaquinho), Eduardo Neves (sax e flauta), André Santos (ou André Araújo à época, violino), Xande (bateria), Maurício (bateria), Celestino (cenografia e figurino) e eu (Farlley Jorge, teclados), na trilha cavada por Dom Fla na percussão e Luiz Alberto na voz, textos e prolongamentos. Tocamos nos teatros e nas nossas almas; fomos entrevistados pelo Jô Soares e pelas nossas consciências; viajamos de avião e de tapete voador.

Conviver com eles como integrante do metabolar, fez com que eu descobrisse o quinto ponto cardeal.

Durante minha renascença musical, minha metamorfose antropofágica, meu grito às margens do Ipiranga, fui como um bebê à casa de Hermeto Pascoal, vi o trenzinho de Villa-Lobos estacionar dentro do meu quarto, naveguei no Mapa das Nuvens de Maria Rita, compus “Gênese”, “Caçada”, “O rito da primavera”, “Caminhada”. Bem dizer foi há vinte e cinco anos. De lá pra cá, durante muitas noites de conversa com o travesseiro eu toquei aquelas músicas em minhas lembranças. Vi Luiz Alberto subir as escadas laterais do palco, surgir e desaparecer com a luz acesa como quem mergulhasse nas teclas do piano e submergisse pelas cordas do violino. Vi Dom Fla batucando suas peles, seus ossos, seus balangandãs cósmicos e num piscar de olhos ele era uma fogueira acesa no palco enquanto Luiz Alberto voltava espalhando seus pós, suas cores e suas curas para ouvidos engessados. Maurício semeava com sua bateria uma nova agricultura de compassos. Eu tocava o meu teclado eletrônico como um candidato à república de Platão. Vi André Araújo ser guiado pelo seu violino por uma trilha cintilante que brilhava no encontro das águas no Amazonas. Vi Xande fazer sua bateria falar vários idiomas que a platéia traduzia em sorrisos polirrítmicos. O cavaquinho de Jayme Vignolli liberava faíscas com quatro bemóis nas brechas das cordilheiras sônicas. O sax de Eduardo Neves desenhava labirintos sonoros que fazia a imaginação chegar atrasada. As ideias de Celestino para cenários e indumentária fornecia o relêvo para aquela poligrafia artística se aventurar.

Muitas noites relembrei tantas performances do Metabolar que cheguei a sentir tristeza, como um idoso solitário que vira seu álbum de fotografias engolindo a seco sua viuvez.

E nesse vai-e-vem de noites particulares não imaginei que hoje ao acordar, antes de abrir a janela, antes do cheiro do café, eu recebesse uma mensagem de Luiz Alberto.

Farlley espero que esta te encontre bem. Nesta vez que fui ao Rio fui até a casa do Dom Fla e descobri que ele fez a passagem. Maria Rita tem detalhes. Quero ver se consigo para o final do ano reunir amigos e prestar uma homenagem. O céu está mais estrelado. Um forte abraço. Luiz Alberto.

Ao ler esta mensagem, me vi numa bolha de silêncio. Depois pensei qual terá sido o destino de seus instrumentos de percussão. Quem o viu pela última vez?

Durma em paz Flamarion, Dom Fla.

Maria Rita chega quinta-feira aqui em Madri. Enquanto a espero, vou escrever nas teclas do meu piano: “que honra Dom Fla (in memoriam) e Luiz Alberto ter sido convidado por vocês para integrar o Metabolar, para fazer um tipo de música que misturava futuro e fé”.

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Dança dos ventos

Farlley Derze. Brasília, DF, 16 de novembro de 2011

Danca dos ventos

A saudade faz duas coisas com a gente: faz a gente olhar pela janela e permanecer ali por algum tempo, inerte, a desfolhar as páginas de um momento que agora percebemos como foi bom ter vivido, e então a segunda coisa é aquela palpitação dentro do peito, às vezes os olhos mareados, o ritmo diferente da respiração, como me ocorre agora ao ouvir dentro da mente a música “Dança dos ventos”. Eu acordei às 4h da manhã com uma pequena e indesejável crise alérgica, espirros, tosse, fui até a cozinha tomei um antialérgico e descongestionante, enfiei duas pastilhas efervescentes de vitamina C num copo d’água. Tomei essa bebida com duas torradas de pão de milho que pus para tostar enquanto exercitava a respiração para um melhor fluxo de ar. Deitei-me para tentar dormir, mas nada feito porque descobri nos primeiros 5 minutos que não conseguiria dormir de novo, então me levantei e liguei o computador para finalizar um texto sobre a música “O concerto dos sapos” que comecei dois dias atrás. No penúltimo parágrafo da primeira página onde cito alguns compositores e suas músicas, isto é, enquanto eu relia o que havia escrito, foi nesse ponto da leitura onde cito músicas como “Sinfonia nº 101 – o relógio”, “As quatro estações”, “Clair de lune” e “Trenzinho do caipira”, e a lista seria enorme para casos idênticos de compositores que buscaram descrever objetos, cenas, pessoas, animais, por meio de um ou mais instrumentos… foi nesse ponto da leitura que desejei inserir a música “Dança dos ventos”, e nesse momento a melodia dessa música invadiu a minha mente na forma que a ouvi pela primeira vez, e não na forma que hoje ouço quando a toco no piano. Então, enquanto a ouvia com o solo do violino acompanhado pelo baixo elétrico, a guitarra elétrica e a bateria, meus olhos já estavam para além da janela de onde eu estava sentado, às 4h30 da manhã, grudados na cena do passado que vivi. Saudade e vontade de rever o Simô (o autor da música, vocalista, guitarrista, violonista), Zeca Armesino (baixista), Mário (baterista, que se formou em odontologia) e André Araújo (violinista). Vou narrar a saudade que inundou minha mente ao som da “Dança dos ventos”. Era 1986. Eu tinha sido aprovado no vestibular para o Curso de Licenciatura Plena em Educação Artística, na UNIRIO. Antes das aulas começarem, resolvi ir na Universidade para conhecer os espaços, os prédios…e até o bairro, Urca, onde desembarcou Estácio de Sá para fundar a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em 1º de março de 1565. Eu fui criado em Guadalupe, subúrbio da zona norte, a 40km da Urca. Conclusão: 80km ida e volta todos os dias. Ao adentrar no espaço da universidade não encontrei ninguém desde a entrada do portão, o corredor que nos conduz por uma praça atrás da qual se encontram os prédios e suas salas de aula. Da praça vazia ouvi uma música que vinha lá do fundo de um dos prédios. Apressei o passo: havia gente ali, em pleno período de férias. Ao chegar na janela, pelo lado de fora vi os quatro rapazes, em idade próxima à minha, 20 anos, que tocavam como magnetizados pela música, mas hoje sei que magnetizado estava eu. Que música! …”Dança dos ventos”. Na época, por causa de minha timidez não tive coragem de me aproximar deles, aliás, fiquei escondido sem aparecer na janela, dava uma espiada ou outra quando aumentava a coragem, eu realmente achava que podia levar uma bronca. Isso tinha a ver com a criação que tive em casa. Entretanto, com o decorrer das aulas onde estudei com eles na mesma sala, fiz amizade com os integrantes daquele quarteto que se chamava “Solar”, uma banda de universitários que fazia apresentações na zona sul, e tinha um “compacto simples” gravado, que era um disco de vinil onde cabiam duas músicas de cada lado. Apenas o baterista, o Mário, não era estudante de música na UNIRIO, mas de odontologia noutra faculdade. Em dois anos eu já fazia parte do grupo que deixou de se chamar “Solar” e passou a se chamar “Aura vital”. Não me lembro quem mudou o nome tão pouco o motivo, mas com o novo nome veio também a voz feminina da Cacala (Maria Clara), além da minha entrada como tecladista. Fizemos juntos muitas apresentações nos espaços da zona sul da cidade, guardo até hoje os recortes de jornal com nossa foto, inclusive. Neste exato instante, enquanto a música trafega em minha mente estou na página do google, no link imagens onde digitei a palavra UNIRIO. Agora, enquanto ouço a música que navega junto com os meus olhos por essa janela a mergulhar na madrugada, vejo no site várias fotos da universidade, o portão envelhecido e suas grades de metal, me vejo ali outra vez sem a barba grisalha, sem os óculos de grau, sem as rugas das mãos, sem asma e sem saudade. Hoje a “Dança dos ventos” me carregou pela maquina do tempo até 1986, me fez cruzar a praça vazia em direção à janela da universidade onde estavam aqueles quatro rapazes de quem me tornei amigo tempos depois. Sigo o som da melodia e me vejo ali agora, escondido a espiar pela janela os gestos iluminados do André a correr seus dedos pelo violino, os olhos fechados do baixista Zeca Armesino, o sorriso quieto feito um rio silencioso do guitarrista Simô, autor da música “Dança dos ventos”, a sutileza do Mário na bateria onde flutuam suas mãos. Onde estarão nesse momento aqueles rapazes? Certamente grisalhos como eu. Meus olhos brilham  na luz do poste da madrugada que vejo pela janela, meus ouvidos estão grudados na dignidade daquele momento honesto de infância eterna que eu vivia ao som daquela música, e sem a qual não seria possível nem esse texto, nem essa saudade.


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