Nestor

Nestor

Contar histórias é uma maneira de manter as pessoas unidas. A televisão contou a história do homem pousando na lua, uma história contada com imagens em preto-e-branco. Eu vi. Meu vizinho Nestor deve ter visto. Depois daquilo, todos os meninos da minha idade, naquela época, sonharam em pisar na lua. Mas morar no subúrbio do Rio do Janeiro não facilitava a realização de um sonho assim. Sonhar em beijar a Carolina, ok, era possível. Saber dançar ou jogar cartas já era meio caminho andado. Mas não quero falar do homem na lua nem da Carolina. Quero falar do Nestor, meu vizinho. Taí um cara que eu gostaria de ter conhecido, tomar um café com ele, ouvir suas histórias.

Nestor tinha um metro e setenta, nem gordo nem magro, passou a usar óculos depois dos quarenta, ganhou uma calvície também, e antes dessas transformações trabalhava como carteiro. Depois se casou, veio a primeira filha, depois a segunda, então precisou mudar de emprego, viu um anúncio no jornal e conquistou uma vaga de supervisor numa fábrica de refrigerantes. Isso foi em 1989, estava com vinte e nove anos, tinha a esposa na mesma idade, uma filha de quatro anos e outra com dez meses. Sua vida como supervisor não interessa tanto, basta dizer que foi muito bem sucedido, era disciplinado, organizado e muito educado. Portanto, nada podia dar errado em sua ascensão profissional. Assumiu o cargo de diretor numa das filiais ao completar quinze anos de empresa. Com tais virtudes, dá para concluir que sua vida familiar correu às mil maravilhas para a esposa e as filhas, mas nem tanto para ele próprio. Sempre abria mão de tudo para satisfazê-las. Convenhamos: isso é triste. Numa família todos merecem realizar seus sonhos ou suas vontades na medida em que fazem por merecer. E Nestor merecia qualquer coisa que desejasse. Entretanto, com a mesma sutileza com que realizava os sonhos da mulher e das filhas, mentia para si mesmo. Inventava no silêncio de sua cabeça que seus sonhos não tinham importância. Eu era seu vizinho e, como vivo preso no meu umbigo, nunca lhe disse “bom dia, Nestor”. Aliás, eu só soube que se chamava Nestor porque li na coroa de flores ao lado de seu caixão. E tudo isso que contei a respeito dele escutei da boca dos outros aqui no velório.

Dois dias atrás, às duas horas da madrugada, acordei com gritos vindo da casa dele. Você pode imaginar três mulheres aos gritos de choro e desespero no meio da madrugada? Abri a janela que dava para a casa do vizinho e vi luzes acesas. Eu imaginei o pior, e estava certo. Porém, usei do meu egoísmo, balbuciei que não tinha nada a ver com aquilo, nada a ver com eles, fechei a janela, ajeitei o travesseiro e puxei o cobertor. Eu de fato estava com sono e de fato sou egoísta. Dane-se o mundo. As coisas são como são. Mas alguém tocou minha campainha. Era a filha mais velha do vizinho. Já me esqueci do nome dela. É aquela na cabeceira do caixão, com óculos escuros, vestido preto e cabelo loiro preso como rabo de cavalo. A outra filha saiu faz meia hora. Só sei disso porque coincidiu de vê-la sair quando olhava meu relógio. A caçula certamente voltaria, “só saiu pra tomar um ar”, pensei.

Quando a campainha tocou e me pediram ajuda eu fui até lá e vi o vizinho caído no chão da cozinha. Aproveitei para dar uma olhada na casa, pareciam viver muito bem. Os óculos dele estavam ao pé da geladeira, as mãos pousadas no piso em forma de concha, caiu de barriga pra baixo, tinha uma calça de pijama comprida, era azul com listras brancas, uma camiseta da hering, os pés descalços e estava ali, morto, estirado. Exalava um aroma daqueles sabonetes de cor marrom, não lembro o nome agora. Na minha idade, talvez a mesma do Nestor, as palavras vão e vêm.

Depois de auxiliar a viúva com telefonemas para empresas funerárias, prometi-lhe, num ato irracional, ficar ao lado da família para tudo que precisassem naquele momento. Vamos concordar: é difícil para uma mulher com mais de cinquenta anos, que se desloca numa cadeira de rodas, lidar com o marido morto no chão da cozinha, sobretudo com as filhas aos prantos, aos gritos, histéricas.

As pessoas circulam ao redor do caixão. Eu me pergunto “e se fosse comigo”? Sou um velho solteiro. Quando eu morrer, quem dará o alarme?

Levanto-me e vou até o morto. Ouço os cochichos: “morreu sem ver o time dele campeão”, “nunca destratou ninguém ”, “morreu cedo”, “morreu de quê”? Há flores e faixas dos colegas de trabalho: “Nestor, o melhor chefe do mundo”.

De repente, a filha mais moça retorna ao recinto e traz ao lado um cachorro preso à coleira. A filha mais velha lançou-se em sua direção, deu-lhe um abraço comovente, demorado como se não a visse há meses, depois se abaixou e acariciou o cãozinho que tinha um porte médio. Parecia o filhote de alguma raça, desses que ficam grande. Tinha o pelo marrom e os olhos cor de caramelo. A filha mais velha, ainda agachada, sussurrava sorridente para o cachorrinho. A irmã caçula tinha um sorriso de satisfação, o mesmo sorriso da viúva que manobrou sua cadeira de rodas até o animal. A filha mais velha se levantou e as três mulheres se abraçaram como se se tratasse de uma comemoração. A caçula passou a coleira às mãos da mãe. A viúva fez um giro de meia-volta e se aproximou do caixão. Pediu licença e falou aos convidados: “quero agradecer a todos que fizeram parte da vida do Nestor. Meu marido foi um homem feliz, mas foi feliz à nossa maneira e não à maneira dele. Quando nos conhecemos conversamos sobre alegrias e tristezas. Ele me contou que na adolescência teve uma tristeza grande, aquela que machuca a alma e permanece na memória pro resto da vida. Um dia chegou da escola e não ouviu o latido de seu cachorro. Seu pai decidiu dá-lo a um vizinho que morava noutro bairro. Disse pra mim que um dia voltaria a ter cachorro em casa. Mas quando nos casamos, embora ele realizasse meus sonhos e os de nossas filhas, eu não permiti que ele tivesse seu cachorro. Minhas filhas também diziam não. A vida passa rápido, as coisas são como são, ele merecia realizar seu sonho de criança. Alguns sonhos podem ser realizados. Quando o Nestor via um cachorro no quintal das pessoas seu olhar se transformava num olhar de menino”.

A viúva dizia aquelas palavras com um sorriso morno no rosto, que subitamente desapareceu para dar espaço a um rosto duro, pensativo como quem recalcula o tempo. A viúva fez um gesto, a caçula tomou a coleira e enrolou-a na mão gelada do pai.

Eu não queria morrer espancada

Eu não queria morrer espancada

Eu não queria morrer espancada, papai. Mas você bebeu muito dessa vez. Quando ouvi a porta bater, eu estava olhando a lua pela janela. Achei melhor correr pra cama, fechar os olhos e fingir que estava dormindo.

Ouvi suas pisadas tortas subindo a escada de madeira que protestava contra cada passo seu. Imaginei suas mãos no corrimão como quem se agarra em uma corda. Depois, pela fresta da porta, vi a dança que sua sombra fazia. A iluminação denunciava o grau de sua embriaguês.

Lembrei-me da pior noite de sua bebedeira. Entrou pela porta, parecia um trovão com o sapato sujo e encheu meu carrinho azul de lama. O jardim já conhecia a sua fúria. O carrinho foi presente do vovô. Depois que você cruzou o último degrau e desapareceu, vi uma oportunidade. Fui atrás do carrinho que tinha rolado pra debaixo do sofá. Não deu tempo de achar porque o grito da mamãe me assustou. Fiquei ali com a alma congelada, meus olhos presos no vazio e o braço esticado debaixo do sofá. Eu ouvi o barulho das coisas que você quebrava no quarto. Ouvi o silêncio da mamãe depois de um som esquisito. Depois daquela noite, a mamãe já não existiria mais.

Seu advogado convenceu o júri que ela pulou da janela. Seus amigos confirmaram que você ainda estava no bar e ignorava a tragédia. Você e eu sabemos dessa mentira. A única verdade é que você, naquela noite, não estava bêbado e fez o que fez porque não gostou das queixas dela. Hoje sei que ela estava certa. Você também sabe.

A discussão parou porque alguma coisa abafava a voz dela. Tirei meu braço debaixo do sofá. Naquela idade eu ainda não sabia que o silêncio da mamãe era uma despedida. A voz abafada da mamãe tentava me dizer alguma coisa. Continuo a ouvir aquele silêncio. Me lembro do corpo dela caído na neve lá embaixo. Você desceu as escadas, veio até mim e levou-me no colo até a porta. Quando saímos eu vi a mamãe imóvel na neve enquanto ouvia os sussurros repentinos de um culpado. Eu não fazia ideia de que daquele momento em diante seria apenas você e eu.

Qualquer criança órfã de mãe, criada a partir dos sete anos por um pai que passa metade do tempo calado e outra metade agressivo, é uma criança que aprendeu a sentir tristeza e medo. Um pai que se dedica aos mesmos amigos que prestaram falso testemunho três anos atrás. O rosto da mamãe está sumindo de minhas memórias, mas o som do riso dela às vezes ecoa em minha cabeça.

Agora você vai fazer a mesma coisa comigo que fez com ela. Você sobe as escadas com seus olhos podres e suas mãos grossas. Gira a maçaneta da porta do meu quarto. Caminha até mim e eu ainda finjo dormir. Eu sinto o cheiro ruim de suor e bebida. Ouço seus pés que avançam covardemente. Sinto sua mão no meu rosto, seus dedos nas minhas narinas e a palma da sua mão na minha boca. Eu continuo a fingir meu sono. Eu quase resisti, quase esperneei. Quase. Quando meu peito começou a queimar… Quase. Enquanto meu coração batia contra os ossos da cabeça eu só pensava na lua lá fora no céu escuro.
Eu não queria morrer espancada.

Renascimento

Não tinha opiniões formadas sobre os assuntos em geral. Numa rodada de assuntos tinha sempre a mesma estratégia: lançava uma ideia ou uma teoria qualquer que funcionava como uma espécie de bumerangue psicológico já que se tornava ouvinte da própria opinião recém-manifestada a ponto de se perguntar como ou de onde surgiu aquilo que dissera. Pois, não gostava de ler, não gostava de filmes e, no íntimo, sabia que não gostava de si próprio. O problema era que após lançar sua estratégia, alguém que fazia parte da conversa às vezes lhe pedia “você pode explicar o que acabou de dizer”? Perante tal situação tinha a resposta na ponta dos pés, isto é, como já se acostumara à sua leviandade intelectual, pedia licença para ir ao banheiro. Lá dentro, diante do mictório e sua vontade falsa de urinar, se perguntava como poderia explicar o que dissera se sequer se lembrava do que havia dito. Alguém entrou no banheiro, mas tudo bem era um estranho, não era ninguém dentre aqueles lá da mesa, todavia ali de pé se viu obrigado a gesticular seu fingimento. Felizmente o estranho foi mais rápido, aliás o cara urinou e saiu sem lavar as mãos. Sozinho outra vez no banheiro onde se refugiou, fechou o zíper depois do vazio de sua cena teatral e, mesmo assim, achou de bom tom lavar as mãos antes de retornar à mesa com a esperança de encontrar outros assuntos para que não tivesse que explicar nada e, preferencialmente, se manter em silêncio em meio aqueles colegas historicamente mais inteligentes e sensatos que ele. No fundo queria ser como um deles que liam tanto a filosofia grega como a alemã, os estudos historiográficos franceses e norte-americanos, a estética de Hegel e o neoplatonismo medieval, as influências nacionalistas na música de Villa-Lobos e Béla Bartók, a literatura comparada baseada em ícones do romantismo inglês e do modernismo latino-americano, enfim tudo aquilo que sua atividade de professor de física lhe impedia de conhecer. Ganhava seu salário com aulas repetitivas para alunos de ensino médio de uma escola pública. Aliás, nunca soube por que optara fazer aquele concurso público dez anos atrás e tampouco como tinha conquistado a vaga. Quando saiu do banheiro em direção à mesa onde os demais professores se encontravam em mais um almoço de confraternização de fim de ano, caminhava com passos decididos a sair do restaurante, se despedir polidamente com a desculpa de um compromisso inadiável às 15h num lugar longe dali. Tinha consciência que ninguém se importaria com sua ausência. Virou a chave de seu Corsa 1.0 e foi aonde decidira ir naquele último dia do ano: uma barbearia.

Sentou-se na poltrona da barbearia de um bairro que escolheu avulso e pediu que lhe cortasse aquela cabeleira obsoleta e extemporânea que não devia estar ali desde seus quinze anos. Chegou a se arrepender de não ter servido o exército onde teria recebido um rosto novo emoldurado por um cabelo masculino, e lhe disciplinariam a vida desde a cama arrumada após se levantar e lavar a louça, diferentemente de seu apartamento caótico como vivesse no espaço cósmico curvo envolto em nebulosas siderais que nunca chegou a compreender com sua clara inaptidão para ser físico, não fosse ter passado no concurso público por pura decoreba.

– Tira a barba também? – perguntou o barbeiro.

Balançou a cabeça num gesto positivo e tentava interpretar se o espelho comemoraria sua decisão de extrair da cara aquela aparência de monturo para se converter em gente. Aliás, enquanto sua aparência se transformava sua mente lhe sussurava que era hora de ter contato com a literatura, com o cinema e com a música de Villa-Lobos. Que coisa horrível ter nascido no interior do Goiás e nunca ter escutado “O trenzinho do caipira” de Villa-Lobos.
Enquanto o barbeiro esfacelava seu antigo eu, via no espelho seu escombro de gente como quem busca num lance de xadrez saber se o tempo lhe daria outra chance caso varresse para a lata do lixo seus quarenta anos de vida despenteada. Lembrou-se que naquele momento em que ouvia o som agudo da tesoura raspando-lhe os ouvidos, seus colegas professores muito provavelmente ainda estariam no restaurante, uns a degustar uma torta de limão outros um pavê de nozes com o aroma do café espresso e o sorriso da professora de literatura a levitar na imaginação de cada um.

– São quarenta reais – disse o barbeiro.

Entrou no carro e se olhou no retrovisor como quem duvida do que acabara de fazer e, sem tirar os olhos do espelho, enfiou a chave sem pressa e virou o motor como quem acaba de comprar um carro. Com os olhos fixos no retrovisor interno disse em voz alta “seja benvindo, muito prazer”. Digitou no GPS a palavra “clínica”. O menu lhe despejou inúmeras opções por ordem de quilometragem desde a mais próxima onde se encontrava, em Brasília, até às mais distantes em Goiânia e Belo Horizonte. Seu instinto momentaneamente lhe convidava a clicar em “clínica de psiquiatria” na L2 norte, mas abriu mão do instinto e manteve-se agarrado ao objetivo original de ir a um oftalmologista, porque aqueles óculos de fundo-de-garrafa só faziam sentido no cenário da cabeleira extinta. Agora, com aquele novo visual adequado a quem vai ler “Os detetives selvagens”, de Roberto Bolaño, título que sua memória de decoreba prodigiosa salvou num dos momentos da confraternização, merecia uns óculos modernos ou mesmo umas lentes de contato. Clicou rumo à Asa Sul da cidade.

– Os óculos ficam pronto em uma semana – disse a moça das Óticas Fluminense da 112 sul, de cuja pele mulata exalava o aroma do sabonete phebo, que o fez se lembrar de ir comprar um sabonete na farmácia da quadra.

Tendo gasto trezentos reais na consulta oftalmológica e outros mil e quinhentos na ótica que lhe seduziu a aceitar uma armação de óculos Persol PO3189V, preto brilhante, além das lentes Varilux Confort com anti-reflexos da marca Crizal, deu graças a Deus (chegou a murmurar entre os lábios) pelo dinheiro extra que ganhava em aulas particulares como professor de xadrez. E para fechar com chave de ouro, a ótica parcelou sua compra em dez vezes sem juros no cartão.

Na semana seguinte, voltou à ótica e saiu de lá com a sensação de que o mundo estava mais iluminado com seus novos óculos, vestido nos trajes novos adquiridos com o décimo-terceiro numa loja masculina do shopping Pátio Brasil. Agora faltava o passo final para completar a inauguração de sua nova vida: ir à Livraria Cultura comprar “Os detetives selvagens”, de Roberto Bolaño e, claro, quando a vendedora lhe perguntou se era fã da literatura latino-americana, precisou fazer outro lance de xadrez, mas não tão radical como fizera na barbearia. Moveu um peão no estilo “lance livre” e respondeu “não sou fã, porque não conheço essa literatura”. A moça, sorridente, simpática, jovem e com uma cintura que lhe deu a certeza de ter feito um ótimo investimento nos óculos, o conduziu à prateleira dos latino-americanos.

– Quatrocentos e vinte reais – cobrou-lhe o rapaz do caixa ao mesmo tempo que lhe perguntava se era um cliente “Mais Cultura”, se queria o “Nota Legal” e se seria no débito ou no crédito.

Entrou no carro com aquelas sacolas que exalavam a promessa de intelectualidade para além dos assuntos de cinemática ou aceleração da gravidade. Aliás, sobre a gravidade, lhe indignava que nem seus colegas bacharéis dos tempos de universidade nem os cientistas laureados pelo nobel de Física soubessem explicar de forma clara, e por que não dizer honesta, o que era realmente a tal da gravidade. Desde a maçã de Newton até os dias de hoje, a verdade é que nenhum físico conseguiu explicar esse fenômeno e sua origem, quando muito repetem a ladainha dos efeitos das forças gravitacionais, mas nunca a causa da gravidade. Ainda no estacionamento da Livraria Cultura, dentro do carro, rasgou as sacolas de plástico como quem tira o sutiã da primeira namorada. Vislumbrou horizontes mais palpáveis de felicidade. Os livros adquiridos fermentavam sua mente com aquela esperança da terra prometida. Leonardo Padura, Isabel Allende, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Roberto Bolaño, Edmundo Paz Soldán, Federico Andahazi, Jorge Luis Borges, todos agora como profetas culturais.

Começou por Roberto Bolaño e calculou sua velocidade de leitura: 0,6 página por minuto, portanto, 36 páginas por hora. Puxou o calendário e calculou o número de dias de férias escolares, o número de sábados, domingos e feriados ao longo do ano letivo, e concluiu que voltaria mais vezes à Livraria Cultura de três em três meses, para conhecer os românticos da literatura francesa e inglesa, os filósofos gregos e alemães, de modo que na próxima confraternização não precisaria fugir dos assuntos indo ao banheiro e fingir qualquer necessidade básica.

Seu novo visual, aliás, fez muito sucesso durante o ano letivo seguinte. Ao fim do primeiro trimestre, numa reunião na sala de professores, a professora de literatura lhe passou às mãos, muito discretamente, um bilhete que ele teve o cuidado de manter trancado em sua mão fechada enquanto a coordenadora pedagógica conduzia a reunião. Obviamente, ele estranhou aquela atitude da professora mais bonita, mais charmosa, mais sensual e mais culta da escola. No término da reunião, ela foi a primeira a se retirar enquanto ele optou por ser o último a sair. Ao se retirar da sala, carregou o bilhete lacrado na palma da mão e punho cerrado até o estacionamento. Entrou no carro, deu uma olhada de trezentos e sessenta graus ao redor e abriu o bilhete, que dizia: você aceitaria vir jantar em meu apartamento no próximo sábado? Traz um vinho da uva Syrah”.

A metafísica do belo

A metafísica do belo

Aí ele me perguntou: “você conhece de perto a sensação de matar um homem?”. E sem esperar uma resposta continuou: “ou tudo que você conhece na vida você compara ao sabor de uma cerveja”?

Falou isso enquanto o garçom chegava em nossa mesa e abria uma cerveja. Eu nem sei como a conversa foi parar naquele assunto. O garçom nos serviu e foi embora. Meu amigo ergueu o copo para um brinde, deu um gole e limpando a espuma do bigode continuou: “tem muita coisa amarga de verdade na vida. Você já leu A metafísica do belo, de Schopenhauer?” Respondi que nunca tinha ouvido falar desse livro. Ele deu um sorriso de canto de boca e sacudindo o copo na mão disse: “pois, devia conhecer”.

Eu perguntei a ele por que me perguntou se eu havia matado um homem. Ele me corrigiu dizendo “eu não te perguntei se você havia matado um homem. Eu perguntei se você conhecia de perto a sensação de matar um homem”. Eu falei que era a mesma coisa. Ele contestou. Falou que no livro do Schopenhaeur tem uma passagem em que ele compara Platão e Kant se ambos vissem um cavalo.

Platão diria:

“Esse animal não possui nenhuma existência verdadeira, apenas uma existência aparente, uma existência relativa. Verdadeiramente este animal é apenas a ideia que é representada naquele cavalo”.

Kant diria:

“Esse animal é um fenômeno no tempo, no espaço e na causalidade. Não é coisa-em-si, mas um fenômeno válido apenas em relação ao nosso conhecimento. Para saber o que ele pode ser em si, independentemente de tudo aquilo que o determina no tempo, no espaço e na causalidade, seria preciso outro modo de conhecimento, além daquele que unicamente nos é possível, pelos sentidos e pelo entendimento”.

Eu disse que não entendia nada de filosofia, mas parecia que Platão e Kant diziam a mesma coisa cada qual do seu jeito. Meu amigo fez uma pausa olhando por cima da sobrancelha, em seguida encheu os nossos copos e disse que eu tinha razão. Então eu insisti na história que ele começou sobre matar um homem ou conhecer a sensação de matar um homem. Enquanto ajeitava o seu copo na mesa, olhou ao redor do restaurante e viu que ninguém prestava atenção em nossa conversa. Confesso que aquele gesto dele me causou arrepios e passou um filme na minha cabeça. Eu me perguntava como seria possível a um professor de filosofia do ensino médio de uma escola particular, casado há quinze anos com a mesma mulher, duas filhas lindas que frequentam aulas de violino e francês, alguém que sabia de cor as músicas do Renato Russo e do U2 perguntasse sobre a sensação de matar um homem.

Ele se inclinou em minha direção e cochichando pediu para eu olhar para um sujeito de camisa vermelha que estava sentado às suas costas, fez um gesto com a mão e com os olhos, como quem diz “não olhe agora, disfarça”. E disse: “finja que vai ao banheiro e veja bem o sujeito”.

Assim foi. Eu me levantei, fui ao banheiro e pude ver o homem. Devia ter uns trinta anos, rosto liso sem barba, óculos escuros no bolso da camisa vermelha, pele branca e cabelos loiros, braços de atleta, um queixo pontiagudo e um sinal escuro abaixo da costeleta esquerda. Lá no banheiro aproveitei para urinar me perguntando quem seria aquele sujeito, qual seria a relação dele com meu amigo e o que tinha a ver aquele papo de “sensação de matar um homem”. Lavando as mãos perante o espelho percebi que estava com uma certa taquicardia dentro de mim.

Ao retornar à mesa, olhei novamente o sujeito que parecia ocupado com o seu celular. Sentei-me. E antes de esmiuçar a conversa, perguntei como estavam sua esposa e suas filhas. Meu amigo respondeu com um ar sério, que agora elas estavam em um lugar seguro, lá em Florianópolis. Franzi a testa como quem diz “não entendi”. Ele apontou com o queixo na direção daquele sujeito de camisa vermelha. Disse que há mais ou menos seis meses sua esposa e as filhas estavam no supermercado. Ela percebeu inúmeras vezes que aquele sujeito cruzava por ela com o seu carrinho. Bem-dizer, em todos os corredores do supermercado eles se encontraram. Ela teria achado que tinha sido apenas uma coincidência forçada, uma espécie de cantada silenciosa por parte do sujeito e nada mais. Entretanto, enquanto ela passava as compras no caixa, ele passava as dele no caixa ao lado. Nesse momento minha esposa puxou nossas filhas para perto dela, e me enviou uma mensagem pelo WhatsApp. Eu só fui ver a mensagem horas depois, quando estava saindo do trabalho. Antes de ligar o carro lhe telefonei com uma tremenda angústia, ela atendeu e sua voz guardava um tom de ansiedade. Disse que ao sair do supermercado o sujeito a seguiu. Ela decidiu fazer caminhos aleatórios em vez de seguir direto para casa. Olhava pelo retrovisor e lá estava o carro do sujeito onde quer que ela fosse. Pensou em vir até meu trabalho, mas desistiu da ideia com receio de levar um psicopata até mim e colocar-me em risco; pensou em dirigir até uma delegacia, mas ele podia ter memorizado a placa do carro dela e com isso descobrir nosso endereço e se vingar caso desse queixa na polícia, então desistiu; parou num posto de gasolina para encher o tanque, o sujeito ficou mais ao fundo longe das bombas de combustível. Então lhe perguntei “onde você está agora?”. Ela disse que estava circulando pelo shopping. Eu perguntei pelo sujeito e ela disse que ele também estava lá, nitidamente fingindo que fazia compras em cada loja que entrava sem tirar os olhos dela.

Meu amigo fez uma pausa, abriu sua pasta, tirou de dentro o livro A metafísica do belo, e de dentro do livro puxou doze multas e as colocou sobre a mesa. Eram multas por avançar o sinal e por excesso de velocidade. E me disse: “lembra a história do cavalo? Platão e Kant falam que o cavalo ‘não existe’. Pois é, aquele inergúmeno de camisa vermelha sentado ali, também não existe. No máximo, existirá até hoje”. O garçom trouxe outro balde com mais seis longnecks, eu acenei dizendo que não queríamos mais, porém meu amigo fez outro gesto dizendo que sim, que íamos beber e pronto.

Olhei discretamente para o tal sujeito, coincidentemente ele se levantou e foi em direção ao banheiro. Meu amigo tentou se levantar, mas segurei-o pelo braço e perguntei onde ele ia, e respondeu “vou ao banheiro”. Então apertei o braço dele perguntando se ele estava louco. Sorrindo e tirando minhas mãos de seu braço me garantiu que não era louco. Falei que não estava entendendo o motivo de estarmos ali, e com aquele cara também ali. Ele me respondeu que era “coincidência forçada”. Enquanto eu o encarava, ele não tirava os olhos da porta do banheiro lá no fundo. Ficamos em silêncio até que ouvi dele “pronto, ele está voltando. Agora deixe-me ir ao banheiro. Quando eu voltar, contarei meu plano”. Pegou o livro sobre a mesa, abriu na página 36 e colocou o dedo no parágrafo em que Platão e Kant explicam por que “o cavalo não existe”. Deixou o livro comigo e foi ao banheiro. Obviamente, minha taquicardia não permitia eu me concentrar nas palavras de Schopenhaeur. Quem sabe a cerveja me ajudasse a organizar as ideias, enquanto olhava de rabo-de-olho para o tal sujeito. Sentei-me como se todo o restaurante estivesse em silêncio. De repente me veio a lucidez de que meu amigo trazia em sua pasta uma arma. Dei uma olhada ao redor e sem tirar sua pasta do lugar, examinei-a discretamente e fui surpreendido por ele, que enquanto se sentava falou “não sou estúpido. Não vou andar armado por aí. Você sabe que não tenho arma. Meu plano é silencioso. Eu te convidei a vir aqui porque descobri que todo primeiro sábado do mês ele almoça neste restaurante”. Quer dizer que nesses seis meses você vem seguindo esse cara, perguntei. Meu amigo respondeu com uma voz grave e os dentes apertados dentro da boca: “faz seis meses que minha esposa não vai a um supermercado, faz seis meses que eu a levo e a busco em seu trabalho, faz seis meses que ela vê um suzuki vitara verde no trânsito e começa a suar, faz seis meses que imagino as mais diferentes formas de matar esse cara até encontrar o melhor método para colocá-lo em prática hoje. Só então percebi que meu amigo olhava várias vezes para seu relógio de pulso. Então lhe perguntei por que eu estava ali com ele. Ele olhou outra vez o relógio e disse “são 13:30”. E continuou: “eu só queria que você entendesse por que estou me mudando para Florianópolis amanhã e talvez nunca mais nos vejamos. Enfim, queria me despedir de você”. E estendeu-me a mão com um sorriso preso nos lábios. Nos cumprimentamos e nesse momento o tal sujeito se levantou para ir embora. Meu amigo colocou uma nota de cem reais sobre a mesa, levantou-se e me disse “obrigado por me ouvir”. E foi atrás do cara de camisa vermelha.

Estou contando essa história porque faz quinze anos que não o vejo, e hoje estou aqui no aeroporto de Florianópolis. Vim visitá-lo após todo esse tempo. Desde aquele dia no restaurante não trocamos nenhuma palavra. Ele excluiu seu perfil no facebook, não sei se usa telefone, os e-mails que lhe enviei retornaram como se o endereço eletrônico não existisse. Ontem alguém telefonou para a secretaria da universidade em que leciono e deixou um recado para mim: “o funeral da Sra. Fulana (por precaução estou omitindo o nome verdadeiro) será na capela 5 do cemitério Campos da Paz, em Florianópolis”. Ao ler no bilhete o nome completo, logo reconheci que se tratava da esposa de meu amigo. No mesmo instante busquei na internet o primeiro voo para o dia seguinte e do aeroporto tomar um táxi rumo ao cemitério.

Ao chegar à capela 5 olhei a hora no celular e o coloquei no modo silencioso antes de entrar. Não reconheci nenhum dos presentes. Eu era a única pessoa do passado de meu amigo. Fui até o caixão e vi o rosto sereno dela coberto por um véu. Percorri com os olhos cada pessoa em busca do meu amigo e identifiquei suas duas filhas, tão crescidas e tão parecidas com a falecida mãe. Fui ao lado de fora e quase não reconheci meu velho amigo, que falava ao celular. Na última vez que o vi ele estava com sua eterna cabeleira até os ombros, usava bigode e cavanhaque, e tinha uma coleção de calças jeans desbotadas. Agora estava sem bigode, sem cavanhaque, cabelo curto num corte militar e vestindo uma calça cinza de tecido, mas com o mesmo sorriso e o mesmo jeito de abraçar. A primeira palavra que ele disse foi “câncer”. Eu fechei meus olhos e o abracei novamente. Após o funeral ele me convidou a ficar hospedado em seu apartamento. Disse que as filhas já haviam se casado, e morava sozinho agora. Aceitei o convite e poderia ficar por dois dias.

Estava quase anoitecendo. Antes de ir para o apartamento ele queria ir a um lugar. Disse que precisava atender a um pedido que sua mulher fez antes de entrar em coma. Fomos a uma cafeteria onde tinha um pianista tocando. Enquanto nos sentávamos, o pianista o cumprimentou de longe com uma das mãos, interrompeu a música e veio em nossa direção. O pianista lhe disse que soube do falecimento de sua esposa e estava muito triste. Meu amigo lhe pediu para tocar uma música às 19h em ponto, que foi o último pedido dela. Olhei meu celular e marcava 18:35. O pianista perguntou que música seria e meu amigo respondeu “Do you know where you’re going to”. Às 19h em ponto ele começou a tocar a música. Uma lágrima solitária escorreu no rosto de meu amigo. Respirando fundo me disse que o primeiro beijo entre ele e a esposa foi às 19h no banco de trás de um táxi que os levava ao cinema, e no CD-player tocava aquela música.

Durante os dois dias em que fiquei hospedado em seu apartamento, conversamos sobre o sucesso de suas filhas, sobre a carreira acadêmica dele no departamento de pós-graduação de filosofia, sobre o tempo que faltava para as nossas aposentadorias, sobre minha esposa, sobre a esposa dele e todo o sofrimento que a quimioterapia causou. Levou-me ao aeroporto, tomamos um café e quando chamou o garçom para pagar a conta indagou se eu não queria lhe perguntar nada. Balancei minha cabeça dizendo que não. Ele me acompanhou até o embarque, me agradeceu muito por ter vindo, tirou de dentro de sua pasta um presente e o colocou em minhas mãos. Foi fácil deduzir que era um livro e estava embalado num papel de presente vermelho. Nos abraçamos e ao ir embora me disse: “volte quando quiser”. Entrei no setor de embarque e agora sentado na poltrona do avião desembrulho o meu presente. Não contive um sorriso ao olhar aquele livro usado: “A metafísica do belo”.

O marcador de páginas estava na página 36, onde Platão e Kant explicam por que “o cavalo não existe”.

Catorze crianças, cinco mulheres e uma luz

Farlley Derze, 29nov2015,18:18,Madri,Espanha

Catorze criancas-pb

Meu nome é Javier Gallego, oficial de polícia, e lhes contarei o que aconteceu.


No ano de 1955 minha mãe leu no jornal “El Alcázar”, de 5 de fevereiro, a história de um tal Alberto San Martín que tinha uma pedra de Marte. Embora fosse uma publicação de fevereiro, a história ocorreu em 17 de novembro de 1954.

Alberto San Martín era enfermeiro, tinha 37 anos de idade e vivia no bairro de Cuatro Caminos num apartamento de aluguel, à rua Dulcinea. Ele acreditava que o ar das manhãs curava as enfermidades. Por isso se levantava muito cedo, às quatro da manhã, para caminhar pelas ruas e respirar o ar limpo. Certa manhã saiu de casa em direção à Moncloa e de repente, na estrada “de la Coruña”, viu uma espécie de pessoa e dela se aproximou. Quando chegou perto dela seus olhos viram um ser de cor cinza e cabelos amarelos, quase albino. Essa personagem em nenhum momento lhe falou, mas gesticulava de diversas maneiras como quem tenta se comunicar. Um dos gestos era como se fosse “espere”. Em seguida, foi até uma esquina e o enfermeiro permaneceu esperando. Logo aquele ser regressou para lhe entregar uma espécie de pedra, colocou em sua mão e partiu. Alberto ao olhar por onde havia ido aquela personagem, viu um objeto luminoso que se perdeu nas altuas e o ser cinza já não estava na estrada.

A pedra tinha uma forma retangular e era de cor rosa e, além disso, trocava de cor.

Eu cresci ouvindo esta história em minha casa e, quem sabe por isso, escolhi minha profissão de policial.

O fenômeno das abduções é muito polêmico. Sobre isso há diferentes visões, inclusive a que eu tinha até ontem. Jamais acreditei que uma tal criatura de Marte veio à Madri para dar de presente a alguém uma pedra. E ainda mais incrível, o feito de que partiu em sue disco voador desde a estrada “de la Coruña” até seu mundo. Tampouco tive vontade de fazer uma investigação sobre fenômenos sobrenaturais. Mas ontem, recebi um telefonema de uma mulher em meu escritório que pareceu muito estranho. Ela falava de uma dezena de crianças, dos quais um era seu filho, que não voltaram para casa desde a noite anterior. Estava nervosa assim como outras vozes muito agitadas ao fundo, inclusive algumas chorosas.

Meu nome é Javier Gallego, oficial de polícia, e lhes exporei o que aconteceu.

Em um sábado, 4 de julho, um grupo de catorze crianças foram com seus respectivos pais a “Miraflores de la Sierra”, para passar ali as férias de verão. Todas as noites as crianças íam a uma montanha para olhar o céu. Perceberam que nas sextas surgiam luzes repentinas nas alturas. Tentaram falar disso com seus pais, mas ninguém lhes dava atenção. Na noite de 31 de julho, isto é, faz dois dias, as crianças gravaram o fenômeno com seus celulares e se esconderam debaixo de umas mantas verdes.

Na manhã seguinte, isto é, ontem, nenhum deles voltou para casa. Os pais telefonaram para a polícia, eu os atendi e logo virão os jornalistas para ouvir o que agora lhes conto.

Após o telefonema, ordenei a meu assistente que reunisse os demais policiais, inclusive aqueles que se encontravam em casa. Meia hora depois, aqui em meu escritório, lhes expliquei o assunto daquele telefonema. Planejamos a busca das crianças. Começamos por ouvir os pais com o objetivo de conhecer a rotina diária das crianças naquele lugar onde estavam de férias. Um dos pais se lembrou de uma história de luzes numa montanha que sua filha tinha tentando relatar, mas não lhe deu atenção. Assim, foi organizada uma busca nas montanhas.

Por fim, na montanha mais próxima da estrada, minha equipe descobriu cinco celulares com as imagens gravadas do que aconteceu.

O vídeo começa com uma abundância de luz de brilho azulado intenso por dezessete segundos. Enquanto isso, se pode ouvir dois sons distintos, como os de uma ambulância. Porém, ao contrário, eram tons muito graves e roucos. Pouco a pouco a intensidade luminosa se reduziu até se conseguir ver as crianças, através de um celular que parecia pendurado em uma árvore. A imagem nos mostra as crianças de costas. Entretanto, as imagens de outro celular, possivelmente deixado sobre uma rocha, nos mostra seus rostos como se fossem pequenos anjos.

As luzes vinham de apenas um objeto voador. De dentro dele saíram cinco mulheres magras e altas, de dois metros e meio, olhos violetas, cabelos compridos e brancos, a pele bronzeada, ou talvez, de cor cinza. Eram muito amáveis. Não falavam e se comunicavam por gestos. Quando abriam a boca, cantavam. As crianças pareciam hipnotizadas. As luzes da aeronave eram muito atraentes, de modo que as criancas se aproximaram para ver.

Segundo as imagens dos vídeos, havia uma boa harmonia entre elas e as mulheres. Un garoto que foi identificado como o filho da mulher que me telefonou, pisou no primeiro degrau da escada feita de fumaça e névoa, abaixo do objeto voador. As mulheres sorriam e convidavam os demais para subir. Tudo se passava com muita serenidade.

Enquanto via os vídeos, minha equipe comentava “que mulheres encantadoras”, que belos olhos violetas”, “que sorriso”, “que luz”. E ainda, em meio a tais reações, caíam-lhes as lágrimas.

As crianças subiram na aeronave, uma após outra, sem pressa e embora andassem com seus pés, se tem a impressão de que flutuavam.

Após aquelas imagens de dois minutos e nove segundos de gravação, subitamente tudo desapareceu. Os celulares permaneceram ligados e gravando o céu sem fundo, escuro, opaco, isto é, um silêncio vazio.

Tudo o que restou foram os celulares e as mantas no cume da montanha.

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Catorce niños, cinco mujeres y una luz

Farlley Derze, 29nov2015,18:18,Madrid,España

Catorze criancas-pb

Mi nombre es Javier Gallego, oficial de policía, y les expondré lo que pasó.


 

En el año de 1955 mi madre leyó en el periódico “El Alcázar”, de 5 de febrero, la historia de un tal Alberto San Martín que tenía una piedra de Marte. Aunque era una publicación de febrero, todo había pasado un 17 de noviembre de 1954.

Alberto San Martín era un enfermero que tenía 37 años de edad y vivía en Cuatro Caminos en un piso de alquiler, en la calle Dulcinea. Él creía que el aire de las mañanas curaba las enfermedades. Por lo tanto se levantaba muy temprano, cerca de las cuatro, para caminar por las calles y tomar el aire limpio. Cierta mañana salió de casa en dirección a Moncloa y de repente, en la carretera de la Coruña, vio una especie de persona a la cual se acercó. Pues cuando se acercó a dicha persona sus ojos miraron a un ser de color gris y pelo rubio, casi albino. Este personaje en ningún momento le habló, pero gesticulaba de diversas maneras como intentando comunicarse. Uno de dichos gestos era como “esperate”. De esta manera, fue hasta una esquina y el enfermero se quedó esperando. Muy pronto aquel ser volvió para entregarle una especie de piedra, se la dio en la mano y se marchó. Alberto al mirar por donde se había ido el personaje, vio un objeto luminoso que se perdió en las alturas y el ser gris ya no estaba en la calle.

La piedra tenía forma rectangular y era de un color rosado y, además, cambiaba de color.

Yo crecí oyendo esta historia en mi casa y, a lo mejor, por eso elegí mi profesión de policía. 

El fenómeno de las abducciones es muy polémico. Sobre eso hay diferentes visiones, incluso la mía hasta ayer. Jamás me pude creer que tal criatura de Marte vino a Madrid para regalarle a la gente una piedra. Y aún más increíble, el hecho de que se marchara en su platillo volador desde la carretera de la Coruña hasta su mundo. Tampoco tuve ganas de hacer una investigación de fenómenos sobrenaturales. Pero ayer, recibí una llamada de una mujer en mi despacho que me sonó algo raro. Ella hablaba de una decena de niños, de los cuales uno era su hijo, que no habían vuelto a la casa desde la noche anterior. Estaba nerviosa así como otras voces muy agitadas al fondo, incluso unas cuantas llorosas.

Mi nombre es Javier Gallego, oficial de policía, y les expondré lo que pasó.

Un sábado, 4 de julio, un grupo de catorce niños fueron con sus respectivos padres a Miraflores de la Sierra, para pasar allí las vacaciones de verano. Todas las noches los niños iban a una montaña para mirar el cielo. Percibieron que los viernes surgían luces repentinas en las alturas. Intentaron hablar de eso con sus padres, pero nadie les hacía caso. En la noche de 31 de julio, es decir, hace dos días, los niños grabaron el fenómeno con sus móviles y se escondieron debajo de unas mantas verdes.

La mañana siguiente, es decir, ayer, ninguno de ellos volvió a la casa. Los padres llamaron a la policía, yo les contesté y pronto vendrán los periodistas para oír lo que ahora les cuento.

Tras la llamada, ordené a mi asistente reunir a los demás policías, incluso los que se encontraban en sus casas. Media hora después, aquí en mi despacho, les expliqué el tema de aquella llamada. Planteamos la busca de los niños. Empezamos por oír a los padres con el objetivo de conocer de ellos la rutina diaria de los niños en aquel sitio de vacaciones. Uno de los padres se acordó de una historia de luces en la montaña que su hija había intentado relatar, pero no le hizo caso. Así que, fue organizada una busca en las montañas.

Resultó que en la montaña más cerca de la carretera, mi equipo descubrió cinco móviles con las imágenes grabadas de lo que pasó.

El vídeo empieza con una abundancia de luz de brillo azulado intenso por diecisiete segundos. Mientras tanto, se puede oír dos sonidos distintos, como de una ambulancia. Pero, al revés, eran tonos muy graves y roncos. Poco a poco la intensidad luminosa se redujo hasta que se podía ver a los niños, a través de un móvil que parecía colgado en un árbol. La imagen nos los muestra de espaldas. Todavía, las imágenes de otro móvil, seguramente dejado sobre una roca, nos muestra sus caras como de pequeños ángeles.

Las luces venían de un solo objeto volador. Desde dentro de dicho objeto salieron cinco mujeres delgadas y altas, como de dos metros y medio, de ojos violetas, pelo largo y blanco y la piel bronceada o, a lo mejor, de un color gris. Eran muy amables. No hablaban y se comunicaban a través de gestos. Cuando abrían la boca, cantaban. Los niños se quedaron hechizados. Las luces de la aeronave eran muy atractivas, de suerte que ellos se acercaron a mirar.

Según las imágenes de los vídeos, había una buena armonía entre ellos y las mujeres. Un chico que fue identificado como hijo de la que me llamó por teléfono, pisó en el primer escalón de la escalera hecha de humo y niebla, bajo el objeto volador. Las mujeres sonreían e invitaban a los demás a subir. Todo pasaba con mucha serenidad.

Mientras veían los vídeos, mi equipo comentaba “qué mujeres encantadoras”, “qué bellos ojos morados”, “qué sonrisa”, “qué luz”. Y aún, en medio de esas reacciones, se les saltaban las lágrimas.

Los niños subieron a la aeronave, uno detrás del otro, sin prisa y aunque andaban con sus pies, se tiene la impresión de que flotaban.

Tras las imágenes de dos minutos y nueve segundos de grabación, de golpe todo desapareció. Los móviles se quedaron encendidos y grabando el cielo desfondado, oscuro, opaco, es decir, un silencio vacío.

Todo lo que quedó de ellos fueron los móviles y las mantas en la cumbre de la montaña.

Amor no lixo

Amor no lixo

Farlley Derze, 18ago2015, 05:26. Madri, Espanha.

amor no lixo

– Eu gostei de verdade. Foi melhor do que planejei, imaginei ou sonhei.

– Como assim?

– Ah, nós sempre fantasiamos esse momento. A primeira vez é muito importante para a alma feminina. Você foi um gentleman.

 


Era um casal de drosófilas melanogaster. Tinham acabado de se conhecer por acaso ao sobrevoarem a lata de lixo de um apartamento. Caio e Brenda detestavam o apelido genérico dado à sua espécie: “mosquinha do lixo” ou “mosquinha das frutas”. Qualquer cientista sério sabe que as drosófilas não são mosquinhas. Pertencem ao reino animal, à classe dos insetos, da ordem díptera, do gênero drosophila, e com mais de duas mil espécies diferentes catalogadas. Possuem 4 pares de cromossomas e um tempo de vida de 12 dias desde que saem do ovo à vida adulta.

Caio e Brenda não tinham consciência do tempo de vida de sua espécie, mas estranhavam já terem visto algumas drosófilas mortas durante os dias que se mantiveram juntos.

Certo dia combinaram de sobrevoar a cozinha de um apartamento que exalava um aroma de bananas que perfumava a imaginação de ambos. Quando chegaram à cozinha não acreditaram no que viram. Havia bananas de todo tipo numa grande cesta de vime: banana-prata, banana-maçã, banana-figo, banana-da-terra, banana-nanica e banana-ouro. Pousaram numa e noutra como se estivessem em um parque de diversão. Quando saíram de lá, encontraram repouso no para-peito pelo lado de fora de uma janela de outro apartamento do andar de baixo.

De barriga cheia, arrotando e suspirando de euforia pós-prandial, viram o mundo dos humanos lá embaixo. Sirenes de polícia, sirenes de ambulâncias, engarrafamentos, pedestres aos milhares, motores barulhentos, ônibus lotados, motociclistas em busca de brechas no asfalto de verão. De repente Caio pergunta:

– Quantos anos vive um ser humano?

– Onde? Nas montanhas ou nessa confusão urbana?

– E por acaso isso faz diferença, Brenda?

– Claro que sim.

– E como você sabe disso?

– Intuição.

– Ah é?! Então quanto tempo a gente tem de vida?

– Aqui ou nas montanhas?

– Tanto faz ora bolas.

– Pelos meus cálculos, a gente tem algo em torno de 288 horas de vida.

– Isso é sua intuição? Que cálculos são esses, Brenda?

– Eu estou chutando. Óbvio que não dá pra saber. Ninguém sabe quanto tempo se vive.

– E nas montanhas, quanto tempo?

– Ninguém sabe. Ôxe !

– Eu invejo os humanos.

– Por que, Caio?

– Eles fizeram sinfonias.

– Mas fizeram a bomba atômica.

– Fizeram a lâmpada elétrica.

– Mas criaram o revólver.

– Eles falam com Deus.

– Mas negociam com o Diabo.

– Nossa espécie jamais teve um Aristóteles, um Albert Einstein.

– Mas nunca tivemos um Hitler, um Idi Amin Dada.

– Escreveram “As brumas de Avalon”, “Cem anos de solidão”, “Harry Potter”.

– Mas fizeram duas guerras no século XX. Aliás, um paradoxo: o continente onde floresceu a filosofia, o cristianismo e a ciência, foi o mesmo que entre 1910 e 1945 produziu duas guerras sangrentas. Um paradoxo filosófico, religioso e científico.

– Vamos mudar de assunto, quanto pessimismo, hein Brenda !

Coincidentemente, naquele momento, um vento mais forte começou a soprar. Caio e Brenda viram suas asas tremularem a ponto de suas patas perderem a aderência no para-peito da janela. Nuvens escuras se acumularam de uma hora para outra. A janela foi fechada sem que percebessem, enquanto conversavam. Brenda sugeriu que voltassem ao apartamento das bananas, mas era tarde demais. Alguém acabara de fechar a janela por causa dos ventos. Caio voou pelo perímetro da esquadria e instalou-se na parte superior da janela onde estavam. Ficou de cabeça para baixo e gritou “Brenda, venha”. Brenda atendeu ao chamado e ambos ficaram assistindo o mundo escurecer. Vieram as primeiras gotas de uma chuva grossa, e o dilúvio aconteceu. Precisaram fazer um ajuste na posição de modo que a chuva não os atingisse, pois seriam tragados e misturados à tromba d’água que escorria fachada abaixo levando o que estivesse no caminho. Foi necessário que se aproximassem, ficassem mais juntos, num cantinho que os deixava a salvo, literalmente agarrados entre patas e asas enquanto a metrópole se derretia.

No dia seguinte, ao acordarem, Caio quis se desculpar:

– Brenda, me perdoe por ontem.

– Por que?

– Você sabe: eu te abracei demais.

– Eu gostei.

– Sério?

– Foi minha primeira vez, Caio.

– A minha também, Brenda.

– Eu gostei de verdade. Foi melhor do imaginei ou sonhei.

– Como assim?

– Ah, nós sempre fantasiamos esse momento, Caio. A primeira vez é muito importante para a alma feminina. Você foi um gentleman.

Caio respirou aliviado, suas asas se abaixaram como um casulo, seus olhos miraram o mármore do para-peito com um sentimento de orgulho e timidez. Brenda pôs a patinha abaixo do queixo dele e ergueu sua cabeça dizendo: “olha pra mim”. Caio a olhou, ela deu uma piscadela e sorriu. Sem saber como reagir, Caio disse: “estou com fome”, Brenda concordou: “eu também”. O ar soprava uma brisa morna após o temporal do dia anterior. Farejaram numa das janelas abertas um aroma de maçã. Brenda disse: “amooooo esse cheirooooo”. Caio bateu mais forte suas asas musculosas e falou: “vamos ao paraíso meu amor”.

Entraram no apartamento. Um casal de humanos via um filme na TV. Passaram por trás num voo a baixa altura, pelas costas do sofá. Encontraram a cozinha e descobriram que o aroma de maçã não vinha dali. Aliás, a cozinha estava brilhando feito pérola. Nenhuma guloseima exposta. Voltaram à sala e perceberam que o aroma estava mais forte no corredor. Seguiram o rastro até a última porta. Era o quarto do filho do casal. Um adolescente de quinze anos que estava cochilando sentado sobre a escrivaninha, com um livro aberto na mesa, um caderno bastante rasurado, e um notebook. Caio e Brenda não deram nenhuma importância ao cenário e focaram no aroma de maçã que impregnava o quarto. Ao lado do livro aberto havia um pequeno pote transparente. Caio e Brenda pousaram nele, pois estava ali o aroma precioso, delicioso, apetitoso. O pote continha um líquido de coloração clara no fundo. Era vinagre de maçã. O pote estava lacrado na parte de cima com um plástico transparente, que estava ali como uma espécie de tampa, porém havia pequeninos furos que permitiam que o aroma do vinagre se difundisse pelo quarto. Caio e Brenda pousaram sobre o plástico. Juntos escolheram um buraco para penetrar no pote. Brenda passou primeiro. Caio foi logo em seguida. Nos primeiros segundos, enquanto batiam asas no interior, se olharam sorridentes. Todavia, perceberam que não havia nenhuma maçã e o líquido que evaporava os asfixiava. Não tiveram tempo de se olharem outra vez. Ambos enauseados, despencaram desacordados sobre o vinagre. Dormiram para nunca mais despertar.

O adolescente ainda dormia sobre a escrivaninha. Na página aberta do livro, intitulado “Biologia”, se lia em negrito: “Genética” e no subtítulo “Drosófilas melanogaster”. O notebook tinha um vídeo pausado no youtube com uma legenda: “Armadilha para moscas das frutas (drosófila)”.

A carta

A carta

Farlley Derze,11maio2015, 20:45,Madri, Espanha

a carta

“mira hombre, tengo la prueba y esta es la historia de amor que Shakespeare ha perdido”.

 


 

Há uma semana, às 17:53, sentei-me numa praça na Calle de Fuencarral, 133, Madri. Havia sentado para tomar uma taça de sorvete com três sabores: pêssego (meloncoton), banana (plátano) e maçã verde (manzana verde). Cinco idosos conversavam noutro banco da praça. Quando sentei-me próximo a eles, lhes cumprimentei: “buenas tardes”. “Buenas tardes”, responderam e retomaram a conversa.

Quatro deles repetiam “eso no es posible”, “no me lo puedo creer” enquanto o quinto lhes dizia “es la máxima verdad”.

O assunto era sobre um jornal que um deles encontrou: “pero estoy seguro, yo lo he encontrado aquí mismo en el invierno”.

A questão não era tanto sobre o jornal, mas sobre uma carta que estava dentro dele. Subitamente, o ancião que falava sobre o fato levantou-se e sacou do bolso de trás a carta dobrada em quatro partes. Eu me sentia um voyeur auditivo e tomava meu sorvete de maneira mais lenta a cada colherada, enquanto lhes escutava. “Mira hombre, tengo la prueba y esta es la historia de amor que Shakespeare ha perdido”.

Sentou-se para ler a carta datada de 2 de janeiro de 2015, Calle de Fuencarral, 133, Madrid, España e o título “Imperdonable”.

Antes que a leitura fosse feita um dos idosos se manifestou e disse aos demais que ler uma correspondência alheia não era correto e era um crime civil e, “peor hombre, mucho peor”, Nuestra Señora del Carmen sabia que estavam incorrendo num pecado.

Enquanto argumentos e contra-argumentos se misturavam sobre se era lícito ou não ler a carta, apressei-me para acabar o sorvete e abrir meu bloco de notas do celular para, caso a carta fosse lida (perdoe-me Nuestra Señora del Carmen), eu anotaria o que conseguisse.

De repente, um idoso chamado Alonso levantou-se, ajustou a mão na bengala e sem dizer “hasta luego” se retirou daquela conversa “pecaminosa”, quando a maioria votou favorável à leitura da carta. Todavia, esperaram até que Alonso a passos lentos dobrasse a esquina e desaparecesse dos olhos do grupo.

Calle de Fuencarral, 133

Madrid, 2 de enero de 2015

“Imperdonable”.

(Segue o conteúdo da carta traduzido para o português).

“Lembra-se de quando caminhamos pela Granvía no primeiro dia que nos conhecemos? Eu queria ter dito “este é um dia lindo em minha vida”, mas não te disse. Eu quis beijar teu rosto na Plaza de España, mas não te beijei. Queria ter dito como era mais bonito o pôr do sol aoteu lado no Templo de Debot, enquanto contempávamos aquele momento, mas nada disse. Quando você me beijou no terceiro encontro, ao sairmos da Iglesia de Nuestra Señora del Carmen y San Luiz, eu quis dizer “te quiero”, mas não disse”.

Nesse momento um dos idosos disse: “espera, quem assinou esta carta”? Quem lia respondeu “ninguém. É anônima”. Outro idoso disse “mas cita a Calle de Fuencarral, 133. É onde estamos. Ali está a porta do número 133. Estou seguro que é alguém que mora num desses apartamentos do edifício 133”. Outro disse: “pode ser que não…talvez a carta tenha sido escrita neste banco, em frente ao número 133, mas por alguém que mora em outro lugar”. Outro disse “continue a leitura”.

E assim foi.

“É imperdoável querer dizer, mostrar, fazer coisas boas e não fazer. Especialmente diante de alguém que melhora o nosso dia-a-dia. É imperdoável ver o tempo escoar pelo ralo do tempo, e nunca agradecer à pessoa que escolheu viver ao nosso lado. Não me perdôo por não ter repetido mais vezes a palavra “te amo”, ou “você mudou minha vida”, ou “vamos ali tomar um sorvete”, ou “me perdoa porque não consigo me perdoar”.

De repente fez-se um silêncio e um dos idosos disse “continue”, ao que ouviu “acabou”.

“Como assim acabou”? “Quem assina?”,  perguntou um deles. “Já disse! Ninguém assina nem diz a quem está endereçada”.

Todos se entreolharam em suas idades avançadas e um deles disse: “pelo menos esse homem escreveu seus sentimentos, pois muitos não o fazem, além de nada dizerem”.

A quietude daquele momento foi quebrada com a sirene de uma ambulância que passou por detrás do banco onde eles estavam e estacionou dez metros depois. Desceram correndo dois homens com uma maca e sumiram de vista.

Quem leu a carta se pôs de pé, dobrou-a, guardou-a no bolso de trás da calça e sentou-se. Outro lhe perguntou: “o que pretende fazer com esta carta”? “Não sei”, respondeu.

Nossa atenção foi desviada pelos olhares das demais pessoas da praça que olhavam ressurgir na esquina os dois homens que traziam na maca uma pessoa. Junto à maca uma mulher que chorava e um dos idosos a reconheceu: “mira hombre, es la mujer de Alonso”.

E viram a maca entrar na ambulância para transportar o amigo deles que instantes antes estava ali e se retirou quando decidiram ler a carta. A mulher entrou também na ambulância que invadiu o silêncio da Calle de Fuencarral com sua sirene urgente, até desaparecer dos olhos e depois dos ouvidos.

Hoje, 11 de maio de 2015, às 18:50, enquanto tomava outro sorvete no mesmo lugar da semana passada (a sorveteria fica no número 131 da Calle de Fuencarral), reconheci a mulher de Alonso que sentou-se sozinha no mesmo banco da praça onde seu marido costumava estar com seus amigos. Levantei-me e sentei-me ao lado dela “buenas tardes señora”. Ela respondeu “buenas tardes caballero”. E sem nenhuma cerimônia eu lhe disse: “semana passada vi a senhora entrar numa ambulância que parou nesta rua”. Ela disse: “vieram buscar meu marido que sofreu um infarto”. Perguntei: “ele passa bem”? Respondeu: ”Muito bem”. E complementou: “Faleceu nesta manhã. Hoje às 19:30 será a missa de corpo presente, na Iglesia de Nuestra Señora del Carmen y San Luiz. Ele era muito católico e sei que agora está no céu ao lado de Nuestra Señora del Carmen e de Nosso Senhor Jesus”.

Nesse momento um carro parou, abriram-lhe a porta e ela se foi: “hasta luego”, me disse. Eu me levantei rapidamente, caminhei até a estação de metrô “Tribunal” a poucos metros dali. Desci na Puerta del Sol onde há a estátua de um homem sobre um cavalo. Defronte à estátua existe um edifício em cuja calçada há uma inscrição indicativa que ali foi fundada a cidade de Madri. No lado oposto, atrás do cavalo com sua cauda imponente, está a Calle del Carmen. Da cauda do cavalo em direção à Calle del Carmen caminhei por 2 minutos e 10 segundos, 216 passos até a entrada da Iglesia Nuestra Señora del Carmen y San Luis, fundada no século XVII, e onde faltava um minuto para começar a missa. Entrei e vi reunidos no primeiro banco a viúva com familiares de Alonso, e no segundo banco seus quatro amigos de conversas na praça e que há uma semana falavam de uma carta esquecida dentro de um jornal.

Eu não conhecia Alonso nem as demais pessoas ali presentes; vi Alonso e sua voz de desacordo deixando seus companheiros naquela tarde da carta; vi que dobrou uma esquina com sua bengala; e agora eu estava ali onde Alonso repousava em seu ataúde próximo ao altar.

Velas acesas, cânticos e palavras conduziam a cerimônia. Após quarenta e cinco minutos, antes de encerrar a missa, o padre dirigiu-se ao ataúde. Ao lado do caixão chamou a viúva. O padre pôs a mão no bolso do terno do defunto e tirou de lá um pedaço de papel dobrado em quatro partes e entregou à viúva. Ela abriu e leu em silêncio:

Calle de Fuencarral, 133

Madrid, 2 de enero de 2015

“Imperdonable”

“Lembra-se de quando caminhamos pela Granvía no primeiro dia que nos conhecemos? Eu queria ter dito “este é um dia lindo em minha vida”, mas não te disse. Eu quis beijar teu rosto na Plaza de España, mas não te beijei. Queria ter dito como era mais bonito o pôr do sol aoteu lado no Templo de Debot, enquanto contempávamos aquele momento, mas nada disse. Quando você me beijou no terceiro encontro, ao sairmos da Iglesia de Nuestra Señora del Carmen y San Luiz, eu quis dizer “te quiero”, mas não disse”.

Novas lágrimas desceram pelo rosto da viúva, que com as mãos trêmulas leu até o final. Enquanto dobrava a carta para guardá-la, o padre a abraçou.

Antes de Alonso falecer, enquanto estava internado, o padre recebeu a visita de um de seus amigos da praça, que buscou o padre para se confessar. Disse ao padre que havia achado uma carta dentro de um jornal, numa praça de Fuencarral, e se sentia um pecador por ter lido para seus amigos a carta de uma pessoa que não conhecia. O padre lhe aplicou uma penitência leve de três Aves Marias e três pai-nossos durante uma semana. Ao se despedir, o penitente passou a carta pela fresta do confessionário. O padre a pegou e quando ficou sozinho em seus aposentos, reconheceu a letra de Alonso. Lembrou do pedido dele: “meu querido amigo de infância, Padre Miguel, guarde esta carta e entregue à minha esposa no dia de meu funeral, caso eu morra antes dela”. O padre fez o sinal da cruz, se ajoelhou e agradeceu o milagre de ter recuperado a carta que havia perdido dentro de seu jornal esquecido no banco da praça.

Quando a missa acabou, deu-se o momento de todos se aproximarem do caixão e dar as condolências à viúva, dar um último adeus ao amigo. Percebi a inquietude de seus quatro amigos quando a viúva lhes mostrou orgulhosa a carta que o marido lhe deixara. Alonso morreu sem desconfiar que a carta que se negou a ouvir naquela tarde era a que escreveu para sua mulher no dia que soube pelo seu médico que poderia sofrer um infarto repentino e fatal. Sua viúva nunca saberá que a carta foi devassada antes da hora. O padre nunca poderá expor o caso, pelo sagrado direito de preservar a quem entra num confessionário, mas também pela vergonha de ter perdido a carta.

Ao sair da igreja relembrei o momento quando encontrei aqueles homens idosos há uma semana. Relembrei as primeiras palavras que ouvi deles ao sentar-me no banco da praça: “eso no es posible”, “no me lo puedo creer”, “es la máxima verdad”.

Apenas sete pessoas são testemunhas do ocorrido:

– os quatro amigos;

– eu;

– o padre;

– e Nuestra Señora del Carmen.

O beijo

O beijo

Ontem eu cruzava um abismo quando achei um beijo caído sobre a ponte em que eu passava. Achei estranho um beijo largado ali, quem sabe alguém o perdera, quem sabe alguém o jogara fora. Estava no meio da ponte, lá nas alturas. Abaixei-me e apanhei aquele beijo. Há quanto tempo estaria ali? Estaria vivo ainda?

Ventava forte, ameaçava chuva e ainda me faltavam alguns metros para atingir o outro lado. Eu vinha de longa caminhada com uma mochila pesada nas costas que, naquela parada, pus logo no chão. O mau tempo me fez apressar as passadas de onde eu vinha e aquele momento sobre a ponte pareceu-me providencial, pois sentia mais leve as minhas costas enquanto estava parado com aquele beijo nas mãos.

Debrucei-me para ver as águas fortes em seu curso urgente. Olhei na palma de minha mão aquele beijo que sequer se movia, e pensei que a única coisa a fazer era atirá-lo lá embaixo até vê-lo sumir nas espumas que se enfumaçavam entre as pedras. Olhei-o uma última vez mas antes que eu o fizesse, um vento forte arrancou-o de minha mão.

A queda era grande e eu, estático, via o seu mergulho sem volta.

O estrondo das águas em fúria fez-me ter tamanho remorso e vê-lo ainda em queda, tão solitário, não pude crer na minha intenção desumana. A única coisa que me restava era mergulhar atrás dele e recuperá-lo. Então lancei-me das alturas naquela imensidão no mesmo instante em que o céu rasgou-se em grossa tempestade.

Lá em cima minha mochila abandonada sobre a ponte, encharcava-se. Lá embaixo meu corpo encontrava as rochas mas nunca mais o beijo.

Ali permaneci.

O beijo, que apenas dormia, saiu na carona das águas rumo aos lábios acordados.

A vela

A vela

Luz da vela e sombras que gesticulam na parede. Formas que se evaporam no cimento inerte, vultos que dançam na tela dissimulada. A fumaça escoa manchando o ar. Cheiro de fogo e fumaça com cera derretida. Luz impaciente, debate-se presa ao pavio, deseja sua vida e estar viva na aurora. Por isso se gesticula tentando estar livre do breve destino que se esgota no pires.
O pires, alheio e anônimo na penumbra do quarto, ampara a vela e receberá o clamor da chama no instante derradeiro, em que desfar-se-ão todas as sombras – recentes tentáculos da escuridão.
A cera impregnada na porcelana se acumula enquanto a chama clareia.
Claridade discreta e duvidosa.

Lacrimeja a vela. Chora, chora porquanto incendeia. Luz da vela que luta pela eternidade. O pavio, carbonizado e conformado, não lhe dá trégua. Aprisiona a pobre chama.

E a vela se derrama sobre si própria enquanto pingam estas palavras de meus dedos.

Luminosidade frágil que ilumina esta página, a vela ataca-me com sua luz amarela de intensidade reticente. Sou cúmplice de seu inevitável destino. Do contrário ela ainda estaria na gaveta, pálida e fria. Mas dela eu preciso para escrever estas linhas na escuridão noturna.

Aqui, sozinho neste quarto, na companhia vaga das sombras, vago os olhos na chama e sua cercania. Vejo o contorno do pires e sua superfície onde quase lhe toca a chama. Ou melhor, onde já lhe toca a chama. E agora surge a fumaça mais negra e densa, e seu cheiro que avança me condena neste instante derradeiro. Observo a chama. Quase chama.

Tudo se mistura em total anarquia, tal como o grito – língua, boca e garganta. Lá estão unidos no seu espanto a diminuta vela, o pavio, a chama e a porcelana. A cera agora parece um tumor.

E a chama…

Quase que…

Quase…

Agonizam todas as sombras, agonizam todas as sombras, agonizam todas as sombras.

Nada vejo.