Nestor

Nestor

Contar histórias é uma maneira de manter as pessoas unidas. A televisão contou a história do homem pousando na lua, uma história contada com imagens em preto-e-branco. Eu vi. Meu vizinho Nestor deve ter visto. Depois daquilo, todos os meninos da minha idade, naquela época, sonharam em pisar na lua. Mas morar no subúrbio do Rio do Janeiro não facilitava a realização de um sonho assim. Sonhar em beijar a Carolina, ok, era possível. Saber dançar ou jogar cartas já era meio caminho andado. Mas não quero falar do homem na lua nem da Carolina. Quero falar do Nestor, meu vizinho. Taí um cara que eu gostaria de ter conhecido, tomar um café com ele, ouvir suas histórias.

Nestor tinha um metro e setenta, nem gordo nem magro, passou a usar óculos depois dos quarenta, ganhou uma calvície também, e antes dessas transformações trabalhava como carteiro. Depois se casou, veio a primeira filha, depois a segunda, então precisou mudar de emprego, viu um anúncio no jornal e conquistou uma vaga de supervisor numa fábrica de refrigerantes. Isso foi em 1989, estava com vinte e nove anos, tinha a esposa na mesma idade, uma filha de quatro anos e outra com dez meses. Sua vida como supervisor não interessa tanto, basta dizer que foi muito bem sucedido, era disciplinado, organizado e muito educado. Portanto, nada podia dar errado em sua ascensão profissional. Assumiu o cargo de diretor numa das filiais ao completar quinze anos de empresa. Com tais virtudes, dá para concluir que sua vida familiar correu às mil maravilhas para a esposa e as filhas, mas nem tanto para ele próprio. Sempre abria mão de tudo para satisfazê-las. Convenhamos: isso é triste. Numa família todos merecem realizar seus sonhos ou suas vontades na medida em que fazem por merecer. E Nestor merecia qualquer coisa que desejasse. Entretanto, com a mesma sutileza com que realizava os sonhos da mulher e das filhas, mentia para si mesmo. Inventava no silêncio de sua cabeça que seus sonhos não tinham importância. Eu era seu vizinho e, como vivo preso no meu umbigo, nunca lhe disse “bom dia, Nestor”. Aliás, eu só soube que se chamava Nestor porque li na coroa de flores ao lado de seu caixão. E tudo isso que contei a respeito dele escutei da boca dos outros aqui no velório.

Dois dias atrás, às duas horas da madrugada, acordei com gritos vindo da casa dele. Você pode imaginar três mulheres aos gritos de choro e desespero no meio da madrugada? Abri a janela que dava para a casa do vizinho e vi luzes acesas. Eu imaginei o pior, e estava certo. Porém, usei do meu egoísmo, balbuciei que não tinha nada a ver com aquilo, nada a ver com eles, fechei a janela, ajeitei o travesseiro e puxei o cobertor. Eu de fato estava com sono e de fato sou egoísta. Dane-se o mundo. As coisas são como são. Mas alguém tocou minha campainha. Era a filha mais velha do vizinho. Já me esqueci do nome dela. É aquela na cabeceira do caixão, com óculos escuros, vestido preto e cabelo loiro preso como rabo de cavalo. A outra filha saiu faz meia hora. Só sei disso porque coincidiu de vê-la sair quando olhava meu relógio. A caçula certamente voltaria, “só saiu pra tomar um ar”, pensei.

Quando a campainha tocou e me pediram ajuda eu fui até lá e vi o vizinho caído no chão da cozinha. Aproveitei para dar uma olhada na casa, pareciam viver muito bem. Os óculos dele estavam ao pé da geladeira, as mãos pousadas no piso em forma de concha, caiu de barriga pra baixo, tinha uma calça de pijama comprida, era azul com listras brancas, uma camiseta da hering, os pés descalços e estava ali, morto, estirado. Exalava um aroma daqueles sabonetes de cor marrom, não lembro o nome agora. Na minha idade, talvez a mesma do Nestor, as palavras vão e vêm.

Depois de auxiliar a viúva com telefonemas para empresas funerárias, prometi-lhe, num ato irracional, ficar ao lado da família para tudo que precisassem naquele momento. Vamos concordar: é difícil para uma mulher com mais de cinquenta anos, que se desloca numa cadeira de rodas, lidar com o marido morto no chão da cozinha, sobretudo com as filhas aos prantos, aos gritos, histéricas.

As pessoas circulam ao redor do caixão. Eu me pergunto “e se fosse comigo”? Sou um velho solteiro. Quando eu morrer, quem dará o alarme?

Levanto-me e vou até o morto. Ouço os cochichos: “morreu sem ver o time dele campeão”, “nunca destratou ninguém ”, “morreu cedo”, “morreu de quê”? Há flores e faixas dos colegas de trabalho: “Nestor, o melhor chefe do mundo”.

De repente, a filha mais moça retorna ao recinto e traz ao lado um cachorro preso à coleira. A filha mais velha lançou-se em sua direção, deu-lhe um abraço comovente, demorado como se não a visse há meses, depois se abaixou e acariciou o cãozinho que tinha um porte médio. Parecia o filhote de alguma raça, desses que ficam grande. Tinha o pelo marrom e os olhos cor de caramelo. A filha mais velha, ainda agachada, sussurrava sorridente para o cachorrinho. A irmã caçula tinha um sorriso de satisfação, o mesmo sorriso da viúva que manobrou sua cadeira de rodas até o animal. A filha mais velha se levantou e as três mulheres se abraçaram como se se tratasse de uma comemoração. A caçula passou a coleira às mãos da mãe. A viúva fez um giro de meia-volta e se aproximou do caixão. Pediu licença e falou aos convidados: “quero agradecer a todos que fizeram parte da vida do Nestor. Meu marido foi um homem feliz, mas foi feliz à nossa maneira e não à maneira dele. Quando nos conhecemos conversamos sobre alegrias e tristezas. Ele me contou que na adolescência teve uma tristeza grande, aquela que machuca a alma e permanece na memória pro resto da vida. Um dia chegou da escola e não ouviu o latido de seu cachorro. Seu pai decidiu dá-lo a um vizinho que morava noutro bairro. Disse pra mim que um dia voltaria a ter cachorro em casa. Mas quando nos casamos, embora ele realizasse meus sonhos e os de nossas filhas, eu não permiti que ele tivesse seu cachorro. Minhas filhas também diziam não. A vida passa rápido, as coisas são como são, ele merecia realizar seu sonho de criança. Alguns sonhos podem ser realizados. Quando o Nestor via um cachorro no quintal das pessoas seu olhar se transformava num olhar de menino”.

A viúva dizia aquelas palavras com um sorriso morno no rosto, que subitamente desapareceu para dar espaço a um rosto duro, pensativo como quem recalcula o tempo. A viúva fez um gesto, a caçula tomou a coleira e enrolou-a na mão gelada do pai.

Pois é

Eu não quero escrever ou falar de mim ou de minha mãe. Deixem eu abrir um parênteses, voltar no tempo e me ver dentro de um fusca que minha mãe dirigia com o rádio ligado… e isso aconteceu várias vezes, inclusive quando noutra época já estava com outro carro. Quando uma música acabava ela me perguntava “de quem é esta música”? Ela percebia que eu não sabia e dizia “essa é do Pixinguinha”. Cresci com aquelas perguntas e as respostas, não importava se estávamos dentro do carro ou dentro de casa. Se uma música tocava no rádio ou na TV, minha mãe sabia o nome do compositor e também queria que eu soubesse. Agora eu fecho esse parênteses daqueles saudosos anos 70.

Em 2004 eu estava em Cabo Verde, na África, para tocar no primeiro festival de jazz de Cabo Verde. Minha estadia lá e minha participação no festival podem até merecer uma história, mas eu prefiro falar de outra coisa. Em dado momento, numa manhã em que estávamos (músicos franceses, italianos, etc.), e eu também, diga-se de passagem, num restaurante para tomar nosso café da manhã, ouvi uma música que soava nas caixas fixadas no teto. Era “Brasileirinho”. Eu saboreava a música com um certo orgulho nacional, enquanto degustava um iogurte com granola. Quando a música acabou, ouvi dois franceses próximos a mim dizerem “Henri Salvador”. Eu levantei as sobrancelhas. E minhas orelhas se esticaram até eles. Eu queria saber se estavam comentando sobre Henri Salvador ser um compositor de Cabo Verde, ou… “sim, sim, esta música é de Henri Salvador”. Ou seja, mal comecei a xeretar a conversa e eles confirmavam entre si que “Brasileirinho” era uma composição de Henri Salvador. Ora, Henri Salvador é extraordinário. Sou fã. Mas o compositor de “Brasileirinho” é um brasileiro. Minha mãe e e sabemos disso. Claro que não me contive. Da mesa onde eu estava eu lhes disse um bonjour e fui direto ao ponto. Eu lhes informei que “Brasileirinho” não era uma composição de Henri Salvador. Um deles respondeu “Ah bon?”. É como se dissesse “Sério”? Eu respondi com a cabeça e com um olhar do tipo “pois é”. Mas o outro não acreditou em mim e disse que sim, a música era de Henri Salvador. Eu lhes perguntei se eles já tinha ouvido falar do nome Waldir Azevedo. Ambos balançaram a cabeça negativamente. Eu os encarei com as sobrancelhas levantadas como quem diz “pois é”. Fiz outra pergunta. “Que instrumento fazia o solo da música que acabámos de ouvir”? Um deles respondeu “cavaquííínhú”. “Voilà”, disse para lhes mostrar que eu concordava. Então lhes perguntei “qual é o nome da música”? O outro respondeu “Brasilerííínhú”. “Voilà”, concordei outra vez. Então lhes perguntei “se Waldir Azevedo era brasileiro, tocava cavaquinho e o nome da música era Brasileirinho, como Henri Salvador teria feito a música se não era brasileiro, nem tocava cavaquinho?”. Eles se entreolharam. Eu complementei. “Se a música fosse de Henri Salvador, ele teria que ter contratado alguém para escrever a partitura, ou alguém para tocar o cavaquinho, ou simplesmente chamar a música de “Cabo-verdinho”. Um deles disse “faz sentido o que você nos diz”. Eu acenei com a cabeça. E o outro disse “merci beaucoup”.

No ano seguinte (2005) eu estava na França para tocar piano no “Ano do Brasil na França”. Num dia de folga fui convidado por um saxofonista francês a ir até a casa dele para desgustar um churrasco. Enquanto a carne assava, ele colocou um vinil pra tocar. Entendi que ele queria me agradar, já que eu era um brasileiro em terras francesas e a música no vinil era “Desafinado”. Se eu estivesse no carro de minha mãe, lá nos anos 70, ela me perguntaria “quem é o compositor”? Lembrei-me da experiência que tive no ano anterior com os franceses lá em Cabo Verde. Antes de satisfazer uma certa curiosidade de perguntar ao francês anfitrião quem era o compositor da música que tocava, eu o agradeci por ter colocado na vitrola um vinil com a música “Desafinado”. Não sei se você prestou atenção quando no início deste parágrafo eu disse que um francês que tocava saxofone me convidou para um churrasco. A palavra-chave aqui é “saxofone”. A música “Desafinado” que ele colocou era instrumental e o solo era de saxofone. Eu já conhecia aquela gravação, mas eu queria puxar assunto e satisfazer aquela curiosidade secreta de saber se o francês conhecia o compositor. Então eu puxei assunto e disse “que solo bonito, parece um saxofone tenor”. Ele ergueu a garrafa de cerveja em direção ao meu copo e disse “voilà”. E complementou “j’aime beacoup ce musicien”. Eu perguntei quem era o músico e a resposta foi “Stan Getz”. Cheguei a me perguntar por onde andava o meu vinil do Stan Getz do tempo em que eu morava com meus pais. Sorridente, ele permaneceu no assunto e disse como se todo mundo soubesse que “Stan Getz foi muito feliz ao compor essa música”. Senti uma pontada, mas disfarcei. Em vez de corrigi-lo, eu apenas perguntei se eu podia ver a capa do vinil. Ele colocou a cerveja dele numa mesinha e foi lá dentro. Voltou com a capa e um sorriso. Afinal, era como se ele tivesse acertado no modo de agradar um convidado. Com a capa do vinil nas mãos, agradeci e corri os olhos atrás dos nomes de Tom Jobim e Newton Mendonça. Não estavam lá, nem mesmo os outros compositores das demais músicas. Na capa dizia apenas “Stan Getz Greatest Hits”. Perguntei-lhe se havia algum encarte, mas ele não se lembrava ou não sabia onde estava. Daí eu joguei o anzol e disse “eu queria ver o nome dos compositores”. Ele franziu as sobrancelhas como se eu, um músico, não soubesse que “Desafinado” era de autoria de Stan Getz. Ainda com suas sobrancelhas em pé me disse “cette musique a été composée par Stan Getz”. Eu lhe disse que eu tocava “Clair de lune” no piano. Ele não entendeu o que tinha a ver “Clair de lune” com “Desafinado”. Fiz de propósito. Falei-lhe que o fato de eu tocar “Clair de lune”, do compositor francês Claude Debussy não me dava o direito de dizer que a música era minha. E que “Desafinado” era uma música dentre outras gravadas pelo saxofonista Stan Getz, todavia os compositores eram Tom Jobim e Newton Mendonça. O francês ficou sério numa fração de segundos, e em seguida abriu um sorriso, ergueu sua cerveja e disse “salut à la musique brésilienne”.

Em 29 de fevereiro de 2014, no canal do youtube de “Erin Propp”, foi publicada a música “ O barquinho (Little boat)” com os créditos da composição destinados a Ronaldo Fernando Boscoli, Buddy Kaye e Roberto Menescal. Mas quem é esse nome “Buddy Kaye”? Este nome não é citado no site “Brasil imperdível” no link “história da canção o barquinho”. Mas se você sabe como funciona a indústria fonográfica, pode entender (a contra-gosto) porque este tal Buddy Kaye é citado como compositor. Foi um produtor e editor de músicas, citado no wikipedia também como “compositor”. A gente sabe que o pessoal mais desavisado confia cegamente em informações do wikipedia. A coisa não para por aí. Numa das edições do Real book, “O barquinho” está com o título em inglês “My little boat” e o compositor é um tal Imo Schmortz.

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Daí você digita esse nome no google e, obviamente, o dano está feito. Pois se está no google está no planeta Terra e você vai ver em sites da Alemanha a informação de que este tal Imo Schmortz é o compositor de “O barquinho”, ou melhor, “My little boat”.

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Como a internet é uma garganta aberta, a gente se depara de vez em quando com alguns vômitos, ou seja, porcarias. Num fórum da internet eu localizei um sujeito da cidade de São Francisco, Califórnia (CA) que mostrava o erro do “fakebook” (é o nome técnico para livros como o Real book), ao dar o crédito da composição ao tal Imo Schmortz. Daí, um sujeito de Levittown, Pensilvânia (PA), discordou e disse que o livro estava correto.

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Eu tenho em casa a quinta edição do Real book, e nesta edição já consta o nome de Roberto Menescal como compositor de “My little boat” (O barquinho).

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Como o livro foi feito por americanos, você não vai encontrar o título “O barquinho”, mas sim “My little boat”. E para os músicos do planeta Terra que adquiriram edições anteriores, muito provavelmente vão jurar de pés juntos que Imo Schmortz “é” o compositor dessa música brasileira.
Todo mundo quer assinar o que é bom.
Pois é!

Farlley Derze


04jun19, 09:11.

Vestígios

Fechou os olhos como quem fecha janelas para se esconder do mundo.

Dentro da escuridão de seus pensamentos brilhava um sorriso.

Colecionava sorrisos desde os onze anos de idade.

Tinha um conjunto de cadernos dispostos numa prateleira e organizados por ano. O primeiro deles tinha na capa o ano de 1974; o último tinha o ano atual onde registrou o sorriso mais recente.

No início anotava os sorrisos nas últimas folhas dos cadernos escolares; no ano seguinte pediu aos pais um caderno extra na lista de material escolar.

Quando registrava um sorriso, anotava o nome da pessoa. Todos os colegas de classe estavam catalogados. Ao lado de cada nome havia a palavra que classificava o sorriso de cada um: Eliane, verdadeiro; Fátima, falso; Hélio, falso; Nilton, verdadeiro.

Aos quinze anos, seu sistema de classificação já incorporava mais adjetivos: Cláudia, enigmático; Carla, frio; Dani, entorpecente; Priscila, falso; Ernesto, sonoro.

Abriu os olhos como quem tem fé, mas o sorriso dela não estava ali. Leu sua anotação:

2019, 2501, 2111 dm40efs, entorpecente.

Tinha aperfeiçoado o método de catalogação.

Somente dois sorrisos durante os anos tinham lhe perturbado. Agora, o terceiro.

Colocou o caderno na estante e permaneceu com a mão pousada nele, o braço esticado como o ponteiro de um relógio parado, o olhar fixado numa memória recente e uma taquicardia instalada sem vestígios de promessas.

Fluxos

Fluxos

O chiado de uma cigarra disputa sua atenção com o som da água do riacho que desliza atrás de você. Uma borboleta negra cruza a sua frente dentro do silêncio de suas asas, e pousa sobre uma pétala vermelha da única flor que eclodiu no jardim. Talvez por isso, não pela flor mas pelo pouso da borboleta, a cigarra reforça seu chiado como quem diz “presta atenção”. A borboleta negra une suas asas e agora ela mesma se parece uma pétala, pétala esquecida pela primavera porque já é verão e você carrega o inverno nos olhos. O riacho segue seu destino como quem nada tem a ver com isso, porque já estava ali antes de você, antes da flor, antes da borboleta ou da cigarra. Estava inclusive antes de centenas de primaveras, verões, outonos e invernos que vêm e vão, como qualquer coisa que nasce para depois desaparecer. Quando a borboleta cruzou a sua frente desenhou no ar algumas memórias de infância. Mas quando pousou e recolheu as asas, fez se calarem as memórias e o silêncio dos idosos se impôs como uma sombra.

Quantas flores de primaveras já secaram nas cabeceiras dos túmulos?

O riacho corre às suas costas com suas moléculas que fluem de mãos dadas, vindas de um lugar onde você nunca esteve e seguem unidas para outro lugar onde você nunca estará. Por ora, você está aqui como a flor, a cigarra e a borboleta. Ninguém sabe quem que se dá conta do outro enquanto o tempo os emoldura numa janela do espaço; ou enquanto o espaço os emoldura numa janela do tempo.

A cigarra está inquieta com seu cântico feito um minimotor elétrico. A borboleta permanece com suas páginas fechadas. A flor isolada no jardim sonha ter suas raízes beijadas pelo riacho que flui anonimamente.

Haverá um tempo em que outra pessoa estará aqui em seu lugar. Mas não chegará a tempo de ouvir a cigarra, nem conhecer esta solitária flor vermelha nem a borboleta negra que agora mexe suas antenas. Essa pessoa do futuro poderá, quando muito, caso venha, apenas escutar e ver o riacho que penteia pedras e espuma-se de segredos incompreensíveis.

A borboleta voou.

Credo poético

Escreverás para ela acima de todas as coisas.

Não assinarás teu nome em vão.

Guardarás a magia das madrugadas.

Honrarás paixão e amor.

Não apagarás.

Não farás rascunhos da vaidade.

Não imitarás.

Não confessarás falsidades nas entrelinhas.

Não desejarás a musa do próximo.

Não cobiçarás as poesias alheias.

A imperatriz

 

Hoje acordei de várias maneiras.

Na primeira vez ainda não havia luz lá fora. Só o silêncio e alguma incerteza.

Na segunda vez foi o som da chuva e os rascunhos de luz vazando pela cortina.

Na última vez o som da chuva era ainda mais forte. Fechei os olhos que olhavam para o teto e correntezas de lembranças começaram a me levar.

Passadas em alta velocidade, sob minhas retinas, tantas variedades de imagens, cores e sensações, indo e vindo na velocidade da chuva, de repente, tudo some exceto uma imagem. Puxo o lençol um pouquinho para me recobrir, e fico inerte entre as paredes e os sons das águas, quieto como o mármore, para resguardar aquela imagem que se fixou, vinda do fundo das outras.

Abaixo de minhas pálpebras, presa em minha respiração morna e lenta, eis o rosto dela.

Silêncio.

Uma imperatriz.

Gotejam os pingos em minha janela, ouço os sons e uma sinfonia inicia o seu tráfego, os seus acordes, notas transcrevendo um mapa de mistérios.

O rosto dela permanece, preenchendo toda a tela de minha visão.

Minhas pálpebras resguardam a bela imagem, como uma porcelana.

Rosto de pele branca, suavidade encoberta como um pêssego.

Sob os olhos emergem um promontório de sinais discretos que recobrem e transpassam o nariz, de um lado a outro, como uma discreta ferrugem.

Atrás de seu olhar repousam cabelos… tantos… quietos.

Composição feita de cor, sinais e olhar, suavidade e mistério.

Antes fosse apenas beleza com a qual se afeiçoam os homens.

Antes fosse apenas vontade de dizer e ouvir.

Antes fosse um truque com palavras e gestos.

Antes fosse uma sinfonia que começa e acaba, uma chuva que nos acorda e depois seca, uma luz que escapa, um dia que torna um homem feliz.

Antes fosse, tantas coisas possíveis.

Mas a poesia prefere o impossível, a prece, o intocável, o vivo.

Ontem ouvi a voz desta imperatriz.

Não lembro bem suas palavras, porque me dizia mais o próprio som.

Debaixo dos lençóis e das pálpebras, seu rosto e sua voz. Lá no fundo, a minha sinfonia predileta, minha respiração esquenta, acelera, o peito sobe e desce, minha pele se fragiliza como o tecido de uma bandeira presa ao vento.

Meu ritmo sai do compasso da música.

O rosto dela cresce em minhas retinas, cresce e se agiganta.

Aperto os lençóis, mordo os lábios, escuto o som da voz, meu coração interfere com seu ruído veloz, o ar desorganiza-se em minhas narinas, a bandeira e a ventania, seus olhos estão mais perto dos meus,

a fina ferrugem, o hálito juvenil, sou tragado e águas lá fora carregam folhas e outras incertezas.

Abro os olhos e … Silêncio entre mim e o teto, entre o quarto e a chuva que se foi há tempo.

Lá fora as folhas rolam entre o seco e o molhado.

Dentro de mim novas incertezas, e uma voz morna e escondida.

Dança dos ventos

Farlley Derze. Brasília, DF, 16 de novembro de 2011

Danca dos ventos

A saudade faz duas coisas com a gente: faz a gente olhar pela janela e permanecer ali por algum tempo, inerte, a desfolhar as páginas de um momento que agora percebemos como foi bom ter vivido, e então a segunda coisa é aquela palpitação dentro do peito, às vezes os olhos mareados, o ritmo diferente da respiração, como me ocorre agora ao ouvir dentro da mente a música “Dança dos ventos”. Eu acordei às 4h da manhã com uma pequena e indesejável crise alérgica, espirros, tosse, fui até a cozinha tomei um antialérgico e descongestionante, enfiei duas pastilhas efervescentes de vitamina C num copo d’água. Tomei essa bebida com duas torradas de pão de milho que pus para tostar enquanto exercitava a respiração para um melhor fluxo de ar. Deitei-me para tentar dormir, mas nada feito porque descobri nos primeiros 5 minutos que não conseguiria dormir de novo, então me levantei e liguei o computador para finalizar um texto sobre a música “O concerto dos sapos” que comecei dois dias atrás. No penúltimo parágrafo da primeira página onde cito alguns compositores e suas músicas, isto é, enquanto eu relia o que havia escrito, foi nesse ponto da leitura onde cito músicas como “Sinfonia nº 101 – o relógio”, “As quatro estações”, “Clair de lune” e “Trenzinho do caipira”, e a lista seria enorme para casos idênticos de compositores que buscaram descrever objetos, cenas, pessoas, animais, por meio de um ou mais instrumentos… foi nesse ponto da leitura que desejei inserir a música “Dança dos ventos”, e nesse momento a melodia dessa música invadiu a minha mente na forma que a ouvi pela primeira vez, e não na forma que hoje ouço quando a toco no piano. Então, enquanto a ouvia com o solo do violino acompanhado pelo baixo elétrico, a guitarra elétrica e a bateria, meus olhos já estavam para além da janela de onde eu estava sentado, às 4h30 da manhã, grudados na cena do passado que vivi. Saudade e vontade de rever o Simô (o autor da música, vocalista, guitarrista, violonista), Zeca Armesino (baixista), Mário (baterista, que se formou em odontologia) e André Araújo (violinista). Vou narrar a saudade que inundou minha mente ao som da “Dança dos ventos”. Era 1986. Eu tinha sido aprovado no vestibular para o Curso de Licenciatura Plena em Educação Artística, na UNIRIO. Antes das aulas começarem, resolvi ir na Universidade para conhecer os espaços, os prédios…e até o bairro, Urca, onde desembarcou Estácio de Sá para fundar a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em 1º de março de 1565. Eu fui criado em Guadalupe, subúrbio da zona norte, a 40km da Urca. Conclusão: 80km ida e volta todos os dias. Ao adentrar no espaço da universidade não encontrei ninguém desde a entrada do portão, o corredor que nos conduz por uma praça atrás da qual se encontram os prédios e suas salas de aula. Da praça vazia ouvi uma música que vinha lá do fundo de um dos prédios. Apressei o passo: havia gente ali, em pleno período de férias. Ao chegar na janela, pelo lado de fora vi os quatro rapazes, em idade próxima à minha, 20 anos, que tocavam como magnetizados pela música, mas hoje sei que magnetizado estava eu. Que música! …”Dança dos ventos”. Na época, por causa de minha timidez não tive coragem de me aproximar deles, aliás, fiquei escondido sem aparecer na janela, dava uma espiada ou outra quando aumentava a coragem, eu realmente achava que podia levar uma bronca. Isso tinha a ver com a criação que tive em casa. Entretanto, com o decorrer das aulas onde estudei com eles na mesma sala, fiz amizade com os integrantes daquele quarteto que se chamava “Solar”, uma banda de universitários que fazia apresentações na zona sul, e tinha um “compacto simples” gravado, que era um disco de vinil onde cabiam duas músicas de cada lado. Apenas o baterista, o Mário, não era estudante de música na UNIRIO, mas de odontologia noutra faculdade. Em dois anos eu já fazia parte do grupo que deixou de se chamar “Solar” e passou a se chamar “Aura vital”. Não me lembro quem mudou o nome tão pouco o motivo, mas com o novo nome veio também a voz feminina da Cacala (Maria Clara), além da minha entrada como tecladista. Fizemos juntos muitas apresentações nos espaços da zona sul da cidade, guardo até hoje os recortes de jornal com nossa foto, inclusive. Neste exato instante, enquanto a música trafega em minha mente estou na página do google, no link imagens onde digitei a palavra UNIRIO. Agora, enquanto ouço a música que navega junto com os meus olhos por essa janela a mergulhar na madrugada, vejo no site várias fotos da universidade, o portão envelhecido e suas grades de metal, me vejo ali outra vez sem a barba grisalha, sem os óculos de grau, sem as rugas das mãos, sem asma e sem saudade. Hoje a “Dança dos ventos” me carregou pela maquina do tempo até 1986, me fez cruzar a praça vazia em direção à janela da universidade onde estavam aqueles quatro rapazes de quem me tornei amigo tempos depois. Sigo o som da melodia e me vejo ali agora, escondido a espiar pela janela os gestos iluminados do André a correr seus dedos pelo violino, os olhos fechados do baixista Zeca Armesino, o sorriso quieto feito um rio silencioso do guitarrista Simô, autor da música “Dança dos ventos”, a sutileza do Mário na bateria onde flutuam suas mãos. Onde estarão nesse momento aqueles rapazes? Certamente grisalhos como eu. Meus olhos brilham  na luz do poste da madrugada que vejo pela janela, meus ouvidos estão grudados na dignidade daquele momento honesto de infância eterna que eu vivia ao som daquela música, e sem a qual não seria possível nem esse texto, nem essa saudade.


Magnética mente

Magnética mente

Cego cibernético
Visionário lunático
Estendo as mãos quando tu passas
Fecho os olhos quando não vens
Religiões tecnológicas
Aldeias sentimentais
Noites fictícias
Sonhos outonais
Penso que posso
Acredito no sim
Dirijo-me ao espaço
Deslizo nos bytes emocionais
Espelho-me à tua frente
Encaro-te silenciosamente
Calor subjacente
– “DEL , DEL, DEL” , por um triz qualquer história
Cintilam as cores configuradas
Desejo-te eterna em minha memória
Células imantadas
Eternidade binária
Tempo infinitesimal
Emoção real
Amor na forma primária
Pulsos eletrônicos
Impulsos ergonômicos
Cintilografias psíquicas
Dados imprevisíveis
Correspondências compactadas
Forma livre maior
Desejo plural improvisado
Algoritmos sentimentais
Plasma do novo mundo
Secreto ou indiscreto
Malha silenciosa
Sublimação dos impulsos
Eletrônica submersa
Telas plácidas
Mistério envolvente
Ar magnético reticente
Pulsam outros dedos
Logaritmos indigentes

O beijo

O beijo

Ontem eu cruzava um abismo quando achei um beijo caído sobre a ponte em que eu passava. Achei estranho um beijo largado ali, quem sabe alguém o perdera, quem sabe alguém o jogara fora. Estava no meio da ponte, lá nas alturas. Abaixei-me e apanhei aquele beijo. Há quanto tempo estaria ali? Estaria vivo ainda?

Ventava forte, ameaçava chuva e ainda me faltavam alguns metros para atingir o outro lado. Eu vinha de longa caminhada com uma mochila pesada nas costas que, naquela parada, pus logo no chão. O mau tempo me fez apressar as passadas de onde eu vinha e aquele momento sobre a ponte pareceu-me providencial, pois sentia mais leve as minhas costas enquanto estava parado com aquele beijo nas mãos.

Debrucei-me para ver as águas fortes em seu curso urgente. Olhei na palma de minha mão aquele beijo que sequer se movia, e pensei que a única coisa a fazer era atirá-lo lá embaixo até vê-lo sumir nas espumas que se enfumaçavam entre as pedras. Olhei-o uma última vez mas antes que eu o fizesse, um vento forte arrancou-o de minha mão.

A queda era grande e eu, estático, via o seu mergulho sem volta.

O estrondo das águas em fúria fez-me ter tamanho remorso e vê-lo ainda em queda, tão solitário, não pude crer na minha intenção desumana. A única coisa que me restava era mergulhar atrás dele e recuperá-lo. Então lancei-me das alturas naquela imensidão no mesmo instante em que o céu rasgou-se em grossa tempestade.

Lá em cima minha mochila abandonada sobre a ponte, encharcava-se. Lá embaixo meu corpo encontrava as rochas mas nunca mais o beijo.

Ali permaneci.

O beijo, que apenas dormia, saiu na carona das águas rumo aos lábios acordados.

A vela

A vela

Luz da vela e sombras que gesticulam na parede. Formas que se evaporam no cimento inerte, vultos que dançam na tela dissimulada. A fumaça escoa manchando o ar. Cheiro de fogo e fumaça com cera derretida. Luz impaciente, debate-se presa ao pavio, deseja sua vida e estar viva na aurora. Por isso se gesticula tentando estar livre do breve destino que se esgota no pires.
O pires, alheio e anônimo na penumbra do quarto, ampara a vela e receberá o clamor da chama no instante derradeiro, em que desfar-se-ão todas as sombras – recentes tentáculos da escuridão.
A cera impregnada na porcelana se acumula enquanto a chama clareia.
Claridade discreta e duvidosa.

Lacrimeja a vela. Chora, chora porquanto incendeia. Luz da vela que luta pela eternidade. O pavio, carbonizado e conformado, não lhe dá trégua. Aprisiona a pobre chama.

E a vela se derrama sobre si própria enquanto pingam estas palavras de meus dedos.

Luminosidade frágil que ilumina esta página, a vela ataca-me com sua luz amarela de intensidade reticente. Sou cúmplice de seu inevitável destino. Do contrário ela ainda estaria na gaveta, pálida e fria. Mas dela eu preciso para escrever estas linhas na escuridão noturna.

Aqui, sozinho neste quarto, na companhia vaga das sombras, vago os olhos na chama e sua cercania. Vejo o contorno do pires e sua superfície onde quase lhe toca a chama. Ou melhor, onde já lhe toca a chama. E agora surge a fumaça mais negra e densa, e seu cheiro que avança me condena neste instante derradeiro. Observo a chama. Quase chama.

Tudo se mistura em total anarquia, tal como o grito – língua, boca e garganta. Lá estão unidos no seu espanto a diminuta vela, o pavio, a chama e a porcelana. A cera agora parece um tumor.

E a chama…

Quase que…

Quase…

Agonizam todas as sombras, agonizam todas as sombras, agonizam todas as sombras.

Nada vejo.