Joyce Flynn

Joyce Flynn, uma mulher que tinha trinta e dois anos, morava em Greenfield, no estado de Utah, desde que nasceu. Recém-nascida, virou assunto na cidade. Seus olhos eram azuis como os da mãe, mas de quem herdara a pele mestiça? Pai e mãe tinham a pele branca como a de qualquer mórmon.

Quando foi para a escola, que funcionava na igreja, seu silêncio também era assunto na cidade. 

O padrasto de Joyce era coveiro no cemitério e vivia embriagado. Ele teve uma infância esquisita e sua história merecia ser contada por alguém.

Com seus trinta e dois anos Joyce era baixa e um tanto gordinha. Seus olhos azuis eram pequenos e pareciam duas gotas solitárias. Seus ombros não eram tão largos quando era magra. Tinha os cabelos dourados e compridos até o meio das costas. Continuava calada, mas dentro dela havia um vulcão permanente desde que descobriu o amor de sua vida.

Quando era uma adolescente de quinze anos, Joyce se encantou com um rapaz. O rapaz, chamado Brian Lincoln, tinha vinte e um anos. Ele trabalhava no Greenfield Daily, o jornal da cidade e sempre que podia o rapaz ia vê-la à noite. Juntos caminhavam pelas ruas ao longo dos postes, trocavam dúvidas e anseios sobre o futuro de suas vidas. Joyce, naquela época, era uma menina muito bonita e Brian, mais experiente, sabia como tomá-la nos braços e beijá-la. Quando a abraçava, ele sentia as taquicardias dos homens e dizia palavras que não tinha planejado dizer. Joyce, fisgada pelos braços fortes e pela barba cerrada do rapaz, afeiçoada ao sonho de um romance perfeito que a tirasse da mesmice daquela cidade, excitava-se e mais de uma vez questionou sua virgindade. Encostados numa árvore mais afastada ou atrás de um muro, Joyce escutava palavras que o rapaz dizia e mexiam com sua lucidez, sua pele exalava o vapor quente das adolescentes indóceis. Toda sua quietude desabava e ela naufragava nas emoções de ter encontrado um amor único, um amor puro, eterno e verdadeiro.

Um ano se passou e Joyce completou dezesseis anos. Uma semana depois, Brian foi para Portland onde acreditava que poderia conseguir uma vaga no maior jornal da cidade. Queria crescer na vida. Ela quis ir embora com ele e lhe disse: “Numa cidade grande eu posso trabalhar e juntos economizaremos o bastante para comprar nossa casa. Podemos viver sem estarmos casados. Ninguém nos conhece lá, não vão prestar atenção para fofocar sobre nossas vidas”. Brian não esperava aquela disposição de sua amante. Era assim que via a menina. Todavia, com aquela declaração, sentiu apreço pelos sentimentos dela mas não estava em seus planos levá-la. “Você não sabe como é a cidade grande”, ele disse de um modo um tanto indelicado; “não posso permitir que você passe qualquer necessidade, não estarei tranquilo se você for. Assim que eu estiver estabilizado, volto para te buscar”. Brian pegou no queixo dela com ternura, olhou em seus olhos e concluiu: “Fique aqui e me espere”.

Na noite que foi a véspera de sua partida, Brian arranjou uma carroça e buscou a garota para um passeio pelos campos, conforme tinham combinado. A lua brilhava no céu e ambos estavam tristes. Não diziam nada. A carroça passava entre árvores escuras, depois cruzou um campo aberto com o céu estrelado e chegou às margens do riacho Waterfield. Desceram da carroça. Havia o som da água cintilante sob o luar, havia uma brisa silenciosa e uma aflição no olhar. Sem testemunhas, amaram-se.
Passava da meia-noite quando estavam de volta à cidade. Havia uma espécie de felicidade em suas almas. Nada no futuro poderia arruinar tal sentimento. Estavam em êxtase. Era um momento sublime. Joyce desceu da carroça com sua mão agarrada à mão dele. “Vamos proteger nosso amor, não importa o tempo que passe. Precisamos fazer isso”, disse Brian. Ela lhe respondeu com um sorriso de anjo e um olhar de fé. Quando as mãos se soltaram ela soprou sobre a palma de sua mão. Um beijo invisível foi em direção ao seu amado. Brian esperou que ela entrasse na casa dos pais.

Ele não conseguiu o emprego que tanto queria, em Portland. Após um mês e meio, frustrado, decidiu conseguir qualquer coisa noutro lugar. Então seguiu para o norte, ao Canadá. Conseguiu hospedar-se numa pensão. Com pouco dinheiro, pagava sua hospedagem com aulas de gramática para o filho único dos proprietários da pensão. À noite, escrevia cartas para Joyce. Sentia-se solitário. Sua dor aumentava quando via lua. Era como um pedaço de neve no céu. Era também um pedaço de saudade. No final de cada carta, copiava um dos poemas de um livro que foi proibido pela igreja, de autoria de um padre medieval espanhol, Padre Juan Ignácio de Albarracín.

“Magnífica solidão”
“Toda e qualquer distância é cúmplice do sentimento que me invade agora. Estou como nem pude imaginar, acorrentado pela saudade, amordaçado pelo último beijo, refém do amor que me pune pelas horas que não te tenho. Sinto-me no alto de uma torre esquecida em algum deserto, e a vidraça mal cuidada da janela permite-me assistir a meu insólito destino sobrevoar a linha triste do horizonte. Meu grito ecoa pelo aço dos sinos de uma igreja em ruínas. Pensar em ti enche minhas artérias de vida na ilusão de ver rompido o meu abandono pelo rasgo do teu sorriso. Quando vem a noite e ela esparrama em mim sua imensidão, agarro-me à lembrança dos teus olhos”.
(Jefé Mavi, 1498).

P.S. O Padre Juan Ignácio de Albarracín assinava seus textos com o pseudônimo Jefé Mavi, mas foi descoberto e perseguido pela inquisição. Sou grato a este monge medieval por escrever o que eu gostaria de te dizer, meu amor.
Brian L.

Joyce recebia suas cartas durante alguns meses. Brian, aos poucos, conhecia outras pessoas na cidade. Fez amizades e desenvolveu interesses por jogos de cartas e música. Comprou um violão. Na pensão em que vivia, já dava aulas de gramática para os filhos da vizinhança. Numa noite qualquer, enquanto lia um livro sentado num sofá da recepção da hospedagem, viu quando chegou uma mulher jovem, cabelos castanhos crespos. Ela entrava sozinha com sua mala. Chegava de Fênix, no Arizona. Ainda não tinha anoitecido. Brian ficou ali até o momento em que a linda mulher voltou de seu quarto e foi ao restaurante da pensão. Devia ter a idade dele. Ele fechou o livro de poemas do padre medieval e foi atrás dela. No restaurante da pensão, aproximou-se e conversaram. Ela estava em busca de uma nova vida e, por isso, mudou-se para o Canadá. Cansou-se da violência de sua região onde havia conflitos por causa da exploração de cobre e prata. Ficaram amigos e aquela relação se intensificou. Brian parou de escrever cartas para Joyce. A verdade é que já não se interessava mais por ela.

Depois de quase um ano sem receber notícias de seu amado, sem receber respostas para as cartas que escrevia, Joyce enviou-lhe uma carta pela última vez.

9 de setembro.
Hoje descobri que o futuro não existe. Meu futuro foi desinventado. Eu pensava que viver o presente era fazer planos para um futuro certo. Acho que entendo. O passado ficou lá atrás como todos os passados ficam. O presente vem num dia de cada vez e o futuro é um tipo de esperança. Neste momento penso em você. Desde que estive com você eu penso em você, e como não estás aqui o futuro também não está. Descobri que a palavra eternidade é gêmea do passado, e o futuro são restos de coisas que aprendemos a colecionar antes da hora.

Hoje acordei mais cedo. Ouvi um galo cantando, devia estar a quilômetros de distância porque o canto dele chegava sem eco. Eu me levantei. O céu já mostrava a cor do sol prestes a nascer. Caminhei até a cozinha, fiz um café e comi um pedaço de bolo de milho, aquele que você gosta. Fui até a varanda e a rua mal iluminada não tinha os rastros da sua carroça. Com certeza não tinha. Você está agora em algum lugar. Eu queria que o futuro existisse.
Chame do que quiser: paixão, amor, loucura, insanidade, agonia, incerteza, taquicardia, ansiedade, ou simplesmente: você.
Você tem visto a lua?
J. F.

A carta chegou, mas Brian nunca a abriu. Já não tinha interesse no conteúdo. Jogou-a fora como fez com as outras. Fechou a tampa da lixeira e disse em voz alta: “as coisas são como são”.

Em Greenfields, a menina que ouviu promessas e se sentiu amada, completava dezessete anos. Viu seu padrasto morrer de cirrose hepática. Sua mãe conseguiu-lhe um emprego no Correio da cidade. Joyce vendia selos e aprendeu a suportar sua rotina. Certas vezes, algo acontecia em sua cabeça porque além de vender selos, lia com um olhar secreto os nomes de todos os destinatários nos envelopes. Embora o tempo passasse, ela não conseguia acreditar que Brian não voltaria.

Decidiu juntar dinheiro. Pois chegaria a hora de partir para reencontrar seu amor. Iria até onde fosse necessário. Tinha certeza de que ao reencontrá-lo o ganharia para sempre. Por nutrir tal desejo, chorava escondida muitas vezes a qualquer hora do dia, pois se arrependera de ter escrito as palavras que escreveu em sua última carta. Talvez por isso ele nunca lhe tenha respondido. Com vergonha, nunca lhe enviou outra.

Joyce se lembrava com orgulho o que aconteceu entre eles à beira do riacho naquele luar. Tinha certeza de que não seria esposa de nenhum outro homem. Quando percebia o interesse de outros jovens julgava abominável a ideia de entregar a eles o que pertencia a Brian. Seu corpo e sua alma pertenciam a um único homem. Quando andava pela rua, às vezes dizia em voz alta “o nome do meu marido é Brian, seja lá onde ele estiver”. As ideias que começavam a circular sobre a mulher ser dona do próprio destino, era algo incompreensível para ela.

Joyce trabalhava no Correio das 9h às 17h. Tinha uma hora de almoço. Tempo suficiente para ir em casa e voltar. Sua mãe gostava de frequentar as festas de música country e não perdia nenhum rodeio nos finais de semana. Depois de ficar viúva do coveiro alcoólatra, entendeu que ser uma mulher moderna significava dormir com os caubóis que quisesse. Quando ouvia Joyce chorando no quarto, achava que a filha sentia desgosto dela. A Sra. Elizabeth Flynn, gritava com frequência pelo corredor coisas como “esse choro não serve pra nada, trate de arranjar um marido, você está ficando velha e vai acabar tendo que se pendurar em algum viúvo desse fim de mundo”; noutras vezes apenas murmurava atrás da porta da filha “prometo que nenhum vaqueiro volta a pisar aqui, minha filha”.

Os anos se passavam e a solidão inventava novos hábitos nela: o primeiro deles foi substituir o choro pelo hábito de escrever cartas ao seu amado. Mas nunca as enviou. Havia cartas acumuladas embaixo da cama, cartas soltas no guarda-roupas, dentro das botas, dentro das gavetas dos móveis, …cartas dentro das fronhas. Outro hábito era fazer orações quando tinha insônia, dizia palavras parecidas com aquelas que lhe foram ditas no riacho enquanto era possuída por Brian. O velho hábito de juntar dinheiro para ir procurá-lo ainda existia, mesmo depois de ter abandonado essa ideia. Com o passar dos anos, tinha uma soma considerável de dinheiro. De vez em quando tinha surtos: “amanhã mesmo vou embora e Brian ficará feliz em me ver”; e noutros momentos dizia “onde você está Brian”? E ao contar seu dinheiro sua voz na cabeça dizia “tenho dinheiro suficiente para cuidar de mim, dele e de quantos filhos tivermos”.

Desde que se encantou por Brian até seus dezoito anos, nada tirava suas certezas sobre o significado do amor. Na manhã em que completou dezenove anos, amanheceu chovendo. Era um domingo. Duas coisas inesperadas aconteceram. A primeira delas se deu quando foi até a janela. A chuva escorria pela vidraça. Joyce usou uma das mãos para limpar a janela embaçada. Na área que ficou transparente encostou sua testa e aguçou os olhos como se tivesse escutado a voz dele. “Estou aqui meu amor”, imaginava. Lembrou-se de quando sua mão estava agarrada à dele, ao descer da carroça, e ele disse “fique aqui e me espere”. Ela passou a mão outra vez na janela embaçada. A chuva estava espessa, mas ele haveria de surgir numa carroça, descer com pressa e cruzar as poças de lama com seus passos firmes até sua porta. Ela foi até a porta e abriu-a. Uma rajada de vento frio e chuva tomou conta do seu rosto. Não havia ninguém ali. Ela fechou a porta sem nenhuma pressa. Enquanto a fechava cresceu em seu peito um sentimento novo, algo inesperado: o medo. O medo de que ele nunca mais voltasse. Com a porta fechada, sentiu uma lágrima morrer em sua boca. Passou a mão no rosto e foi até a cozinha. Caminhava como se houvesse uma algema nos pés. Na cozinha se deparou com outra coisa que jamais lhe ocorrera imaginar: havia um bolo de milho e um bilhete ao lado.

3 de agosto.
Querida filha. Estou na casa do Joe. Não me procure. Iremos viver num rancho, no Colorado. A casa agora é toda sua.
P.S. Feliz aniversário.

No ano seguinte, quando surgiu o céu da primavera, os pastos, as montanhas, o riacho, as árvores, o ar, tudo era um convite para se aproveitar a vida. Fazia quatro anos que ela não saía das fronteiras da cidade. Era feriado de quatro de julho. A cidade estava enfeitada. Joyce escolheu um vestido florido, desses que os rapazes gostam de ver numa garota de dezenove anos. Ao mesmo tempo, não queria conversar. Caminhou no sentido contrário ao da festa, em direção aos campos. Quando os sons do vozerio se tornaram rarefeitos, quando o silêncio do vento abraçou o silêncio de sua voz, então escolheu um lugar para se sentar. Puxou o vestido acima dos joelhos. Notou alguma diferença em suas coxas e, antes de pensar que poderia estar engordando, foi tomada pelo pensamento da idade. Daqui a pouco faria vinte anos, depois trinta e logo estaria de fato velha. Apavorou-se. Levantou-se de uma vez. Puxou o elástico do decote e mirou os seios. Olhou a palma das mãos, depois passou a mão no rosto, depois examinou o tamanho de seu cabelo e confirmou que ainda era jovem e quando chegasse em casa jogaria no lixo aquela pilha de cartas guardadas e que nunca enviaria. Aquela sensação ruim que tivera quando abriu a porta naquela manhã chuvosa, veio à tona debaixo daquele sol morno das nove da manhã. Era óbvio que foi abandonada. Um grito estava prestes a voar de sua garganta. Baixou os olhos. Lá dentro, ela sabia que Brian não tinha culpa de nada. Nem mesmo ela era culpada. As coisas são como são.
“Não vou mentir para mim”, disse em voz alta, enquanto caía de joelhos na grama com o peso daquela lucidez. Ergueu os braços para o céu e pela primeira vez, desde que perdera seu amor, gritou. Gritou para ser ouvida por Deus. Gritava perguntas: “por que, meu Deus, por que fui abandonada”? Depois gritou mais alto uma convicção que rasgava sua voz: “Eu sei que nunca serei feliz, nunca”. Seus braços tombaram e seu corpo se inclinou além dos joelhos. Ela mergulhou o rosto na grama que escondia um choro preso e cortado por soluços desesperados. Quando se levantou, ajeitou seu vestido e tinha um certo olhar de alívio. Na verdade, era um olhar triste, derrotado, mas preferia pensar que estava aliviada pela coragem de finalmente enfrentar a realidade.
Voltou para casa. A caminhada de quase uma hora foi suficiente para que ela desistisse de jogar fora as cartas. Ao contrário, resolveu abri-las uma a cada dia, depois que chegava do trabalho. Os meses se passaram e, após ler todas, ela as tinha organizadas por data. Então, releu-as outra vez em ordem cronológica.

Quando fez vinte e cinco anos, recebeu uma carta de sua mãe. Estava feliz porque tinha mandado o Joe “para os quintos dos infernos” e tinha se casado com o dono de um cassino, no Texas. O Cassino era clandestino. Funcionava nos fundos de uma funerária que também era de propriedade do novo marido. O envolvimento de sua mãe com os homens pareciam sublinhar seu isolamento. Quando acabou de ler a carta chegou a pensar: “Quando Brian chegar e me encontrar assim, gorda, não vai me querer”. Em sua rotina no Correio, observava os clientes e pensava: “Os homens ficam melhores com a idade, mantêm um vigor no sorriso, a voz fica firme e as mulheres jovens os disputam”. Quando observava as mulheres no mercado, não via diferença dela com as outras.

Quando o proprietário do Correio faleceu, seu filho mais velho decretou que a loja ficaria fechada por dois dias. Era um jovem de trinta e dois anos, um homem de beleza rara naquele lugar. A cidade toda compareceu ao velório realizado dentro da Igreja. Taylor Jr. e suas irmãs, mais jovens que ele, recebiam os cumprimentos quando ele notou que Joyce caminhava em direção à saída da igreja. Deixou as irmãs com as pessoas que faziam fila para apresentar condolências, e correu pela porta lateral para alcançar a funcionária predileta de seu pai. Prestes a virar a esquina, ela ouviu os passos dele e parou. Tinha os olhos vermelhos e disse ao rapaz: “vou sentir falta do Sr. Taylor”. Notou que o filho usava o mesmo bigode do pai, uma linha fina sobre o lábio superior. Taylor Jr. lhe agradeceu: “Muito obrigado por sua dedicação ao trabalho que meu pai ergueu quando chegou nessa cidade. Após os dois dias de luto, gostaria de conversar com você a respeito do Correio. Vamos precisar de alguém para tomar conta e administrar os funcionários. Espero que pense no assunto. Até logo”.

Joyce aceitou sua nova posição. Na ausência do velho dono, o Sr. Milton Caldwell, um amigo de infância do pai de Brian, a esperou do lado de fora no final do expediente numa sexta-feira. Ele a abordou antes que ela atravessasse a rua principal. Todos se conheciam na cidade. Ele não era um estranho. Ela aceitou o seu convite para lancharem na sorveteria da família Thompson. Não era segredo pra ninguém o interesse dele naquela jovem. O Sr. Milton era um fazendeiro com muitas posses. Tinha terras na região do Arizona e no Colorado. Por ser ateu, sabia que o falecido Taylor jamais permitiria que sua funcionária, órfã de um pai desconhecido, criada por um padrasto alcoólatra e uma mãe desvairada, se casasse com pessoas que não temessem a Deus. E, principalmente, pessoas ligadas à disputa de terras com algumas mortes suspeitas na região. O Sr. Milton não poderia negar que uma vez, com certeza, se viu obrigado a puxar o gatilho. Noutras vezes o que estava em jogo era o conforto material de sua família.
Enquanto caminhavam na rua, e depois dentro da sorveteria, Joyce não percebia o olhar de cumplicidade das pessoas. Finalmente, “a moça virgem”, como era chamada pelas costas, estava acompanhada. O velho pensava em silêncio “posso levar esse rosto bonito ao lar dos Caldwells”. O Sr. Milton Caldwell não foi direto ao assunto, ela tampouco se interessava pelo motivo do convite nem pelo que ele estivesse dizendo. Ela tomava seu sorvete enquanto ruminava na cabeça: “não aceitarei que isso se torne um hábito”. De vez em quando dava um sorriso teatral para o velho. Ele retribuía com os olhos arregalados, como se sua conversa tivesse aprovação, e quando se sentia aprovado passava a mão no cavanhaque. Enquanto sua boca se mexia para falar não importa o quê, Joyce pensava “eu posso consentir que ele me leve em casa algumas vezes. Isso não é nenhum pecado. Meu Brian vai gostar de saber que um homem rico se interessou por mim, e que eu mantive meu corpo guardado do jeito que ele deixou”. De repente, o Sr. Milton soltou uma gargalhada, rindo de algo que falou e achou engraçado. Joyce reagiu a tempo com um sorriso mudo. Quando o Sr. Milton a deixou em casa, perguntou se podia ir buscá-la no Correio no dia seguinte. Ela abriu um sorriso angelical, seus olhos azuis estavam mais azuis e sua voz parecia a voz de um anjo. Respondeu: “meu marido não vai gostar”. Deu-lhe as costas, entrou em casa sem olhar pra trás com o objetivo de reler aquelas cartas que nunca enviou.

Quando estava com trinta e dois anos, passou a conversar com os objetos. Antes eram apenas os objetos de seu quarto. Conversava com o abajur depois de apagar a luz, ouvia conselhos de uma boneca antiga. Depois passou a conversar com tudo que não se mexia em toda a casa. Certa tarde discutiu aos palavrões com as lâmpadas de todos os cômodos. Naquela noite a casa ficou mergulhada no escuro. Quando se deitou soube que estava gorda de verdade. Resolveu que queimaria as cartas no dia seguinte. Era sexta-feira. Decidiu tomar seu café da manhã e não ir trabalhar. Depois do café, andava pela casa como quem anda num labirinto. Ligou o rádio. Dançou um tango com a vassoura. Depois da música veio a notícia de que Hitler invadira a Polônia durante a madrugada. Ela ergueu o cabo de vassoura e foi para a porta dos fundos do quintal. No lugar onde um dia seu padrasto organizou um jardim, havia uma matagal que quase não deixava se ver o céu. Ela apontou o cabo de vassoura pra lá e com a boca cheirando a café gritava: “morram, morram, morram”, com sua metralhadora de madeira. Quando se viu suada e sentiu calor em suas gorduras, levou o cabo de vassoura até seu quarto. Colocou-o apoiado no guarda-roupas. Pediu que ele não se mexesse e com o indicador nos lábios, pediu silêncio. Abaixou-se de joelhos e olhou para debaixo da cama. Puxou uma mala, depois outra e outra e outra até conseguir puxar um vestido enrolado. Levantou-se com dificuldade. Sentou-se na beira da cama com a respiração dificultada e desenrolou o vestido até surgir um envelope. Mostrou-o ao cabo de vassoura e fez outra vez o gesto de silêncio. Disse: “vou ler esta carta”. O cabo de vassoura permanecia imóvel. inclinado numa das portas do guarda-roupas. Ela abriu o envelope e tirou a carta que escrevera naquele quatro de julho. Abriu o papel que estava dobrado e o leu:
“Faíscas, lampejos, vácuos, clarões, estrondos, espaços, labirintos, texturas, fumaças, desejos, ritos, segredos, explosões, vidraças, brisas, sal, doce, espumas. De que mais é feita a alma humana ”?

Ao final da leitura, balançava a cabeça pra lá e pra cá, num gesto de incompreensão. Como se alguém lhe dissesse algo que não entendia. Sem perceber amassou a carta. Levantou-se da cama com a carta dentro da mão. Tomou o cabo de vassoura e disse : “venha comigo”. Foi ao banheiro. Apoiou o cabo de vassoura ao lado do espelho. Colocou a carta amassada entre os dentes. Tirou toda sua roupa e contemplou sua nudez diante do espelho. Não conseguia ver o corpo inteiro. Deu um sorriso feliz, com a carta presa aos dentes, ao ver seus mamilos rosados. Deu as costas ao espelho e foi até a banheira. Encheu-a. Observava a água com a carta presa à boca. Sua mente repetia a lembrança daquela noite à beira do riacho. Apertou os olhos quando se lembrou da barba cerrada em sua nuca de menina… arregalou os olhos ao recordar aquelas palavras, aquelas promessas saídas da boca úmida, quente e única do seu único amor. Quando a banheira transbordou, ela ainda estava naquela noite dentro do seu vestido, mas ele o retirou e a tomou nua nos braços. Deitaram-se de corpo e alma. Olhava a lua enquanto era amada. A água da banheira já escorria para o corredor. Ela tirou a carta da boca com uma mão e com a outra fechou a torneira. Foi até o espelho para pegar o cabo de vassoura e entrou com ele na banheira. Abraçada ao objeto, cochichava palavras proibidas, depois o encostava no ouvido para escutar suas confissões, soltava gargalhadas, beijava-o e dizia “é nosso segredo, o Brian não pode saber”. Dava beijos avulsos na extensão do cabo e, subitamente, o arremessou para fora da banheira. Berrou: “sou mulher de um homem só, seu desgraçado”.

Seu corpo foi encontrado submerso e sem vida, com os olhos abertos como quem olha a lua daquela noite.

Nestor

Nestor

Contar histórias é uma maneira de manter as pessoas unidas. A televisão contou a história do homem pousando na lua, uma história contada com imagens em preto-e-branco. Eu vi. Meu vizinho Nestor deve ter visto. Depois daquilo, todos os meninos da minha idade, naquela época, sonharam em pisar na lua. Mas morar no subúrbio do Rio do Janeiro não facilitava a realização de um sonho assim. Sonhar em beijar a Carolina, ok, era possível. Saber dançar ou jogar cartas já era meio caminho andado. Mas não quero falar do homem na lua nem da Carolina. Quero falar do Nestor, meu vizinho. Taí um cara que eu gostaria de ter conhecido, tomar um café com ele, ouvir suas histórias.

Nestor tinha um metro e setenta, nem gordo nem magro, passou a usar óculos depois dos quarenta, ganhou uma calvície também, e antes dessas transformações trabalhava como carteiro. Depois se casou, veio a primeira filha, depois a segunda, então precisou mudar de emprego, viu um anúncio no jornal e conquistou uma vaga de supervisor numa fábrica de refrigerantes. Isso foi em 1989, estava com vinte e nove anos, tinha a esposa na mesma idade, uma filha de quatro anos e outra com dez meses. Sua vida como supervisor não interessa tanto, basta dizer que foi muito bem sucedido, era disciplinado, organizado e muito educado. Portanto, nada podia dar errado em sua ascensão profissional. Assumiu o cargo de diretor numa das filiais ao completar quinze anos de empresa. Com tais virtudes, dá para concluir que sua vida familiar correu às mil maravilhas para a esposa e as filhas, mas nem tanto para ele próprio. Sempre abria mão de tudo para satisfazê-las. Convenhamos: isso é triste. Numa família todos merecem realizar seus sonhos ou suas vontades na medida em que fazem por merecer. E Nestor merecia qualquer coisa que desejasse. Entretanto, com a mesma sutileza com que realizava os sonhos da mulher e das filhas, mentia para si mesmo. Inventava no silêncio de sua cabeça que seus sonhos não tinham importância. Eu era seu vizinho e, como vivo preso no meu umbigo, nunca lhe disse “bom dia, Nestor”. Aliás, eu só soube que se chamava Nestor porque li na coroa de flores ao lado de seu caixão. E tudo isso que contei a respeito dele escutei da boca dos outros aqui no velório.

Dois dias atrás, às duas horas da madrugada, acordei com gritos vindo da casa dele. Você pode imaginar três mulheres aos gritos de choro e desespero no meio da madrugada? Abri a janela que dava para a casa do vizinho e vi luzes acesas. Eu imaginei o pior, e estava certo. Porém, usei do meu egoísmo, balbuciei que não tinha nada a ver com aquilo, nada a ver com eles, fechei a janela, ajeitei o travesseiro e puxei o cobertor. Eu de fato estava com sono e de fato sou egoísta. Dane-se o mundo. As coisas são como são. Mas alguém tocou minha campainha. Era a filha mais velha do vizinho. Já me esqueci do nome dela. É aquela na cabeceira do caixão, com óculos escuros, vestido preto e cabelo loiro preso como rabo de cavalo. A outra filha saiu faz meia hora. Só sei disso porque coincidiu de vê-la sair quando olhava meu relógio. A caçula certamente voltaria, “só saiu pra tomar um ar”, pensei.

Quando a campainha tocou e me pediram ajuda eu fui até lá e vi o vizinho caído no chão da cozinha. Aproveitei para dar uma olhada na casa, pareciam viver muito bem. Os óculos dele estavam ao pé da geladeira, as mãos pousadas no piso em forma de concha, caiu de barriga pra baixo, tinha uma calça de pijama comprida, era azul com listras brancas, uma camiseta da hering, os pés descalços e estava ali, morto, estirado. Exalava um aroma daqueles sabonetes de cor marrom, não lembro o nome agora. Na minha idade, talvez a mesma do Nestor, as palavras vão e vêm.

Depois de auxiliar a viúva com telefonemas para empresas funerárias, prometi-lhe, num ato irracional, ficar ao lado da família para tudo que precisassem naquele momento. Vamos concordar: é difícil para uma mulher com mais de cinquenta anos, que se desloca numa cadeira de rodas, lidar com o marido morto no chão da cozinha, sobretudo com as filhas aos prantos, aos gritos, histéricas.

As pessoas circulam ao redor do caixão. Eu me pergunto “e se fosse comigo”? Sou um velho solteiro. Quando eu morrer, quem dará o alarme?

Levanto-me e vou até o morto. Ouço os cochichos: “morreu sem ver o time dele campeão”, “nunca destratou ninguém ”, “morreu cedo”, “morreu de quê”? Há flores e faixas dos colegas de trabalho: “Nestor, o melhor chefe do mundo”.

De repente, a filha mais moça retorna ao recinto e traz ao lado um cachorro preso à coleira. A filha mais velha lançou-se em sua direção, deu-lhe um abraço comovente, demorado como se não a visse há meses, depois se abaixou e acariciou o cãozinho que tinha um porte médio. Parecia o filhote de alguma raça, desses que ficam grande. Tinha o pelo marrom e os olhos cor de caramelo. A filha mais velha, ainda agachada, sussurrava sorridente para o cachorrinho. A irmã caçula tinha um sorriso de satisfação, o mesmo sorriso da viúva que manobrou sua cadeira de rodas até o animal. A filha mais velha se levantou e as três mulheres se abraçaram como se se tratasse de uma comemoração. A caçula passou a coleira às mãos da mãe. A viúva fez um giro de meia-volta e se aproximou do caixão. Pediu licença e falou aos convidados: “quero agradecer a todos que fizeram parte da vida do Nestor. Meu marido foi um homem feliz, mas foi feliz à nossa maneira e não à maneira dele. Quando nos conhecemos conversamos sobre alegrias e tristezas. Ele me contou que na adolescência teve uma tristeza grande, aquela que machuca a alma e permanece na memória pro resto da vida. Um dia chegou da escola e não ouviu o latido de seu cachorro. Seu pai decidiu dá-lo a um vizinho que morava noutro bairro. Disse pra mim que um dia voltaria a ter cachorro em casa. Mas quando nos casamos, embora ele realizasse meus sonhos e os de nossas filhas, eu não permiti que ele tivesse seu cachorro. Minhas filhas também diziam não. A vida passa rápido, as coisas são como são, ele merecia realizar seu sonho de criança. Alguns sonhos podem ser realizados. Quando o Nestor via um cachorro no quintal das pessoas seu olhar se transformava num olhar de menino”.

A viúva dizia aquelas palavras com um sorriso morno no rosto, que subitamente desapareceu para dar espaço a um rosto duro, pensativo como quem recalcula o tempo. A viúva fez um gesto, a caçula tomou a coleira e enrolou-a na mão gelada do pai.

Pois é

Eu não quero escrever ou falar de mim ou de minha mãe. Deixem eu abrir um parênteses, voltar no tempo e me ver dentro de um fusca que minha mãe dirigia com o rádio ligado… e isso aconteceu várias vezes, inclusive quando noutra época já estava com outro carro. Quando uma música acabava ela me perguntava “de quem é esta música”? Ela percebia que eu não sabia e dizia “essa é do Pixinguinha”. Cresci com aquelas perguntas e as respostas, não importava se estávamos dentro do carro ou dentro de casa. Se uma música tocava no rádio ou na TV, minha mãe sabia o nome do compositor e também queria que eu soubesse. Agora eu fecho esse parênteses daqueles saudosos anos 70.

Em 2004 eu estava em Cabo Verde, na África, para tocar no primeiro festival de jazz de Cabo Verde. Minha estadia lá e minha participação no festival podem até merecer uma história, mas eu prefiro falar de outra coisa. Em dado momento, numa manhã em que estávamos (músicos franceses, italianos, etc.), e eu também, diga-se de passagem, num restaurante para tomar nosso café da manhã, ouvi uma música que soava nas caixas fixadas no teto. Era “Brasileirinho”. Eu saboreava a música com um certo orgulho nacional, enquanto degustava um iogurte com granola. Quando a música acabou, ouvi dois franceses próximos a mim dizerem “Henri Salvador”. Eu levantei as sobrancelhas. E minhas orelhas se esticaram até eles. Eu queria saber se estavam comentando sobre Henri Salvador ser um compositor de Cabo Verde, ou… “sim, sim, esta música é de Henri Salvador”. Ou seja, mal comecei a xeretar a conversa e eles confirmavam entre si que “Brasileirinho” era uma composição de Henri Salvador. Ora, Henri Salvador é extraordinário. Sou fã. Mas o compositor de “Brasileirinho” é um brasileiro. Minha mãe e e sabemos disso. Claro que não me contive. Da mesa onde eu estava eu lhes disse um bonjour e fui direto ao ponto. Eu lhes informei que “Brasileirinho” não era uma composição de Henri Salvador. Um deles respondeu “Ah bon?”. É como se dissesse “Sério”? Eu respondi com a cabeça e com um olhar do tipo “pois é”. Mas o outro não acreditou em mim e disse que sim, a música era de Henri Salvador. Eu lhes perguntei se eles já tinha ouvido falar do nome Waldir Azevedo. Ambos balançaram a cabeça negativamente. Eu os encarei com as sobrancelhas levantadas como quem diz “pois é”. Fiz outra pergunta. “Que instrumento fazia o solo da música que acabámos de ouvir”? Um deles respondeu “cavaquííínhú”. “Voilà”, disse para lhes mostrar que eu concordava. Então lhes perguntei “qual é o nome da música”? O outro respondeu “Brasilerííínhú”. “Voilà”, concordei outra vez. Então lhes perguntei “se Waldir Azevedo era brasileiro, tocava cavaquinho e o nome da música era Brasileirinho, como Henri Salvador teria feito a música se não era brasileiro, nem tocava cavaquinho?”. Eles se entreolharam. Eu complementei. “Se a música fosse de Henri Salvador, ele teria que ter contratado alguém para escrever a partitura, ou alguém para tocar o cavaquinho, ou simplesmente chamar a música de “Cabo-verdinho”. Um deles disse “faz sentido o que você nos diz”. Eu acenei com a cabeça. E o outro disse “merci beaucoup”.

No ano seguinte (2005) eu estava na França para tocar piano no “Ano do Brasil na França”. Num dia de folga fui convidado por um saxofonista francês a ir até a casa dele para desgustar um churrasco. Enquanto a carne assava, ele colocou um vinil pra tocar. Entendi que ele queria me agradar, já que eu era um brasileiro em terras francesas e a música no vinil era “Desafinado”. Se eu estivesse no carro de minha mãe, lá nos anos 70, ela me perguntaria “quem é o compositor”? Lembrei-me da experiência que tive no ano anterior com os franceses lá em Cabo Verde. Antes de satisfazer uma certa curiosidade de perguntar ao francês anfitrião quem era o compositor da música que tocava, eu o agradeci por ter colocado na vitrola um vinil com a música “Desafinado”. Não sei se você prestou atenção quando no início deste parágrafo eu disse que um francês que tocava saxofone me convidou para um churrasco. A palavra-chave aqui é “saxofone”. A música “Desafinado” que ele colocou era instrumental e o solo era de saxofone. Eu já conhecia aquela gravação, mas eu queria puxar assunto e satisfazer aquela curiosidade secreta de saber se o francês conhecia o compositor. Então eu puxei assunto e disse “que solo bonito, parece um saxofone tenor”. Ele ergueu a garrafa de cerveja em direção ao meu copo e disse “voilà”. E complementou “j’aime beacoup ce musicien”. Eu perguntei quem era o músico e a resposta foi “Stan Getz”. Cheguei a me perguntar por onde andava o meu vinil do Stan Getz do tempo em que eu morava com meus pais. Sorridente, ele permaneceu no assunto e disse como se todo mundo soubesse que “Stan Getz foi muito feliz ao compor essa música”. Senti uma pontada, mas disfarcei. Em vez de corrigi-lo, eu apenas perguntei se eu podia ver a capa do vinil. Ele colocou a cerveja dele numa mesinha e foi lá dentro. Voltou com a capa e um sorriso. Afinal, era como se ele tivesse acertado no modo de agradar um convidado. Com a capa do vinil nas mãos, agradeci e corri os olhos atrás dos nomes de Tom Jobim e Newton Mendonça. Não estavam lá, nem mesmo os outros compositores das demais músicas. Na capa dizia apenas “Stan Getz Greatest Hits”. Perguntei-lhe se havia algum encarte, mas ele não se lembrava ou não sabia onde estava. Daí eu joguei o anzol e disse “eu queria ver o nome dos compositores”. Ele franziu as sobrancelhas como se eu, um músico, não soubesse que “Desafinado” era de autoria de Stan Getz. Ainda com suas sobrancelhas em pé me disse “cette musique a été composée par Stan Getz”. Eu lhe disse que eu tocava “Clair de lune” no piano. Ele não entendeu o que tinha a ver “Clair de lune” com “Desafinado”. Fiz de propósito. Falei-lhe que o fato de eu tocar “Clair de lune”, do compositor francês Claude Debussy não me dava o direito de dizer que a música era minha. E que “Desafinado” era uma música dentre outras gravadas pelo saxofonista Stan Getz, todavia os compositores eram Tom Jobim e Newton Mendonça. O francês ficou sério numa fração de segundos, e em seguida abriu um sorriso, ergueu sua cerveja e disse “salut à la musique brésilienne”.

Em 29 de fevereiro de 2014, no canal do youtube de “Erin Propp”, foi publicada a música “ O barquinho (Little boat)” com os créditos da composição destinados a Ronaldo Fernando Boscoli, Buddy Kaye e Roberto Menescal. Mas quem é esse nome “Buddy Kaye”? Este nome não é citado no site “Brasil imperdível” no link “história da canção o barquinho”. Mas se você sabe como funciona a indústria fonográfica, pode entender (a contra-gosto) porque este tal Buddy Kaye é citado como compositor. Foi um produtor e editor de músicas, citado no wikipedia também como “compositor”. A gente sabe que o pessoal mais desavisado confia cegamente em informações do wikipedia. A coisa não para por aí. Numa das edições do Real book, “O barquinho” está com o título em inglês “My little boat” e o compositor é um tal Imo Schmortz.

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Daí você digita esse nome no google e, obviamente, o dano está feito. Pois se está no google está no planeta Terra e você vai ver em sites da Alemanha a informação de que este tal Imo Schmortz é o compositor de “O barquinho”, ou melhor, “My little boat”.

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Como a internet é uma garganta aberta, a gente se depara de vez em quando com alguns vômitos, ou seja, porcarias. Num fórum da internet eu localizei um sujeito da cidade de São Francisco, Califórnia (CA) que mostrava o erro do “fakebook” (é o nome técnico para livros como o Real book), ao dar o crédito da composição ao tal Imo Schmortz. Daí, um sujeito de Levittown, Pensilvânia (PA), discordou e disse que o livro estava correto.

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Eu tenho em casa a quinta edição do Real book, e nesta edição já consta o nome de Roberto Menescal como compositor de “My little boat” (O barquinho).

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Como o livro foi feito por americanos, você não vai encontrar o título “O barquinho”, mas sim “My little boat”. E para os músicos do planeta Terra que adquiriram edições anteriores, muito provavelmente vão jurar de pés juntos que Imo Schmortz “é” o compositor dessa música brasileira.
Todo mundo quer assinar o que é bom.
Pois é!

Farlley Derze


04jun19, 09:11.

Vestígios

Fechou os olhos como quem fecha janelas para se esconder do mundo.

Dentro da escuridão de seus pensamentos brilhava um sorriso.

Colecionava sorrisos desde os onze anos de idade.

Tinha um conjunto de cadernos dispostos numa prateleira e organizados por ano. O primeiro deles tinha na capa o ano de 1974; o último tinha o ano atual onde registrou o sorriso mais recente.

No início anotava os sorrisos nas últimas folhas dos cadernos escolares; no ano seguinte pediu aos pais um caderno extra na lista de material escolar.

Quando registrava um sorriso, anotava o nome da pessoa. Todos os colegas de classe estavam catalogados. Ao lado de cada nome havia a palavra que classificava o sorriso de cada um: Eliane, verdadeiro; Fátima, falso; Hélio, falso; Nilton, verdadeiro.

Aos quinze anos, seu sistema de classificação já incorporava mais adjetivos: Cláudia, enigmático; Carla, frio; Dani, entorpecente; Priscila, falso; Ernesto, sonoro.

Abriu os olhos como quem tem fé, mas o sorriso dela não estava ali. Leu sua anotação:

2019, 2501, 2111 dm40efs, entorpecente.

Tinha aperfeiçoado o método de catalogação.

Somente dois sorrisos durante os anos tinham lhe perturbado. Agora, o terceiro.

Colocou o caderno na estante e permaneceu com a mão pousada nele, o braço esticado como o ponteiro de um relógio parado, o olhar fixado numa memória recente e uma taquicardia instalada sem vestígios de promessas.

Eu não queria morrer espancada

Eu não queria morrer espancada

Eu não queria morrer espancada, papai. Mas você bebeu muito dessa vez. Quando ouvi a porta bater, eu estava olhando a lua pela janela. Achei melhor correr pra cama, fechar os olhos e fingir que estava dormindo.

Ouvi suas pisadas tortas subindo a escada de madeira que protestava contra cada passo seu. Imaginei suas mãos no corrimão como quem se agarra em uma corda. Depois, pela fresta da porta, vi a dança que sua sombra fazia. A iluminação denunciava o grau de sua embriaguês.

Lembrei-me da pior noite de sua bebedeira. Entrou pela porta, parecia um trovão com o sapato sujo e encheu meu carrinho azul de lama. O jardim já conhecia a sua fúria. O carrinho foi presente do vovô. Depois que você cruzou o último degrau e desapareceu, vi uma oportunidade. Fui atrás do carrinho que tinha rolado pra debaixo do sofá. Não deu tempo de achar porque o grito da mamãe me assustou. Fiquei ali com a alma congelada, meus olhos presos no vazio e o braço esticado debaixo do sofá. Eu ouvi o barulho das coisas que você quebrava no quarto. Ouvi o silêncio da mamãe depois de um som esquisito. Depois daquela noite, a mamãe já não existiria mais.

Seu advogado convenceu o júri que ela pulou da janela. Seus amigos confirmaram que você ainda estava no bar e ignorava a tragédia. Você e eu sabemos dessa mentira. A única verdade é que você, naquela noite, não estava bêbado e fez o que fez porque não gostou das queixas dela. Hoje sei que ela estava certa. Você também sabe.

A discussão parou porque alguma coisa abafava a voz dela. Tirei meu braço debaixo do sofá. Naquela idade eu ainda não sabia que o silêncio da mamãe era uma despedida. A voz abafada da mamãe tentava me dizer alguma coisa. Continuo a ouvir aquele silêncio. Me lembro do corpo dela caído na neve lá embaixo. Você desceu as escadas, veio até mim e levou-me no colo até a porta. Quando saímos eu vi a mamãe imóvel na neve enquanto ouvia os sussurros repentinos de um culpado. Eu não fazia ideia de que daquele momento em diante seria apenas você e eu.

Qualquer criança órfã de mãe, criada a partir dos sete anos por um pai que passa metade do tempo calado e outra metade agressivo, é uma criança que aprendeu a sentir tristeza e medo. Um pai que se dedica aos mesmos amigos que prestaram falso testemunho três anos atrás. O rosto da mamãe está sumindo de minhas memórias, mas o som do riso dela às vezes ecoa em minha cabeça.

Agora você vai fazer a mesma coisa comigo que fez com ela. Você sobe as escadas com seus olhos podres e suas mãos grossas. Gira a maçaneta da porta do meu quarto. Caminha até mim e eu ainda finjo dormir. Eu sinto o cheiro ruim de suor e bebida. Ouço seus pés que avançam covardemente. Sinto sua mão no meu rosto, seus dedos nas minhas narinas e a palma da sua mão na minha boca. Eu continuo a fingir meu sono. Eu quase resisti, quase esperneei. Quase. Quando meu peito começou a queimar… Quase. Enquanto meu coração batia contra os ossos da cabeça eu só pensava na lua lá fora no céu escuro.
Eu não queria morrer espancada.

Renascimento

Não tinha opiniões formadas sobre os assuntos em geral. Numa rodada de assuntos tinha sempre a mesma estratégia: lançava uma ideia ou uma teoria qualquer que funcionava como uma espécie de bumerangue psicológico já que se tornava ouvinte da própria opinião recém-manifestada a ponto de se perguntar como ou de onde surgiu aquilo que dissera. Pois, não gostava de ler, não gostava de filmes e, no íntimo, sabia que não gostava de si próprio. O problema era que após lançar sua estratégia, alguém que fazia parte da conversa às vezes lhe pedia “você pode explicar o que acabou de dizer”? Perante tal situação tinha a resposta na ponta dos pés, isto é, como já se acostumara à sua leviandade intelectual, pedia licença para ir ao banheiro. Lá dentro, diante do mictório e sua vontade falsa de urinar, se perguntava como poderia explicar o que dissera se sequer se lembrava do que havia dito. Alguém entrou no banheiro, mas tudo bem era um estranho, não era ninguém dentre aqueles lá da mesa, todavia ali de pé se viu obrigado a gesticular seu fingimento. Felizmente o estranho foi mais rápido, aliás o cara urinou e saiu sem lavar as mãos. Sozinho outra vez no banheiro onde se refugiou, fechou o zíper depois do vazio de sua cena teatral e, mesmo assim, achou de bom tom lavar as mãos antes de retornar à mesa com a esperança de encontrar outros assuntos para que não tivesse que explicar nada e, preferencialmente, se manter em silêncio em meio aqueles colegas historicamente mais inteligentes e sensatos que ele. No fundo queria ser como um deles que liam tanto a filosofia grega como a alemã, os estudos historiográficos franceses e norte-americanos, a estética de Hegel e o neoplatonismo medieval, as influências nacionalistas na música de Villa-Lobos e Béla Bartók, a literatura comparada baseada em ícones do romantismo inglês e do modernismo latino-americano, enfim tudo aquilo que sua atividade de professor de física lhe impedia de conhecer. Ganhava seu salário com aulas repetitivas para alunos de ensino médio de uma escola pública. Aliás, nunca soube por que optara fazer aquele concurso público dez anos atrás e tampouco como tinha conquistado a vaga. Quando saiu do banheiro em direção à mesa onde os demais professores se encontravam em mais um almoço de confraternização de fim de ano, caminhava com passos decididos a sair do restaurante, se despedir polidamente com a desculpa de um compromisso inadiável às 15h num lugar longe dali. Tinha consciência que ninguém se importaria com sua ausência. Virou a chave de seu Corsa 1.0 e foi aonde decidira ir naquele último dia do ano: uma barbearia.

Sentou-se na poltrona da barbearia de um bairro que escolheu avulso e pediu que lhe cortasse aquela cabeleira obsoleta e extemporânea que não devia estar ali desde seus quinze anos. Chegou a se arrepender de não ter servido o exército onde teria recebido um rosto novo emoldurado por um cabelo masculino, e lhe disciplinariam a vida desde a cama arrumada após se levantar e lavar a louça, diferentemente de seu apartamento caótico como vivesse no espaço cósmico curvo envolto em nebulosas siderais que nunca chegou a compreender com sua clara inaptidão para ser físico, não fosse ter passado no concurso público por pura decoreba.

– Tira a barba também? – perguntou o barbeiro.

Balançou a cabeça num gesto positivo e tentava interpretar se o espelho comemoraria sua decisão de extrair da cara aquela aparência de monturo para se converter em gente. Aliás, enquanto sua aparência se transformava sua mente lhe sussurava que era hora de ter contato com a literatura, com o cinema e com a música de Villa-Lobos. Que coisa horrível ter nascido no interior do Goiás e nunca ter escutado “O trenzinho do caipira” de Villa-Lobos.
Enquanto o barbeiro esfacelava seu antigo eu, via no espelho seu escombro de gente como quem busca num lance de xadrez saber se o tempo lhe daria outra chance caso varresse para a lata do lixo seus quarenta anos de vida despenteada. Lembrou-se que naquele momento em que ouvia o som agudo da tesoura raspando-lhe os ouvidos, seus colegas professores muito provavelmente ainda estariam no restaurante, uns a degustar uma torta de limão outros um pavê de nozes com o aroma do café espresso e o sorriso da professora de literatura a levitar na imaginação de cada um.

– São quarenta reais – disse o barbeiro.

Entrou no carro e se olhou no retrovisor como quem duvida do que acabara de fazer e, sem tirar os olhos do espelho, enfiou a chave sem pressa e virou o motor como quem acaba de comprar um carro. Com os olhos fixos no retrovisor interno disse em voz alta “seja benvindo, muito prazer”. Digitou no GPS a palavra “clínica”. O menu lhe despejou inúmeras opções por ordem de quilometragem desde a mais próxima onde se encontrava, em Brasília, até às mais distantes em Goiânia e Belo Horizonte. Seu instinto momentaneamente lhe convidava a clicar em “clínica de psiquiatria” na L2 norte, mas abriu mão do instinto e manteve-se agarrado ao objetivo original de ir a um oftalmologista, porque aqueles óculos de fundo-de-garrafa só faziam sentido no cenário da cabeleira extinta. Agora, com aquele novo visual adequado a quem vai ler “Os detetives selvagens”, de Roberto Bolaño, título que sua memória de decoreba prodigiosa salvou num dos momentos da confraternização, merecia uns óculos modernos ou mesmo umas lentes de contato. Clicou rumo à Asa Sul da cidade.

– Os óculos ficam pronto em uma semana – disse a moça das Óticas Fluminense da 112 sul, de cuja pele mulata exalava o aroma do sabonete phebo, que o fez se lembrar de ir comprar um sabonete na farmácia da quadra.

Tendo gasto trezentos reais na consulta oftalmológica e outros mil e quinhentos na ótica que lhe seduziu a aceitar uma armação de óculos Persol PO3189V, preto brilhante, além das lentes Varilux Confort com anti-reflexos da marca Crizal, deu graças a Deus (chegou a murmurar entre os lábios) pelo dinheiro extra que ganhava em aulas particulares como professor de xadrez. E para fechar com chave de ouro, a ótica parcelou sua compra em dez vezes sem juros no cartão.

Na semana seguinte, voltou à ótica e saiu de lá com a sensação de que o mundo estava mais iluminado com seus novos óculos, vestido nos trajes novos adquiridos com o décimo-terceiro numa loja masculina do shopping Pátio Brasil. Agora faltava o passo final para completar a inauguração de sua nova vida: ir à Livraria Cultura comprar “Os detetives selvagens”, de Roberto Bolaño e, claro, quando a vendedora lhe perguntou se era fã da literatura latino-americana, precisou fazer outro lance de xadrez, mas não tão radical como fizera na barbearia. Moveu um peão no estilo “lance livre” e respondeu “não sou fã, porque não conheço essa literatura”. A moça, sorridente, simpática, jovem e com uma cintura que lhe deu a certeza de ter feito um ótimo investimento nos óculos, o conduziu à prateleira dos latino-americanos.

– Quatrocentos e vinte reais – cobrou-lhe o rapaz do caixa ao mesmo tempo que lhe perguntava se era um cliente “Mais Cultura”, se queria o “Nota Legal” e se seria no débito ou no crédito.

Entrou no carro com aquelas sacolas que exalavam a promessa de intelectualidade para além dos assuntos de cinemática ou aceleração da gravidade. Aliás, sobre a gravidade, lhe indignava que nem seus colegas bacharéis dos tempos de universidade nem os cientistas laureados pelo nobel de Física soubessem explicar de forma clara, e por que não dizer honesta, o que era realmente a tal da gravidade. Desde a maçã de Newton até os dias de hoje, a verdade é que nenhum físico conseguiu explicar esse fenômeno e sua origem, quando muito repetem a ladainha dos efeitos das forças gravitacionais, mas nunca a causa da gravidade. Ainda no estacionamento da Livraria Cultura, dentro do carro, rasgou as sacolas de plástico como quem tira o sutiã da primeira namorada. Vislumbrou horizontes mais palpáveis de felicidade. Os livros adquiridos fermentavam sua mente com aquela esperança da terra prometida. Leonardo Padura, Isabel Allende, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Roberto Bolaño, Edmundo Paz Soldán, Federico Andahazi, Jorge Luis Borges, todos agora como profetas culturais.

Começou por Roberto Bolaño e calculou sua velocidade de leitura: 0,6 página por minuto, portanto, 36 páginas por hora. Puxou o calendário e calculou o número de dias de férias escolares, o número de sábados, domingos e feriados ao longo do ano letivo, e concluiu que voltaria mais vezes à Livraria Cultura de três em três meses, para conhecer os românticos da literatura francesa e inglesa, os filósofos gregos e alemães, de modo que na próxima confraternização não precisaria fugir dos assuntos indo ao banheiro e fingir qualquer necessidade básica.

Seu novo visual, aliás, fez muito sucesso durante o ano letivo seguinte. Ao fim do primeiro trimestre, numa reunião na sala de professores, a professora de literatura lhe passou às mãos, muito discretamente, um bilhete que ele teve o cuidado de manter trancado em sua mão fechada enquanto a coordenadora pedagógica conduzia a reunião. Obviamente, ele estranhou aquela atitude da professora mais bonita, mais charmosa, mais sensual e mais culta da escola. No término da reunião, ela foi a primeira a se retirar enquanto ele optou por ser o último a sair. Ao se retirar da sala, carregou o bilhete lacrado na palma da mão e punho cerrado até o estacionamento. Entrou no carro, deu uma olhada de trezentos e sessenta graus ao redor e abriu o bilhete, que dizia: você aceitaria vir jantar em meu apartamento no próximo sábado? Traz um vinho da uva Syrah”.

A metafísica do belo

A metafísica do belo

Aí ele me perguntou: “você conhece de perto a sensação de matar um homem?”. E sem esperar uma resposta continuou: “ou tudo que você conhece na vida você compara ao sabor de uma cerveja”?

Falou isso enquanto o garçom chegava em nossa mesa e abria uma cerveja. Eu nem sei como a conversa foi parar naquele assunto. O garçom nos serviu e foi embora. Meu amigo ergueu o copo para um brinde, deu um gole e limpando a espuma do bigode continuou: “tem muita coisa amarga de verdade na vida. Você já leu A metafísica do belo, de Schopenhauer?” Respondi que nunca tinha ouvido falar desse livro. Ele deu um sorriso de canto de boca e sacudindo o copo na mão disse: “pois, devia conhecer”.

Eu perguntei a ele por que me perguntou se eu havia matado um homem. Ele me corrigiu dizendo “eu não te perguntei se você havia matado um homem. Eu perguntei se você conhecia de perto a sensação de matar um homem”. Eu falei que era a mesma coisa. Ele contestou. Falou que no livro do Schopenhaeur tem uma passagem em que ele compara Platão e Kant se ambos vissem um cavalo.

Platão diria:

“Esse animal não possui nenhuma existência verdadeira, apenas uma existência aparente, uma existência relativa. Verdadeiramente este animal é apenas a ideia que é representada naquele cavalo”.

Kant diria:

“Esse animal é um fenômeno no tempo, no espaço e na causalidade. Não é coisa-em-si, mas um fenômeno válido apenas em relação ao nosso conhecimento. Para saber o que ele pode ser em si, independentemente de tudo aquilo que o determina no tempo, no espaço e na causalidade, seria preciso outro modo de conhecimento, além daquele que unicamente nos é possível, pelos sentidos e pelo entendimento”.

Eu disse que não entendia nada de filosofia, mas parecia que Platão e Kant diziam a mesma coisa cada qual do seu jeito. Meu amigo fez uma pausa olhando por cima da sobrancelha, em seguida encheu os nossos copos e disse que eu tinha razão. Então eu insisti na história que ele começou sobre matar um homem ou conhecer a sensação de matar um homem. Enquanto ajeitava o seu copo na mesa, olhou ao redor do restaurante e viu que ninguém prestava atenção em nossa conversa. Confesso que aquele gesto dele me causou arrepios e passou um filme na minha cabeça. Eu me perguntava como seria possível a um professor de filosofia do ensino médio de uma escola particular, casado há quinze anos com a mesma mulher, duas filhas lindas que frequentam aulas de violino e francês, alguém que sabia de cor as músicas do Renato Russo e do U2 perguntasse sobre a sensação de matar um homem.

Ele se inclinou em minha direção e cochichando pediu para eu olhar para um sujeito de camisa vermelha que estava sentado às suas costas, fez um gesto com a mão e com os olhos, como quem diz “não olhe agora, disfarça”. E disse: “finja que vai ao banheiro e veja bem o sujeito”.

Assim foi. Eu me levantei, fui ao banheiro e pude ver o homem. Devia ter uns trinta anos, rosto liso sem barba, óculos escuros no bolso da camisa vermelha, pele branca e cabelos loiros, braços de atleta, um queixo pontiagudo e um sinal escuro abaixo da costeleta esquerda. Lá no banheiro aproveitei para urinar me perguntando quem seria aquele sujeito, qual seria a relação dele com meu amigo e o que tinha a ver aquele papo de “sensação de matar um homem”. Lavando as mãos perante o espelho percebi que estava com uma certa taquicardia dentro de mim.

Ao retornar à mesa, olhei novamente o sujeito que parecia ocupado com o seu celular. Sentei-me. E antes de esmiuçar a conversa, perguntei como estavam sua esposa e suas filhas. Meu amigo respondeu com um ar sério, que agora elas estavam em um lugar seguro, lá em Florianópolis. Franzi a testa como quem diz “não entendi”. Ele apontou com o queixo na direção daquele sujeito de camisa vermelha. Disse que há mais ou menos seis meses sua esposa e as filhas estavam no supermercado. Ela percebeu inúmeras vezes que aquele sujeito cruzava por ela com o seu carrinho. Bem-dizer, em todos os corredores do supermercado eles se encontraram. Ela teria achado que tinha sido apenas uma coincidência forçada, uma espécie de cantada silenciosa por parte do sujeito e nada mais. Entretanto, enquanto ela passava as compras no caixa, ele passava as dele no caixa ao lado. Nesse momento minha esposa puxou nossas filhas para perto dela, e me enviou uma mensagem pelo WhatsApp. Eu só fui ver a mensagem horas depois, quando estava saindo do trabalho. Antes de ligar o carro lhe telefonei com uma tremenda angústia, ela atendeu e sua voz guardava um tom de ansiedade. Disse que ao sair do supermercado o sujeito a seguiu. Ela decidiu fazer caminhos aleatórios em vez de seguir direto para casa. Olhava pelo retrovisor e lá estava o carro do sujeito onde quer que ela fosse. Pensou em vir até meu trabalho, mas desistiu da ideia com receio de levar um psicopata até mim e colocar-me em risco; pensou em dirigir até uma delegacia, mas ele podia ter memorizado a placa do carro dela e com isso descobrir nosso endereço e se vingar caso desse queixa na polícia, então desistiu; parou num posto de gasolina para encher o tanque, o sujeito ficou mais ao fundo longe das bombas de combustível. Então lhe perguntei “onde você está agora?”. Ela disse que estava circulando pelo shopping. Eu perguntei pelo sujeito e ela disse que ele também estava lá, nitidamente fingindo que fazia compras em cada loja que entrava sem tirar os olhos dela.

Meu amigo fez uma pausa, abriu sua pasta, tirou de dentro o livro A metafísica do belo, e de dentro do livro puxou doze multas e as colocou sobre a mesa. Eram multas por avançar o sinal e por excesso de velocidade. E me disse: “lembra a história do cavalo? Platão e Kant falam que o cavalo ‘não existe’. Pois é, aquele inergúmeno de camisa vermelha sentado ali, também não existe. No máximo, existirá até hoje”. O garçom trouxe outro balde com mais seis longnecks, eu acenei dizendo que não queríamos mais, porém meu amigo fez outro gesto dizendo que sim, que íamos beber e pronto.

Olhei discretamente para o tal sujeito, coincidentemente ele se levantou e foi em direção ao banheiro. Meu amigo tentou se levantar, mas segurei-o pelo braço e perguntei onde ele ia, e respondeu “vou ao banheiro”. Então apertei o braço dele perguntando se ele estava louco. Sorrindo e tirando minhas mãos de seu braço me garantiu que não era louco. Falei que não estava entendendo o motivo de estarmos ali, e com aquele cara também ali. Ele me respondeu que era “coincidência forçada”. Enquanto eu o encarava, ele não tirava os olhos da porta do banheiro lá no fundo. Ficamos em silêncio até que ouvi dele “pronto, ele está voltando. Agora deixe-me ir ao banheiro. Quando eu voltar, contarei meu plano”. Pegou o livro sobre a mesa, abriu na página 36 e colocou o dedo no parágrafo em que Platão e Kant explicam por que “o cavalo não existe”. Deixou o livro comigo e foi ao banheiro. Obviamente, minha taquicardia não permitia eu me concentrar nas palavras de Schopenhaeur. Quem sabe a cerveja me ajudasse a organizar as ideias, enquanto olhava de rabo-de-olho para o tal sujeito. Sentei-me como se todo o restaurante estivesse em silêncio. De repente me veio a lucidez de que meu amigo trazia em sua pasta uma arma. Dei uma olhada ao redor e sem tirar sua pasta do lugar, examinei-a discretamente e fui surpreendido por ele, que enquanto se sentava falou “não sou estúpido. Não vou andar armado por aí. Você sabe que não tenho arma. Meu plano é silencioso. Eu te convidei a vir aqui porque descobri que todo primeiro sábado do mês ele almoça neste restaurante”. Quer dizer que nesses seis meses você vem seguindo esse cara, perguntei. Meu amigo respondeu com uma voz grave e os dentes apertados dentro da boca: “faz seis meses que minha esposa não vai a um supermercado, faz seis meses que eu a levo e a busco em seu trabalho, faz seis meses que ela vê um suzuki vitara verde no trânsito e começa a suar, faz seis meses que imagino as mais diferentes formas de matar esse cara até encontrar o melhor método para colocá-lo em prática hoje. Só então percebi que meu amigo olhava várias vezes para seu relógio de pulso. Então lhe perguntei por que eu estava ali com ele. Ele olhou outra vez o relógio e disse “são 13:30”. E continuou: “eu só queria que você entendesse por que estou me mudando para Florianópolis amanhã e talvez nunca mais nos vejamos. Enfim, queria me despedir de você”. E estendeu-me a mão com um sorriso preso nos lábios. Nos cumprimentamos e nesse momento o tal sujeito se levantou para ir embora. Meu amigo colocou uma nota de cem reais sobre a mesa, levantou-se e me disse “obrigado por me ouvir”. E foi atrás do cara de camisa vermelha.

Estou contando essa história porque faz quinze anos que não o vejo, e hoje estou aqui no aeroporto de Florianópolis. Vim visitá-lo após todo esse tempo. Desde aquele dia no restaurante não trocamos nenhuma palavra. Ele excluiu seu perfil no facebook, não sei se usa telefone, os e-mails que lhe enviei retornaram como se o endereço eletrônico não existisse. Ontem alguém telefonou para a secretaria da universidade em que leciono e deixou um recado para mim: “o funeral da Sra. Fulana (por precaução estou omitindo o nome verdadeiro) será na capela 5 do cemitério Campos da Paz, em Florianópolis”. Ao ler no bilhete o nome completo, logo reconheci que se tratava da esposa de meu amigo. No mesmo instante busquei na internet o primeiro voo para o dia seguinte e do aeroporto tomar um táxi rumo ao cemitério.

Ao chegar à capela 5 olhei a hora no celular e o coloquei no modo silencioso antes de entrar. Não reconheci nenhum dos presentes. Eu era a única pessoa do passado de meu amigo. Fui até o caixão e vi o rosto sereno dela coberto por um véu. Percorri com os olhos cada pessoa em busca do meu amigo e identifiquei suas duas filhas, tão crescidas e tão parecidas com a falecida mãe. Fui ao lado de fora e quase não reconheci meu velho amigo, que falava ao celular. Na última vez que o vi ele estava com sua eterna cabeleira até os ombros, usava bigode e cavanhaque, e tinha uma coleção de calças jeans desbotadas. Agora estava sem bigode, sem cavanhaque, cabelo curto num corte militar e vestindo uma calça cinza de tecido, mas com o mesmo sorriso e o mesmo jeito de abraçar. A primeira palavra que ele disse foi “câncer”. Eu fechei meus olhos e o abracei novamente. Após o funeral ele me convidou a ficar hospedado em seu apartamento. Disse que as filhas já haviam se casado, e morava sozinho agora. Aceitei o convite e poderia ficar por dois dias.

Estava quase anoitecendo. Antes de ir para o apartamento ele queria ir a um lugar. Disse que precisava atender a um pedido que sua mulher fez antes de entrar em coma. Fomos a uma cafeteria onde tinha um pianista tocando. Enquanto nos sentávamos, o pianista o cumprimentou de longe com uma das mãos, interrompeu a música e veio em nossa direção. O pianista lhe disse que soube do falecimento de sua esposa e estava muito triste. Meu amigo lhe pediu para tocar uma música às 19h em ponto, que foi o último pedido dela. Olhei meu celular e marcava 18:35. O pianista perguntou que música seria e meu amigo respondeu “Do you know where you’re going to”. Às 19h em ponto ele começou a tocar a música. Uma lágrima solitária escorreu no rosto de meu amigo. Respirando fundo me disse que o primeiro beijo entre ele e a esposa foi às 19h no banco de trás de um táxi que os levava ao cinema, e no CD-player tocava aquela música.

Durante os dois dias em que fiquei hospedado em seu apartamento, conversamos sobre o sucesso de suas filhas, sobre a carreira acadêmica dele no departamento de pós-graduação de filosofia, sobre o tempo que faltava para as nossas aposentadorias, sobre minha esposa, sobre a esposa dele e todo o sofrimento que a quimioterapia causou. Levou-me ao aeroporto, tomamos um café e quando chamou o garçom para pagar a conta indagou se eu não queria lhe perguntar nada. Balancei minha cabeça dizendo que não. Ele me acompanhou até o embarque, me agradeceu muito por ter vindo, tirou de dentro de sua pasta um presente e o colocou em minhas mãos. Foi fácil deduzir que era um livro e estava embalado num papel de presente vermelho. Nos abraçamos e ao ir embora me disse: “volte quando quiser”. Entrei no setor de embarque e agora sentado na poltrona do avião desembrulho o meu presente. Não contive um sorriso ao olhar aquele livro usado: “A metafísica do belo”.

O marcador de páginas estava na página 36, onde Platão e Kant explicam por que “o cavalo não existe”.

Catorze crianças, cinco mulheres e uma luz

Farlley Derze, 29nov2015,18:18,Madri,Espanha

Catorze criancas-pb

Meu nome é Javier Gallego, oficial de polícia, e lhes contarei o que aconteceu.


No ano de 1955 minha mãe leu no jornal “El Alcázar”, de 5 de fevereiro, a história de um tal Alberto San Martín que tinha uma pedra de Marte. Embora fosse uma publicação de fevereiro, a história ocorreu em 17 de novembro de 1954.

Alberto San Martín era enfermeiro, tinha 37 anos de idade e vivia no bairro de Cuatro Caminos num apartamento de aluguel, à rua Dulcinea. Ele acreditava que o ar das manhãs curava as enfermidades. Por isso se levantava muito cedo, às quatro da manhã, para caminhar pelas ruas e respirar o ar limpo. Certa manhã saiu de casa em direção à Moncloa e de repente, na estrada “de la Coruña”, viu uma espécie de pessoa e dela se aproximou. Quando chegou perto dela seus olhos viram um ser de cor cinza e cabelos amarelos, quase albino. Essa personagem em nenhum momento lhe falou, mas gesticulava de diversas maneiras como quem tenta se comunicar. Um dos gestos era como se fosse “espere”. Em seguida, foi até uma esquina e o enfermeiro permaneceu esperando. Logo aquele ser regressou para lhe entregar uma espécie de pedra, colocou em sua mão e partiu. Alberto ao olhar por onde havia ido aquela personagem, viu um objeto luminoso que se perdeu nas altuas e o ser cinza já não estava na estrada.

A pedra tinha uma forma retangular e era de cor rosa e, além disso, trocava de cor.

Eu cresci ouvindo esta história em minha casa e, quem sabe por isso, escolhi minha profissão de policial.

O fenômeno das abduções é muito polêmico. Sobre isso há diferentes visões, inclusive a que eu tinha até ontem. Jamais acreditei que uma tal criatura de Marte veio à Madri para dar de presente a alguém uma pedra. E ainda mais incrível, o feito de que partiu em sue disco voador desde a estrada “de la Coruña” até seu mundo. Tampouco tive vontade de fazer uma investigação sobre fenômenos sobrenaturais. Mas ontem, recebi um telefonema de uma mulher em meu escritório que pareceu muito estranho. Ela falava de uma dezena de crianças, dos quais um era seu filho, que não voltaram para casa desde a noite anterior. Estava nervosa assim como outras vozes muito agitadas ao fundo, inclusive algumas chorosas.

Meu nome é Javier Gallego, oficial de polícia, e lhes exporei o que aconteceu.

Em um sábado, 4 de julho, um grupo de catorze crianças foram com seus respectivos pais a “Miraflores de la Sierra”, para passar ali as férias de verão. Todas as noites as crianças íam a uma montanha para olhar o céu. Perceberam que nas sextas surgiam luzes repentinas nas alturas. Tentaram falar disso com seus pais, mas ninguém lhes dava atenção. Na noite de 31 de julho, isto é, faz dois dias, as crianças gravaram o fenômeno com seus celulares e se esconderam debaixo de umas mantas verdes.

Na manhã seguinte, isto é, ontem, nenhum deles voltou para casa. Os pais telefonaram para a polícia, eu os atendi e logo virão os jornalistas para ouvir o que agora lhes conto.

Após o telefonema, ordenei a meu assistente que reunisse os demais policiais, inclusive aqueles que se encontravam em casa. Meia hora depois, aqui em meu escritório, lhes expliquei o assunto daquele telefonema. Planejamos a busca das crianças. Começamos por ouvir os pais com o objetivo de conhecer a rotina diária das crianças naquele lugar onde estavam de férias. Um dos pais se lembrou de uma história de luzes numa montanha que sua filha tinha tentando relatar, mas não lhe deu atenção. Assim, foi organizada uma busca nas montanhas.

Por fim, na montanha mais próxima da estrada, minha equipe descobriu cinco celulares com as imagens gravadas do que aconteceu.

O vídeo começa com uma abundância de luz de brilho azulado intenso por dezessete segundos. Enquanto isso, se pode ouvir dois sons distintos, como os de uma ambulância. Porém, ao contrário, eram tons muito graves e roucos. Pouco a pouco a intensidade luminosa se reduziu até se conseguir ver as crianças, através de um celular que parecia pendurado em uma árvore. A imagem nos mostra as crianças de costas. Entretanto, as imagens de outro celular, possivelmente deixado sobre uma rocha, nos mostra seus rostos como se fossem pequenos anjos.

As luzes vinham de apenas um objeto voador. De dentro dele saíram cinco mulheres magras e altas, de dois metros e meio, olhos violetas, cabelos compridos e brancos, a pele bronzeada, ou talvez, de cor cinza. Eram muito amáveis. Não falavam e se comunicavam por gestos. Quando abriam a boca, cantavam. As crianças pareciam hipnotizadas. As luzes da aeronave eram muito atraentes, de modo que as criancas se aproximaram para ver.

Segundo as imagens dos vídeos, havia uma boa harmonia entre elas e as mulheres. Un garoto que foi identificado como o filho da mulher que me telefonou, pisou no primeiro degrau da escada feita de fumaça e névoa, abaixo do objeto voador. As mulheres sorriam e convidavam os demais para subir. Tudo se passava com muita serenidade.

Enquanto via os vídeos, minha equipe comentava “que mulheres encantadoras”, que belos olhos violetas”, “que sorriso”, “que luz”. E ainda, em meio a tais reações, caíam-lhes as lágrimas.

As crianças subiram na aeronave, uma após outra, sem pressa e embora andassem com seus pés, se tem a impressão de que flutuavam.

Após aquelas imagens de dois minutos e nove segundos de gravação, subitamente tudo desapareceu. Os celulares permaneceram ligados e gravando o céu sem fundo, escuro, opaco, isto é, um silêncio vazio.

Tudo o que restou foram os celulares e as mantas no cume da montanha.

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Catorce niños, cinco mujeres y una luz

Farlley Derze, 29nov2015,18:18,Madrid,España

Catorze criancas-pb

Mi nombre es Javier Gallego, oficial de policía, y les expondré lo que pasó.


 

En el año de 1955 mi madre leyó en el periódico “El Alcázar”, de 5 de febrero, la historia de un tal Alberto San Martín que tenía una piedra de Marte. Aunque era una publicación de febrero, todo había pasado un 17 de noviembre de 1954.

Alberto San Martín era un enfermero que tenía 37 años de edad y vivía en Cuatro Caminos en un piso de alquiler, en la calle Dulcinea. Él creía que el aire de las mañanas curaba las enfermedades. Por lo tanto se levantaba muy temprano, cerca de las cuatro, para caminar por las calles y tomar el aire limpio. Cierta mañana salió de casa en dirección a Moncloa y de repente, en la carretera de la Coruña, vio una especie de persona a la cual se acercó. Pues cuando se acercó a dicha persona sus ojos miraron a un ser de color gris y pelo rubio, casi albino. Este personaje en ningún momento le habló, pero gesticulaba de diversas maneras como intentando comunicarse. Uno de dichos gestos era como “esperate”. De esta manera, fue hasta una esquina y el enfermero se quedó esperando. Muy pronto aquel ser volvió para entregarle una especie de piedra, se la dio en la mano y se marchó. Alberto al mirar por donde se había ido el personaje, vio un objeto luminoso que se perdió en las alturas y el ser gris ya no estaba en la calle.

La piedra tenía forma rectangular y era de un color rosado y, además, cambiaba de color.

Yo crecí oyendo esta historia en mi casa y, a lo mejor, por eso elegí mi profesión de policía. 

El fenómeno de las abducciones es muy polémico. Sobre eso hay diferentes visiones, incluso la mía hasta ayer. Jamás me pude creer que tal criatura de Marte vino a Madrid para regalarle a la gente una piedra. Y aún más increíble, el hecho de que se marchara en su platillo volador desde la carretera de la Coruña hasta su mundo. Tampoco tuve ganas de hacer una investigación de fenómenos sobrenaturales. Pero ayer, recibí una llamada de una mujer en mi despacho que me sonó algo raro. Ella hablaba de una decena de niños, de los cuales uno era su hijo, que no habían vuelto a la casa desde la noche anterior. Estaba nerviosa así como otras voces muy agitadas al fondo, incluso unas cuantas llorosas.

Mi nombre es Javier Gallego, oficial de policía, y les expondré lo que pasó.

Un sábado, 4 de julio, un grupo de catorce niños fueron con sus respectivos padres a Miraflores de la Sierra, para pasar allí las vacaciones de verano. Todas las noches los niños iban a una montaña para mirar el cielo. Percibieron que los viernes surgían luces repentinas en las alturas. Intentaron hablar de eso con sus padres, pero nadie les hacía caso. En la noche de 31 de julio, es decir, hace dos días, los niños grabaron el fenómeno con sus móviles y se escondieron debajo de unas mantas verdes.

La mañana siguiente, es decir, ayer, ninguno de ellos volvió a la casa. Los padres llamaron a la policía, yo les contesté y pronto vendrán los periodistas para oír lo que ahora les cuento.

Tras la llamada, ordené a mi asistente reunir a los demás policías, incluso los que se encontraban en sus casas. Media hora después, aquí en mi despacho, les expliqué el tema de aquella llamada. Planteamos la busca de los niños. Empezamos por oír a los padres con el objetivo de conocer de ellos la rutina diaria de los niños en aquel sitio de vacaciones. Uno de los padres se acordó de una historia de luces en la montaña que su hija había intentado relatar, pero no le hizo caso. Así que, fue organizada una busca en las montañas.

Resultó que en la montaña más cerca de la carretera, mi equipo descubrió cinco móviles con las imágenes grabadas de lo que pasó.

El vídeo empieza con una abundancia de luz de brillo azulado intenso por diecisiete segundos. Mientras tanto, se puede oír dos sonidos distintos, como de una ambulancia. Pero, al revés, eran tonos muy graves y roncos. Poco a poco la intensidad luminosa se redujo hasta que se podía ver a los niños, a través de un móvil que parecía colgado en un árbol. La imagen nos los muestra de espaldas. Todavía, las imágenes de otro móvil, seguramente dejado sobre una roca, nos muestra sus caras como de pequeños ángeles.

Las luces venían de un solo objeto volador. Desde dentro de dicho objeto salieron cinco mujeres delgadas y altas, como de dos metros y medio, de ojos violetas, pelo largo y blanco y la piel bronceada o, a lo mejor, de un color gris. Eran muy amables. No hablaban y se comunicaban a través de gestos. Cuando abrían la boca, cantaban. Los niños se quedaron hechizados. Las luces de la aeronave eran muy atractivas, de suerte que ellos se acercaron a mirar.

Según las imágenes de los vídeos, había una buena armonía entre ellos y las mujeres. Un chico que fue identificado como hijo de la que me llamó por teléfono, pisó en el primer escalón de la escalera hecha de humo y niebla, bajo el objeto volador. Las mujeres sonreían e invitaban a los demás a subir. Todo pasaba con mucha serenidad.

Mientras veían los vídeos, mi equipo comentaba “qué mujeres encantadoras”, “qué bellos ojos morados”, “qué sonrisa”, “qué luz”. Y aún, en medio de esas reacciones, se les saltaban las lágrimas.

Los niños subieron a la aeronave, uno detrás del otro, sin prisa y aunque andaban con sus pies, se tiene la impresión de que flotaban.

Tras las imágenes de dos minutos y nueve segundos de grabación, de golpe todo desapareció. Los móviles se quedaron encendidos y grabando el cielo desfondado, oscuro, opaco, es decir, un silencio vacío.

Todo lo que quedó de ellos fueron los móviles y las mantas en la cumbre de la montaña.

Credo poético

Escreverás para ela acima de todas as coisas.

Não assinarás teu nome em vão.

Guardarás a magia das madrugadas.

Honrarás paixão e amor.

Não apagarás.

Não farás rascunhos da vaidade.

Não imitarás.

Não confessarás falsidades nas entrelinhas.

Não desejarás a musa do próximo.

Não cobiçarás as poesias alheias.

A imperatriz

 

Hoje acordei de várias maneiras.

Na primeira vez ainda não havia luz lá fora. Só o silêncio e alguma incerteza.

Na segunda vez foi o som da chuva e os rascunhos de luz vazando pela cortina.

Na última vez o som da chuva era ainda mais forte. Fechei os olhos que olhavam para o teto e correntezas de lembranças começaram a me levar.

Passadas em alta velocidade, sob minhas retinas, tantas variedades de imagens, cores e sensações, indo e vindo na velocidade da chuva, de repente, tudo some exceto uma imagem. Puxo o lençol um pouquinho para me recobrir, e fico inerte entre as paredes e os sons das águas, quieto como o mármore, para resguardar aquela imagem que se fixou, vinda do fundo das outras.

Abaixo de minhas pálpebras, presa em minha respiração morna e lenta, eis o rosto dela.

Silêncio.

Uma imperatriz.

Gotejam os pingos em minha janela, ouço os sons e uma sinfonia inicia o seu tráfego, os seus acordes, notas transcrevendo um mapa de mistérios.

O rosto dela permanece, preenchendo toda a tela de minha visão.

Minhas pálpebras resguardam a bela imagem, como uma porcelana.

Rosto de pele branca, suavidade encoberta como um pêssego.

Sob os olhos emergem um promontório de sinais discretos que recobrem e transpassam o nariz, de um lado a outro, como uma discreta ferrugem.

Atrás de seu olhar repousam cabelos… tantos… quietos.

Composição feita de cor, sinais e olhar, suavidade e mistério.

Antes fosse apenas beleza com a qual se afeiçoam os homens.

Antes fosse apenas vontade de dizer e ouvir.

Antes fosse um truque com palavras e gestos.

Antes fosse uma sinfonia que começa e acaba, uma chuva que nos acorda e depois seca, uma luz que escapa, um dia que torna um homem feliz.

Antes fosse, tantas coisas possíveis.

Mas a poesia prefere o impossível, a prece, o intocável, o vivo.

Ontem ouvi a voz desta imperatriz.

Não lembro bem suas palavras, porque me dizia mais o próprio som.

Debaixo dos lençóis e das pálpebras, seu rosto e sua voz. Lá no fundo, a minha sinfonia predileta, minha respiração esquenta, acelera, o peito sobe e desce, minha pele se fragiliza como o tecido de uma bandeira presa ao vento.

Meu ritmo sai do compasso da música.

O rosto dela cresce em minhas retinas, cresce e se agiganta.

Aperto os lençóis, mordo os lábios, escuto o som da voz, meu coração interfere com seu ruído veloz, o ar desorganiza-se em minhas narinas, a bandeira e a ventania, seus olhos estão mais perto dos meus,

a fina ferrugem, o hálito juvenil, sou tragado e águas lá fora carregam folhas e outras incertezas.

Abro os olhos e … Silêncio entre mim e o teto, entre o quarto e a chuva que se foi há tempo.

Lá fora as folhas rolam entre o seco e o molhado.

Dentro de mim novas incertezas, e uma voz morna e escondida.

Amor no lixo

Amor no lixo

Farlley Derze, 18ago2015, 05:26. Madri, Espanha.

amor no lixo

– Eu gostei de verdade. Foi melhor do que planejei, imaginei ou sonhei.

– Como assim?

– Ah, nós sempre fantasiamos esse momento. A primeira vez é muito importante para a alma feminina. Você foi um gentleman.

 


Era um casal de drosófilas melanogaster. Tinham acabado de se conhecer por acaso ao sobrevoarem a lata de lixo de um apartamento. Caio e Brenda detestavam o apelido genérico dado à sua espécie: “mosquinha do lixo” ou “mosquinha das frutas”. Qualquer cientista sério sabe que as drosófilas não são mosquinhas. Pertencem ao reino animal, à classe dos insetos, da ordem díptera, do gênero drosophila, e com mais de duas mil espécies diferentes catalogadas. Possuem 4 pares de cromossomas e um tempo de vida de 12 dias desde que saem do ovo à vida adulta.

Caio e Brenda não tinham consciência do tempo de vida de sua espécie, mas estranhavam já terem visto algumas drosófilas mortas durante os dias que se mantiveram juntos.

Certo dia combinaram de sobrevoar a cozinha de um apartamento que exalava um aroma de bananas que perfumava a imaginação de ambos. Quando chegaram à cozinha não acreditaram no que viram. Havia bananas de todo tipo numa grande cesta de vime: banana-prata, banana-maçã, banana-figo, banana-da-terra, banana-nanica e banana-ouro. Pousaram numa e noutra como se estivessem em um parque de diversão. Quando saíram de lá, encontraram repouso no para-peito pelo lado de fora de uma janela de outro apartamento do andar de baixo.

De barriga cheia, arrotando e suspirando de euforia pós-prandial, viram o mundo dos humanos lá embaixo. Sirenes de polícia, sirenes de ambulâncias, engarrafamentos, pedestres aos milhares, motores barulhentos, ônibus lotados, motociclistas em busca de brechas no asfalto de verão. De repente Caio pergunta:

– Quantos anos vive um ser humano?

– Onde? Nas montanhas ou nessa confusão urbana?

– E por acaso isso faz diferença, Brenda?

– Claro que sim.

– E como você sabe disso?

– Intuição.

– Ah é?! Então quanto tempo a gente tem de vida?

– Aqui ou nas montanhas?

– Tanto faz ora bolas.

– Pelos meus cálculos, a gente tem algo em torno de 288 horas de vida.

– Isso é sua intuição? Que cálculos são esses, Brenda?

– Eu estou chutando. Óbvio que não dá pra saber. Ninguém sabe quanto tempo se vive.

– E nas montanhas, quanto tempo?

– Ninguém sabe. Ôxe !

– Eu invejo os humanos.

– Por que, Caio?

– Eles fizeram sinfonias.

– Mas fizeram a bomba atômica.

– Fizeram a lâmpada elétrica.

– Mas criaram o revólver.

– Eles falam com Deus.

– Mas negociam com o Diabo.

– Nossa espécie jamais teve um Aristóteles, um Albert Einstein.

– Mas nunca tivemos um Hitler, um Idi Amin Dada.

– Escreveram “As brumas de Avalon”, “Cem anos de solidão”, “Harry Potter”.

– Mas fizeram duas guerras no século XX. Aliás, um paradoxo: o continente onde floresceu a filosofia, o cristianismo e a ciência, foi o mesmo que entre 1910 e 1945 produziu duas guerras sangrentas. Um paradoxo filosófico, religioso e científico.

– Vamos mudar de assunto, quanto pessimismo, hein Brenda !

Coincidentemente, naquele momento, um vento mais forte começou a soprar. Caio e Brenda viram suas asas tremularem a ponto de suas patas perderem a aderência no para-peito da janela. Nuvens escuras se acumularam de uma hora para outra. A janela foi fechada sem que percebessem, enquanto conversavam. Brenda sugeriu que voltassem ao apartamento das bananas, mas era tarde demais. Alguém acabara de fechar a janela por causa dos ventos. Caio voou pelo perímetro da esquadria e instalou-se na parte superior da janela onde estavam. Ficou de cabeça para baixo e gritou “Brenda, venha”. Brenda atendeu ao chamado e ambos ficaram assistindo o mundo escurecer. Vieram as primeiras gotas de uma chuva grossa, e o dilúvio aconteceu. Precisaram fazer um ajuste na posição de modo que a chuva não os atingisse, pois seriam tragados e misturados à tromba d’água que escorria fachada abaixo levando o que estivesse no caminho. Foi necessário que se aproximassem, ficassem mais juntos, num cantinho que os deixava a salvo, literalmente agarrados entre patas e asas enquanto a metrópole se derretia.

No dia seguinte, ao acordarem, Caio quis se desculpar:

– Brenda, me perdoe por ontem.

– Por que?

– Você sabe: eu te abracei demais.

– Eu gostei.

– Sério?

– Foi minha primeira vez, Caio.

– A minha também, Brenda.

– Eu gostei de verdade. Foi melhor do imaginei ou sonhei.

– Como assim?

– Ah, nós sempre fantasiamos esse momento, Caio. A primeira vez é muito importante para a alma feminina. Você foi um gentleman.

Caio respirou aliviado, suas asas se abaixaram como um casulo, seus olhos miraram o mármore do para-peito com um sentimento de orgulho e timidez. Brenda pôs a patinha abaixo do queixo dele e ergueu sua cabeça dizendo: “olha pra mim”. Caio a olhou, ela deu uma piscadela e sorriu. Sem saber como reagir, Caio disse: “estou com fome”, Brenda concordou: “eu também”. O ar soprava uma brisa morna após o temporal do dia anterior. Farejaram numa das janelas abertas um aroma de maçã. Brenda disse: “amooooo esse cheirooooo”. Caio bateu mais forte suas asas musculosas e falou: “vamos ao paraíso meu amor”.

Entraram no apartamento. Um casal de humanos via um filme na TV. Passaram por trás num voo a baixa altura, pelas costas do sofá. Encontraram a cozinha e descobriram que o aroma de maçã não vinha dali. Aliás, a cozinha estava brilhando feito pérola. Nenhuma guloseima exposta. Voltaram à sala e perceberam que o aroma estava mais forte no corredor. Seguiram o rastro até a última porta. Era o quarto do filho do casal. Um adolescente de quinze anos que estava cochilando sentado sobre a escrivaninha, com um livro aberto na mesa, um caderno bastante rasurado, e um notebook. Caio e Brenda não deram nenhuma importância ao cenário e focaram no aroma de maçã que impregnava o quarto. Ao lado do livro aberto havia um pequeno pote transparente. Caio e Brenda pousaram nele, pois estava ali o aroma precioso, delicioso, apetitoso. O pote continha um líquido de coloração clara no fundo. Era vinagre de maçã. O pote estava lacrado na parte de cima com um plástico transparente, que estava ali como uma espécie de tampa, porém havia pequeninos furos que permitiam que o aroma do vinagre se difundisse pelo quarto. Caio e Brenda pousaram sobre o plástico. Juntos escolheram um buraco para penetrar no pote. Brenda passou primeiro. Caio foi logo em seguida. Nos primeiros segundos, enquanto batiam asas no interior, se olharam sorridentes. Todavia, perceberam que não havia nenhuma maçã e o líquido que evaporava os asfixiava. Não tiveram tempo de se olharem outra vez. Ambos enauseados, despencaram desacordados sobre o vinagre. Dormiram para nunca mais despertar.

O adolescente ainda dormia sobre a escrivaninha. Na página aberta do livro, intitulado “Biologia”, se lia em negrito: “Genética” e no subtítulo “Drosófilas melanogaster”. O notebook tinha um vídeo pausado no youtube com uma legenda: “Armadilha para moscas das frutas (drosófila)”.

A carta

A carta

Farlley Derze,11maio2015, 20:45,Madri, Espanha

a carta

“mira hombre, tengo la prueba y esta es la historia de amor que Shakespeare ha perdido”.

 


 

Há uma semana, às 17:53, sentei-me numa praça na Calle de Fuencarral, 133, Madri. Havia sentado para tomar uma taça de sorvete com três sabores: pêssego (meloncoton), banana (plátano) e maçã verde (manzana verde). Cinco idosos conversavam noutro banco da praça. Quando sentei-me próximo a eles, lhes cumprimentei: “buenas tardes”. “Buenas tardes”, responderam e retomaram a conversa.

Quatro deles repetiam “eso no es posible”, “no me lo puedo creer” enquanto o quinto lhes dizia “es la máxima verdad”.

O assunto era sobre um jornal que um deles encontrou: “pero estoy seguro, yo lo he encontrado aquí mismo en el invierno”.

A questão não era tanto sobre o jornal, mas sobre uma carta que estava dentro dele. Subitamente, o ancião que falava sobre o fato levantou-se e sacou do bolso de trás a carta dobrada em quatro partes. Eu me sentia um voyeur auditivo e tomava meu sorvete de maneira mais lenta a cada colherada, enquanto lhes escutava. “Mira hombre, tengo la prueba y esta es la historia de amor que Shakespeare ha perdido”.

Sentou-se para ler a carta datada de 2 de janeiro de 2015, Calle de Fuencarral, 133, Madrid, España e o título “Imperdonable”.

Antes que a leitura fosse feita um dos idosos se manifestou e disse aos demais que ler uma correspondência alheia não era correto e era um crime civil e, “peor hombre, mucho peor”, Nuestra Señora del Carmen sabia que estavam incorrendo num pecado.

Enquanto argumentos e contra-argumentos se misturavam sobre se era lícito ou não ler a carta, apressei-me para acabar o sorvete e abrir meu bloco de notas do celular para, caso a carta fosse lida (perdoe-me Nuestra Señora del Carmen), eu anotaria o que conseguisse.

De repente, um idoso chamado Alonso levantou-se, ajustou a mão na bengala e sem dizer “hasta luego” se retirou daquela conversa “pecaminosa”, quando a maioria votou favorável à leitura da carta. Todavia, esperaram até que Alonso a passos lentos dobrasse a esquina e desaparecesse dos olhos do grupo.

Calle de Fuencarral, 133

Madrid, 2 de enero de 2015

“Imperdonable”.

(Segue o conteúdo da carta traduzido para o português).

“Lembra-se de quando caminhamos pela Granvía no primeiro dia que nos conhecemos? Eu queria ter dito “este é um dia lindo em minha vida”, mas não te disse. Eu quis beijar teu rosto na Plaza de España, mas não te beijei. Queria ter dito como era mais bonito o pôr do sol aoteu lado no Templo de Debot, enquanto contempávamos aquele momento, mas nada disse. Quando você me beijou no terceiro encontro, ao sairmos da Iglesia de Nuestra Señora del Carmen y San Luiz, eu quis dizer “te quiero”, mas não disse”.

Nesse momento um dos idosos disse: “espera, quem assinou esta carta”? Quem lia respondeu “ninguém. É anônima”. Outro idoso disse “mas cita a Calle de Fuencarral, 133. É onde estamos. Ali está a porta do número 133. Estou seguro que é alguém que mora num desses apartamentos do edifício 133”. Outro disse: “pode ser que não…talvez a carta tenha sido escrita neste banco, em frente ao número 133, mas por alguém que mora em outro lugar”. Outro disse “continue a leitura”.

E assim foi.

“É imperdoável querer dizer, mostrar, fazer coisas boas e não fazer. Especialmente diante de alguém que melhora o nosso dia-a-dia. É imperdoável ver o tempo escoar pelo ralo do tempo, e nunca agradecer à pessoa que escolheu viver ao nosso lado. Não me perdôo por não ter repetido mais vezes a palavra “te amo”, ou “você mudou minha vida”, ou “vamos ali tomar um sorvete”, ou “me perdoa porque não consigo me perdoar”.

De repente fez-se um silêncio e um dos idosos disse “continue”, ao que ouviu “acabou”.

“Como assim acabou”? “Quem assina?”,  perguntou um deles. “Já disse! Ninguém assina nem diz a quem está endereçada”.

Todos se entreolharam em suas idades avançadas e um deles disse: “pelo menos esse homem escreveu seus sentimentos, pois muitos não o fazem, além de nada dizerem”.

A quietude daquele momento foi quebrada com a sirene de uma ambulância que passou por detrás do banco onde eles estavam e estacionou dez metros depois. Desceram correndo dois homens com uma maca e sumiram de vista.

Quem leu a carta se pôs de pé, dobrou-a, guardou-a no bolso de trás da calça e sentou-se. Outro lhe perguntou: “o que pretende fazer com esta carta”? “Não sei”, respondeu.

Nossa atenção foi desviada pelos olhares das demais pessoas da praça que olhavam ressurgir na esquina os dois homens que traziam na maca uma pessoa. Junto à maca uma mulher que chorava e um dos idosos a reconheceu: “mira hombre, es la mujer de Alonso”.

E viram a maca entrar na ambulância para transportar o amigo deles que instantes antes estava ali e se retirou quando decidiram ler a carta. A mulher entrou também na ambulância que invadiu o silêncio da Calle de Fuencarral com sua sirene urgente, até desaparecer dos olhos e depois dos ouvidos.

Hoje, 11 de maio de 2015, às 18:50, enquanto tomava outro sorvete no mesmo lugar da semana passada (a sorveteria fica no número 131 da Calle de Fuencarral), reconheci a mulher de Alonso que sentou-se sozinha no mesmo banco da praça onde seu marido costumava estar com seus amigos. Levantei-me e sentei-me ao lado dela “buenas tardes señora”. Ela respondeu “buenas tardes caballero”. E sem nenhuma cerimônia eu lhe disse: “semana passada vi a senhora entrar numa ambulância que parou nesta rua”. Ela disse: “vieram buscar meu marido que sofreu um infarto”. Perguntei: “ele passa bem”? Respondeu: ”Muito bem”. E complementou: “Faleceu nesta manhã. Hoje às 19:30 será a missa de corpo presente, na Iglesia de Nuestra Señora del Carmen y San Luiz. Ele era muito católico e sei que agora está no céu ao lado de Nuestra Señora del Carmen e de Nosso Senhor Jesus”.

Nesse momento um carro parou, abriram-lhe a porta e ela se foi: “hasta luego”, me disse. Eu me levantei rapidamente, caminhei até a estação de metrô “Tribunal” a poucos metros dali. Desci na Puerta del Sol onde há a estátua de um homem sobre um cavalo. Defronte à estátua existe um edifício em cuja calçada há uma inscrição indicativa que ali foi fundada a cidade de Madri. No lado oposto, atrás do cavalo com sua cauda imponente, está a Calle del Carmen. Da cauda do cavalo em direção à Calle del Carmen caminhei por 2 minutos e 10 segundos, 216 passos até a entrada da Iglesia Nuestra Señora del Carmen y San Luis, fundada no século XVII, e onde faltava um minuto para começar a missa. Entrei e vi reunidos no primeiro banco a viúva com familiares de Alonso, e no segundo banco seus quatro amigos de conversas na praça e que há uma semana falavam de uma carta esquecida dentro de um jornal.

Eu não conhecia Alonso nem as demais pessoas ali presentes; vi Alonso e sua voz de desacordo deixando seus companheiros naquela tarde da carta; vi que dobrou uma esquina com sua bengala; e agora eu estava ali onde Alonso repousava em seu ataúde próximo ao altar.

Velas acesas, cânticos e palavras conduziam a cerimônia. Após quarenta e cinco minutos, antes de encerrar a missa, o padre dirigiu-se ao ataúde. Ao lado do caixão chamou a viúva. O padre pôs a mão no bolso do terno do defunto e tirou de lá um pedaço de papel dobrado em quatro partes e entregou à viúva. Ela abriu e leu em silêncio:

Calle de Fuencarral, 133

Madrid, 2 de enero de 2015

“Imperdonable”

“Lembra-se de quando caminhamos pela Granvía no primeiro dia que nos conhecemos? Eu queria ter dito “este é um dia lindo em minha vida”, mas não te disse. Eu quis beijar teu rosto na Plaza de España, mas não te beijei. Queria ter dito como era mais bonito o pôr do sol aoteu lado no Templo de Debot, enquanto contempávamos aquele momento, mas nada disse. Quando você me beijou no terceiro encontro, ao sairmos da Iglesia de Nuestra Señora del Carmen y San Luiz, eu quis dizer “te quiero”, mas não disse”.

Novas lágrimas desceram pelo rosto da viúva, que com as mãos trêmulas leu até o final. Enquanto dobrava a carta para guardá-la, o padre a abraçou.

Antes de Alonso falecer, enquanto estava internado, o padre recebeu a visita de um de seus amigos da praça, que buscou o padre para se confessar. Disse ao padre que havia achado uma carta dentro de um jornal, numa praça de Fuencarral, e se sentia um pecador por ter lido para seus amigos a carta de uma pessoa que não conhecia. O padre lhe aplicou uma penitência leve de três Aves Marias e três pai-nossos durante uma semana. Ao se despedir, o penitente passou a carta pela fresta do confessionário. O padre a pegou e quando ficou sozinho em seus aposentos, reconheceu a letra de Alonso. Lembrou do pedido dele: “meu querido amigo de infância, Padre Miguel, guarde esta carta e entregue à minha esposa no dia de meu funeral, caso eu morra antes dela”. O padre fez o sinal da cruz, se ajoelhou e agradeceu o milagre de ter recuperado a carta que havia perdido dentro de seu jornal esquecido no banco da praça.

Quando a missa acabou, deu-se o momento de todos se aproximarem do caixão e dar as condolências à viúva, dar um último adeus ao amigo. Percebi a inquietude de seus quatro amigos quando a viúva lhes mostrou orgulhosa a carta que o marido lhe deixara. Alonso morreu sem desconfiar que a carta que se negou a ouvir naquela tarde era a que escreveu para sua mulher no dia que soube pelo seu médico que poderia sofrer um infarto repentino e fatal. Sua viúva nunca saberá que a carta foi devassada antes da hora. O padre nunca poderá expor o caso, pelo sagrado direito de preservar a quem entra num confessionário, mas também pela vergonha de ter perdido a carta.

Ao sair da igreja relembrei o momento quando encontrei aqueles homens idosos há uma semana. Relembrei as primeiras palavras que ouvi deles ao sentar-me no banco da praça: “eso no es posible”, “no me lo puedo creer”, “es la máxima verdad”.

Apenas sete pessoas são testemunhas do ocorrido:

– os quatro amigos;

– eu;

– o padre;

– e Nuestra Señora del Carmen.

Metabolar

12 de maio de 2015, 19:05

Era assim: tinha um tubo transparente que ficava suspenso a um metro e meio do chão. O tubo tinha um diâmetro que dava para fazer rolar uma laranja. Mas não era o caso. A ideia era fazer um rato doméstico passar por dentro dele. Para isso, nas extremidades do tubo foram fixadas duas pequenas caixas de madeira. Bastava bater a mão na caixa onde o rato estava e ele saía em direção à outra caixa através do tubo. Não! Não é um teste de laboratório. É um instrumento de percussão criado por Dom Fla, um percussionista brasileiro que vivia por 20 anos na França. Habitualmente, escrevia cartas para seu amigo Luiz Alberto, nascido em Ubá, Minas Gerais, que vivia por uns anos no Rio de Janeiro para estudar canto lírico com o tenor Paulo Fortes. Para incrementar o aparato, Dom Fla conseguiu fixar guizos e sinos no interior do tubo transparente, de uma ponta à outra. Nos espetáculos levava seu arsenal de instrumentos de percussão, e escolhia alguns momentos para dar um tapinha suave na caixa de madeira e a plateia podia ver seu rato de estimação cruzar o tubo esbarrando nos guizos e nos sinos que soavam magicamente.

Cartas e cartas trocadas entre aqueles dois amigos e um belo dia Dom Fla retorna ao Brasil, para o Rio de Janeiro, onde tinha um apartamento de herança de família e onde seu amigo Luiz Alberto me levou para conhecê-lo. Neste mesmo apartamento, numa das tardes em que nos reuníamos, o Luiz Alberto pediu que Dom Fla e eu sentássemos no sofá e ouvisse uma coisa. Luiz se pôs de pé em frente ao sofá e com seus quase dois metros de altura e dez ventanias na cabeleira, abriu os braços como uma cruz de mármore e, sem ler, começou a recitar a “Ode triunfal”, de Álvaro de Campos. Dom Fla mantinha seu semblante sereno enquanto piscava involuntariamente seus olhos azuis que boiavam brilhantes abaixo de seus cabelos grisalhos que tinham a forma dos negros da black music dos anos 70, embora tivesse a pele branca e rosada do sol de Ipanema. Quanto a mim, ouvia pela primeira vez aquela “Ode” e me senti dentro de um berço construído por Netuno para ser testado em seus mares.

Quando Luiz parou, Dom Fla espalhou no chão seus instrumentos de percussão: flautas de kamaiurás, apitos de curupira, chocalhos de pataxós, sementes de açaí, pandeiros da Angola, reco-reco da Estácio de Sá, djambê, barduka, colares e respirações, e eu grudado no sofá.

Aqueles dois estavam materializando aquelas cartas entre o Brasil e a França, como dois gigantes da originalidade artística.

Ali naquele apartamento eu recebi deles o meu batismo de músico. Luiz Alberto e Dom Fla eram autores de suas próprias vozes. Nas cartas que trocavam antes de Dom Fla retornar ao Brasil, ecoava a palavra “Metabolar”. Essa palavra foi o útero que abrigou músicos como Jayme Vignolli (cavaquinho), Eduardo Neves (sax e flauta), André Santos (ou André Araújo à época, violino), Xande (bateria), Maurício (bateria), Celestino (cenografia e figurino) e eu (Farlley Jorge, teclados), na trilha cavada por Dom Fla na percussão e Luiz Alberto na voz, textos e prolongamentos. Tocamos nos teatros e nas nossas almas; fomos entrevistados pelo Jô Soares e pelas nossas consciências; viajamos de avião e de tapete voador.

Conviver com eles como integrante do metabolar, fez com que eu descobrisse o quinto ponto cardeal.

Durante minha renascença musical, minha metamorfose antropofágica, meu grito às margens do Ipiranga, fui como um bebê à casa de Hermeto Pascoal, vi o trenzinho de Villa-Lobos estacionar dentro do meu quarto, naveguei no Mapa das Nuvens de Maria Rita, compus “Gênese”, “Caçada”, “O rito da primavera”, “Caminhada”. Bem dizer foi há vinte e cinco anos. De lá pra cá, durante muitas noites de conversa com o travesseiro eu toquei aquelas músicas em minhas lembranças. Vi Luiz Alberto subir as escadas laterais do palco, surgir e desaparecer com a luz acesa como quem mergulhasse nas teclas do piano e submergisse pelas cordas do violino. Vi Dom Fla batucando suas peles, seus ossos, seus balangandãs cósmicos e num piscar de olhos ele era uma fogueira acesa no palco enquanto Luiz Alberto voltava espalhando seus pós, suas cores e suas curas para ouvidos engessados. Maurício semeava com sua bateria uma nova agricultura de compassos. Eu tocava o meu teclado eletrônico como um candidato à república de Platão. Vi André Araújo ser guiado pelo seu violino por uma trilha cintilante que brilhava no encontro das águas no Amazonas. Vi Xande fazer sua bateria falar vários idiomas que a platéia traduzia em sorrisos polirrítmicos. O cavaquinho de Jayme Vignolli liberava faíscas com quatro bemóis nas brechas das cordilheiras sônicas. O sax de Eduardo Neves desenhava labirintos sonoros que fazia a imaginação chegar atrasada. As ideias de Celestino para cenários e indumentária fornecia o relêvo para aquela poligrafia artística se aventurar.

Muitas noites relembrei tantas performances do Metabolar que cheguei a sentir tristeza, como um idoso solitário que vira seu álbum de fotografias engolindo a seco sua viuvez.

E nesse vai-e-vem de noites particulares não imaginei que hoje ao acordar, antes de abrir a janela, antes do cheiro do café, eu recebesse uma mensagem de Luiz Alberto.

Farlley espero que esta te encontre bem. Nesta vez que fui ao Rio fui até a casa do Dom Fla e descobri que ele fez a passagem. Maria Rita tem detalhes. Quero ver se consigo para o final do ano reunir amigos e prestar uma homenagem. O céu está mais estrelado. Um forte abraço. Luiz Alberto.

Ao ler esta mensagem, me vi numa bolha de silêncio. Depois pensei qual terá sido o destino de seus instrumentos de percussão. Quem o viu pela última vez?

Durma em paz Flamarion, Dom Fla.

Maria Rita chega quinta-feira aqui em Madri. Enquanto a espero, vou escrever nas teclas do meu piano: “que honra Dom Fla (in memoriam) e Luiz Alberto ter sido convidado por vocês para integrar o Metabolar, para fazer um tipo de música que misturava futuro e fé”.

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Dança dos ventos

Farlley Derze. Brasília, DF, 16 de novembro de 2011

Danca dos ventos

A saudade faz duas coisas com a gente: faz a gente olhar pela janela e permanecer ali por algum tempo, inerte, a desfolhar as páginas de um momento que agora percebemos como foi bom ter vivido, e então a segunda coisa é aquela palpitação dentro do peito, às vezes os olhos mareados, o ritmo diferente da respiração, como me ocorre agora ao ouvir dentro da mente a música “Dança dos ventos”. Eu acordei às 4h da manhã com uma pequena e indesejável crise alérgica, espirros, tosse, fui até a cozinha tomei um antialérgico e descongestionante, enfiei duas pastilhas efervescentes de vitamina C num copo d’água. Tomei essa bebida com duas torradas de pão de milho que pus para tostar enquanto exercitava a respiração para um melhor fluxo de ar. Deitei-me para tentar dormir, mas nada feito porque descobri nos primeiros 5 minutos que não conseguiria dormir de novo, então me levantei e liguei o computador para finalizar um texto sobre a música “O concerto dos sapos” que comecei dois dias atrás. No penúltimo parágrafo da primeira página onde cito alguns compositores e suas músicas, isto é, enquanto eu relia o que havia escrito, foi nesse ponto da leitura onde cito músicas como “Sinfonia nº 101 – o relógio”, “As quatro estações”, “Clair de lune” e “Trenzinho do caipira”, e a lista seria enorme para casos idênticos de compositores que buscaram descrever objetos, cenas, pessoas, animais, por meio de um ou mais instrumentos… foi nesse ponto da leitura que desejei inserir a música “Dança dos ventos”, e nesse momento a melodia dessa música invadiu a minha mente na forma que a ouvi pela primeira vez, e não na forma que hoje ouço quando a toco no piano. Então, enquanto a ouvia com o solo do violino acompanhado pelo baixo elétrico, a guitarra elétrica e a bateria, meus olhos já estavam para além da janela de onde eu estava sentado, às 4h30 da manhã, grudados na cena do passado que vivi. Saudade e vontade de rever o Simô (o autor da música, vocalista, guitarrista, violonista), Zeca Armesino (baixista), Mário (baterista, que se formou em odontologia) e André Araújo (violinista). Vou narrar a saudade que inundou minha mente ao som da “Dança dos ventos”. Era 1986. Eu tinha sido aprovado no vestibular para o Curso de Licenciatura Plena em Educação Artística, na UNIRIO. Antes das aulas começarem, resolvi ir na Universidade para conhecer os espaços, os prédios…e até o bairro, Urca, onde desembarcou Estácio de Sá para fundar a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em 1º de março de 1565. Eu fui criado em Guadalupe, subúrbio da zona norte, a 40km da Urca. Conclusão: 80km ida e volta todos os dias. Ao adentrar no espaço da universidade não encontrei ninguém desde a entrada do portão, o corredor que nos conduz por uma praça atrás da qual se encontram os prédios e suas salas de aula. Da praça vazia ouvi uma música que vinha lá do fundo de um dos prédios. Apressei o passo: havia gente ali, em pleno período de férias. Ao chegar na janela, pelo lado de fora vi os quatro rapazes, em idade próxima à minha, 20 anos, que tocavam como magnetizados pela música, mas hoje sei que magnetizado estava eu. Que música! …”Dança dos ventos”. Na época, por causa de minha timidez não tive coragem de me aproximar deles, aliás, fiquei escondido sem aparecer na janela, dava uma espiada ou outra quando aumentava a coragem, eu realmente achava que podia levar uma bronca. Isso tinha a ver com a criação que tive em casa. Entretanto, com o decorrer das aulas onde estudei com eles na mesma sala, fiz amizade com os integrantes daquele quarteto que se chamava “Solar”, uma banda de universitários que fazia apresentações na zona sul, e tinha um “compacto simples” gravado, que era um disco de vinil onde cabiam duas músicas de cada lado. Apenas o baterista, o Mário, não era estudante de música na UNIRIO, mas de odontologia noutra faculdade. Em dois anos eu já fazia parte do grupo que deixou de se chamar “Solar” e passou a se chamar “Aura vital”. Não me lembro quem mudou o nome tão pouco o motivo, mas com o novo nome veio também a voz feminina da Cacala (Maria Clara), além da minha entrada como tecladista. Fizemos juntos muitas apresentações nos espaços da zona sul da cidade, guardo até hoje os recortes de jornal com nossa foto, inclusive. Neste exato instante, enquanto a música trafega em minha mente estou na página do google, no link imagens onde digitei a palavra UNIRIO. Agora, enquanto ouço a música que navega junto com os meus olhos por essa janela a mergulhar na madrugada, vejo no site várias fotos da universidade, o portão envelhecido e suas grades de metal, me vejo ali outra vez sem a barba grisalha, sem os óculos de grau, sem as rugas das mãos, sem asma e sem saudade. Hoje a “Dança dos ventos” me carregou pela maquina do tempo até 1986, me fez cruzar a praça vazia em direção à janela da universidade onde estavam aqueles quatro rapazes de quem me tornei amigo tempos depois. Sigo o som da melodia e me vejo ali agora, escondido a espiar pela janela os gestos iluminados do André a correr seus dedos pelo violino, os olhos fechados do baixista Zeca Armesino, o sorriso quieto feito um rio silencioso do guitarrista Simô, autor da música “Dança dos ventos”, a sutileza do Mário na bateria onde flutuam suas mãos. Onde estarão nesse momento aqueles rapazes? Certamente grisalhos como eu. Meus olhos brilham  na luz do poste da madrugada que vejo pela janela, meus ouvidos estão grudados na dignidade daquele momento honesto de infância eterna que eu vivia ao som daquela música, e sem a qual não seria possível nem esse texto, nem essa saudade.


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Magnética mente

Magnética mente

Cego cibernético
Visionário lunático
Estendo as mãos quando tu passas
Fecho os olhos quando não vens
Religiões tecnológicas
Aldeias sentimentais
Noites fictícias
Sonhos outonais
Penso que posso
Acredito no sim
Dirijo-me ao espaço
Deslizo nos bytes emocionais
Espelho-me à tua frente
Encaro-te silenciosamente
Calor subjacente
– “DEL , DEL, DEL” , por um triz qualquer história
Cintilam as cores configuradas
Desejo-te eterna em minha memória
Células imantadas
Eternidade binária
Tempo infinitesimal
Emoção real
Amor na forma primária
Pulsos eletrônicos
Impulsos ergonômicos
Cintilografias psíquicas
Dados imprevisíveis
Correspondências compactadas
Forma livre maior
Desejo plural improvisado
Algoritmos sentimentais
Plasma do novo mundo
Secreto ou indiscreto
Malha silenciosa
Sublimação dos impulsos
Eletrônica submersa
Telas plácidas
Mistério envolvente
Ar magnético reticente
Pulsam outros dedos
Logaritmos indigentes

O beijo

O beijo

Ontem eu cruzava um abismo quando achei um beijo caído sobre a ponte em que eu passava. Achei estranho um beijo largado ali, quem sabe alguém o perdera, quem sabe alguém o jogara fora. Estava no meio da ponte, lá nas alturas. Abaixei-me e apanhei aquele beijo. Há quanto tempo estaria ali? Estaria vivo ainda?

Ventava forte, ameaçava chuva e ainda me faltavam alguns metros para atingir o outro lado. Eu vinha de longa caminhada com uma mochila pesada nas costas que, naquela parada, pus logo no chão. O mau tempo me fez apressar as passadas de onde eu vinha e aquele momento sobre a ponte pareceu-me providencial, pois sentia mais leve as minhas costas enquanto estava parado com aquele beijo nas mãos.

Debrucei-me para ver as águas fortes em seu curso urgente. Olhei na palma de minha mão aquele beijo que sequer se movia, e pensei que a única coisa a fazer era atirá-lo lá embaixo até vê-lo sumir nas espumas que se enfumaçavam entre as pedras. Olhei-o uma última vez mas antes que eu o fizesse, um vento forte arrancou-o de minha mão.

A queda era grande e eu, estático, via o seu mergulho sem volta.

O estrondo das águas em fúria fez-me ter tamanho remorso e vê-lo ainda em queda, tão solitário, não pude crer na minha intenção desumana. A única coisa que me restava era mergulhar atrás dele e recuperá-lo. Então lancei-me das alturas naquela imensidão no mesmo instante em que o céu rasgou-se em grossa tempestade.

Lá em cima minha mochila abandonada sobre a ponte, encharcava-se. Lá embaixo meu corpo encontrava as rochas mas nunca mais o beijo.

Ali permaneci.

O beijo, que apenas dormia, saiu na carona das águas rumo aos lábios acordados.

A vela

A vela

Luz da vela e sombras que gesticulam na parede. Formas que se evaporam no cimento inerte, vultos que dançam na tela dissimulada. A fumaça escoa manchando o ar. Cheiro de fogo e fumaça com cera derretida. Luz impaciente, debate-se presa ao pavio, deseja sua vida e estar viva na aurora. Por isso se gesticula tentando estar livre do breve destino que se esgota no pires.
O pires, alheio e anônimo na penumbra do quarto, ampara a vela e receberá o clamor da chama no instante derradeiro, em que desfar-se-ão todas as sombras – recentes tentáculos da escuridão.
A cera impregnada na porcelana se acumula enquanto a chama clareia.
Claridade discreta e duvidosa.

Lacrimeja a vela. Chora, chora porquanto incendeia. Luz da vela que luta pela eternidade. O pavio, carbonizado e conformado, não lhe dá trégua. Aprisiona a pobre chama.

E a vela se derrama sobre si própria enquanto pingam estas palavras de meus dedos.

Luminosidade frágil que ilumina esta página, a vela ataca-me com sua luz amarela de intensidade reticente. Sou cúmplice de seu inevitável destino. Do contrário ela ainda estaria na gaveta, pálida e fria. Mas dela eu preciso para escrever estas linhas na escuridão noturna.

Aqui, sozinho neste quarto, na companhia vaga das sombras, vago os olhos na chama e sua cercania. Vejo o contorno do pires e sua superfície onde quase lhe toca a chama. Ou melhor, onde já lhe toca a chama. E agora surge a fumaça mais negra e densa, e seu cheiro que avança me condena neste instante derradeiro. Observo a chama. Quase chama.

Tudo se mistura em total anarquia, tal como o grito – língua, boca e garganta. Lá estão unidos no seu espanto a diminuta vela, o pavio, a chama e a porcelana. A cera agora parece um tumor.

E a chama…

Quase que…

Quase…

Agonizam todas as sombras, agonizam todas as sombras, agonizam todas as sombras.

Nada vejo.