Memória musical

Entrevista concedida ao Programa Memória Musical da Rádio Nacional de Brasília-DF.

Data: 30 de setembro de 2017.

Apresentador: Márcio Lacombe

Entrevistado: Farlley Derze

Pois é

Eu não quero escrever ou falar de mim ou de minha mãe. Deixem eu abrir um parênteses, voltar no tempo e me ver dentro de um fusca que minha mãe dirigia com o rádio ligado… e isso aconteceu várias vezes, inclusive quando noutra época já estava com outro carro. Quando uma música acabava ela me perguntava “de quem é esta música”? Ela percebia que eu não sabia e dizia “essa é do Pixinguinha”. Cresci com aquelas perguntas e as respostas, não importava se estávamos dentro do carro ou dentro de casa. Se uma música tocava no rádio ou na TV, minha mãe sabia o nome do compositor e também queria que eu soubesse. Agora eu fecho esse parênteses daqueles saudosos anos 70.

Em 2004 eu estava em Cabo Verde, na África, para tocar no primeiro festival de jazz de Cabo Verde. Minha estadia lá e minha participação no festival podem até merecer uma história, mas eu prefiro falar de outra coisa. Em dado momento, numa manhã em que estávamos (músicos franceses, italianos, etc.), e eu também, diga-se de passagem, num restaurante para tomar nosso café da manhã, ouvi uma música que soava nas caixas fixadas no teto. Era “Brasileirinho”. Eu saboreava a música com um certo orgulho nacional, enquanto degustava um iogurte com granola. Quando a música acabou, ouvi dois franceses próximos a mim dizerem “Henri Salvador”. Eu levantei as sobrancelhas. E minhas orelhas se esticaram até eles. Eu queria saber se estavam comentando sobre Henri Salvador ser um compositor de Cabo Verde, ou… “sim, sim, esta música é de Henri Salvador”. Ou seja, mal comecei a xeretar a conversa e eles confirmavam entre si que “Brasileirinho” era uma composição de Henri Salvador. Ora, Henri Salvador é extraordinário. Sou fã. Mas o compositor de “Brasileirinho” é um brasileiro. Minha mãe e e sabemos disso. Claro que não me contive. Da mesa onde eu estava eu lhes disse um bonjour e fui direto ao ponto. Eu lhes informei que “Brasileirinho” não era uma composição de Henri Salvador. Um deles respondeu “Ah bon?”. É como se dissesse “Sério”? Eu respondi com a cabeça e com um olhar do tipo “pois é”. Mas o outro não acreditou em mim e disse que sim, a música era de Henri Salvador. Eu lhes perguntei se eles já tinha ouvido falar do nome Waldir Azevedo. Ambos balançaram a cabeça negativamente. Eu os encarei com as sobrancelhas levantadas como quem diz “pois é”. Fiz outra pergunta. “Que instrumento fazia o solo da música que acabámos de ouvir”? Um deles respondeu “cavaquííínhú”. “Voilà”, disse para lhes mostrar que eu concordava. Então lhes perguntei “qual é o nome da música”? O outro respondeu “Brasilerííínhú”. “Voilà”, concordei outra vez. Então lhes perguntei “se Waldir Azevedo era brasileiro, tocava cavaquinho e o nome da música era Brasileirinho, como Henri Salvador teria feito a música se não era brasileiro, nem tocava cavaquinho?”. Eles se entreolharam. Eu complementei. “Se a música fosse de Henri Salvador, ele teria que ter contratado alguém para escrever a partitura, ou alguém para tocar o cavaquinho, ou simplesmente chamar a música de “Cabo-verdinho”. Um deles disse “faz sentido o que você nos diz”. Eu acenei com a cabeça. E o outro disse “merci beaucoup”.

No ano seguinte (2005) eu estava na França para tocar piano no “Ano do Brasil na França”. Num dia de folga fui convidado por um saxofonista francês a ir até a casa dele para desgustar um churrasco. Enquanto a carne assava, ele colocou um vinil pra tocar. Entendi que ele queria me agradar, já que eu era um brasileiro em terras francesas e a música no vinil era “Desafinado”. Se eu estivesse no carro de minha mãe, lá nos anos 70, ela me perguntaria “quem é o compositor”? Lembrei-me da experiência que tive no ano anterior com os franceses lá em Cabo Verde. Antes de satisfazer uma certa curiosidade de perguntar ao francês anfitrião quem era o compositor da música que tocava, eu o agradeci por ter colocado na vitrola um vinil com a música “Desafinado”. Não sei se você prestou atenção quando no início deste parágrafo eu disse que um francês que tocava saxofone me convidou para um churrasco. A palavra-chave aqui é “saxofone”. A música “Desafinado” que ele colocou era instrumental e o solo era de saxofone. Eu já conhecia aquela gravação, mas eu queria puxar assunto e satisfazer aquela curiosidade secreta de saber se o francês conhecia o compositor. Então eu puxei assunto e disse “que solo bonito, parece um saxofone tenor”. Ele ergueu a garrafa de cerveja em direção ao meu copo e disse “voilà”. E complementou “j’aime beacoup ce musicien”. Eu perguntei quem era o músico e a resposta foi “Stan Getz”. Cheguei a me perguntar por onde andava o meu vinil do Stan Getz do tempo em que eu morava com meus pais. Sorridente, ele permaneceu no assunto e disse como se todo mundo soubesse que “Stan Getz foi muito feliz ao compor essa música”. Senti uma pontada, mas disfarcei. Em vez de corrigi-lo, eu apenas perguntei se eu podia ver a capa do vinil. Ele colocou a cerveja dele numa mesinha e foi lá dentro. Voltou com a capa e um sorriso. Afinal, era como se ele tivesse acertado no modo de agradar um convidado. Com a capa do vinil nas mãos, agradeci e corri os olhos atrás dos nomes de Tom Jobim e Newton Mendonça. Não estavam lá, nem mesmo os outros compositores das demais músicas. Na capa dizia apenas “Stan Getz Greatest Hits”. Perguntei-lhe se havia algum encarte, mas ele não se lembrava ou não sabia onde estava. Daí eu joguei o anzol e disse “eu queria ver o nome dos compositores”. Ele franziu as sobrancelhas como se eu, um músico, não soubesse que “Desafinado” era de autoria de Stan Getz. Ainda com suas sobrancelhas em pé me disse “cette musique a été composée par Stan Getz”. Eu lhe disse que eu tocava “Clair de lune” no piano. Ele não entendeu o que tinha a ver “Clair de lune” com “Desafinado”. Fiz de propósito. Falei-lhe que o fato de eu tocar “Clair de lune”, do compositor francês Claude Debussy não me dava o direito de dizer que a música era minha. E que “Desafinado” era uma música dentre outras gravadas pelo saxofonista Stan Getz, todavia os compositores eram Tom Jobim e Newton Mendonça. O francês ficou sério numa fração de segundos, e em seguida abriu um sorriso, ergueu sua cerveja e disse “salut à la musique brésilienne”.

Em 29 de fevereiro de 2014, no canal do youtube de “Erin Propp”, foi publicada a música “ O barquinho (Little boat)” com os créditos da composição destinados a Ronaldo Fernando Boscoli, Buddy Kaye e Roberto Menescal. Mas quem é esse nome “Buddy Kaye”? Este nome não é citado no site “Brasil imperdível” no link “história da canção o barquinho”. Mas se você sabe como funciona a indústria fonográfica, pode entender (a contra-gosto) porque este tal Buddy Kaye é citado como compositor. Foi um produtor e editor de músicas, citado no wikipedia também como “compositor”. A gente sabe que o pessoal mais desavisado confia cegamente em informações do wikipedia. A coisa não para por aí. Numa das edições do Real book, “O barquinho” está com o título em inglês “My little boat” e o compositor é um tal Imo Schmortz.

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Daí você digita esse nome no google e, obviamente, o dano está feito. Pois se está no google está no planeta Terra e você vai ver em sites da Alemanha a informação de que este tal Imo Schmortz é o compositor de “O barquinho”, ou melhor, “My little boat”.

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Como a internet é uma garganta aberta, a gente se depara de vez em quando com alguns vômitos, ou seja, porcarias. Num fórum da internet eu localizei um sujeito da cidade de São Francisco, Califórnia (CA) que mostrava o erro do “fakebook” (é o nome técnico para livros como o Real book), ao dar o crédito da composição ao tal Imo Schmortz. Daí, um sujeito de Levittown, Pensilvânia (PA), discordou e disse que o livro estava correto.

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Eu tenho em casa a quinta edição do Real book, e nesta edição já consta o nome de Roberto Menescal como compositor de “My little boat” (O barquinho).

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Como o livro foi feito por americanos, você não vai encontrar o título “O barquinho”, mas sim “My little boat”. E para os músicos do planeta Terra que adquiriram edições anteriores, muito provavelmente vão jurar de pés juntos que Imo Schmortz “é” o compositor dessa música brasileira.
Todo mundo quer assinar o que é bom.
Pois é!

Farlley Derze


04jun19, 09:11.

Passagens

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Em 2017, durante as conversas com algumas pessoas eu perguntava que situação na vida delas foi marcada por alguma música. A conversa ganhava um novo ritmo por causa das lembranças da situação e da música envolvida. Eu ficava com aquela conversa na cabeça. Então, decidi convidar as pessoas a contarem histórias que foram marcadas pela música, e registrar essas histórias. Eu arquivava as histórias no meu computador dentro de uma pasta chamada PASSAGENS. Em 2018, procurei a Rádio Eixo, uma rádio online com sede em Brasília, e propus mostras as histórias na programação da rádio. A ideia foi aceita pela direção da rádio e pediram para eu dirigir o programa.

Passei a colher depoimentos de pessoas de todo o Brasil.

Os depoimentos eram enviados por audio através do WhatsApp.

Se você quiser participar, envie-me um audio por WhatsApp. Eis meu número: (61) 98450-1058.

No audio você cita primeiramente “o seu nome”, “sua idade”, “sua ocupação” e “a cidade onde vive”. Em seguida você narra pelo tempo de um minuto, aproximadamente, que situação de sua vida foi marcada por uma música. Você menciona o nome da música (se possível, o compositor ou quem a gravou, se não souber tudo bem). Eu busco a gravação da música no youtube e anexo-a à sua história.


Vestígios

Fechou os olhos como quem fecha janelas para se esconder do mundo.

Dentro da escuridão de seus pensamentos brilhava um sorriso.

Colecionava sorrisos desde os onze anos de idade.

Tinha um conjunto de cadernos dispostos numa prateleira e organizados por ano. O primeiro deles tinha na capa o ano de 1974; o último tinha o ano atual onde registrou o sorriso mais recente.

No início anotava os sorrisos nas últimas folhas dos cadernos escolares; no ano seguinte pediu aos pais um caderno extra na lista de material escolar.

Quando registrava um sorriso, anotava o nome da pessoa. Todos os colegas de classe estavam catalogados. Ao lado de cada nome havia a palavra que classificava o sorriso de cada um: Eliane, verdadeiro; Fátima, falso; Hélio, falso; Nilton, verdadeiro.

Aos quinze anos, seu sistema de classificação já incorporava mais adjetivos: Cláudia, enigmático; Carla, frio; Dani, entorpecente; Priscila, falso; Ernesto, sonoro.

Abriu os olhos como quem tem fé, mas o sorriso dela não estava ali. Leu sua anotação:

2019, 2501, 2111 dm40efs, entorpecente.

Tinha aperfeiçoado o método de catalogação.

Somente dois sorrisos durante os anos tinham lhe perturbado. Agora, o terceiro.

Colocou o caderno na estante e permaneceu com a mão pousada nele, o braço esticado como o ponteiro de um relógio parado, o olhar fixado numa memória recente e uma taquicardia instalada sem vestígios de promessas.

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Texto da colunista Paula Santana, da GPS Lifetime

Luiz Carlos Alvarenga ganha almoço festivo de Ana Maria Gontijo

O aniversário do beauty artist foi prestigiado por amigos em celebração intimista no Lago Sul

Mais um ano de vida de Luiz Carlos Alvarenga foi comemorado em grande estilo. O maquiador queridinho da capital foi prestigiado por amigos em almoço festivo intimista armado pela amiga Ana Maria Gontijo, no Lago Sul.

O décor e ambientação assinados por Maria Tereza Cavalcanti contou com arranjos florais nos nuances amarelos e laranjados, levando um moodtropical ao b-day. O som da ocasião ficou por conta do pianista Farlley Derze.

Para cantar os parabéns, um “bolo camarim” enfeitado com pincéis, batons, sombras e outros itens de make-up açucarados. A presença dos 20 convidados foi agradecida com lembrancinhas com Bolo da Ivone.

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Noite latina

Embaixada das Artes, QL 8. Lago Sul, Brasília-DF.

10 de novembro de 2017

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Uma noite em Paris

Embaixada das Artes, QL 8. Lago Sul, Brasília-DF.

30 de setembro de 2017

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Noite de jazz

Embaixada das Artes, QL 8. Lago Sul, Brasília-DF.

10 de agosto de 2017

Fotos: Marcia Mossmann

 

Discografia

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GÊNESE

2000 e 2015 (reedição). Capa: Antares Produções

Álbum de músicas autorais e arranjos. 21 de julho de 2000; 5 de novembro de 2015.

Captação, mixagem e masterização: Marco Aurélio Valle (RJ)

Farlley Derze: piano, composições e arranjos (Rio de Janeiro, 2000)

Wallace Cardoso: bateria (Rio de Janeiro, 2000)

Marcos Nato: baixo (Rio de Janeiro, 2000)

Alexia Yiangou: violoncelo (Chipre, 2012)

FAIXAS:

Sertões (Farlley Derze)

Caminhada (Farlley Derze)

O rito da primavera (Farlley Derze)

Estações (Farlley Derze)

Uma noite assim (Farlley Derze)

Tristesse (Chopin)

Aldeias (Farlley Derze)

Memórias (Farlley Derze)

Gênese (Farlley Derze)

Metrópole (Farlley Derze)

Tarde esquecida (Farlley Derze)

Trilogia brasileira (Fantasia sobre as músicas “Bebê” (Hermeto Pascoal), “Trenzinho do caipira” (Villa-Lobos) e “Canção da criança” (Francisco Alves e René Bittencourt).
Piano e arranjo: Farlley Derze)

Armando’s Rhumba (Chick Corea)


JazzNavidad 

JAZZ NAVIDAD

2001. Capa: Jamile Tormann (obra do artista plástico João Drummond)

Álbum de músicas da tradição natalina. 5 de julho de 2001

Captação, mixagem: Farlley Derze;  masterização: Fernando Ávila (RJ)

Farlley Derze: piano e arranjos (Brasília, 2001)

FAIXAS:

Jingle bells

Noite feliz

Papai Noel

Les anges dans nos campagnes

 White Christmas

Greensleeves

Nas estrelas

Os arautos anjos cantam


 

Acalanto 

ACALANTO

2002. Capa: Jamile Tormann

Álbum de músicas do cancioneiro infantil. 19 de maio de 2001

Captação, mixagem e masterização: Farlley Derze

Farlley Derze: teclado e arranjos (Brasília, 2001)

FAIXAS:

O cravo brigou com a rosa

Escravos de Jó

Fui no Itororó

Se essa rua fosse minha

Cai cai balão

A canoa virou

Pirulito que bate-bate

Havia uma barata

Marcha soldado

Atirei o pau no gato

Ciranda cirandinha

Peixe vivo

Boi da cara preta

Nana nenê

Carneirinho, carneirão

Samba lelê


 

 

METAMORPHOSES

2017. Capa: Jamile Tormann (obra do artista plástico Páris Bogéa)

Álbum de músicas autorais. 23 de setembro de 2017. Gravado ao vivo na residência do Farlley Derze.

Captação, mixagem e masterização: João Ricardo Denicol

Farlley Derze: piano, composições e arranjos

Sandro Araújo: bateria 

Sandro Souza: bateria

João Ricardo Denicol: bateria

Oswaldo Amorim: contrabaixo e baixo elétrico

Pablo Oliver: baixo elétrico

Igor Diniz: contrabaixo

Isaac Gomes: saxofone

Argemiro Jr: trompete

Paulinho Trombone: trombone

Luciana Morato: flauta

Gabriel Oliveira: guitarra

FAIXAS:

Quintais (Farlley Derze)

O tempo (Farlley Derze)

Pintura, renda e pesca (Farlley Derze)

Pura (Farlley Derze)

O beijos e os cabelos da sereia (Farlley Derze)

O céu de terça-feira (Farlley Derze)

Ponta de faca (Farlley Derze)

Caçada (Farlley Derze)

Cavalaria real (Farlley Derze)


 

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MUSIC ANDA EMOTION

2019. Capa: Jamile Tormann (obra do artista plástico João Drummond)

 

 

Arranjos

Trio de Janeiro. Miami Beach, Florida, USA, Jan-Oct, 2016.

Farlley Derze: keyboard

Ramatis Moraes: Guitar

Rose Max: Vocal

 

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Duo Aura. Brasília-DF, Brasil. Mar, 2017.

Song: Quem sabe isso quer dizer amor

Composer: Milton Nascimento

Farlley Derze: keyboards

Zila Siquet: vocal

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Keyboard: Farlley Derze

Song: Malandro

Composer: Jorge Aragão

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Keyboard: Farlley Derze

Song: Todo azul do mar

Composer: Flavio Venturini

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Keyboard: Farlley Derze

Song: Over Joyed

Composer: Steve Wonder

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Keyboard: Farlley Derze

Song: Paisagem da janela

Composer: Beto Guedes

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Duo Aura. Brasília-DF, Brasil. Mar, 2017.

Song: Rosa desfolhada

Composer: Toquinho e Vinícius de Moraes

Farlley Derze: keyboards

Zila Siquet: vocal

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Credo poético

Escreverás para ela acima de todas as coisas.

Não assinarás teu nome em vão.

Guardarás a magia das madrugadas.

Honrarás paixão e amor.

Não apagarás.

Não farás rascunhos da vaidade.

Não imitarás.

Não confessarás falsidades nas entrelinhas.

Não desejarás a musa do próximo.

Não cobiçarás as poesias alheias.

A imperatriz

 

Hoje acordei de várias maneiras.

Na primeira vez ainda não havia luz lá fora. Só o silêncio e alguma incerteza.

Na segunda vez foi o som da chuva e os rascunhos de luz vazando pela cortina.

Na última vez o som da chuva era ainda mais forte. Fechei os olhos que olhavam para o teto e correntezas de lembranças começaram a me levar.

Passadas em alta velocidade, sob minhas retinas, tantas variedades de imagens, cores e sensações, indo e vindo na velocidade da chuva, de repente, tudo some exceto uma imagem. Puxo o lençol um pouquinho para me recobrir, e fico inerte entre as paredes e os sons das águas, quieto como o mármore, para resguardar aquela imagem que se fixou, vinda do fundo das outras.

Abaixo de minhas pálpebras, presa em minha respiração morna e lenta, eis o rosto dela.

Silêncio.

Uma imperatriz.

Gotejam os pingos em minha janela, ouço os sons e uma sinfonia inicia o seu tráfego, os seus acordes, notas transcrevendo um mapa de mistérios.

O rosto dela permanece, preenchendo toda a tela de minha visão.

Minhas pálpebras resguardam a bela imagem, como uma porcelana.

Rosto de pele branca, suavidade encoberta como um pêssego.

Sob os olhos emergem um promontório de sinais discretos que recobrem e transpassam o nariz, de um lado a outro, como uma discreta ferrugem.

Atrás de seu olhar repousam cabelos… tantos… quietos.

Composição feita de cor, sinais e olhar, suavidade e mistério.

Antes fosse apenas beleza com a qual se afeiçoam os homens.

Antes fosse apenas vontade de dizer e ouvir.

Antes fosse um truque com palavras e gestos.

Antes fosse uma sinfonia que começa e acaba, uma chuva que nos acorda e depois seca, uma luz que escapa, um dia que torna um homem feliz.

Antes fosse, tantas coisas possíveis.

Mas a poesia prefere o impossível, a prece, o intocável, o vivo.

Ontem ouvi a voz desta imperatriz.

Não lembro bem suas palavras, porque me dizia mais o próprio som.

Debaixo dos lençóis e das pálpebras, seu rosto e sua voz. Lá no fundo, a minha sinfonia predileta, minha respiração esquenta, acelera, o peito sobe e desce, minha pele se fragiliza como o tecido de uma bandeira presa ao vento.

Meu ritmo sai do compasso da música.

O rosto dela cresce em minhas retinas, cresce e se agiganta.

Aperto os lençóis, mordo os lábios, escuto o som da voz, meu coração interfere com seu ruído veloz, o ar desorganiza-se em minhas narinas, a bandeira e a ventania, seus olhos estão mais perto dos meus,

a fina ferrugem, o hálito juvenil, sou tragado e águas lá fora carregam folhas e outras incertezas.

Abro os olhos e … Silêncio entre mim e o teto, entre o quarto e a chuva que se foi há tempo.

Lá fora as folhas rolam entre o seco e o molhado.

Dentro de mim novas incertezas, e uma voz morna e escondida.

Composições

Gênese

Paradoxa Duo

Paradoxa Duo
 
Na música, o improviso é algo que atrai o interesse de muitos músicos. Segundo o dicionário online priberam de língua portuguesa, improviso pode ser um substantivo que significa “Poesiadiscurso ou peça musical que se inventa de repente”. Pode também ser um verbo que significa “Dizer ou fazer de repentesem premeditação ou sem os elementos precisos”. Todavia, no campo da música o improviso pode ser uma atividade na qual se pode instruir um músico a como improvisar, o que retira bem-dizer a intuição como fonte do improviso. No mercado editorial há centenas de livros voltados a instruir um músico que tenha interesse em improvisar, ou seja, que tenha interesse em aprender a improvisar. Para tanto, os livros oferecem uma gama de escalas com as quais o músico poderá fazer combinações com as notas daquelas escalas a fim de produzir uma melodia que caracterize o seu improviso. Eu chamaria esta prática de improviso idiomático. Pois, na prática (em si) trata-se antes de citações de notas de uma determinada escala, ou determinadas escalas. Assim, seria, antes, um “improviso” pensado em vez de um improviso intuitivo. Ao se pensar, ao se racionalizar, ao se citar um conjunto de notas extraídas de uma escala, a consequência é a construção de uma melodia que soa como um idioma, isto é, com uma sonoridade específica. Quando diferentes músicos usas uma escala modal do tipo mixolídia (por exemplo), para fazer seus “improvisos”, em dado momento o ouvinte irá perceber que as notas são as mesmas e o que varia é a sequência daquelas mesmas notas, ainda que sejam diferentes os músicos cada um decidiu utilizar, combinar, as mesmas notas. Um ouvinte mais experiente com as escalas modais, como a mixolídia, poderá dizer: “parece música nordestina”. Assim, em vez do termo “improviso” penso que o termo adequado seria “citação” ou “aplicação”, uma vez que a fonte do “improviso” é uma decisão racional em se utilizar (citar) as notas de uma ou mais escalas.
 
Improvisação idiomática 
Quando o fraseado se baseia num vocabulário de escalas tonais e modais, a tarefa do improvisador é a de construir o fraseado com o uso das notas daquelas escalas, ou seja, por meio da combinação das notas agrupando-as ou misturando-as entre si, ou com as notas de uma outra escala. Tal aplicabilidade é o que popularmente no meio dos músicos se costuma chamar de “improvisação”, que é diferente de “inventar de repente” conforme o dicionário. O que o músico “inventa”, no caso de uma improvisação idiomática, é a maneira de combinar as notas de escalas pre-existentes, o que aumenta as chances do “improviso” de diferentes músicos soar parecido, pois usam um mesmo padrão de escalas e notas. Escrevi um artigo sobre “improvisação idiomática“, e nele disponibilizo uma listagem de algumas das escalas que muitos músicos gostam de usar ao praticarem este tipo de improvisação. Quero deixar claro que não estou aqui tentando invalidar esta prática. Ela funciona. Meu interesse é refletir sobre o termo “improvisação”, de modo que se possa pensar numa distinção entre “improvisação idiomática” e improvisação, propriamente dita, isto é, o improviso intuitivo que poderíamos chamar também de improviso experimental.
A partir deste ponto, vou examinar o trabalho de um duo de guitarristas chamado PARADOXA DUO. O duo é formado por Edgard Felipe (27 anos) e Kino Lopes (21 anos). Segundo palavras do próprio Kino Lopes trata-se de um trabalho baseado em “improvisos intuitivos com músicas completamente improvisadas e a única coisa que guia o som são os ouvidos”. O álbum leva o nome do duo, “Paradoxa”, e contém nove faixas:
  1. Eleve (04:34)
  2. Kabbala (04:02)
  3. Zora’s (03:26)
  4. Espigno (02:26)
  5. Asias (08:28)
  6. Irisarco (03:05)
  7. Areia (01:51)
  8. Solar (04:43)
  9. Schoenberg (02:50)
1-Eleve (04:34)
A primeira coisa que chama atenção é a base rítmica feita por um trinado que pode incitar memórias de um bandolim no registro grave, e uma melodia que passeia no território do fado até desembocar num acorde de sétima maior (02:00) que funciona como uma janela para outro ambiente sonoro, à medida que o baixo desce diatonicamente enquanto se ouvem acordes maiores e menores a preparar o terreno para um fraseado que cruza a fronteira portuguesa para adentrar em terreno sutil e melodicamente espanhol (02:41). A harmonia assume uma postura de ostinato tonal e consonante enquanto a melodia excursiona por fraseados diatônicos temperados com lampejos dissonantes, como quem não necessita de uma identidade tonal até encontrar o silêncio.
2-Kabbala (04:02)
Kabbala começa com uma espécie de contraponto de notas que parecem soar com o objetivo de apresentar o timbre de cada guitarra. Em 00:40 surge um movimento rítmico de uma das guitarras enquanto a outra repete um motivo melódico que vem funcionar como um pedal para a improvisação da harmonia. Esta transita livremente entre acordes e arpejos como quem busca juntar para si diversos laços tonais e formar um caleidoscópio harmônico. Em 02:18 o motivo melódico cessa para dar passagem a uma nova proposta melódica apoiada por um ciclo harmônico de acordes maiores e menores, que se repetem para emoldurar a liberdade melódica. Em 03:26, melodia e harmonia se unem na forma de colcheias sincrônicas até a diluição da atmosfera sincronizada em 03:53 feita por um acorde surpresa que chega para desenhar o vazio.
3-Zora’s (03:26)
Nas improvisações anteriores, pode-se dizer que não há um padrão musical que se aproxime daquilo que um ouvinte esteja acostumado. Em Zora’s, sim. Tanto para leigos como para músicos, parece que se vai ouvir uma improvisação que foi escrita numa partitura, devido ao padrão tonal de um arpejo em quiálteras de um acorde menor. Quando a outra guitarra entra, coloca nos nossos ouvidos notas propositadamente encaixadas no campo harmônico da outra guitarra. A impressão que tive foi que os dois guitarristas usaram esse tecido sonoro musicalmente mais habitual para que praticassem um improviso de pausas. Em 00:37 as pausas tornam-se ausentes e são substituídas por duas linhas melódicas interdependentes, sem a presença de acordes. A partir de 00:40 se configura uma espécie de fuga barroca, entretanto, atonal. Em 02:54 uma das guitarras retoma a ideia inicial no sentido de uma exposição sonora mais comum ao cotidiano dos leigos, e ambos finalizam a obra com aquilo que identifiquei como sendo um improviso de pausas.
4-Espigno (02:26)
Aqui, eu faço a proposta para o ouvinte separar o que ouve. Isto é, tentar ouvir apenas uma das guitarras. Depois, voltar ao início e ouvir apenas a outra. Uma faz um percurso melódico que poderia servir para a letra de um fado, mas um fado que escapa das rédeas tonais e do mormaço das fermatas; a outra faz uma marcação rítmica que poderia servir de base para um tango. As duas melodias são heterogêneas dentro de um mesmo recipiente acústico. Tal qua uma mistura em fogo lento, a música evapora sem esperar pelo ouvinte.
5-Asias (08:28)
Por ser a peça mais longa do álbum, parece uma suíte. Em 00:26 ouve-se os harmônicos de uma das guitarras num clima que sugere um minimalismo proporcionado pelo ostinato da corda solta, nota lá, que ocupa o centro da improvisação. Há uma longa sequência de colcheias que trafegam marcadamente, do grave ao agudo, como se rodopiassem o ostinato da nota lá cujo resultado, pelo menos para mim, serviria de trilha sonora para a paisagem árida do sertão nordestino. A partir de 01:45 uma das guitarras assume que fará uma base no estilo “walking bass”, com semínimas marcadas até que em 03:11 tal base se desmancha numa espécie de contraponto ad libitum até que em 03:36 uma célula rítmica se instala, e tal célula se converte em outra, e depois em outra num jogo de variações sincopadas que se estende até 06:10. A partir de então surge um novo clima rítmico. Assim, a peça parece ser uma suíte de frases rítmicas em vez das frases meramente melódicas. O ostinato volta à cena ainda mais forte. Em 07:23 o diálogo entre as guitarras retoma o fraseado rítmico e melódico já experimentado na mesma música, todavia com uma variação nova.
6-Irisarco (03:05)
Esteticamente (a aparência sonora) esta faixa carrega uma essência romântica na fronteira com a estética modernista, romântica pelos ingredientes da melodia ora diatônica ora acidentada numa teia de modulações; modernista na coda quando a diluição dos compassos apresenta um certo atonalismo no horizonte.
7-Areia (01:51)
É a única faixa em que uma das guitarras se despe de sua condição melódica e harmônica para vestir-se de instrumento percussivo. A melodia se acompanha com acordes episódicos enquanto a “percussão” explora células tímbricas sem se fixar a um ritmo. Eu ouvi tendo em mente a ideia de que a “percussão” fazia o tema, enquanto a outra guitarra construía situações melódicas para o acompanhamento.
8-Solar (04:43)
Durante um pouco mais de um minuto (00:35 a 01:41) o duo sugere uma linguagem melódica e harmônica tipicamente das raízes sertanejas brasileiras. Não me refiro aqui à música denominada “sertaneja” da indústria fonográfica, mas à música sertaneja dos violeiros do interior do país. Após esta exposição que sublinha uma brasilidade, uma das guitarras investe num ostinato de uma quinta justa descendente enquanto a outra desenha fraseados com arabescos que tangenciam motivos flamencos (01:41 a 02:35), cuja conclusão da exposição funciona como introdução a um novo motivo desta vez com um aroma da música tradicional grega, em que acordes marcam um pulso enquanto a outra guitarra trabalha com intervalos recorrentes de quarta justa descendente, com sutis variações (02:35 a 03:21). A partir de 03:22 as guitarras buscam um diálogo com células curtas e pausas, sem eliminar o ostinato de intervalos justos e descendentes como pano de fundo. Em 04:05 uma das guitarras migra para uma região mais grave com uma nova célula rítmica e notas acidentadas que pouco a pouco se convertem em notas melodicamente diatônicas, como base para a outra guitarra que permanece na região aguda com um ostinato que se dilui rumo a um sotaque modal até que uma nota final é lançada e a peça se conclui num silêncio proposital.
9-Schoenberg (02:50)
Se as obras anteriores foram intituladas de modo a permitir uma interpretação variada quanto ao significado de cada título, o título da última faixa traz uma objetividade à interpretação de seu significado: Schoenberg. Trata-se do compositor austríaco, considerado o criador do dodecafonismo. Curiosamente, a faixa inteira possui um centro tonal. Uma das guitarras faz uma base de corda solta em que aproveita a flexibilidade percussiva do instrumento, enquanto a outra desliza acordes como um pêndulo. A guitarra base reforça o centro tonal em dó sustenido menor. Se é proposital ou não, tal paradoxo, pode ser uma dentre tantas outras possíveis justificativas para o nome que o duo escolheu para si: Paradoxa. 
Considerações finais
O trabalho de improvisação (espontânea, intuitiva, experimental, alquímica) do Paradoxa Duo tem no conjunto sutis mudanças de registro e uma unidade estrutural orgânica. Portanto, não se trata de composições formais onde predomina um tratamento melódico-harmônico que depende do desenvolvimento de um motivo por meio da variação. Assim, não se espera encontrar a forma ABA ou outra qualquer tendo em vista a organicidade, ou espontaneidade, do trajeto melódico, rítmico e harmônico. Definitivamente, são melodias improvisadas, segundo o significado da palavra improviso no dicionário: “inventa de repente”. Pois, não há evidências de que as melodias tenham sido ensaiadas. Os dois músicos praticaram a essência da palavra improviso, de modo que nenhum deles poderia imaginar o que teriam pela frente no diálogo experimental a que se propuseram realizar. Eu ouvi cada faixa três vezes, sempre com um headphone. Durante a escuta eu prefiro estar desprovido de qualquer expectativa. Prefiro escutar cada novo trabalho com foco na estrutura sonora, nos materiais empregados e como são articulados em relação ao tempo que transcorre compasso a compasso. Para quem só descobriu uma maneira de escutar música pode não aceitar outras oportunidades de escutar trabalhos de livre improvisação e tantas outras experiências musicais com ou sem a ancoragem tonal. O que ouvi no conjunto das nove faixas é o pleno exercício da criatividade e experimentalismo, sem nenhuma pretensão de exposição virtuosística tampouco qualquer representação de algum estilo específico. Paradoxa Duo representa a si mesmo dentro de uma proposta de improvisos intuitivos, isto é, sem estarem presos a esquemas idiomáticos das escalas modais, pentatônicas e tantas outras empregadas por outros improvisadores. O duo nos convida a sentir duas guitarras que se encontram como instrumentos que se fundem, como se fossem enarmônicas e, ao mesmo tempo, ora simétricas ora assimétricas, ora melódicas ora harmônicas, ora tonais ora atonais, ora ortodoxas ora heterodoxas, ora dependentes ora independentes. Chego a pensar que cada um deles era ora músico ora espectador.


O álbum Paradoxa pode ser ouvido aqui: https://bizraremusic.bandcamp.com/album/paradoxa
 
 

Virgínia Feu Rosa

Hostaria del Sapori, 08/abr/2017.

Com um repertório dedicado às canções francesas, Brasília conta com uma oportunidade única para apreciar a música francesa do século XX enquanto saboreia um menu de pratos franceses. Vejam algumas das músicas que irão iluminar a noite:

J’ai deux amours
Sous le ciel de Paris
Syracuse
La question
La vie en rose
Je veux
L’été 42
Dans mon île
C’est si bon
Ne me quitte pas
Je ne regrette rien
La mer
Gymnopédie n.1 (piano solo)
Gymnossienne ( piano solo)
La bohème
La javanaise
La chansonette
Et maintenant
Un homme et une femme
Tu sais je vais t’aimer

VirginiaFeuRosa-08abr2017_________________________________________________________________________________

Teatro Eva Herz, Livraria Cultura, 26 e 27/nov/2016.

Nos dias 26 e 27 de novembro de 2016 tive a grata satisfação de integrar a banda da cantora e compositora Virgínia Feu Rosa, no palco do Teatro Eva Herz, da Livraria Cultura, em Brasília. Conheci a Virgínia quando o embaixador Antenor Bogéa (pianista, compositor e cantor) me convidou para ir vê-la cantar num Pub da capital. Ficamos no mezanino e logo na primeira música…

 
Uma raridade para se ver e ouvir
 
… percebi que estava diante de uma raridade no cenário artístico contemporâneo. Refiro-me ao modo como Virgínia Feu Rosa trata a música. É como se seu próprio sobrenome oferecesse pistas de sua relação com a música: “Feu” (sugere o movimento do fogo, sua luz, sua intensidade) e “Rosa” (sugere perfume e delicadeza). Virgínia trata a música com respeito (como quem observa o movimento das chamas) e com zelo (como quem recebe uma flor). Eu não sei como é ouvir música sem ser músico. Comecei a estudar música aos cinco anos e ao longo do tempo ouvi música influenciado pela formação musical erudita e popular. Sem minha formação musical, talvez eu escutasse música de outra maneira. Além de intérprete eu componho. Isso abre outra dimensão para a escuta musical. Nessa dimensão, busco aquilo que é raro. Existem conceitos subjetivos como “beleza”, mas “raro” me parece um conceito objetivo à medida em que a percepção de um maior número de pessoas  coincida de que estão diante de um evento raro, desde que a escuta esteja comprometida em garimpar um tratamento musical raro. Em outras palavras, um tratamento musical mais focado na música do que nos cânones mercadológicos.
 
A música pela música
 
A música tornou-se um produto nas prateleiras reais e virtuais da indústria fonográfica. E não há nenhum problema nisso. Há padrões estéticos disponíveis para todos os consumidores. Há mais de um século uma rede se organizou para a mercantilização de músicas: gravadoras, rádios, TVs, empresários de shows e mais recentemente, a disponibilização de produtos musicais na Internet. Percebam que em NENHUM momento me referi à “beleza” ou à qualidade musical. Em NENHUM momento quis julgar este ou aquele produto musical. Se em algum momento da trajetória profissional um intérprete ou um compositor fizer parte da indústria de consumo, continuarei ouvindo esta ou aquela música sob influência de minha formação musical em que a música erudita e a música popular caminharam lado a lado. Minha formação musical está menos ligada à noção de gosto e mais enraizada à noção de respeito e zelo pela música. Em outras palavras, se o músico aparece mais do que a própria música, isso não me chama a atenção. Se a música aparece mais do que o músico, isso me chama a atenção. E neste último caso, no mundo sistematizado da música industrializada para todos os gostos, Virgínia Feu Rosa faz emergir uma música que se adapta às prateleiras da forte e sólida indústria musical e, ao mesmo tempo, se encaixa na curiosidade de quem busca ouvir composições diferentes. Diferentes, especialmente, pelo respeito e zelo a cada compasso de uma música que aparece mais do que a intérprete, mais do que o músico que a executa. Foi assim que aprendi a cultivar: a música pela música, em vez do músico ou intérprete que almeja ser maior que a música.
 
Mensagem artística
 
Tem dias que a gente quer tomar um café diferente, comer um prato diferente, ouvir uma música diferente. Respeito e zelo são os referenciais da artista Virgínia Feu Rosa para escolher os músicos que vão dividir o palco com ela. Quando uma mensagem artística é feita através da música, há ouvintes que apontam seus tímpanos para a afinação de quem canta, outros miram na técnica de cada músico em seu instrumento. Se o show é em um teatro, há quem aponte os olhos para a iluminação e cenário. Nunca se sabe como alguém escuta uma música. Tampouco aquilo que julga ou imagina enquanto ouve. Fato é que Virgínia escolhe músicos comprometidos com a Música – esta entidade histórica – domesticável ou não, industrializável ou não, são músicos que respeitam a força indômita e latente que reside nos porões de cada instrumento: o baixo da diretora musical Carol Setubal, a harpa de Hallisson Nogueira, a guitarra de Kino Lopes, a bateria de Caio Fonseca, a percussão de Keu Aragão, e com muito prazer fiz parte do grupo como pianista no show de lançamento do álbum “Primeiro Impacto”.
 
Ouvindo com lupa
 
Virgínia Feu Rosa: compositora e intérprete – nos ensaios, na passagem de som, no palco, ela embala com sua voz as canções de compositores brasilienses, e canções de sua autoria. Às vezes a gente ouve uma intérprete e não raro fazemos comparações estilísticas com outros intérpretes. Todavia, Virgínia (com uma presença em cena é inegavelmente elegante) parece ter encontrado um caminho próprio para com sua voz e seus gestos manter em primeiro plano a atenção da audiência na música que interpreta. Em outras palavras, não quer nos surpreender por meio de questões técnicas, mas antes pelo tratamento estético e emocional de cada canção.
 
Carol Setubal: baixista – a diretora musical do show soube conduzir com simplicidade os ensaios e a apresentação do show. Seu estilo de tocar faz o baixo soar melodicamente enquanto pavimenta a base das harmonias. Explora as regiões do instrumento de modo a protagonizar solos conscientes para dar à cada nota a mesma importância.
 
Caio Fonseca: baterista – raramente tive oportunidade de tocar com bateristas que transformaram a bateria em um instrumento para dialogar com a intérprete. Não se trata daquela bateria de bumbo e caixa, de ritmo de relógio ou algum tipo de motor. Caio Fonseca faz sua bateria soar para rimar com a voz, rimar com a guitarra, rimar com o piano, rimar com o baixo, rimar com a percussão, rimar com a dinâmica da música, de modo que bumbo, caixa, pratos, transcrevem um poema sem molduras, tal qual os sons que preenchem os espaços e nele se dissipam.
 
Kino Lopes: guitarrista – jazz e minimalismo, liberdade e precisão, som e silêncio, assim soa a guitarra de Kino Lopes, um músico que planeja como vai soar sua guitarra no próximo compasso. Sua performance lhe converte em um comentarista sonoro a dizer melodicamente coisas diferentes para os diferentes ritmos e acordes de uma canção. Sua técnica refinada está por trás do resultado artístico ao fazer com que escalas conhecidas soem como novidades melódicas. O timbre de sua guitarra parece transcrever a sua personalidade musical onde criador e criatura convivem no mesmo compasso.
 
Hallisson Nogueira: harpista – um momento ímpar na cena musical foi proporcionado pela harpa de Hallisson Nogueira que de mãos dadas com a voz de Virgínia Feu Rosa, envolveu os ouvintes com uma textura acústica pluralizada, em que notas e acordes ocupam diversas posições no imaginário.
 
Keu Aragão: percussionista – eu comparo o percussionista a um alquimista que está em seu laboratório misturando fórmulas secretas. E Keu Aragão traz para o palco uma sonoridade das ondas do mar, do vento no quintal, das nuvens que se espalham. A maneira como intervém em momentos específicos faz de sua percussão um instrumento que protagoniza surpresas aos ouvintes. Sua percussão não está vinculada ao ritmo da música, mas sim às possibilidades emocionais que uma música é capaz de transmitir.
 
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Encontros e despedidas na Sala Cassia Eller-20nov2016

Sala Cássia Eller, Funarte, 20/nov/2016.

Sandra Dualibe e Antenor Bogéa são artistas reconhecidos pelo talento, pela voz, pela empatia e pelo amor à música. No dia 20 de novembro de 2016 nós três estivemos na Sala Cássia Eller, Funarte, na cidade de Brasília, para mostrar ao público nossas emoções acumuladas em mais de dez anos de viagens pelo Brasil e exterior (Grécia, Chipre, França).

 
Encontros e despedidas
 
A ideia deste show partiu da Sandra que vive um momento muito especial em sua carreira com o lançamento de seu DVD “Celebrizar”. Ela criou o roteiro, deu o nome ao show – Encontros e despedidas – e contratou a ABÈBÈ PRODUÇÕES que organizou o evento de modo brilhante. O cenário foi composto por objetos dos vários países onde cada um residiu ao longo dos anos. O artista plástico Páris Bogéa cedeu uma de suas obras para compor o cenário. Na iluminação contamos com o trabalho de Jamile Tormann, que já iluminou Leila Pinheiro, Cássia Eller, Adriana Calcanhoto, Carlinhos Brown, Ed Motta, Lenine…
 
 
Estar no palco com Sandra Dualibe e Antenor Bogéa é uma experiência fascinante. Já tive a oportunidade de tocar piano na casa de ambos e é impressionante como cantam como se estivessem fazendo um show, ou gravando um disco, pois se entregam à música independentemente do local, do público, da ocasião.
 
Que honra estar ao lado deles !
 
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Dança dos ventos

Farlley Derze. Brasília, DF, 16 de novembro de 2011

Danca dos ventos

A saudade faz duas coisas com a gente: faz a gente olhar pela janela e permanecer ali por algum tempo, inerte, a desfolhar as páginas de um momento que agora percebemos como foi bom ter vivido, e então a segunda coisa é aquela palpitação dentro do peito, às vezes os olhos mareados, o ritmo diferente da respiração, como me ocorre agora ao ouvir dentro da mente a música “Dança dos ventos”. Eu acordei às 4h da manhã com uma pequena e indesejável crise alérgica, espirros, tosse, fui até a cozinha tomei um antialérgico e descongestionante, enfiei duas pastilhas efervescentes de vitamina C num copo d’água. Tomei essa bebida com duas torradas de pão de milho que pus para tostar enquanto exercitava a respiração para um melhor fluxo de ar. Deitei-me para tentar dormir, mas nada feito porque descobri nos primeiros 5 minutos que não conseguiria dormir de novo, então me levantei e liguei o computador para finalizar um texto sobre a música “O concerto dos sapos” que comecei dois dias atrás. No penúltimo parágrafo da primeira página onde cito alguns compositores e suas músicas, isto é, enquanto eu relia o que havia escrito, foi nesse ponto da leitura onde cito músicas como “Sinfonia nº 101 – o relógio”, “As quatro estações”, “Clair de lune” e “Trenzinho do caipira”, e a lista seria enorme para casos idênticos de compositores que buscaram descrever objetos, cenas, pessoas, animais, por meio de um ou mais instrumentos… foi nesse ponto da leitura que desejei inserir a música “Dança dos ventos”, e nesse momento a melodia dessa música invadiu a minha mente na forma que a ouvi pela primeira vez, e não na forma que hoje ouço quando a toco no piano. Então, enquanto a ouvia com o solo do violino acompanhado pelo baixo elétrico, a guitarra elétrica e a bateria, meus olhos já estavam para além da janela de onde eu estava sentado, às 4h30 da manhã, grudados na cena do passado que vivi. Saudade e vontade de rever o Simô (o autor da música, vocalista, guitarrista, violonista), Zeca Armesino (baixista), Mário (baterista, que se formou em odontologia) e André Araújo (violinista). Vou narrar a saudade que inundou minha mente ao som da “Dança dos ventos”. Era 1986. Eu tinha sido aprovado no vestibular para o Curso de Licenciatura Plena em Educação Artística, na UNIRIO. Antes das aulas começarem, resolvi ir na Universidade para conhecer os espaços, os prédios…e até o bairro, Urca, onde desembarcou Estácio de Sá para fundar a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em 1º de março de 1565. Eu fui criado em Guadalupe, subúrbio da zona norte, a 40km da Urca. Conclusão: 80km ida e volta todos os dias. Ao adentrar no espaço da universidade não encontrei ninguém desde a entrada do portão, o corredor que nos conduz por uma praça atrás da qual se encontram os prédios e suas salas de aula. Da praça vazia ouvi uma música que vinha lá do fundo de um dos prédios. Apressei o passo: havia gente ali, em pleno período de férias. Ao chegar na janela, pelo lado de fora vi os quatro rapazes, em idade próxima à minha, 20 anos, que tocavam como magnetizados pela música, mas hoje sei que magnetizado estava eu. Que música! …”Dança dos ventos”. Na época, por causa de minha timidez não tive coragem de me aproximar deles, aliás, fiquei escondido sem aparecer na janela, dava uma espiada ou outra quando aumentava a coragem, eu realmente achava que podia levar uma bronca. Isso tinha a ver com a criação que tive em casa. Entretanto, com o decorrer das aulas onde estudei com eles na mesma sala, fiz amizade com os integrantes daquele quarteto que se chamava “Solar”, uma banda de universitários que fazia apresentações na zona sul, e tinha um “compacto simples” gravado, que era um disco de vinil onde cabiam duas músicas de cada lado. Apenas o baterista, o Mário, não era estudante de música na UNIRIO, mas de odontologia noutra faculdade. Em dois anos eu já fazia parte do grupo que deixou de se chamar “Solar” e passou a se chamar “Aura vital”. Não me lembro quem mudou o nome tão pouco o motivo, mas com o novo nome veio também a voz feminina da Cacala (Maria Clara), além da minha entrada como tecladista. Fizemos juntos muitas apresentações nos espaços da zona sul da cidade, guardo até hoje os recortes de jornal com nossa foto, inclusive. Neste exato instante, enquanto a música trafega em minha mente estou na página do google, no link imagens onde digitei a palavra UNIRIO. Agora, enquanto ouço a música que navega junto com os meus olhos por essa janela a mergulhar na madrugada, vejo no site várias fotos da universidade, o portão envelhecido e suas grades de metal, me vejo ali outra vez sem a barba grisalha, sem os óculos de grau, sem as rugas das mãos, sem asma e sem saudade. Hoje a “Dança dos ventos” me carregou pela maquina do tempo até 1986, me fez cruzar a praça vazia em direção à janela da universidade onde estavam aqueles quatro rapazes de quem me tornei amigo tempos depois. Sigo o som da melodia e me vejo ali agora, escondido a espiar pela janela os gestos iluminados do André a correr seus dedos pelo violino, os olhos fechados do baixista Zeca Armesino, o sorriso quieto feito um rio silencioso do guitarrista Simô, autor da música “Dança dos ventos”, a sutileza do Mário na bateria onde flutuam suas mãos. Onde estarão nesse momento aqueles rapazes? Certamente grisalhos como eu. Meus olhos brilham  na luz do poste da madrugada que vejo pela janela, meus ouvidos estão grudados na dignidade daquele momento honesto de infância eterna que eu vivia ao som daquela música, e sem a qual não seria possível nem esse texto, nem essa saudade.


Metabolar-Casa Laura Alvim

28 de outubro de 1992

03, 04, 10 e 11 de novembro de 1992

 

Metabolar-Café Laranjeiras

16,17,18,23,24,25,30 de junho de 1992

1 e 2 de julho de 1992