Nestor

Nestor

Contar histórias é uma maneira de manter as pessoas unidas. A televisão contou a história do homem pousando na lua, uma história contada com imagens em preto-e-branco. Eu vi. Meu vizinho Nestor deve ter visto. Depois daquilo, todos os meninos da minha idade, naquela época, sonharam em pisar na lua. Mas morar no subúrbio do Rio do Janeiro não facilitava a realização de um sonho assim. Sonhar em beijar a Carolina, ok, era possível. Saber dançar ou jogar cartas já era meio caminho andado. Mas não quero falar do homem na lua nem da Carolina. Quero falar do Nestor, meu vizinho. Taí um cara que eu gostaria de ter conhecido, tomar um café com ele, ouvir suas histórias.

Nestor tinha um metro e setenta, nem gordo nem magro, passou a usar óculos depois dos quarenta, ganhou uma calvície também, e antes dessas transformações trabalhava como carteiro. Depois se casou, veio a primeira filha, depois a segunda, então precisou mudar de emprego, viu um anúncio no jornal e conquistou uma vaga de supervisor numa fábrica de refrigerantes. Isso foi em 1989, estava com vinte e nove anos, tinha a esposa na mesma idade, uma filha de quatro anos e outra com dez meses. Sua vida como supervisor não interessa tanto, basta dizer que foi muito bem sucedido, era disciplinado, organizado e muito educado. Portanto, nada podia dar errado em sua ascensão profissional. Assumiu o cargo de diretor numa das filiais ao completar quinze anos de empresa. Com tais virtudes, dá para concluir que sua vida familiar correu às mil maravilhas para a esposa e as filhas, mas nem tanto para ele próprio. Sempre abria mão de tudo para satisfazê-las. Convenhamos: isso é triste. Numa família todos merecem realizar seus sonhos ou suas vontades na medida em que fazem por merecer. E Nestor merecia qualquer coisa que desejasse. Entretanto, com a mesma sutileza com que realizava os sonhos da mulher e das filhas, mentia para si mesmo. Inventava no silêncio de sua cabeça que seus sonhos não tinham importância. Eu era seu vizinho e, como vivo preso no meu umbigo, nunca lhe disse “bom dia, Nestor”. Aliás, eu só soube que se chamava Nestor porque li na coroa de flores ao lado de seu caixão. E tudo isso que contei a respeito dele escutei da boca dos outros aqui no velório.

Dois dias atrás, às duas horas da madrugada, acordei com gritos vindo da casa dele. Você pode imaginar três mulheres aos gritos de choro e desespero no meio da madrugada? Abri a janela que dava para a casa do vizinho e vi luzes acesas. Eu imaginei o pior, e estava certo. Porém, usei do meu egoísmo, balbuciei que não tinha nada a ver com aquilo, nada a ver com eles, fechei a janela, ajeitei o travesseiro e puxei o cobertor. Eu de fato estava com sono e de fato sou egoísta. Dane-se o mundo. As coisas são como são. Mas alguém tocou minha campainha. Era a filha mais velha do vizinho. Já me esqueci do nome dela. É aquela na cabeceira do caixão, com óculos escuros, vestido preto e cabelo loiro preso como rabo de cavalo. A outra filha saiu faz meia hora. Só sei disso porque coincidiu de vê-la sair quando olhava meu relógio. A caçula certamente voltaria, “só saiu pra tomar um ar”, pensei.

Quando a campainha tocou e me pediram ajuda eu fui até lá e vi o vizinho caído no chão da cozinha. Aproveitei para dar uma olhada na casa, pareciam viver muito bem. Os óculos dele estavam ao pé da geladeira, as mãos pousadas no piso em forma de concha, caiu de barriga pra baixo, tinha uma calça de pijama comprida, era azul com listras brancas, uma camiseta da hering, os pés descalços e estava ali, morto, estirado. Exalava um aroma daqueles sabonetes de cor marrom, não lembro o nome agora. Na minha idade, talvez a mesma do Nestor, as palavras vão e vêm.

Depois de auxiliar a viúva com telefonemas para empresas funerárias, prometi-lhe, num ato irracional, ficar ao lado da família para tudo que precisassem naquele momento. Vamos concordar: é difícil para uma mulher com mais de cinquenta anos, que se desloca numa cadeira de rodas, lidar com o marido morto no chão da cozinha, sobretudo com as filhas aos prantos, aos gritos, histéricas.

As pessoas circulam ao redor do caixão. Eu me pergunto “e se fosse comigo”? Sou um velho solteiro. Quando eu morrer, quem dará o alarme?

Levanto-me e vou até o morto. Ouço os cochichos: “morreu sem ver o time dele campeão”, “nunca destratou ninguém ”, “morreu cedo”, “morreu de quê”? Há flores e faixas dos colegas de trabalho: “Nestor, o melhor chefe do mundo”.

De repente, a filha mais moça retorna ao recinto e traz ao lado um cachorro preso à coleira. A filha mais velha lançou-se em sua direção, deu-lhe um abraço comovente, demorado como se não a visse há meses, depois se abaixou e acariciou o cãozinho que tinha um porte médio. Parecia o filhote de alguma raça, desses que ficam grande. Tinha o pelo marrom e os olhos cor de caramelo. A filha mais velha, ainda agachada, sussurrava sorridente para o cachorrinho. A irmã caçula tinha um sorriso de satisfação, o mesmo sorriso da viúva que manobrou sua cadeira de rodas até o animal. A filha mais velha se levantou e as três mulheres se abraçaram como se se tratasse de uma comemoração. A caçula passou a coleira às mãos da mãe. A viúva fez um giro de meia-volta e se aproximou do caixão. Pediu licença e falou aos convidados: “quero agradecer a todos que fizeram parte da vida do Nestor. Meu marido foi um homem feliz, mas foi feliz à nossa maneira e não à maneira dele. Quando nos conhecemos conversamos sobre alegrias e tristezas. Ele me contou que na adolescência teve uma tristeza grande, aquela que machuca a alma e permanece na memória pro resto da vida. Um dia chegou da escola e não ouviu o latido de seu cachorro. Seu pai decidiu dá-lo a um vizinho que morava noutro bairro. Disse pra mim que um dia voltaria a ter cachorro em casa. Mas quando nos casamos, embora ele realizasse meus sonhos e os de nossas filhas, eu não permiti que ele tivesse seu cachorro. Minhas filhas também diziam não. A vida passa rápido, as coisas são como são, ele merecia realizar seu sonho de criança. Alguns sonhos podem ser realizados. Quando o Nestor via um cachorro no quintal das pessoas seu olhar se transformava num olhar de menino”.

A viúva dizia aquelas palavras com um sorriso morno no rosto, que subitamente desapareceu para dar espaço a um rosto duro, pensativo como quem recalcula o tempo. A viúva fez um gesto, a caçula tomou a coleira e enrolou-a na mão gelada do pai.

Sambajazz

Quando o assunto é música muitos temas podem fazer parte da conversa. A harmonia, o ritmo, a levada, o estilo, o improviso, a orquestração, o arranjo, a composição, os modos gregos, o contracanto, o virtuosismo, o gosto musical… a lista é infinita.

Da lista infinita vou escolher o assunto “Sambajazz”. O Youtube está cheio de exemplos desse estilo musical que marcou a história da música brasileira nos anos 50, 60, 70 e até hoje há pessoas dedicadas a falar do sambajazz. Em Brasília, a referência no assunto é o baterista Sandro Souza. Fundador do grupo Brasília Sambajazz, traz em sua bagagem musical um jeito de falar contagiante, didático e preciso. Nos ensaios, explica aos músicos a essência da linguagem do sambajazz caracterizada pelo diálogo da bateria com a melodia em que células rítmicas calculadas encontram um lugar específico para dar relevo à música. O contrabaixo funciona como o fio condutor que sustenta o diálogo.

Ouvir o sambajazz ao vivo no Brasil é uma raridade. Todavia, graças à pesquisa deste importante músico brasileiro, Sandro Souza, o público brasiliense tem o privilégio de saborear ao vivo o sambajazz. Entretanto, a agenda de apresentações não está disponível a todo momento. Por isso, o público brasiliense aguarda sempre com ansiedade a data da próxima apresentação. Assim, anote em sua agenda a data de 9 de novembro de 2019, sábado, às 21h no Clube do Choro de Brasília.

O público privilegiado da cidade poderá, mais uma vez, entrar em contato com esse estilo único, histórico, ímpar e decisivo na formação da música instrumental brasileira moderna.

Brasília agradece a você, Sandro Souza, por manter viva a história de nossa música e por este presente musical para a cidade.

 

Farlley Derze, pianista

4 de novembro de 2019.

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Tu És Fiel, Senhor.

Tu És Fiel, Senhor.


Tu És Fiel, Senhor

Título Original: Great is Thy Faithfunlness

Música: William Marion Runyan (1870-1957)

Letra: Thomas Obediah Chisholm (1866-1960)

 

1. Tu és fiel, Senhor, ó Deus eterno!

Teus filhos sabem que não falharás!

Nunca mudaste, Tu nunca falhaste;

Tal como eras, sim, sempre serás.

 

Coro:

Tu és fiel, Senhor! Tu és fiel, Senhor!

Dias após dia Tuas bênçãos nos dás.

Tua mercê nos sustenta e nos guarda;

Sim, para sempre, ó Deus, fiel serás.

 

2. Nuvens no azul do céu, Sol refulgente,

Montes e vales, campinas em flor,

Tudo criaste na terra e nos ares,

E todos louvam-Te, fiel Senhor.

 

3. Pleno perdão nos dás, que segurança!

Sempre nos guias na senda do bem;

E no porvir, oh! Que doce esperança!

Tu nos receberás no lar de além.


 

O poema deste hino foi escrito em 1923 por Thomas Obediah Chisholm. Chrisholm nasceu em 29 de julho de 1866, na cidade de Franklin, Kentucky, EUA. Teve sua educação básica em uma pequena escola rural, e tornou-se professor desta escola aos 16 anos. Quando tinha 21 anos, tornou-se editor associado de um jornal semanal, o The Franklin Favorite.

Em 1893 tornou-se cristão, sob o ministério do Dr. Henry Clay Morrison (futuro presidente do Colégio Asbury, em Wilmore, Kentucky). Persuadido pelo Dr. Morrison, Chrisholm mudou-se para Louisville e tornou-se editor do Penecost Herald. Foi ordenado como ministro metodista em 1903 e serviu como pastor por pouco tempo em Scottsville, Kentucky.

Com a saúde debilitada, mudou-se com sua família para uma fazenda, perto de Winona Lake, Indiana. Tornou-se então um vendedor de seguros, mudando-se para Vineland, Nova Jersey, em 1916.

Em 1953 instalou-se no Lar Metodista para Idosos em Ocean Grove, Nova Jersey, onde morreu em 29 de fevereiro de 1960.

Chrisholm escreveu mais de 1.200 poemas, dos quais 800 foram publicados e muitos foram musicados.

De acordo com Chrisholm, não houve uma circunstância especial que o levou a escrever este hino – somente a sua experiência e a verdade bíblica. Este hino apareceu pela primeira vez na coletânea Songs of Salvation and Service (Cânticos de Salvação e Serviço), compilada por William M. Runyan, em 1923. Runyan escreveu a música especialmente para este poema. Em 1956 no Baptist Hymnal (Hinário Batista), foi publicado o seguinte comentário:

“Este poema em particular possuía tal apelo, que orei muito fervorosamente, para que a minha melodia pudesse conduzir a sua mensagem de uma maneira apropriada e digna, e a história subseqüente de seu uso indica que Deus respondeu a esta oração.”

Fonte: http://cyberhymnal.org

O homem lia com cuidado as várias poesias que tinha diante de si. Elas lhe foram enviadas por um amigo, para que ele, sentindo a devida inspiração, escrevesse músicas para acompanhá-las.

Uma das poesias logo chamou a sua atenção. “Esta poesia tinha tal apelo, que orei com todo o fervor pára que a minha melodia pudesse transmitir a sua mensagem duma maneira digna.”

A cena descrita transcorreu em 1923. O compositor era o Rev. William Marion Runyan, metodista norte-americano. Sem dúvida, hoje podemos dizer: a música do compositor faz exatamente o que ele tão ardentemente desejou. .

Runyan nasceu no dia 21 de Janeiro de 1870, em Marin, Estado de Nova York. Tinha grande inclinação para a música. Iniciou os seus estudos de música quando tinha 5 anos, e aos 12 já servia como organista da igreja. Quando tinha 14 anos seu pai, que era pastor metodista, mudou-se, com a família para o Estado de Kansas.

Apesar do seu grande talento musical, Deus tinha outros planos para Ruhyan. Aos 21 anos de idade, foi consagrado ao ministério pastoral. Serviu como pastor e evangelista entre os metodistas por 32 anos.

Por causa de um problema de surdez, Runyan deixou o pastorado em 1923, para assumir responsabilidades na Universidade John Brown, trabalhando também como redator da revista Cristian Workers’ Magazine (Revista do Obreiro Cristão) e como compilador de hinários.

De 1931 a 1944, ele serviu no Instituto Bíblico Moody, em Chicago. Foi nesse Instituto que o hino Tu És Fiel, Senhor, tornou-se muito conhecido, tornando-se um dos prediletos dos alunos daquela instituição. Quando o Dr. Houghton, presidente da mesma, faleceu, o hino foi entoado por todos os presentes ao culto fúnebre.

Em 1923, quando Thomas Chisholm enviou aquelas poesias a William Runyan, este, compositor de quase 300 hinos, já havia feito umas 20 ou 25 músicas para acompanhar poesias de Chisholm, seu colega e grande amigo.

Thomas Obediah Chisholm nasceu no Estado de Kentucky, no dia 29 de julho de 1966. Nasceu em circunstancias humildes e teve de instruir-se por si mesmo. Apesar de só completar o curso primário por esforço próprio, mais tarde se tornou professor. Com 21 anos já era redator auxiliar do jornal local.

Com 27 anos, Chisholm se converteu durante uma série de conferências evangelísticas. Mais tarde, foi consagrado ao ministério pela igreja Metodista, mas o seu estado de saúde bastante precário proibiu que desenvolvesse muitas atividades. Por esta razão, ele deixou o pastorado.

Chisholm escreveu em total de aproximadamente 1.200 poesias. Faleceu no Lar Metodista de Ocean Grove, Estado de Nova Jersey, em 29 de fevereiro de 1960.

O hino Tu És Fiel, Senhor foi publicado pela primeira vez em 1923, num hinário intitulado Songs of Salvation (Cânticos de Salvação) da autoria de Runyan.

O nome da melodia, dado pela família de Runyan, é FAITHFULNESS (Fidelidade).

Um Testemunho

O Pr. Arthur Francis White, pastor batista aposentado de 88 anos de vida estava acamado no hospital. Sofrera uma queda muito brutal, que lhe fizera muito mal. Duas das suas quatro filhas revezavam-se ao seu lado. Anne, sua querida esposa de 58 anos, estava doente em casa, sem condições de estar com ele. (Havia de segui-lo para espera da volta de Jesus 4 meses mais tarde) .

Numa hora quando sua filha Hellen White Brock estava ao seu lado, o Pr Arthur pediu: “Helen, cante comigo, Tu ès Fiel, Senhor”. O Pr. Arthur possuía uma linda e possante voz de tenor. Uma de suas maiores alegrias era cantar o louvor de Cristo, a quem ele conhecera e amara desde menino, e servia fielmente há longos anos.

Helen nunca foi solista, mas cantava um contralto muito afinado no coro, e, quando necessário, regia o coro com eficiência, embora fosse mais uma instrumentista. Naquele momento, entretanto, começou o hino que ambos amavam e conheciam de cor. O pastor, com voz fraca, uniu-se a ela. Em alguns minutos, com a voz falhando, o Pr. Arthur pediu: “Continue, Helen, não posso, mais”. E assim Helen continuou a cantar este grande hino, enquanto seu pai, olhos fechados, apreciava. De repente, Helen notou que seu pai, um sorriso ainda nos lábios, parecia ter dormido. Percebeu que ele não estava mais ali. Partira para estar guardado em Cristo Jesus, esperando o dia da volta Daquele a quem ele amara e servira toda sua vida.

Este hino continuou a ser o hino da família de Helen e Ursus Brock e de suas filhas, Margaret, Edith e Mary. Foi escolhido por Ursus para fazer parte do seu próprio culto memorial, muitos anos mais tarde. Tem sido o testemunho de Edith e Dewey Mulholland por mais de 40 anos de serviço missionário no Brasil, 23 no Piauí e o restante no Distrito Federal: verdadeiramente Deus é Fiel!

Bibliografia: Rosa, Joaquim de Paula, Apresentação, Hinário Para o Culto Cristão, JUERP, 1990, p, VII.

Dos hinos cristãos escritos nos anos mais recentes, um, em particular, sobressai como a luz de um farol, devido à sua mensagem, vinda do Pai celestial que continuamente sustenta e cuida dos Seus filhos.

Este hino,”Tu és fiel”, foi escrito por um pregador que depois se tornou repórter de um jornal, Thomas O. Chisholm, de Vineland, Nova Jersey; e a música foi composta por William M. Runyan.

Muitos hinos têm sido escritos motivados por alguma experiência particular, porém, observando a vida do sr. Chisholm, chegamos à conclusão de que este hino foi o resultado de uma experiência do “dia a dia” da fidelidade de Deus para com Ele.

A história começou em 1941. Dois homens estavam revendo a lista de membros dos Gideões, quando viram, de repente, um nome que lhes era familiar. Descobriram que era o nome do sr. Thomas O. Chisholm e com a seguinte anotação ao lado: “Cancelado por falta de pagamento”.

Eles se lembraram de que o sr. Chisholm era o autor de um hino que muito impressionou o missionário John Stam, que fora martirizado. Este mesmo hino fora o tema da vida de Stam durante os seus estudos no Instituto Bíblico Moody, quando se preparava para o serviço missionário e que, finalmente, levou-o a entregar a sua vida, juntamente com a da sua querida esposa, a fim de que outros pudessem ter vida …

Os dois homens ficaram sensibilizados com o achado. Pensaram que eles mesmos é que deviam pagar a dívida ao sr. Chisholm.

Ao mesmo tempo que o Senhor estava tocando também no coração de um homem de negócios, na cidade de Nova Iorque, o qual não podia dormir porque passava-lhe pela mente o pensamento de que o sr. Chisholm, a quem ele não conhecia pessoalmente, mas apenas através dos hinos sacros que escreveu, estava em grande aperto financeiro. Mas, como poderia fazer chegar a ele qualquer importância em dinheiro? Não sabia onde ele morava!

“Estou certo de que o procurador Jacob Stam sabe do seu endereço”, pensou ele. “Pedirei a ele para levar este dinheiro ao st. Chisholm”.

Assim fez, mas a história não termina aqui. Pela primeira vez em sua vida a família Chisholm estava enfrentando uma necessidade desesperada que, do ponto de vista humano, jamais poderia ser solucionada.

Naquela noite, quase como simples crianças, eles levaram aquele problema à presença do Pai celestial, não sabendo, contudo, que o Senhor já havia respondido. Na manhã seguinte o correio trouxe ao casal Chisholm uma única carta – era do sr. Jacob Stam – e dentro se encontrava a importância de que necessitavam, enviada pelo homem de negócios de Nova Iorque, que jamais conheceram!

Alguém poderia dizer que foi uma coincidência; mas devemos dizer como disse o sr. Chisholm: “Foi a fidelidade de Deus! ” Pois, numa carta escrita em 1949, ele disse: “Estou próximo dos meus oitenta e três anos de idade, mas a força do alto tem sido sempre suprida, juntamente com o cumprimento da Sua promessa: “O meu Deus, segundo as suas riquezas, suprirá todas as vossas necessidades (Filipenses 4.19).

Não somente o suprimento das necessidades, mas as ocasiões desse suprimento, têm assinalado os marcos do Seu cuidado providencial, cada dia, cada momento”.

Fonte: http://www.refrigerio.net

 

Pois é

Eu não quero escrever ou falar de mim ou de minha mãe. Deixem eu abrir um parênteses, voltar no tempo e me ver dentro de um fusca que minha mãe dirigia com o rádio ligado… e isso aconteceu várias vezes, inclusive quando noutra época já estava com outro carro. Quando uma música acabava ela me perguntava “de quem é esta música”? Ela percebia que eu não sabia e dizia “essa é do Pixinguinha”. Cresci com aquelas perguntas e as respostas, não importava se estávamos dentro do carro ou dentro de casa. Se uma música tocava no rádio ou na TV, minha mãe sabia o nome do compositor e também queria que eu soubesse. Agora eu fecho esse parênteses daqueles saudosos anos 70.

Em 2004 eu estava em Cabo Verde, na África, para tocar no primeiro festival de jazz de Cabo Verde. Minha estadia lá e minha participação no festival podem até merecer uma história, mas eu prefiro falar de outra coisa. Em dado momento, numa manhã em que estávamos (músicos franceses, italianos, etc.), e eu também, diga-se de passagem, num restaurante para tomar nosso café da manhã, ouvi uma música que soava nas caixas fixadas no teto. Era “Brasileirinho”. Eu saboreava a música com um certo orgulho nacional, enquanto degustava um iogurte com granola. Quando a música acabou, ouvi dois franceses próximos a mim dizerem “Henri Salvador”. Eu levantei as sobrancelhas. E minhas orelhas se esticaram até eles. Eu queria saber se estavam comentando sobre Henri Salvador ser um compositor de Cabo Verde, ou… “sim, sim, esta música é de Henri Salvador”. Ou seja, mal comecei a xeretar a conversa e eles confirmavam entre si que “Brasileirinho” era uma composição de Henri Salvador. Ora, Henri Salvador é extraordinário. Sou fã. Mas o compositor de “Brasileirinho” é um brasileiro. Minha mãe e e sabemos disso. Claro que não me contive. Da mesa onde eu estava eu lhes disse um bonjour e fui direto ao ponto. Eu lhes informei que “Brasileirinho” não era uma composição de Henri Salvador. Um deles respondeu “Ah bon?”. É como se dissesse “Sério”? Eu respondi com a cabeça e com um olhar do tipo “pois é”. Mas o outro não acreditou em mim e disse que sim, a música era de Henri Salvador. Eu lhes perguntei se eles já tinha ouvido falar do nome Waldir Azevedo. Ambos balançaram a cabeça negativamente. Eu os encarei com as sobrancelhas levantadas como quem diz “pois é”. Fiz outra pergunta. “Que instrumento fazia o solo da música que acabámos de ouvir”? Um deles respondeu “cavaquííínhú”. “Voilà”, disse para lhes mostrar que eu concordava. Então lhes perguntei “qual é o nome da música”? O outro respondeu “Brasilerííínhú”. “Voilà”, concordei outra vez. Então lhes perguntei “se Waldir Azevedo era brasileiro, tocava cavaquinho e o nome da música era Brasileirinho, como Henri Salvador teria feito a música se não era brasileiro, nem tocava cavaquinho?”. Eles se entreolharam. Eu complementei. “Se a música fosse de Henri Salvador, ele teria que ter contratado alguém para escrever a partitura, ou alguém para tocar o cavaquinho, ou simplesmente chamar a música de “Cabo-verdinho”. Um deles disse “faz sentido o que você nos diz”. Eu acenei com a cabeça. E o outro disse “merci beaucoup”.

No ano seguinte (2005) eu estava na França para tocar piano no “Ano do Brasil na França”. Num dia de folga fui convidado por um saxofonista francês a ir até a casa dele para desgustar um churrasco. Enquanto a carne assava, ele colocou um vinil pra tocar. Entendi que ele queria me agradar, já que eu era um brasileiro em terras francesas e a música no vinil era “Desafinado”. Se eu estivesse no carro de minha mãe, lá nos anos 70, ela me perguntaria “quem é o compositor”? Lembrei-me da experiência que tive no ano anterior com os franceses lá em Cabo Verde. Antes de satisfazer uma certa curiosidade de perguntar ao francês anfitrião quem era o compositor da música que tocava, eu o agradeci por ter colocado na vitrola um vinil com a música “Desafinado”. Não sei se você prestou atenção quando no início deste parágrafo eu disse que um francês que tocava saxofone me convidou para um churrasco. A palavra-chave aqui é “saxofone”. A música “Desafinado” que ele colocou era instrumental e o solo era de saxofone. Eu já conhecia aquela gravação, mas eu queria puxar assunto e satisfazer aquela curiosidade secreta de saber se o francês conhecia o compositor. Então eu puxei assunto e disse “que solo bonito, parece um saxofone tenor”. Ele ergueu a garrafa de cerveja em direção ao meu copo e disse “voilà”. E complementou “j’aime beacoup ce musicien”. Eu perguntei quem era o músico e a resposta foi “Stan Getz”. Cheguei a me perguntar por onde andava o meu vinil do Stan Getz do tempo em que eu morava com meus pais. Sorridente, ele permaneceu no assunto e disse como se todo mundo soubesse que “Stan Getz foi muito feliz ao compor essa música”. Senti uma pontada, mas disfarcei. Em vez de corrigi-lo, eu apenas perguntei se eu podia ver a capa do vinil. Ele colocou a cerveja dele numa mesinha e foi lá dentro. Voltou com a capa e um sorriso. Afinal, era como se ele tivesse acertado no modo de agradar um convidado. Com a capa do vinil nas mãos, agradeci e corri os olhos atrás dos nomes de Tom Jobim e Newton Mendonça. Não estavam lá, nem mesmo os outros compositores das demais músicas. Na capa dizia apenas “Stan Getz Greatest Hits”. Perguntei-lhe se havia algum encarte, mas ele não se lembrava ou não sabia onde estava. Daí eu joguei o anzol e disse “eu queria ver o nome dos compositores”. Ele franziu as sobrancelhas como se eu, um músico, não soubesse que “Desafinado” era de autoria de Stan Getz. Ainda com suas sobrancelhas em pé me disse “cette musique a été composée par Stan Getz”. Eu lhe disse que eu tocava “Clair de lune” no piano. Ele não entendeu o que tinha a ver “Clair de lune” com “Desafinado”. Fiz de propósito. Falei-lhe que o fato de eu tocar “Clair de lune”, do compositor francês Claude Debussy não me dava o direito de dizer que a música era minha. E que “Desafinado” era uma música dentre outras gravadas pelo saxofonista Stan Getz, todavia os compositores eram Tom Jobim e Newton Mendonça. O francês ficou sério numa fração de segundos, e em seguida abriu um sorriso, ergueu sua cerveja e disse “salut à la musique brésilienne”.

Em 29 de fevereiro de 2014, no canal do youtube de “Erin Propp”, foi publicada a música “ O barquinho (Little boat)” com os créditos da composição destinados a Ronaldo Fernando Boscoli, Buddy Kaye e Roberto Menescal. Mas quem é esse nome “Buddy Kaye”? Este nome não é citado no site “Brasil imperdível” no link “história da canção o barquinho”. Mas se você sabe como funciona a indústria fonográfica, pode entender (a contra-gosto) porque este tal Buddy Kaye é citado como compositor. Foi um produtor e editor de músicas, citado no wikipedia também como “compositor”. A gente sabe que o pessoal mais desavisado confia cegamente em informações do wikipedia. A coisa não para por aí. Numa das edições do Real book, “O barquinho” está com o título em inglês “My little boat” e o compositor é um tal Imo Schmortz.

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Daí você digita esse nome no google e, obviamente, o dano está feito. Pois se está no google está no planeta Terra e você vai ver em sites da Alemanha a informação de que este tal Imo Schmortz é o compositor de “O barquinho”, ou melhor, “My little boat”.

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Como a internet é uma garganta aberta, a gente se depara de vez em quando com alguns vômitos, ou seja, porcarias. Num fórum da internet eu localizei um sujeito da cidade de São Francisco, Califórnia (CA) que mostrava o erro do “fakebook” (é o nome técnico para livros como o Real book), ao dar o crédito da composição ao tal Imo Schmortz. Daí, um sujeito de Levittown, Pensilvânia (PA), discordou e disse que o livro estava correto.

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Eu tenho em casa a quinta edição do Real book, e nesta edição já consta o nome de Roberto Menescal como compositor de “My little boat” (O barquinho).

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Como o livro foi feito por americanos, você não vai encontrar o título “O barquinho”, mas sim “My little boat”. E para os músicos do planeta Terra que adquiriram edições anteriores, muito provavelmente vão jurar de pés juntos que Imo Schmortz “é” o compositor dessa música brasileira.
Todo mundo quer assinar o que é bom.
Pois é!

Farlley Derze


04jun19, 09:11.

Cartola-As rosas não falam

Dois pra la dois pra ca-[João Bosco e Aldir Blanc]-piano-FarlleyDerze-25mar2019

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Dois pra la dois pra ca-[João Bosco e Aldir Blanc]

Piano: Farlley Derze. Gravação: 25-03-2019.

 

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Jura Secreta (Suely Costa e Abel Silva)

Arranjo e piano: Farlley Derze. Gravação: 24-03-2019

 

Passagens

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Em 2017, durante as conversas com algumas pessoas eu perguntava que situação na vida delas foi marcada por alguma música. A conversa ganhava um novo ritmo por causa das lembranças da situação e da música envolvida. Eu ficava com aquela conversa na cabeça. Então, decidi convidar as pessoas a contarem histórias que foram marcadas pela música, e registrar essas histórias. Eu arquivava as histórias no meu computador dentro de uma pasta chamada PASSAGENS. Em 2018, procurei a Rádio Eixo, uma rádio online com sede em Brasília, e propus mostras as histórias na programação da rádio. A ideia foi aceita pela direção da rádio e pediram para eu dirigir o programa.

Passei a colher depoimentos de pessoas de todo o Brasil.

Os depoimentos eram enviados por audio através do WhatsApp.

Se você quiser participar, envie-me um audio por WhatsApp. Eis meu número: (61) 98450-1058.

No audio você cita primeiramente “o seu nome”, “sua idade”, “sua ocupação” e “a cidade onde vive”. Em seguida você narra pelo tempo de um minuto, aproximadamente, que situação de sua vida foi marcada por uma música. Você menciona o nome da música (se possível, o compositor ou quem a gravou, se não souber tudo bem). Eu busco a gravação da música no youtube e anexo-a à sua história.


 

Mestre sala dos mares-Arranjo-e-piano-FarlleyDerze

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Mestre sala dos mares (João Bosco e Aldir Blanc)

Arranjo e piano: Farlley Derze. Gravação: 10-03-2019

 

Vestígios

Fechou os olhos como quem fecha janelas para se esconder do mundo.

Dentro da escuridão de seus pensamentos brilhava um sorriso.

Colecionava sorrisos desde os onze anos de idade.

Tinha um conjunto de cadernos dispostos numa prateleira e organizados por ano. O primeiro deles tinha na capa o ano de 1974; o último tinha o ano atual onde registrou o sorriso mais recente.

No início anotava os sorrisos nas últimas folhas dos cadernos escolares; no ano seguinte pediu aos pais um caderno extra na lista de material escolar.

Quando registrava um sorriso, anotava o nome da pessoa. Todos os colegas de classe estavam catalogados. Ao lado de cada nome havia a palavra que classificava o sorriso de cada um: Eliane, verdadeiro; Fátima, falso; Hélio, falso; Nilton, verdadeiro.

Aos quinze anos, seu sistema de classificação já incorporava mais adjetivos: Cláudia, enigmático; Carla, frio; Dani, entorpecente; Priscila, falso; Ernesto, sonoro.

Abriu os olhos como quem tem fé, mas o sorriso dela não estava ali. Leu sua anotação:

2019, 2501, 2111 dm40efs, entorpecente.

Tinha aperfeiçoado o método de catalogação.

Somente dois sorrisos durante os anos tinham lhe perturbado. Agora, o terceiro.

Colocou o caderno na estante e permaneceu com a mão pousada nele, o braço esticado como o ponteiro de um relógio parado, o olhar fixado numa memória recente e uma taquicardia instalada sem vestígios de promessas.

Fluxos

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O chiado de uma cigarra disputa sua atenção com o som da água do riacho que desliza atrás de você. Uma borboleta negra cruza a sua frente dentro do silêncio de suas asas, e pousa sobre uma pétala vermelha da única flor que eclodiu no jardim. Talvez por isso, não pela flor mas pelo pouso da borboleta, a cigarra reforça seu chiado como quem diz “presta atenção”. A borboleta negra une suas asas e agora ela mesma se parece uma pétala, pétala esquecida pela primavera porque já é verão e você carrega o inverno nos olhos. O riacho segue seu destino como quem nada tem a ver com isso, porque já estava ali antes de você, antes da flor, antes da borboleta ou da cigarra. Estava inclusive antes de centenas de primaveras, verões, outonos e invernos que vêm e vão, como qualquer coisa que nasce para depois desaparecer. Quando a borboleta cruzou a sua frente desenhou no ar algumas memórias de infância. Mas quando pousou e recolheu as asas, fez se calarem as memórias e o silêncio dos idosos se impôs como uma sombra.

Quantas flores de primaveras já secaram nas cabeceiras dos túmulos?

O riacho corre às suas costas com suas moléculas que fluem de mãos dadas, vindas de um lugar onde você nunca esteve e seguem unidas para outro lugar onde você nunca estará. Por ora, você está aqui como a flor, a cigarra e a borboleta. Ninguém sabe quem que se dá conta do outro enquanto o tempo os emoldura numa janela do espaço; ou enquanto o espaço os emoldura numa janela do tempo.

A cigarra está inquieta com seu cântico feito um minimotor elétrico. A borboleta permanece com suas páginas fechadas. A flor isolada no jardim sonha ter suas raízes beijadas pelo riacho que flui anonimamente.

Haverá um tempo em que outra pessoa estará aqui em seu lugar. Mas não chegará a tempo de ouvir a cigarra, nem conhecer esta solitária flor vermelha nem a borboleta negra que agora mexe suas antenas. Essa pessoa do futuro poderá, quando muito, caso venha, apenas escutar e ver o riacho que penteia pedras e espuma-se de segredos incompreensíveis.

A borboleta voou.