Eu não queria morrer espancada

Eu não queria morrer espancada

Eu não queria morrer espancada, papai. Mas você bebeu muito dessa vez. Quando ouvi a porta bater, eu estava olhando a lua pela janela. Achei melhor correr pra cama, fechar os olhos e fingir que estava dormindo.

Ouvi suas pisadas tortas subindo a escada de madeira que protestava contra cada passo seu. Imaginei suas mãos no corrimão como quem se agarra em uma corda. Depois, pela fresta da porta, vi a dança que sua sombra fazia. A iluminação denunciava o grau de sua embriaguês.

Lembrei-me da pior noite de sua bebedeira. Entrou pela porta, parecia um trovão com o sapato sujo e encheu meu carrinho azul de lama. O jardim já conhecia a sua fúria. O carrinho foi presente do vovô. Depois que você cruzou o último degrau e desapareceu, vi uma oportunidade. Fui atrás do carrinho que tinha rolado pra debaixo do sofá. Não deu tempo de achar porque o grito da mamãe me assustou. Fiquei ali com a alma congelada, meus olhos presos no vazio e o braço esticado debaixo do sofá. Eu ouvi o barulho das coisas que você quebrava no quarto. Ouvi o silêncio da mamãe depois de um som esquisito. Depois daquela noite, a mamãe já não existiria mais.

Seu advogado convenceu o júri que ela pulou da janela. Seus amigos confirmaram que você ainda estava no bar e ignorava a tragédia. Você e eu sabemos dessa mentira. A única verdade é que você, naquela noite, não estava bêbado e fez o que fez porque não gostou das queixas dela. Hoje sei que ela estava certa. Você também sabe.

A discussão parou porque alguma coisa abafava a voz dela. Tirei meu braço debaixo do sofá. Naquela idade eu ainda não sabia que o silêncio da mamãe era uma despedida. A voz abafada da mamãe tentava me dizer alguma coisa. Continuo a ouvir aquele silêncio. Me lembro do corpo dela caído na neve lá embaixo. Você desceu as escadas, veio até mim e levou-me no colo até a porta. Quando saímos eu vi a mamãe imóvel na neve enquanto ouvia os sussurros repentinos de um culpado. Eu não fazia ideia de que daquele momento em diante seria apenas você e eu.

Qualquer criança órfã de mãe, criada a partir dos sete anos por um pai que passa metade do tempo calado e outra metade agressivo, é uma criança que aprendeu a sentir tristeza e medo. Um pai que se dedica aos mesmos amigos que prestaram falso testemunho três anos atrás. O rosto da mamãe está sumindo de minhas memórias, mas o som do riso dela às vezes ecoa em minha cabeça.

Agora você vai fazer a mesma coisa comigo que fez com ela. Você sobe as escadas com seus olhos podres e suas mãos grossas. Gira a maçaneta da porta do meu quarto. Caminha até mim e eu ainda finjo dormir. Eu sinto o cheiro ruim de suor e bebida. Ouço seus pés que avançam covardemente. Sinto sua mão no meu rosto, seus dedos nas minhas narinas e a palma da sua mão na minha boca. Eu continuo a fingir meu sono. Eu quase resisti, quase esperneei. Quase. Quando meu peito começou a queimar… Quase. Enquanto meu coração batia contra os ossos da cabeça eu só pensava na lua lá fora no céu escuro.
Eu não queria morrer espancada.