Eu não queria morrer espancada

Eu não queria morrer espancada

Eu não queria morrer espancada, papai. Mas você bebeu muito dessa vez. Quando ouvi a porta bater, eu estava olhando a lua pela janela. Achei melhor correr pra cama, fechar os olhos e fingir que estava dormindo.

Ouvi suas pisadas tortas subindo a escada de madeira que protestava contra cada passo seu. Imaginei suas mãos no corrimão como quem se agarra em uma corda. Depois, pela fresta da porta, vi a dança que sua sombra fazia. A iluminação denunciava o grau de sua embriaguês.

Lembrei-me da pior noite de sua bebedeira. Entrou pela porta, parecia um trovão com o sapato sujo e encheu meu carrinho azul de lama. O jardim já conhecia a sua fúria. O carrinho foi presente do vovô. Depois que você cruzou o último degrau e desapareceu, vi uma oportunidade. Fui atrás do carrinho que tinha rolado pra debaixo do sofá. Não deu tempo de achar porque o grito da mamãe me assustou. Fiquei ali com a alma congelada, meus olhos presos no vazio e o braço esticado debaixo do sofá. Eu ouvi o barulho das coisas que você quebrava no quarto. Ouvi o silêncio da mamãe depois de um som esquisito. Depois daquela noite, a mamãe já não existiria mais.

Seu advogado convenceu o júri que ela pulou da janela. Seus amigos confirmaram que você ainda estava no bar e ignorava a tragédia. Você e eu sabemos dessa mentira. A única verdade é que você, naquela noite, não estava bêbado e fez o que fez porque não gostou das queixas dela. Hoje sei que ela estava certa. Você também sabe.

A discussão parou porque alguma coisa abafava a voz dela. Tirei meu braço debaixo do sofá. Naquela idade eu ainda não sabia que o silêncio da mamãe era uma despedida. A voz abafada da mamãe tentava me dizer alguma coisa. Continuo a ouvir aquele silêncio. Me lembro do corpo dela caído na neve lá embaixo. Você desceu as escadas, veio até mim e levou-me no colo até a porta. Quando saímos eu vi a mamãe imóvel na neve enquanto ouvia os sussurros repentinos de um culpado. Eu não fazia ideia de que daquele momento em diante seria apenas você e eu.

Qualquer criança órfã de mãe, criada a partir dos sete anos por um pai que passa metade do tempo calado e outra metade agressivo, é uma criança que aprendeu a sentir tristeza e medo. Um pai que se dedica aos mesmos amigos que prestaram falso testemunho três anos atrás. O rosto da mamãe está sumindo de minhas memórias, mas o som do riso dela às vezes ecoa em minha cabeça.

Agora você vai fazer a mesma coisa comigo que fez com ela. Você sobe as escadas com seus olhos podres e suas mãos grossas. Gira a maçaneta da porta do meu quarto. Caminha até mim e eu ainda finjo dormir. Eu sinto o cheiro ruim de suor e bebida. Ouço seus pés que avançam covardemente. Sinto sua mão no meu rosto, seus dedos nas minhas narinas e a palma da sua mão na minha boca. Eu continuo a fingir meu sono. Eu quase resisti, quase esperneei. Quase. Quando meu peito começou a queimar… Quase. Enquanto meu coração batia contra os ossos da cabeça eu só pensava na lua lá fora no céu escuro.
Eu não queria morrer espancada.

Almoço festivo Ana Maria Gontijo-28set2018

AlmoçoFestivo-28set2018

Texto da colunista Paula Santana, da GPS Lifetime

Luiz Carlos Alvarenga ganha almoço festivo de Ana Maria Gontijo

O aniversário do beauty artist foi prestigiado por amigos em celebração intimista no Lago Sul

Mais um ano de vida de Luiz Carlos Alvarenga foi comemorado em grande estilo. O maquiador queridinho da capital foi prestigiado por amigos em almoço festivo intimista armado pela amiga Ana Maria Gontijo, no Lago Sul.

O décor e ambientação assinados por Maria Tereza Cavalcanti contou com arranjos florais nos nuances amarelos e laranjados, levando um moodtropical ao b-day. O som da ocasião ficou por conta do pianista Farlley Derze.

Para cantar os parabéns, um “bolo camarim” enfeitado com pincéis, batons, sombras e outros itens de make-up açucarados. A presença dos 20 convidados foi agradecida com lembrancinhas com Bolo da Ivone.

Na trilha do dodecafonismo

De repente você acorda e vê que o despertador está sem ponteiros, os números que marcam as horas foram trocados de lugar, você se esqueceu de fechar a janela e foi um temporal que acordou você. Você corre e fecha a janela, sente a água gelada grudando embaixo dos pés, caminha devagar até o banheiro e sente vontade de dizer um palavrão. Enquanto se olha no espelho com os cabelos bagunçados, escuta o despertador e acorda de verdade. Deitado na cama, estica o braço e trava o relógio, vê a janela fechada e o chão seco. Agora sim, vai ao banheiro e dessa vez sem nenhuma vontade de xingar. Faz o que tem que fazer, se arruma, pega o elevador e vai se encontrar com um amigo para um café da manhã naquele feriado.

Chegando ao local, cumprimenta seu amigo dizendo “tive um sonho esquisito”. O garçom chega, eles fazem o pedido e continua…

“Sonhei que era jornalista e estava na Europa para cobrir um encontro de compositores. De repente eu estava num auditório e vários compositores tocavam suas obras ao mesmo tempo. Era preciso se aproximar de cada um para conseguir ouvir o que cada um tocava. E o mais esquisito: eram compositores de diferentes períodos históricos. Vi Johann Sebastian Bach tocando num órgão de tubo a sua tocata e fuga em ré menor; vi Chopin tocando um de seus noturnos; vi Debussy tocando clair de lune; vi um coro de monges em trajes medievais cantando um canto gregoriano e eu não sabia ao certo o que teria que fazer ali. Notei um clarão vindo de uma porta lateral do auditório e fui naquela direção. Atravessei a porta e cheguei a uma cafeteria onde havia um homem sentado com uma xícara na mão. Sentei-me numa mesa ao lado e ele sem olhar pra mim disse que todas aquelas composições tinham um elemento em comum. Fiz uma cara de curioso, ele me cumprimentou com um bom dia em sotaque alemão e falou seu nome: Schoenberg. E sem atalhos me disse que a música ocidental atingira seu limite

na invenção e na criatividade da composição. Disse que as composições ao longo dos séculos eram normatizadas por uma relação hierárquica entre as sete notas. Uma era mais importante que outras. Terminou seu café dizendo que chegara a hora de uma revolução. Puxou-me pelo braço e fez-me acompanhá-lo a uma sala nos fundos da lanchonete, onde havia um piano. E começou a tocar o que chamou de “Peças para piano opus 11”. Após três minutos, interrompeu sua performance, pôs-se de pé e me disse “viu, não há nenhuma nota mais importante que outra. Em vez das setes notas tradicionais (do, re, mi, fa, sol, la, si) eu utilizo todos os doze sons, tanto as sete notas das teclas brancas como os sustenidos nas teclas pretas, e assim não é necessário ficar refém de uma tonalidade específica. Viva o dodecafonismo”. Sentou-se novamente e continuou a tocar. Um jornal da época sobre o piano marcava o ano de 1909. Uma espécie de tic-tac invadia meus ouvidos, uma janela do recinto estava fechada e rompeu-se de uma vez só numa tempestade de vento e chuva que parecia a trilha sonora daquela música. Acordei sobressaltado dentro do meu quarto. E aqui estamos num café e você ouvindo meu sonho esquisito.

Meu amigo pegou o celular, abriu o Youtube e digitou “Peças para piano opus 11”. Com menos de dois minutos de audição, deu pausa e comentou “parece música de trilha sonora daueles filmes de suspense, ou daqueles dramas de incertezas e solidão”. Havia outras obras de Schoenberg no YouTube. Clicamos em “Five pieces for orchestra opus 16”, também de 1909. Enquanto o vídeo carregava meu amigo comentou que nesse mesmo ano surgiu o “movimento futurista” na pintura italiana. A música começou a tocar. “Five pieces for orchestra opus 16”, soava como outra trilha sonora perfeita para os filmes de suspense. Em 1909 ainda não havia cinema com som. Schoenberg, com sua revolução dodecafônica, pavimentou o caminho para a trilha sonora de suspense. Faz todo o sentido. A música dodecafônica, ao retirar a hierarquia das notas da música ocidental, deixou-as todas (as doze) com igual importância. Não era possível antever, isto é, perceber antecipadamente o final de um música dodecafônica, como era de costume nas obras tradicionais pela forma como a audição foi educada ao longo dos séculos. Tampouco era possível se dizer em que tom a música estava, pois todas as notas tinham a mesma importância tanto no trajeto da melodia como na formação dos acordes. Em outras palavras, o dodecafonismo retirou dos ouvidos ocidentais suas antigas e sólidas referências. Alfred Hitchcock agradece. Afinal, o compositor das trilhas de seus filmes, Bernard Herrmann, trocou ideias com Arnold Schoenberg.

Para ouvir com medo, embaixo da cama: Five pieces for orchestra opus 16.

Música descritiva

No passado pintamos figuras nas paredes das cavernas? Sim.

Fizemos desenhos em papirus? Sim.

Pinturas em telas? Sim.

Depois inventamos a fotografia? Sim.

E se fosse possível representar imagens com sons?
Digamos… em vez de desenhar, pintar ou fotografar uma paisagem, uma pessoa, ou animais, substituíssemos o grafite, a tinta e a fotografia por uma combinação de sonoridades e instrumentos musicais para descrever uma paisagem, uma situação?

Por que não pensei nisso antes?

Simplesmente porque nasci atrasado. Músicos de séculos passados tiveram essa ideia de representar um cenário, ou uma situação, por meio de combinações sonoras calculadas para provocar a imaginação do ouvinte e lhe “transmitir” imagens pela via da audição.

Des pas sur la neige (Passos na neve), composta em 1909 pelo compositor francês nascido no século XIX, Claude Debussy (22/8/1862-25/3/1918).

Debussy simula uma pessoa a caminhar na neve. A música é lenta, tal qual a dificuldade de se caminhar na neve. Enquanto se a ouve, pode-se imaginar a

cena em algum inverno europeu, árvores, casas e ruas cobertas pela neve que pinta de branco todo o cenário, e alguém lá distante a caminhar lentamente com os pés que vão deixando pegadas fundas à medida que a pessoa se esforça para se deslocar. Durante os trinta segundos iniciais da composição feita para piano, as notas da mão esquerda representam as passadas enquanto a mão direita esboça uma melodia para emoldurar a monotonia daquele momento. Depois a mão direita assume as notas que vinham sendo tocadas pela mão esquerda, para que a mão esquerda passe a trafegar por uma melodia igualmente lenta, monótona e assim as mãos se alternam pelos 4min12seg da composição entre notas repetitivas, projetadas para simular o ritmo da caminhada, e notas de uma melodia consequente que circula pelas teclas graves e agudas do piano para descrever um ambiente ao redor.

O Ministério da Música adverte: não é música feita para dançar ou participar de festivais ou premiações … é música noutro formato, que pede emprestada a nossa imaginação e até nossa admiração por essa empreitada de tentar descrever imagens por meio dos sons.

“Des pas sur la neige”, ouça aqui

Outro compositor francês, contemporâneo de Debussy, foi o Camille Saint- Säens (9/10/1835-16/12/1921). Se você gosta de animais veio ao lugar certo, pois Saint-Säens nos convida a fechar os olhos e imaginar “a marcha do rei leão”, que juntamente com outros títulos faz parte da obra “Carnaval dos animais”, composta em 1866. O compositor guardou as partituras e não as apresentou, pois receava que a crítica falasse mal dele. Naquela época os elogios eram destinados a quem seguisse as regras acadêmicas de composição. E o carnaval dos animais estava longe dessas regras. Saint-Säens não quis publicá-la para poupar sua reputação de compositor sério. Composta para dois pianos e orquestra durante suas férias numa aldeia da Áustria, a obra é um conjunto de composições de curta duração. Apenas “O cisne” foi publicada em vida. Faz parte da obra: “Galos e galinhas”, “Cangurus”, “Pássaros”, “Mulas”, “Tartarugas”, “O elefante”, dentre outros títulos. Reza a lenda que cada peça faz referência a determinados compositores. À parte esta questão suscetível a debates, Saint-Säens nos convida a, por exemplo, imaginar um cisne a deslizar num lago. Não por acaso, escolheu o violoncelo como instrumento solista cujo arco desliza sobre as cordas.

Ouça “O cisne” aqui

E aqui, a obra completa do “Carnaval dos animais”.

Numa época em que não havia cinema, nem mp3…a música descritiva foi a trilha sonora da imaginação.

Sonho morto

Sonho morto

Com as mãos trêmulas tira da prateleira a xícara e o pires de porcelana.

Com as pernas do passado caminha até a mesa e, sem fazer ruído, pousa o pires, a xícara e a sua solidão.

Retorna à prateleira com os olhos vazios e retira o pote de café. Abre uma das gavetas onde dorme uma colher de aço que sobreviverá ao tempo.

Caminha até a mesa como um relógio que anda para trás.

Abre o pote de café e afunda nele a colher, mas se dá conta de que se esqueceu do bule, do filtro e da garrafa térmica.

Deixa a colher mergulhada no pó como uma pá cravada num cemitério.

Abre outra gaveta e seus dedos se movem como se tateassem algodão. Tira de lá o filtro de pano encardido de memórias. Abre a portinha superior do armário onde guarda o bule e a garrafa térmica.

Coloca o conjunto sobre a pia ao lado do fogão.

Encaixa o coador de pano e faz uma pausa para respirar.

Busca o pote de café e o coloca ao lado do filtro. Retira dele três colheres rasas para preencher o fundo do coador.

Enche o bule até a metade com a água da torneira.

Acende o fogão com um fósforo porque não gosta dos ruídos do funcionamento elétrico.

Deposita o bule sobre as chamas e observa a água tão calma como sua rotina sem palavras.

De repente um facho de sol raspa em sua janela e distrai sua atenção.

Observa o friso de luz que parece vasculhar sua intimidade, sua casa, seu resto de madrugada.

Entrevista o silêncio sem querer respostas. Que seja apenas o que tem sido, ora um confidente ora um vilão.

Borbulhas da fervura da água reclamam sua atenção.

Apaga o fogo e observa a água acalmar-se debaixo do vapor que desaparece no ar como tantas outras coisas.

Despeja a água no filtro sem nenhuma pressa, como quem derrama saudade e dor.

Vê o café atravessando o filtro feito um fiapo de escuridão solitária que se mistura nas espumas do tempo.

Conclui que cada dia é uma lâmina que disseca ilusões.

O sol faz mais força para invadir.

Suas mãos erguem a garrafa térmica como um troféu aposentado.

Caminha na frente da própria sombra em direção à mesa.

Apoia seu corpo com uma das mãos espalmada sobre aquela fração da eternidade, e senta-se ao som do próprio suspiro.

Olha sua xícara vazia e a cadeira vazia ao lado.

O aroma do café lhe sussurra uma lembrança.

Despeja o café na xícara como quem enxerga um sonho morto.

Pega na xícara com a mesma lentidão dos dias anteriores. Toma um gole na esperança de que o futuro realize seu último segredo.

Traços da liberdade

Quem nunca ouviu falar em Teoria da Música?

Ou nunca conversa de bar durante uma discussão sobre politica, alguém esbraveja e diz “isso aí é teoria, eu quero ver a coisa na prática”.

No parágrafo acima a palavra que aparece duas vezes é a palavra Teoria, e nas duas vezes em que é citada possui um significado diferente.

A Teoria da Música, é uma teoria normativa, uma teoria que foi escrita muito depois da prática musical que já existia há pelo menos trinta mil anos. Ossos de elefante foram encontrados naquela época, na Suméria. E pesquisadores perceberam no osso omoplata, uma concavidade localizada sempre no mesmo ponto, como se ali, naqueles vários omoplatas fósseis alguém andasse batucando com uma baqueta feita de osso. Foram precisos milênios até chegarmos à Idade Média para que alguém inventasse a partitura e escrevesse as primeiras normas para se organizar uma composição musical. A teoria musical nasceu como uma tentativa de se explicar o que estava acontecendo no mundo prático. Enquanto se escreviam as explicações, regras forma criadas. Durante os séculos a partir dali, novas regras foram acrescentadas nos textos que passou a ser conhecido como Teoria Musical.

A “teoria” que a gente ouve falar numa discussão de bar, ou dentro de casa, tem outro significado. Teoria, nesse caso, é como se fosse algo impalpável, uma invenção da cabeça, algo nada a ver com a realidade prática.

Portanto, voltemos à Teoria Musical para avançar rumo à música “Amor até o fim”.

Peguemos a parte da Teoria que diz: “um acorde de Sétima da Dominante prepara a chegada do acorde da Tônica”. Exemplos: G7-C (sol com sétima vai para dó maior); D7-G (ré com sétima vai para sol maior).

G7 e D7 são acordes de Sétima da Dominante.

C e G são acordes da Tônica.

Dessa relação, simbolizada pelas cifras G7-C ou D7-G, a Teoria batiza-a como uma relação de “tensão e relaxamento”. Em outras palavras, enquanto não se escutar o acorde final da Tônica, é como se a música ainda estivesse acontecendo. A música só “relaxa” quando se ouve o acorde da Tônica. E, graças a isso, podemos dizer que a música está no tom daquele acorde da Tônica.

Eu suspeito que o nome “Dominante” seja por causa do quinto grau (V) que lá nos primórdios da Teoria Musical, na Idade Média, o canto gregoriano se baseava nessa relação de Dominante-Tônica (V-I), em que a nota da Tônica ficava bem-dizer guardada (ausente ou quase ausente da melodia) para se usada como nota final, como indicativo de que a música acabou. Enquanto isso, a nota que mais aparecia (a nota mais dominante) na melodia do canto gregoriano era a nota do quinto grau.

O homem tem a índole para criar regras, mas também tem a índole de quebrá-las. Alguns seguem as regras ao pé da letra, outros preferem dar um jeito de brincar com as regras ou até mesmo eliminá-las. Essa turma que brinca com as regras ou as quebra, findaram por criar outros modelos musicais, outros padrões. E a música, ou melhor, a história da música poderia (grosso modo) ser dividida em música tradicional (seguidores da regras) e música moderna (os revolucionários).

Bach (1685-1750) usou as regras a seu favor e em 1722 compôs prelúdios e fugas baseado nos 24 tons (12 maiores e 12 menores). Obra que ficou conhecida como “O cravo bem temperado”. Alô galera mais jovem, o Cravo era um instrumento de teclado existente em sua época. O piano não existia. Essa obra é uma exposição prática daquilo que a Teoria Musical ensinava em suas normativas.

Debussy (1862-1918) usou as regras para quebrá-las. A sua melodia da composição “L’Après-midi d’un faune) é considerada pela historiografia como o início da música moderna. Depois vieram outros ícones modernistas como Arnold Schoenberg, Béla Bartók, Edgard Varèse, Villa-Lobos, Steve Reich, Philp Glass…

E por falar e modernismo, vamos apontar nossas lentes para o gênero da música popular. Afinal, a música popular brasileira é herdeira de uma espécie de miscigenação das práticas. Aliás, muita prática e pouca teoria. Ou seja, muito som e pouca (ou nenhuma) regra. Algo mais ligado ao espírito da observação e menos ligado a modelos racionais, intelectuais, imperativos… que a seu modo gerava outro formato de música.

E por falar em música…música moderna…eu vejo que a música popular também tem o seu lado tradicional e o seu lado moderno. O lado tradicional pode ser ouvido no folclore, mas também nas músicas de Roberto Carlos ou no Hino Nacional ou no Samba, em que aquela relação Dominante-Tônica (V-I) está bem preservada (respeitada). A música vai ser concluída com o acorde da Tônica. E no decorrer da música estão lá os pormenores da Teoria Musical que ficam dando as cartas.

No lado menos tradicional, mais modernos, mais liberto das regras, ou pelo menos, mais brincalhão… vou citar aqui a música “Amor até o fim”, de Gilberto Gil. Eu poderia citar a música “A lenda do caboclo”, composta em 1920 por Villa-Lobos, quando brinca com as regras (Villa-Lobos faz parte das cartas da música moderna), e escreve a música com cinco sustenidos (ou seja, em Sim maior), mas do princípio ao fim se ouve a música em Mi maior. É como se ele estivesse dizendo “música se ouve com os ouvidos e não com os olhos”. Como se fosse uma mensagem para os músicos que grudam o olho na partitura e acreditam que ali está a música. Mas a música está no ouvido. Qualquer músico mais ortodoxo (inflexível) vai pegar a partitura de “A lenda do caboclo”, vai ver na armadura de clave aqueles cinco sustenidos e sem ouvir a música vai afirmar que o tom é Si maior, pois isso está na regra da Teoria Musical. Todavia, se usarmos os ouvidos ouviremos uma música em Mi maior. É isso: os modernistas pegam as regras como se fosse massa de modelar para expor todo tipo de criatividade.

Voltemos e fiquemos no “Amor até o fim”, de Gilberto Gil, gravada por Elis Regina em 1965.

Um cantor de música popular pode se interessar em saber em que tom está essa música. Com base no ouvido vou dizer: está em Dó maior.

Mas Gilberto Gil não quer entregar o tom de bandeja. Então… como filho da modernidade que sempre foi, vai fazer uma espécie de looping com uma relação harmônica muito famosa na música popular: II-V-I.

Daí, o Gil faz apenas II-V e repete esta relação um tom abaixo. Quando isso acontece, a Teoria Musica chama de “marcha harmônica”, pois é como se a harmonia estivesse marchando, marcando o passo, fazendo o mesmo passo degrau por degrau.

Gil, consciente disso ou não, faz a aplicação prática do conceito de “marcha harmônica”:

II-V ou seja Emb5-A7 na primeira frase da canção;

II-V ou seja Dmb5-G7 na segunda frase.

Ao final da sequência (da marcha harmônica), espera-se chegar à tônica, ou seja, ao grau I.

Ok, Gil vai fazer isso. Ou melhor, finge que faz isso. Ele tirou um coelho da cartola quando em vez de dar ao grau I o status de Tônica, fez do grau I um acorde da Dominante, ou seja, em vez de um Dó maior fez um Dó maior com a sétima. E assim, em vez de se ouvir o “relaxamento” proporcionado pela Tônica, ouve-se a “tensão” proporcionado pela Dominante, pois o acorde de Dó maior chega vestido com o status de V grau (C7). Isso fez uma alavanca de modo a jogar a percepção tonal para Si bemol. Ou seja, nem bem a música começou…  não pudemos desfrutar do centro tonal de Dó maior porque na hora H, na hora de ouvirmos a Tônica Dó Gil fez com que ele fosse um V grau, um C7, um algo indo pra outro lugar, e assim foi: tom de Si bemol. A terceira frase da canção já está em Si bemol (Bb). Mas calma hein. Ele jogou o holofote sobre o Si bemol e rapidamente apagou o holofote, retirando o Si bemol de cena. Ou seja, é como se estivesse dizendo “a música está em Dó maior, mesmo eu concluindo aquela sequência harmônica em Si bemol”.

Após apresentar o Si bemol como se fosse um dublê de Dó maior, ele retoma a marcha harmônica da primeira estrofe como quem diz “aquela Tônica em Si bemol foi brincadeira hein; olha bem que estamos em Dó maior”.

Tudo isso acontece em oito frases da canção. Após esse lote de frases cantadas com esse jogo de percepção musical na harmonia, ele faz o que muita gente fez tanto na música erudita como popular. Migra para a parte B. E a melhor maneira que encontrou, ou a maneira mais tradicional, foi modular para um tom menor. E a fim de manter o jogo de ilusões de como se a música estivesse em Si bemol maior, ele modula justamente para o tom relativo de Si bemol maior, ou seja, sol menor. Caramba, mas a música está em Dó maior… por que não modulou para lá menor? Simples uái: não sabe brincar, não brinca ! Gil faz o “B” da música com cinco frases, das quais quatro delas em sol menor e a última ele finaliza com o acorde de… adivinha vai ! Isso mesmo: ele usa uma frase final para acabar em Si bemol, só para bater na tecla de uma tonalidade fulgaz, tão fugaz que só dura um acorde, numa palavra, como um holofote que acende e apaga.

Poxa vida, não dá pra dizer que uma música está em Si bemol maior só porque finalizou a sequência harmônica e deu um certo “relaxamento”, como propõe a Teoria Musical.

Por isso gosto da expressão “centro tonal”. O centro é aquilo que tem algo ao redor. E tudo que está ao redor são acordes do campo harmônico de Dó maior. Gil sai do “B” da música e constrói mais oito frases da canção com os mesmos acordes das oitos frases iniciais. São acordes que gravitam ao redor de um centro: Dó maior.

Pena que Villa-Lobos não ouviu esse música, hein Gil !

Renascimento

Não tinha opiniões formadas sobre os assuntos em geral. Numa rodada de assuntos tinha sempre a mesma estratégia: lançava uma ideia ou uma teoria qualquer que funcionava como uma espécie de bumerangue psicológico já que se tornava ouvinte da própria opinião recém-manifestada a ponto de se perguntar como ou de onde surgiu aquilo que dissera. Pois, não gostava de ler, não gostava de filmes e, no íntimo, sabia que não gostava de si próprio. O problema era que após lançar sua estratégia, alguém que fazia parte da conversa às vezes lhe pedia “você pode explicar o que acabou de dizer”? Perante tal situação tinha a resposta na ponta dos pés, isto é, como já se acostumara à sua leviandade intelectual, pedia licença para ir ao banheiro. Lá dentro, diante do mictório e sua vontade falsa de urinar, se perguntava como poderia explicar o que dissera se sequer se lembrava do que havia dito. Alguém entrou no banheiro, mas tudo bem era um estranho, não era ninguém dentre aqueles lá da mesa, todavia ali de pé se viu obrigado a gesticular seu fingimento. Felizmente o estranho foi mais rápido, aliás o cara urinou e saiu sem lavar as mãos. Sozinho outra vez no banheiro onde se refugiou, fechou o zíper depois do vazio de sua cena teatral e, mesmo assim, achou de bom tom lavar as mãos antes de retornar à mesa com a esperança de encontrar outros assuntos para que não tivesse que explicar nada e, preferencialmente, se manter em silêncio em meio aqueles colegas historicamente mais inteligentes e sensatos que ele. No fundo queria ser como um deles que liam tanto a filosofia grega como a alemã, os estudos historiográficos franceses e norte-americanos, a estética de Hegel e o neoplatonismo medieval, as influências nacionalistas na música de Villa-Lobos e Béla Bartók, a literatura comparada baseada em ícones do romantismo inglês e do modernismo latino-americano, enfim tudo aquilo que sua atividade de professor de física lhe impedia de conhecer. Ganhava seu salário com aulas repetitivas para alunos de ensino médio de uma escola pública. Aliás, nunca soube por que optara fazer aquele concurso público dez anos atrás e tampouco como tinha conquistado a vaga. Quando saiu do banheiro em direção à mesa onde os demais professores se encontravam em mais um almoço de confraternização de fim de ano, caminhava com passos decididos a sair do restaurante, se despedir polidamente com a desculpa de um compromisso inadiável às 15h num lugar longe dali. Tinha consciência que ninguém se importaria com sua ausência. Virou a chave de seu Corsa 1.0 e foi aonde decidira ir naquele último dia do ano: uma barbearia.

Sentou-se na poltrona da barbearia de um bairro que escolheu avulso e pediu que lhe cortasse aquela cabeleira obsoleta e extemporânea que não devia estar ali desde seus quinze anos. Chegou a se arrepender de não ter servido o exército onde teria recebido um rosto novo emoldurado por um cabelo masculino, e lhe disciplinariam a vida desde a cama arrumada após se levantar e lavar a louça, diferentemente de seu apartamento caótico como vivesse no espaço cósmico curvo envolto em nebulosas siderais que nunca chegou a compreender com sua clara inaptidão para ser físico, não fosse ter passado no concurso público por pura decoreba.

– Tira a barba também? – perguntou o barbeiro.

Balançou a cabeça num gesto positivo e tentava interpretar se o espelho comemoraria sua decisão de extrair da cara aquela aparência de monturo para se converter em gente. Aliás, enquanto sua aparência se transformava sua mente lhe sussurava que era hora de ter contato com a literatura, com o cinema e com a música de Villa-Lobos. Que coisa horrível ter nascido no interior do Goiás e nunca ter escutado “O trenzinho do caipira” de Villa-Lobos.
Enquanto o barbeiro esfacelava seu antigo eu, via no espelho seu escombro de gente como quem busca num lance de xadrez saber se o tempo lhe daria outra chance caso varresse para a lata do lixo seus quarenta anos de vida despenteada. Lembrou-se que naquele momento em que ouvia o som agudo da tesoura raspando-lhe os ouvidos, seus colegas professores muito provavelmente ainda estariam no restaurante, uns a degustar uma torta de limão outros um pavê de nozes com o aroma do café espresso e o sorriso da professora de literatura a levitar na imaginação de cada um.

– São quarenta reais – disse o barbeiro.

Entrou no carro e se olhou no retrovisor como quem duvida do que acabara de fazer e, sem tirar os olhos do espelho, enfiou a chave sem pressa e virou o motor como quem acaba de comprar um carro. Com os olhos fixos no retrovisor interno disse em voz alta “seja benvindo, muito prazer”. Digitou no GPS a palavra “clínica”. O menu lhe despejou inúmeras opções por ordem de quilometragem desde a mais próxima onde se encontrava, em Brasília, até às mais distantes em Goiânia e Belo Horizonte. Seu instinto momentaneamente lhe convidava a clicar em “clínica de psiquiatria” na L2 norte, mas abriu mão do instinto e manteve-se agarrado ao objetivo original de ir a um oftalmologista, porque aqueles óculos de fundo-de-garrafa só faziam sentido no cenário da cabeleira extinta. Agora, com aquele novo visual adequado a quem vai ler “Os detetives selvagens”, de Roberto Bolaño, título que sua memória de decoreba prodigiosa salvou num dos momentos da confraternização, merecia uns óculos modernos ou mesmo umas lentes de contato. Clicou rumo à Asa Sul da cidade.

– Os óculos ficam pronto em uma semana – disse a moça das Óticas Fluminense da 112 sul, de cuja pele mulata exalava o aroma do sabonete phebo, que o fez se lembrar de ir comprar um sabonete na farmácia da quadra.

Tendo gasto trezentos reais na consulta oftalmológica e outros mil e quinhentos na ótica que lhe seduziu a aceitar uma armação de óculos Persol PO3189V, preto brilhante, além das lentes Varilux Confort com anti-reflexos da marca Crizal, deu graças a Deus (chegou a murmurar entre os lábios) pelo dinheiro extra que ganhava em aulas particulares como professor de xadrez. E para fechar com chave de ouro, a ótica parcelou sua compra em dez vezes sem juros no cartão.

Na semana seguinte, voltou à ótica e saiu de lá com a sensação de que o mundo estava mais iluminado com seus novos óculos, vestido nos trajes novos adquiridos com o décimo-terceiro numa loja masculina do shopping Pátio Brasil. Agora faltava o passo final para completar a inauguração de sua nova vida: ir à Livraria Cultura comprar “Os detetives selvagens”, de Roberto Bolaño e, claro, quando a vendedora lhe perguntou se era fã da literatura latino-americana, precisou fazer outro lance de xadrez, mas não tão radical como fizera na barbearia. Moveu um peão no estilo “lance livre” e respondeu “não sou fã, porque não conheço essa literatura”. A moça, sorridente, simpática, jovem e com uma cintura que lhe deu a certeza de ter feito um ótimo investimento nos óculos, o conduziu à prateleira dos latino-americanos.

– Quatrocentos e vinte reais – cobrou-lhe o rapaz do caixa ao mesmo tempo que lhe perguntava se era um cliente “Mais Cultura”, se queria o “Nota Legal” e se seria no débito ou no crédito.

Entrou no carro com aquelas sacolas que exalavam a promessa de intelectualidade para além dos assuntos de cinemática ou aceleração da gravidade. Aliás, sobre a gravidade, lhe indignava que nem seus colegas bacharéis dos tempos de universidade nem os cientistas laureados pelo nobel de Física soubessem explicar de forma clara, e por que não dizer honesta, o que era realmente a tal da gravidade. Desde a maçã de Newton até os dias de hoje, a verdade é que nenhum físico conseguiu explicar esse fenômeno e sua origem, quando muito repetem a ladainha dos efeitos das forças gravitacionais, mas nunca a causa da gravidade. Ainda no estacionamento da Livraria Cultura, dentro do carro, rasgou as sacolas de plástico como quem tira o sutiã da primeira namorada. Vislumbrou horizontes mais palpáveis de felicidade. Os livros adquiridos fermentavam sua mente com aquela esperança da terra prometida. Leonardo Padura, Isabel Allende, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Roberto Bolaño, Edmundo Paz Soldán, Federico Andahazi, Jorge Luis Borges, todos agora como profetas culturais.

Começou por Roberto Bolaño e calculou sua velocidade de leitura: 0,6 página por minuto, portanto, 36 páginas por hora. Puxou o calendário e calculou o número de dias de férias escolares, o número de sábados, domingos e feriados ao longo do ano letivo, e concluiu que voltaria mais vezes à Livraria Cultura de três em três meses, para conhecer os românticos da literatura francesa e inglesa, os filósofos gregos e alemães, de modo que na próxima confraternização não precisaria fugir dos assuntos indo ao banheiro e fingir qualquer necessidade básica.

Seu novo visual, aliás, fez muito sucesso durante o ano letivo seguinte. Ao fim do primeiro trimestre, numa reunião na sala de professores, a professora de literatura lhe passou às mãos, muito discretamente, um bilhete que ele teve o cuidado de manter trancado em sua mão fechada enquanto a coordenadora pedagógica conduzia a reunião. Obviamente, ele estranhou aquela atitude da professora mais bonita, mais charmosa, mais sensual e mais culta da escola. No término da reunião, ela foi a primeira a se retirar enquanto ele optou por ser o último a sair. Ao se retirar da sala, carregou o bilhete lacrado na palma da mão e punho cerrado até o estacionamento. Entrou no carro, deu uma olhada de trezentos e sessenta graus ao redor e abriu o bilhete, que dizia: você aceitaria vir jantar em meu apartamento no próximo sábado? Traz um vinho da uva Syrah”.