A metafísica do belo

Aí ele me perguntou: “você conhece de perto a sensação de matar um homem?”. E sem esperar uma resposta continuou: “ou tudo que você conhece na vida você compara ao sabor de uma cerveja”?

Falou isso enquanto o garçom chegava em nossa mesa e abria uma cerveja. Eu nem sei como a conversa foi parar naquele assunto. O garçom nos serviu e foi embora. Meu amigo ergueu o copo para um brinde, deu um gole e limpando a espuma do bigode continuou: “tem muita coisa amarga de verdade na vida. Você já leu A metafísica do belo, de Schopenhauer?” Respondi que nunca tinha ouvido falar desse livro. Ele deu um sorriso de canto de boca e sacudindo o copo na mão disse: “pois, devia conhecer”.

Eu perguntei a ele por que me perguntou se eu havia matado um homem. Ele me corrigiu dizendo “eu não te perguntei se você havia matado um homem. Eu perguntei se você conhecia de perto a sensação de matar um homem”. Eu falei que era a mesma coisa. Ele contestou. Falou que no livro do Schopenhaeur tem uma passagem em que ele compara Platão e Kant se ambos vissem um cavalo.

Platão diria:

“Esse animal não possui nenhuma existência verdadeira, apenas uma existência aparente, uma existência relativa. Verdadeiramente este animal é apenas a ideia que é representada naquele cavalo”.

Kant diria:

“Esse animal é um fenômeno no tempo, no espaço e na causalidade. Não é coisa-em-si, mas um fenômeno válido apenas em relação ao nosso conhecimento. Para saber o que ele pode ser em si, independentemente de tudo aquilo que o determina no tempo, no espaço e na causalidade, seria preciso outro modo de conhecimento, além daquele que unicamente nos é possível, pelos sentidos e pelo entendimento”.

Eu disse que não entendia nada de filosofia, mas parecia que Platão e Kant diziam a mesma coisa cada qual do seu jeito. Meu amigo fez uma pausa olhando por cima da sobrancelha, em seguida encheu os nossos copos e disse que eu tinha razão. Então eu insisti na história que ele começou sobre matar um homem ou conhecer a sensação de matar um homem. Enquanto ajeitava o seu copo na mesa, olhou ao redor do restaurante e viu que ninguém prestava atenção em nossa conversa. Confesso que aquele gesto dele me causou arrepios e passou um filme na minha cabeça. Eu me perguntava como seria possível a um professor de filosofia do ensino médio de uma escola particular, casado há quinze anos com a mesma mulher, duas filhas lindas que frequentam aulas de violino e francês, alguém que sabia de cor as músicas do Renato Russo e do U2 perguntasse sobre a sensação de matar um homem.

Ele se inclinou em minha direção e cochichando pediu para eu olhar para um sujeito de camisa vermelha que estava sentado às suas costas, fez um gesto com a mão e com os olhos, como quem diz “não olhe agora, disfarça”. E disse: “finja que vai ao banheiro e veja bem o sujeito”.

Assim foi. Eu me levantei, fui ao banheiro e pude ver o homem. Devia ter uns trinta anos, rosto liso sem barba, óculos escuros no bolso da camisa vermelha, pele branca e cabelos loiros, braços de atleta, um queixo pontiagudo e um sinal escuro abaixo da costeleta esquerda. Lá no banheiro aproveitei para urinar me perguntando quem seria aquele sujeito, qual seria a relação dele com meu amigo e o que tinha a ver aquele papo de “sensação de matar um homem”. Lavando as mãos perante o espelho percebi que estava com uma certa taquicardia dentro de mim.

Ao retornar à mesa, olhei novamente o sujeito que parecia ocupado com o seu celular. Sentei-me. E antes de esmiuçar a conversa, perguntei como estavam sua esposa e suas filhas. Meu amigo respondeu com um ar sério, que agora elas estavam em um lugar seguro, lá em Florianópolis. Franzi a testa como quem diz “não entendi”. Ele apontou com o queixo na direção daquele sujeito de camisa vermelha. Disse que há mais ou menos seis meses sua esposa e as filhas estavam no supermercado. Ela percebeu inúmeras vezes que aquele sujeito cruzava por ela com o seu carrinho. Bem-dizer, em todos os corredores do supermercado eles se encontraram. Ela teria achado que tinha sido apenas uma coincidência forçada, uma espécie de cantada silenciosa por parte do sujeito e nada mais. Entretanto, enquanto ela passava as compras no caixa, ele passava as dele no caixa ao lado. Nesse momento minha esposa puxou nossas filhas para perto dela, e me enviou uma mensagem pelo WhatsApp. Eu só fui ver a mensagem horas depois, quando estava saindo do trabalho. Antes de ligar o carro lhe telefonei com uma tremenda angústia, ela atendeu e sua voz guardava um tom de ansiedade. Disse que ao sair do supermercado o sujeito a seguiu. Ela decidiu fazer caminhos aleatórios em vez de seguir direto para casa. Olhava pelo retrovisor e lá estava o carro do sujeito onde quer que ela fosse. Pensou em vir até meu trabalho, mas desistiu da ideia com receio de levar um psicopata até mim e colocar-me em risco; pensou em dirigir até uma delegacia, mas ele podia ter memorizado a placa do carro dela e com isso descobrir nosso endereço e se vingar caso desse queixa na polícia, então desistiu; parou num posto de gasolina para encher o tanque, o sujeito ficou mais ao fundo longe das bombas de combustível. Então lhe perguntei “onde você está agora?”. Ela disse que estava circulando pelo shopping. Eu perguntei pelo sujeito e ela disse que ele também estava lá, nitidamente fingindo que fazia compras em cada loja que entrava sem tirar os olhos dela.

Meu amigo fez uma pausa, abriu sua pasta, tirou de dentro o livro A metafísica do belo, e de dentro do livro puxou doze multas e as colocou sobre a mesa. Eram multas por avançar o sinal e por excesso de velocidade. E me disse: “lembra a história do cavalo? Platão e Kant falam que o cavalo ‘não existe’. Pois é, aquele inergúmeno de camisa vermelha sentado ali, também não existe. No máximo, existirá até hoje”. O garçom trouxe outro balde com mais seis longnecks, eu acenei dizendo que não queríamos mais, porém meu amigo fez outro gesto dizendo que sim, que íamos beber e pronto.

Olhei discretamente para o tal sujeito, coincidentemente ele se levantou e foi em direção ao banheiro. Meu amigo tentou se levantar, mas segurei-o pelo braço e perguntei onde ele ia, e respondeu “vou ao banheiro”. Então apertei o braço dele perguntando se ele estava louco. Sorrindo e tirando minhas mãos de seu braço me garantiu que não era louco. Falei que não estava entendendo o motivo de estarmos ali, e com aquele cara também ali. Ele me respondeu que era “coincidência forçada”. Enquanto eu o encarava, ele não tirava os olhos da porta do banheiro lá no fundo. Ficamos em silêncio até que ouvi dele “pronto, ele está voltando. Agora deixe-me ir ao banheiro. Quando eu voltar, contarei meu plano”. Pegou o livro sobre a mesa, abriu na página 36 e colocou o dedo no parágrafo em que Platão e Kant explicam por que “o cavalo não existe”. Deixou o livro comigo e foi ao banheiro. Obviamente, minha taquicardia não permitia eu me concentrar nas palavras de Schopenhaeur. Quem sabe a cerveja me ajudasse a organizar as ideias, enquanto olhava de rabo-de-olho para o tal sujeito. Sentei-me como se todo o restaurante estivesse em silêncio. De repente me veio a lucidez de que meu amigo trazia em sua pasta uma arma. Dei uma olhada ao redor e sem tirar sua pasta do lugar, examinei-a discretamente e fui surpreendido por ele, que enquanto se sentava falou “não sou estúpido. Não vou andar armado por aí. Você sabe que não tenho arma. Meu plano é silencioso. Eu te convidei a vir aqui porque descobri que todo primeiro sábado do mês ele almoça neste restaurante”. Quer dizer que nesses seis meses você vem seguindo esse cara, perguntei. Meu amigo respondeu com uma voz grave e os dentes apertados dentro da boca: “faz seis meses que minha esposa não vai a um supermercado, faz seis meses que eu a levo e a busco em seu trabalho, faz seis meses que ela vê um suzuki vitara verde no trânsito e começa a suar, faz seis meses que imagino as mais diferentes formas de matar esse cara até encontrar o melhor método para colocá-lo em prática hoje. Só então percebi que meu amigo olhava várias vezes para seu relógio de pulso. Então lhe perguntei por que eu estava ali com ele. Ele olhou outra vez o relógio e disse “são 13:30”. E continuou: “eu só queria que você entendesse por que estou me mudando para Florianópolis amanhã e talvez nunca mais nos vejamos. Enfim, queria me despedir de você”. E estendeu-me a mão com um sorriso preso nos lábios. Nos cumprimentamos e nesse momento o tal sujeito se levantou para ir embora. Meu amigo colocou uma nota de cem reais sobre a mesa, levantou-se e me disse “obrigado por me ouvir”. E foi atrás do cara de camisa vermelha.

Estou contando essa história porque faz quinze anos que não o vejo, e hoje estou aqui no aeroporto de Florianópolis. Vim visitá-lo após todo esse tempo. Desde aquele dia no restaurante não trocamos nenhuma palavra. Ele excluiu seu perfil no facebook, não sei se usa telefone, os e-mails que lhe enviei retornaram como se o endereço eletrônico não existisse. Ontem alguém telefonou para a secretaria da universidade em que leciono e deixou um recado para mim: “o funeral da Sra. Fulana (por precaução estou omitindo o nome verdadeiro) será na capela 5 do cemitério Campos da Paz, em Florianópolis”. Ao ler no bilhete o nome completo, logo reconheci que se tratava da esposa de meu amigo. No mesmo instante busquei na internet o primeiro voo para o dia seguinte e do aeroporto tomar um táxi rumo ao cemitério.

Ao chegar à capela 5 olhei a hora no celular e o coloquei no modo silencioso antes de entrar. Não reconheci nenhum dos presentes. Eu era a única pessoa do passado de meu amigo. Fui até o caixão e vi o rosto sereno dela coberto por um véu. Percorri com os olhos cada pessoa em busca do meu amigo e identifiquei suas duas filhas, tão crescidas e tão parecidas com a falecida mãe. Fui ao lado de fora e quase não reconheci meu velho amigo, que falava ao celular. Na última vez que o vi ele estava com sua eterna cabeleira até os ombros, usava bigode e cavanhaque, e tinha uma coleção de calças jeans desbotadas. Agora estava sem bigode, sem cavanhaque, cabelo curto num corte militar e vestindo uma calça cinza de tecido, mas com o mesmo sorriso e o mesmo jeito de abraçar. A primeira palavra que ele disse foi “câncer”. Eu fechei meus olhos e o abracei novamente. Após o funeral ele me convidou a ficar hospedado em seu apartamento. Disse que as filhas já haviam se casado, e morava sozinho agora. Aceitei o convite e poderia ficar por dois dias.

Estava quase anoitecendo. Antes de ir para o apartamento ele queria ir a um lugar. Disse que precisava atender a um pedido que sua mulher fez antes de entrar em coma. Fomos a uma cafeteria onde tinha um pianista tocando. Enquanto nos sentávamos, o pianista o cumprimentou de longe com uma das mãos, interrompeu a música e veio em nossa direção. O pianista lhe disse que soube do falecimento de sua esposa e estava muito triste. Meu amigo lhe pediu para tocar uma música às 19h em ponto, que foi o último pedido dela. Olhei meu celular e marcava 18:35. O pianista perguntou que música seria e meu amigo respondeu “Do you know where you’re going to”. Às 19h em ponto ele começou a tocar a música. Uma lágrima solitária escorreu no rosto de meu amigo. Respirando fundo me disse que o primeiro beijo entre ele e a esposa foi às 19h no banco de trás de um táxi que os levava ao cinema, e no CD-player tocava aquela música.

Durante os dois dias em que fiquei hospedado em seu apartamento, conversamos sobre o sucesso de suas filhas, sobre a carreira acadêmica dele no departamento de pós-graduação de filosofia, sobre o tempo que faltava para as nossas aposentadorias, sobre minha esposa, sobre a esposa dele e todo o sofrimento que a quimioterapia causou. Levou-me ao aeroporto, tomamos um café e quando chamou o garçom para pagar a conta indagou se eu não queria lhe perguntar nada. Balancei minha cabeça dizendo que não. Ele me acompanhou até o embarque, me agradeceu muito por ter vindo, tirou de dentro de sua pasta um presente e o colocou em minhas mãos. Foi fácil deduzir que era um livro e estava embalado num papel de presente vermelho. Nos abraçamos e ao ir embora me disse: “volte quando quiser”. Entrei no setor de embarque e agora sentado na poltrona do avião desembrulho o meu presente. Não contive um sorriso ao olhar aquele livro usado: “A metafísica do belo”.

O marcador de páginas estava na página 36, onde Platão e Kant explicam por que “o cavalo não existe”.