Virgínia Feu Rosa

Hostaria del Sapori, 08/abr/2017.

Com um repertório dedicado às canções francesas, Brasília conta com uma oportunidade única para apreciar a música francesa do século XX enquanto saboreia um menu de pratos franceses. Vejam algumas das músicas que irão iluminar a noite:

J’ai deux amours
Sous le ciel de Paris
Syracuse
La question
La vie en rose
Je veux
L’été 42
Dans mon île
C’est si bon
Ne me quitte pas
Je ne regrette rien
La mer
Gymnopédie n.1 (piano solo)
Gymnossienne ( piano solo)
La bohème
La javanaise
La chansonette
Et maintenant
Un homme et une femme
Tu sais je vais t’aimer

VirginiaFeuRosa-08abr2017_________________________________________________________________________________

Teatro Eva Herz, Livraria Cultura, 26 e 27/nov/2016.

Nos dias 26 e 27 de novembro de 2016 tive a grata satisfação de integrar a banda da cantora e compositora Virgínia Feu Rosa, no palco do Teatro Eva Herz, da Livraria Cultura, em Brasília. Conheci a Virgínia quando o embaixador Antenor Bogéa (pianista, compositor e cantor) me convidou para ir vê-la cantar num Pub da capital. Ficamos no mezanino e logo na primeira música…

 
Uma raridade para se ver e ouvir
 
… percebi que estava diante de uma raridade no cenário artístico contemporâneo. Refiro-me ao modo como Virgínia Feu Rosa trata a música. É como se seu próprio sobrenome oferecesse pistas de sua relação com a música: “Feu” (sugere o movimento do fogo, sua luz, sua intensidade) e “Rosa” (sugere perfume e delicadeza). Virgínia trata a música com respeito (como quem observa o movimento das chamas) e com zelo (como quem recebe uma flor). Eu não sei como é ouvir música sem ser músico. Comecei a estudar música aos cinco anos e ao longo do tempo ouvi música influenciado pela formação musical erudita e popular. Sem minha formação musical, talvez eu escutasse música de outra maneira. Além de intérprete eu componho. Isso abre outra dimensão para a escuta musical. Nessa dimensão, busco aquilo que é raro. Existem conceitos subjetivos como “beleza”, mas “raro” me parece um conceito objetivo à medida em que a percepção de um maior número de pessoas  coincida de que estão diante de um evento raro, desde que a escuta esteja comprometida em garimpar um tratamento musical raro. Em outras palavras, um tratamento musical mais focado na música do que nos cânones mercadológicos.
 
A música pela música
 
A música tornou-se um produto nas prateleiras reais e virtuais da indústria fonográfica. E não há nenhum problema nisso. Há padrões estéticos disponíveis para todos os consumidores. Há mais de um século uma rede se organizou para a mercantilização de músicas: gravadoras, rádios, TVs, empresários de shows e mais recentemente, a disponibilização de produtos musicais na Internet. Percebam que em NENHUM momento me referi à “beleza” ou à qualidade musical. Em NENHUM momento quis julgar este ou aquele produto musical. Se em algum momento da trajetória profissional um intérprete ou um compositor fizer parte da indústria de consumo, continuarei ouvindo esta ou aquela música sob influência de minha formação musical em que a música erudita e a música popular caminharam lado a lado. Minha formação musical está menos ligada à noção de gosto e mais enraizada à noção de respeito e zelo pela música. Em outras palavras, se o músico aparece mais do que a própria música, isso não me chama a atenção. Se a música aparece mais do que o músico, isso me chama a atenção. E neste último caso, no mundo sistematizado da música industrializada para todos os gostos, Virgínia Feu Rosa faz emergir uma música que se adapta às prateleiras da forte e sólida indústria musical e, ao mesmo tempo, se encaixa na curiosidade de quem busca ouvir composições diferentes. Diferentes, especialmente, pelo respeito e zelo a cada compasso de uma música que aparece mais do que a intérprete, mais do que o músico que a executa. Foi assim que aprendi a cultivar: a música pela música, em vez do músico ou intérprete que almeja ser maior que a música.
 
Mensagem artística
 
Tem dias que a gente quer tomar um café diferente, comer um prato diferente, ouvir uma música diferente. Respeito e zelo são os referenciais da artista Virgínia Feu Rosa para escolher os músicos que vão dividir o palco com ela. Quando uma mensagem artística é feita através da música, há ouvintes que apontam seus tímpanos para a afinação de quem canta, outros miram na técnica de cada músico em seu instrumento. Se o show é em um teatro, há quem aponte os olhos para a iluminação e cenário. Nunca se sabe como alguém escuta uma música. Tampouco aquilo que julga ou imagina enquanto ouve. Fato é que Virgínia escolhe músicos comprometidos com a Música – esta entidade histórica – domesticável ou não, industrializável ou não, são músicos que respeitam a força indômita e latente que reside nos porões de cada instrumento: o baixo da diretora musical Carol Setubal, a harpa de Hallisson Nogueira, a guitarra de Kino Lopes, a bateria de Caio Fonseca, a percussão de Keu Aragão, e com muito prazer fiz parte do grupo como pianista no show de lançamento do álbum “Primeiro Impacto”.
 
Ouvindo com lupa
 
Virgínia Feu Rosa: compositora e intérprete – nos ensaios, na passagem de som, no palco, ela embala com sua voz as canções de compositores brasilienses, e canções de sua autoria. Às vezes a gente ouve uma intérprete e não raro fazemos comparações estilísticas com outros intérpretes. Todavia, Virgínia (com uma presença em cena é inegavelmente elegante) parece ter encontrado um caminho próprio para com sua voz e seus gestos manter em primeiro plano a atenção da audiência na música que interpreta. Em outras palavras, não quer nos surpreender por meio de questões técnicas, mas antes pelo tratamento estético e emocional de cada canção.
 
Carol Setubal: baixista – a diretora musical do show soube conduzir com simplicidade os ensaios e a apresentação do show. Seu estilo de tocar faz o baixo soar melodicamente enquanto pavimenta a base das harmonias. Explora as regiões do instrumento de modo a protagonizar solos conscientes para dar à cada nota a mesma importância.
 
Caio Fonseca: baterista – raramente tive oportunidade de tocar com bateristas que transformaram a bateria em um instrumento para dialogar com a intérprete. Não se trata daquela bateria de bumbo e caixa, de ritmo de relógio ou algum tipo de motor. Caio Fonseca faz sua bateria soar para rimar com a voz, rimar com a guitarra, rimar com o piano, rimar com o baixo, rimar com a percussão, rimar com a dinâmica da música, de modo que bumbo, caixa, pratos, transcrevem um poema sem molduras, tal qual os sons que preenchem os espaços e nele se dissipam.
 
Kino Lopes: guitarrista – jazz e minimalismo, liberdade e precisão, som e silêncio, assim soa a guitarra de Kino Lopes, um músico que planeja como vai soar sua guitarra no próximo compasso. Sua performance lhe converte em um comentarista sonoro a dizer melodicamente coisas diferentes para os diferentes ritmos e acordes de uma canção. Sua técnica refinada está por trás do resultado artístico ao fazer com que escalas conhecidas soem como novidades melódicas. O timbre de sua guitarra parece transcrever a sua personalidade musical onde criador e criatura convivem no mesmo compasso.
 
Hallisson Nogueira: harpista – um momento ímpar na cena musical foi proporcionado pela harpa de Hallisson Nogueira que de mãos dadas com a voz de Virgínia Feu Rosa, envolveu os ouvintes com uma textura acústica pluralizada, em que notas e acordes ocupam diversas posições no imaginário.
 
Keu Aragão: percussionista – eu comparo o percussionista a um alquimista que está em seu laboratório misturando fórmulas secretas. E Keu Aragão traz para o palco uma sonoridade das ondas do mar, do vento no quintal, das nuvens que se espalham. A maneira como intervém em momentos específicos faz de sua percussão um instrumento que protagoniza surpresas aos ouvintes. Sua percussão não está vinculada ao ritmo da música, mas sim às possibilidades emocionais que uma música é capaz de transmitir.
 
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Estudar música

O músico durante sua formação tem muitas preocupações para atingir bons resultados técnicos e artísticos: o estudo da teoria, o estudo e a repetição de escalas e exercícios típicos para o seu instrumento, a formação de um repertório, tocar sozinho, tocar em grupo, e encontrar as melhores oportunidades profissionais, dentre outras necessidades com as quais vai lidar durante seu desenvolvimento. Este post eu preparei para aqueles músicos interessados numa metodologia de estudar música.
 
Se fosse possível, eu adoraria saber como Chopin, Bach, Villa-Lobos, Oscar Peterson, Bill Evans estudavam, isto é, como era a rotina de estudos de cada um, o método que usavam para se desenvolver como instrumentista e compositor.
 
Eu vou disponibilizar aqui o meu método de estudo, composto de sete propostas para você testar.
 
1 – Referência afetiva
 
Um músico costuma ser fã de muitos músicos, compositores e instrumentistas. Eu optei por conhecer e estudar o máximo de composições de um mesmo compositor. Vi que seria uma oportunidade de compreender os padrões melódicos, harmônicos e rítmicos no conjunto da obra daquele compositor. Eis os artistas cujas obras estudo sistematicamente: Chick Corea, Chopin, Debussy. Busco manter na minha rotina a manutenção de um repertório com músicas destes três compositores. Esta referência afetiva começou quando ouvi pela primeira vez “La fiesta” (Chick Corea), “Prelúdio Opus 28 n. 4” (Chopin) e “Clair de lune” (Debussy). Foi uma espécie de “amor à primeira vista”.  Assim, passei a estudar outras composições deles.
 
2 – Desafio racional
 
Escolho uma música que eu já toque com desenvoltura. A tarefa consiste em tocá-la noutra tonalidade com a execução perfeita da melodia e dos acordes sem falhas rítmicas, ao final de no máximo trinta minutos. O estudo fica cada vez mais rico à medida que se escolhem novas tonalidades para tocar a música.
 
3 – Reflexo auditivo
 
Pelo menos uma vez por mês vale à pena tocar, ao mesmo tempo em que se escuta, uma música que esteja na moda e são veiculadas nas rádios, na TV, no YouTube. Isso não tem a ver com o gosto musical. Em termos de estudo é uma atividade que tem muito valor para apurar o reflexo auditivo, além de nos preparar para a realidade profissional.
 
4 – Leitura à primeira vista
 
Uma vez por semana escolho uma partitura para treinar a leitura à primeira vista. Geralmente escolho um chôro (Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Waldyr Azevedo, Patápio Silva, Zequinha de Abreu, Dilermando Reis, João Pernambuco). O chôro tem uma “arquitetura” consolidada:
 
-forma A-B-A-C-A
-modulações 
-síncopes
 
Além disso é comum ter semicolcheias que funciona como um estímulo para aprimorar a leitura à primeira vista.
 
5 – Repertório obrigatório 
 
Faz parte do estudo ter embaixo do dedo algumas músicas. Não falo aqui das “músicas de sucesso” do momento, como a bela “Love yourself”, cantada por Justin Bieber. Isso fica resolvido com a prática do item 3 do meu método de estudo. Sobre “repertório obrigatório”, refiro-me às músicas populares do repertório nacional e jazzístico que sobrevivem ao modismo. Por exemplo, é inconcebível um músico profissional não saber tocar o Hino Nacional, Carinhoso, Garota de Ipanema, All the things you are (Hammerstein/Kern), Stella by starlight (Victor Young), A night in Tunisia (Dizzy Gillespie), Spain (Chick Corea), All of me (Jimone/Marks), Cantaloop Island (Herbie Hancock), Satin doll (Duke Ellington), etc. Isto é, aquelas músicas que numa Jam Session todo mundo sabe tocar. O ideal é saber solar a música, além de conhecer a harmonia.
 
6 – Refinamento da técnica
 
Cada instrumento requer dedicação ao estudo e refinamento da técnica. Significa a adoção de livros destinados a exercícios de repetição de escalas, arpejos e composições específicas para a independência das mãos e dos dedos. No meu caso que sou pianista, os exercícios para piano que adotei a partir da orientação do conservatório onde estudei foram os dos seguintes autores: Hanon, Czern, Cramer e Beringer.
 
7 – Modelagens
 
Trata-se do método que desenvolvi para a criação de minhas composições. As composições baseadas em “modelagens” fazem parte de meu próximo álbum chamado “Music and emotion”. Comecei a desenvolver este método de composição por “modelagens” nas horas vagas de estudo. Mais tarde, percebi o valor das modelagens como um tipo de estudo à parte, e testei o método com três alunos tanto para o desenvolvimento de novas harmonias como para o tratamento melódico empregado em novas composições e improvisação.
 
Eu moro em Brasília, e mantenho-me à disposição para trocar ideias sobre como estudar música.
Farlley Derze
info@farlleyderze.com