Consuelo

Meus queridos amigos do sexo masculino, tem coisas na vida que acontecem apenas uma vez. Vocês sabem do que estou falando: o arrependimento!

Óbvio que arrependimentos ocorrem mais de uma vez. Mas tem aquele que volta e meia espeta a memória de modo que faz a gente sentir uma dor daquelas. E hoje recebi uma dose letal.

Foi assim: eu precisei fazer uma limpa no álbum de fotos do meu celular. Sabem como é né, a gente sai clicando, fotografando tudo e um belo dia a memória do telefone explode. Fui selecionando aquele monte de fotos que a gente sabe que já dá pra deletar…fotos de 2016…fotos de 2015 e, de repente, surge uma foto que fiz quando estava morando em Madri. Primeiro olhei a foto com um sorriso de canto de boca, um sorriso silencioso que logo foi seguido pelo nefasto sentimento do qual falei lá em cima: o arrependimento!

Explico-lhes meus nobres amigos.

Foi assim. Era novembro de 2015 em Madri. Ou seja, era outono, uma estação de belíssimas paisagens. Eu pensei comigo mesmo: “poxa, to aqui morando na Europa…e hoje é um bom dia para andar sem rumo pelas ruas, entrar numa cafeteria, sentar no banco de uma praça, admirar a folhagem no chão, levo um livro comigo e só volto ao anoitecer”.

Antes, porém, naquela manhã preparei o café para minha esposa e meus filhos e fiz um banquete que foi muito elogiado por todos. Daí lhes disse: “ah, hoje to super animado, vou andar pelas ruas de Madri, sem destino”. Meus filhos são adolescentes com diagnóstico de dependência em estágio avançado da internet. Minha esposa leva quase uma hora para despertar de verdade, mesmo após o café, de modo que peguei o livro na estante, contei quantos euros eu levaria no bolso, dei um beijo em todo mundo e fui-me.

Eu estava morando há onze meses em Madri e era meu primeiro outono naquela cidade charmosa.

Abri a porta, desci os três andares pela escada pensando “por onde começo?”. Saí do prédio, na Avenida Reina Victoria, olhei para direita, olhei para esquerda e decidi ir pela esquerda, rumo a Cuatro Caminos e de lá rumo à Calle Fuencarral.

Nenhuma pressa!

Eram 8:50 da manhã.

Vou pular os detalhes da caminhada e avançar a narrativa até o banco numa praça da Calle Fuencarral, onde sentei-me para tomar um sorvete de banana caramelada, nozes e amarena.

Apoiei o livro no banco, olhei aquelas três bolas de sorvete, olhei para o céu com vários galhos secos ao redor, fechei os olhos, inspirei o ar daquela manhã e quando abri os olhos para começar a tomar o sorvete, uma moça estava de pé à minha frente e… sorrindo.

Atrás de seu sorriso veio o som de sua voz:

– Buenos días.
– Buenos días, respondi.

E sorrindo me perguntou:
– ¿Usted podría sacarme una fotografía?
– Por supuesto, respondi.

Coloquei o sorvete ao lado do livro, ela me deu o seu celular para fazer a foto. Foi naquele momento que o destino resolveu interferir, de tal modo que hoje estou aqui contando esta história para vocês, meus amigos que certamente guardam na memória alguma lembrança que ao ser acessada vem como uma lâmina para fazer sangrar a dor do arrependimento.

Pois bem, naquele momento o destino fez o seguinte: na hora que ela se posicionou para a foto, eu mirei o celular nela e disse: “Yo le haré dos fotografías, una de su sonrisa y otra más distante con usted en la calle”.

E aí…

É ! O destino entrou em cena. A bateria do celular dela estava tão baixa que se desligou no exato momento que eu fazia o zoom para capturar o sorriso dela. Eu lhe disse: “lo siento pero su teléfono se ha apagado”.

Ela disse sorrindo que se esquecera de carregar durante a noite. E o destino deu sua prova de amizade por mim, pois meu celular estava com 100% de bateria. Eu tinha o outono daquele dia para fotografar, mas a primeira foto do dia foi o sorriso daquela moça.

Antes, porém, vi seus olhos se espantarem de repente ao olhar para o banco onde eu estava sentado e disse “perdóname, tu helado se pone a derretirse”.

Aquelas três bolas de sorvete começavam a formar uma amálgama. Todavia, eu sorri e ela sorriu, e o destino fez-me outro favor. Ela disse que compraria um sorvete para ela e voltaria.

Eu a acompanhei e a fotografei dentro da sorveteria. Ela adorou e me perguntou: ¿”tu podrías enviármela por email”?

Anotei o email dela e saí para esperá-la.

Eu a vi na fila, abri o celular, olhei a foto e pensei “isso não está acontecendo” !!!

Ela voltou com uma bola de “dulce de leche”. Sorridente, estendeu-me a mão dizendo “encantada, me llamo Consuelo”.

Eu disse meu nome e ela certamente percebeu meu sotaque, pois me perguntou se eu era das Ilhas Canárias. Respondi que era brasileiro e ela citou imediatamente Paulo Coelho, Gisele Bündchen, Neymar e Tom Jobim. Ela me contou que era de Málaga e estava passando três dias em Madri, depois iria conhecer El Escorial onde estão os túmulos de todos os reis da Espanha, desde a renascença. Eu disse que já havia visitado o local e achei belíssimo.

Sentamo-nos no banco da praça e depois de algumas colheradas de sorvete, ela percebeu o livro que eu trazia comigo e perguntou que história era. Eu contei que era uma história triste de um casal que vai para a maternidade para ganhar o primeiro filho, e a criança nasceu morta. Ela tirou um bloquinho da bolsa e anotou o nome do livro: “El nadador en el mar secreto (William Kotzwinkle)”.

Agora vem a parte do arrependimento.

Quando o sorvete acabou ela me disse que iria para El Escorial no dia seguinte e perguntou-me se eu gostaria de acompanhá-la numa viagem de trem. Eu olhei sutilmente de canto de olho pra aliança em meu dedo, pensei imediatamente na dificuldade de dizer à minha esposa que passaria o dia seguinte fora novamente, coisa que ela estranharia porque não é do meu feitio, daí cogitei contar-lhe tudo isso que estou contando pra vocês meus amigos, e óbvio que a resposta dela seria um sonoro NÃO, e a moça perguntou “¿tú vienes mañana conmigo?”… respondi sem querer de supetão: NÃO. Bem-dizer ouvindo a voz da minha esposa. E amenizei a resposta dizendo que tinha uma reunião na universidade e blá blá blá, sabe quando você diz coisas sem vontade dizer…hein meus amigos?!!

To quase acabando a história.

Aí ela diz “qué lástima, pues tú podrías ayudarme a sacar muchas fotos”.

Ela se levantou e disse que aguardaria o email com a foto que fiz dela. Eu a vi cruzar a rua com uma mão apoiada sobre o chapéu em sua cabeça, as folhas do outono caindo sobre ela e se foi…perdi de vista. Olhei pra minha aliança, olhei pro copo vazio do sorvete, olhei de novo pro outro lado da rua…mas ela já havia se misturado aos demais pedestres. Amassei sem perceber o copo de papelão e falei em voz alta “calma, levanta, bota esse copo na lixeira bem ali e vai atrás dela”.

E fui!

Ao chegar à primeira esquina veio aquele golpe fatal do destino quando não perdoa uma resposta negativa para algo bom. Na esquina me deparei com o metrô da estação Quevedo, gente subindo as escadas, gente descendo, gente que estava andando na calçada…eu pensei “e agora…ou ela desceu para pegar o metrô, ou seguiu pela rua”.

Fiquei ali paralisado como se o destino me dissesse “eu fiz a minha parte e você não fez a sua”.

Cheguei em casa de noitinha, tendo passado o resto do dia sentado no mesmo banco onde aquela moça surgiu parada à minha frente. Fiquei ali com aquela esperança tola dos homens de que ela pudesse passar de novo, e minha resposta seria “sim, Consuelo, posso acompanhar-lhe até El Escorial”.

Eu já tinha a desculpa per-fei-ta para passar o dia fora.

Enfim, meus amigos. Nada feito!

Daí, enviei o email pra ela, anexei a foto com o seguinte texto:

– Hola, Consuelo. Muy encantado conocerte y cuando vuelvas de El Escorial, llámame y tomamos otro helado juntos”.

Recebi sua resposta duas semanas depois, dizendo que estava em Granada, gostou muito da fotografia e me agradeceu mas não disse “hasta la vista” e terminou simplesmente com “muchas gracias” e ponto final.

Hoje, aqui na Flórida onde estou passando uma temporada e, como disse no início da história, eu estava fazendo uma limpa nas fotos para aliviar a memória cheia de meu celular, eu me deparei com a foto dela. Eu fiquei olhando um bocado, titubeante nos pensamentos que sobrevoavam avulsos como pássaros que disputam um lugar no ninho da memória de algo que podia ter acontecido no vagão de um trem, um vinho sobre a mesa, a paisagem do outono lá fora, o sorriso dela lá dentro e eu reluzente com aquele presente do destino.

Salvei a foto dela no meu computador, numa subpasta de outra pasta onde salvo minhas partituras.

Óbvio que já enviei outros emails pra ela e mais óbvio ainda que jamais me respondeu.

Meus amigos, se algum dia um de vocês for passear na Espanha, for conhecer Málaga e encontrar a Consuelo por acaso, diga a ela que seu amigo aqui se arrependeu. E diga que guardo a foto dela junto com minhas partituras. Diga que o sorriso dela é a música que jamais esqueci.