Consuelo

Consuelo

Meus queridos amigos do sexo masculino, tem coisas na vida que acontecem apenas uma vez. Vocês sabem do que estou falando: o arrependimento!

Óbvio que arrependimentos ocorrem mais de uma vez. Mas tem aquele que volta e meia espeta a memória de modo que faz a gente sentir uma dor daquelas. E hoje recebi uma dose letal.

Foi assim: eu precisei fazer uma limpa no álbum de fotos do meu celular. Sabem como é né, a gente sai clicando, fotografando tudo e um belo dia a memória do telefone explode. Fui selecionando aquele monte de fotos que a gente sabe que já dá pra deletar…fotos de 2016…fotos de 2015 e, de repente, surge uma foto que fiz quando estava morando em Madri. Primeiro olhei a foto com um sorriso de canto de boca, um sorriso silencioso que logo foi seguido pelo nefasto sentimento do qual falei lá em cima: o arrependimento!

Explico-lhes meus nobres amigos.

Foi assim. Era novembro de 2015 em Madri. Ou seja, era outono, uma estação de belíssimas paisagens. Eu pensei comigo mesmo: “poxa, to aqui morando na Europa…e hoje é um bom dia para andar sem rumo pelas ruas, entrar numa cafeteria, sentar no banco de uma praça, admirar a folhagem no chão, levo um livro comigo e só volto ao anoitecer”.

Antes, porém, naquela manhã preparei o café para minha esposa e meus filhos e fiz um banquete que foi muito elogiado por todos. Daí lhes disse: “ah, hoje to super animado, vou andar pelas ruas de Madri, sem destino”. Meus filhos são adolescentes com diagnóstico de dependência em estágio avançado da internet. Minha esposa leva quase uma hora para despertar de verdade, mesmo após o café, de modo que peguei o livro na estante, contei quantos euros eu levaria no bolso, dei um beijo em todo mundo e fui-me.

Eu estava morando há onze meses em Madri e era meu primeiro outono naquela cidade charmosa.

Abri a porta, desci os três andares pela escada pensando “por onde começo?”. Saí do prédio, na Avenida Reina Victoria, olhei para direita, olhei para esquerda e decidi ir pela esquerda, rumo a Cuatro Caminos e de lá rumo à Calle Fuencarral.

Nenhuma pressa!

Eram 8:50 da manhã.

Vou pular os detalhes da caminhada e avançar a narrativa até o banco numa praça da Calle Fuencarral, onde sentei-me para tomar um sorvete de banana caramelada, nozes e amarena.

Apoiei o livro no banco, olhei aquelas três bolas de sorvete, olhei para o céu com vários galhos secos ao redor, fechei os olhos, inspirei o ar daquela manhã e quando abri os olhos para começar a tomar o sorvete, uma moça estava de pé à minha frente e… sorrindo.

Atrás de seu sorriso veio o som de sua voz:

– Buenos días.
– Buenos días, respondi.

E sorrindo me perguntou:
– ¿Usted podría sacarme una fotografía?
– Por supuesto, respondi.

Coloquei o sorvete ao lado do livro, ela me deu o seu celular para fazer a foto. Foi naquele momento que o destino resolveu interferir, de tal modo que hoje estou aqui contando esta história para vocês, meus amigos que certamente guardam na memória alguma lembrança que ao ser acessada vem como uma lâmina para fazer sangrar a dor do arrependimento.

Pois bem, naquele momento o destino fez o seguinte: na hora que ela se posicionou para a foto, eu mirei o celular nela e disse: “Yo le haré dos fotografías, una de su sonrisa y otra más distante con usted en la calle”.

E aí…

É ! O destino entrou em cena. A bateria do celular dela estava tão baixa que se desligou no exato momento que eu fazia o zoom para capturar o sorriso dela. Eu lhe disse: “lo siento pero su teléfono se ha apagado”.

Ela disse sorrindo que se esquecera de carregar durante a noite. E o destino deu sua prova de amizade por mim, pois meu celular estava com 100% de bateria. Eu tinha o outono daquele dia para fotografar, mas a primeira foto do dia foi o sorriso daquela moça.

Antes, porém, vi seus olhos se espantarem de repente ao olhar para o banco onde eu estava sentado e disse “perdóname, tu helado se pone a derretirse”.

Aquelas três bolas de sorvete começavam a formar uma amálgama. Todavia, eu sorri e ela sorriu, e o destino fez-me outro favor. Ela disse que compraria um sorvete para ela e voltaria.

Eu a acompanhei e a fotografei dentro da sorveteria. Ela adorou e me perguntou: ¿”tu podrías enviármela por email”?

Anotei o email dela e saí para esperá-la.

Eu a vi na fila, abri o celular, olhei a foto e pensei “isso não está acontecendo” !!!

Ela voltou com uma bola de “dulce de leche”. Sorridente, estendeu-me a mão dizendo “encantada, me llamo Consuelo”.

Eu disse meu nome e ela certamente percebeu meu sotaque, pois me perguntou se eu era das Ilhas Canárias. Respondi que era brasileiro e ela citou imediatamente Paulo Coelho, Gisele Bündchen, Neymar e Tom Jobim. Ela me contou que era de Málaga e estava passando três dias em Madri, depois iria conhecer El Escorial onde estão os túmulos de todos os reis da Espanha, desde a renascença. Eu disse que já havia visitado o local e achei belíssimo.

Sentamo-nos no banco da praça e depois de algumas colheradas de sorvete, ela percebeu o livro que eu trazia comigo e perguntou que história era. Eu contei que era uma história triste de um casal que vai para a maternidade para ganhar o primeiro filho, e a criança nasceu morta. Ela tirou um bloquinho da bolsa e anotou o nome do livro: “El nadador en el mar secreto (William Kotzwinkle)”.

Agora vem a parte do arrependimento.

Quando o sorvete acabou ela me disse que iria para El Escorial no dia seguinte e perguntou-me se eu gostaria de acompanhá-la numa viagem de trem. Eu olhei sutilmente de canto de olho pra aliança em meu dedo, pensei imediatamente na dificuldade de dizer à minha esposa que passaria o dia seguinte fora novamente, coisa que ela estranharia porque não é do meu feitio, daí cogitei contar-lhe tudo isso que estou contando pra vocês meus amigos, e óbvio que a resposta dela seria um sonoro NÃO, e a moça perguntou “¿tú vienes mañana conmigo?”… respondi sem querer de supetão: NÃO. Bem-dizer ouvindo a voz da minha esposa. E amenizei a resposta dizendo que tinha uma reunião na universidade e blá blá blá, sabe quando você diz coisas sem vontade dizer…hein meus amigos?!!

To quase acabando a história.

Aí ela diz “qué lástima, pues tú podrías ayudarme a sacar muchas fotos”.

Ela se levantou e disse que aguardaria o email com a foto que fiz dela. Eu a vi cruzar a rua com uma mão apoiada sobre o chapéu em sua cabeça, as folhas do outono caindo sobre ela e se foi…perdi de vista. Olhei pra minha aliança, olhei pro copo vazio do sorvete, olhei de novo pro outro lado da rua…mas ela já havia se misturado aos demais pedestres. Amassei sem perceber o copo de papelão e falei em voz alta “calma, levanta, bota esse copo na lixeira bem ali e vai atrás dela”.

E fui!

Ao chegar à primeira esquina veio aquele golpe fatal do destino quando não perdoa uma resposta negativa para algo bom. Na esquina me deparei com o metrô da estação Quevedo, gente subindo as escadas, gente descendo, gente que estava andando na calçada…eu pensei “e agora…ou ela desceu para pegar o metrô, ou seguiu pela rua”.

Fiquei ali paralisado como se o destino me dissesse “eu fiz a minha parte e você não fez a sua”.

Cheguei em casa de noitinha, tendo passado o resto do dia sentado no mesmo banco onde aquela moça surgiu parada à minha frente. Fiquei ali com aquela esperança tola dos homens de que ela pudesse passar de novo, e minha resposta seria “sim, Consuelo, posso acompanhar-lhe até El Escorial”.

Eu já tinha a desculpa per-fei-ta para passar o dia fora.

Enfim, meus amigos. Nada feito!

Daí, enviei o email pra ela, anexei a foto com o seguinte texto:

– Hola, Consuelo. Muy encantado conocerte y cuando vuelvas de El Escorial, llámame y tomamos otro helado juntos”.

Recebi sua resposta duas semanas depois, dizendo que estava em Granada, gostou muito da fotografia e me agradeceu mas não disse “hasta la vista” e terminou simplesmente com “muchas gracias” e ponto final.

Hoje, aqui na Flórida onde estou passando uma temporada e, como disse no início da história, eu estava fazendo uma limpa nas fotos para aliviar a memória cheia de meu celular, eu me deparei com a foto dela. Eu fiquei olhando um bocado, titubeante nos pensamentos que sobrevoavam avulsos como pássaros que disputam um lugar no ninho da memória de algo que podia ter acontecido no vagão de um trem, um vinho sobre a mesa, a paisagem do outono lá fora, o sorriso dela lá dentro e eu reluzente com aquele presente do destino.

Salvei a foto dela no meu computador, numa subpasta de outra pasta onde salvo minhas partituras.

Óbvio que já enviei outros emails pra ela e mais óbvio ainda que jamais me respondeu.

Meus amigos, se algum dia um de vocês for passear na Espanha, for conhecer Málaga e encontrar a Consuelo por acaso, diga a ela que seu amigo aqui se arrependeu. E diga que guardo a foto dela junto com minhas partituras. Diga que o sorriso dela é a música que jamais esqueci.

Dominique

Dominique

Meus amigos, alguém me ajude.

Aliás, antes de mais nada, estou me dirigindo aos amigos homens, então…as mulheres nem precisam ler o que vou relatar aqui.

Amigos homens, help !

Na manhã de hoje eu estava numa boa, plena terça-feira, onze da manhã, dirigindo e cantando uma super música que tocava no rádio do carro. O sinal fechou e meus amigos, era preferível que fechasse depois de eu passar. Ou não.

Meus amigos, eu parei certinho antes da faixa de pedestres e estava cantando o refrão da música “killing me softly” e PÔW !!!!

Calma. Não foi nenhum caminhão me alborroando pela traseira, mas uma mulher que cruzava a faixa de pedestres. Adeus refrão da música. Meu carro – PÔW – virou uma bolha de silêncio. Meus olhos…ah….meus olhos, há quanto tempo não via nada igual. Era uma mulher andando e digitando no celular sem nenhuma pressa, vinha lá do outro lado da rua e passaria bem ali, defronte meus olhos, raspando no capô do carro e assim foi, chegou, passou e até fez uma pausa antes de subir na calçada, para não tropeçar no meio-fio. E ao subir a calçada ficou ali, digitando, eu olhei o semáforo com as mãozinhas postas dizendo com a boca fechada “não abre agora, não abre agora”, mas puta que pariu de sinal, abriu e ela ali digitando no celular, e eu com a marcha preguiçosa saindo sem vontade de sair, mas tive que sair e vi pela janela do carona a moça, depois conferi pelo retrovisor e ela ali no mesmo lugar e pronto: fui forçado (amigos: juro, vocês hão de entender, fui compelido entendem?) a dobrar a primeira rua à direita e me deparei com a sorte de uma em um milhão de chances, a de um carro saindo de uma vaga ao longo do meio-fio, liguei a seta como quem tem o direito urgente de parar ali e oba: estacionei. Ela tinha que estar ainda naquela calçada defronte ao semáforo! Tinha que estar!!! Daí, claro né, ninguém pensa que numa metrópole é só chegar, estacionar na rua e tudo bem. Não mesmo. Tem que pagar, tem que comprar o ticket para não dar moleza pro reboque ou aquelas multas pesadas.

Adivinhem!!!

Isso mesmo meus amigos. Corri até a esquina e conferi: ela estava ali, de pé, digitando. Então, corri de volta em direção ao meu carro igual barata tonta, olhei ao redor e não via onde comprar o ticket, entrei numa cafeteria e pedi essa informação e obviamente eu estava cego. A cinco metros estava o aparato pra comprar o ticket e deixá-lo exposto, no interior do veículo, acima do painel. Pensem comigo, meus amigos homens da gloriosa mentalidade masculina: vocês comprariam um ticket de quinze minutos ou sessenta minutos?

Abri o carro, deixei lá o papelzinho e corri em direção à moça…à mulher…à deusa que só aparece de mil em mil anos. Foi só eu dobrar a esquina e a vi, finalmente, tirando os olhos do celular e caminhando em direção ao fundo da avenida. Fui atrás, puxei meu iphone do bolso, acionei o timer e marquei lá cinquenta minutos, afinal em dez minutos (de onde quer que eu estivesse) eu poderia estar de volta ao meu carro.

Agora vamos lá: quem de vocês meus amigos (e sinceros amigos) nunca na vida, na adolescência, na idade adulta, no shopping, no coração, na agonia, nunca seguiu uma mulher sem ela saber? Vocês sabem do que estou falando né?! Muito bem, agora vamos às perguntas de vocês:

– “era loira”?
– sim, meu amigo!
– “vestido curto ou calça comprida”?
– um shortinho jeans com aqueles fiapos soltinhos.
– “qual era o tamanho do short”?
– eu disse shortinho! …inho, inho, inho.
– “camiseta branca, aposto”!!!
– na mosca.
– “camiseta sem manga e frouxa”!
– acertou.
– “camiseta recortada mostrando a barriguinhha”.
– e que barriga, que umbigo lindo meus amigos.
– “mas…tava cortada até que altura essa camiseta”?
– logo abaixo dos seios.
– “com ou sem sutiã”?
– imagine e vai acertar !!!
– “óculos escuros, aposto”!
– com certeza, meu amigo.

Então meus nobres, sabe aquela mulher deliciosamente solta, deliciosamente liberta? Pois é!

Deixa eu contar !!! Olha só…eu estava numa boa, cantando dentro do carro e me deparo com aquela coisa que parecia que tinha levantado da cama às dez da matina, sem compromisso e só ajeitou os cabelos com os dedos avulsos, deixou a camisola largada na cama, lavou o rosto com água fria, escovou os dentes e saiu do banheiro sem se olhar no espelho (mas benza-deus, nem precisa se olhar no espelho viu), deve ter aberto o guarda-roupa e tirou de lá o que estava mais perto, shortinho, camiseta e uma sandália que deve acompanhar seus passos desde a adolescência e saiu assim, bagunçadinha com o celular na mão, e agora eu estava ali calculando os metros atrás dela. De repente ela parou, olhou ao redor e entrou numa lanchonete. Tá, vou dizer o nome: era um McDonalds. Que maravilha, pensei. Posso entrar sem levantar suspeitas.

Caramba: eu ali na fila, atrás dela. Aaah, meus amigos, ela fez um gesto de jogar os cabelos com uma das mãos que fez evaporar um aroma guardado atrás do pescoço, aquele cheiro gos-to-so de hidratante que espetou meu peito e fez minha taquicardia subir mais dez pontos. Senti a pressão na jugular. Chegou a vez dela fazer o pedido e sorte de vocês que não estavam lá, porque vou levar o som daquela voz para o meu túmulo. Honestamente, é impossível descrever a música daquela voz.

Na minha vez pedi o mesmo: McFish e suco de laranja. Só ali pensei na idade dela.

Óbvio. Lógico. Claro que me sentei bem pertinho numa mesa vizinha, e naquele momento cheguei a cogitar que ela sabia. Ela devia ter certeza que eu a seguira. Mas em nenhum momento me olhou, como desde o semáforo não olhou pra ninguém.

Eu acho que ela acordou tarde e agora estava ali tomando seu café da manhã.

Dei uma olhada geral e claro, né: vários homens olhando pra ela disfarçadamente com olhos de crocodilo e o canudo na boca. Eu era o mais próximo daquele aroma pecaminoso, daquela penugem que recobria o par de coxas mais escandalosamente lindo que um homem deseja ver na face da terra, aqueles cabelos que foram penteados com os dedos, aquela camiseta sem manga e vejam meus amigos o tamanho de minha sorte: ela estava sentada de perfil, a uma distância que dava para ouvir a mordida dela no pão macio, e nenhum de vocês me perguntou mas digo agora: numa das mordidas a camiseta frouxa se desgrudou e pude ver que era rosinha e meu ângulo privilegiado deixou ver a tatuagem de uma borboleta voando na direção do néctar.

Meus amigos: estou de peito aberto relatando o que me ocorreu nesta manhã de 1° de março de 2016, e retirem já qualquer interpretação pornográfica. Calma lá! Vejam a coisa toda do jeito que merece ser vista: poeticamente, please!

Daí, meus amigos, a bateria do celular dela acabou porque ela estava digitando e de repente reagiu como qualquer um de nós quando isso acontece. Um olhar de frustração. Só que…ela olhou ao redor e viu numa mesa lá do canto um magrelo barbudo com o celular sobre a mesa e o carregador na tomada. Adivinhem!!!!

Pois é. Ela se levantou e foi até o sujeito e “nossa senhora”, “benza-deus”, “putaquilpariu”, que visual!!!

Óbvio que o cara emprestou o carregador. Ela plugou o celular dela e deixou ali mesmo na mesa do sujeito e voltou à mesa dela. Todos os homens pareciam estátuas naquele momento.

Eu prometo a partir de hoje andar com meu carregador do iphone no bolso.

Ela terminou o lanche e eu sequer tinha mordido meu sanduíche e o canudo do suco ainda lacrado sobre a mesa. Daí ela se levantou e foi pra fila outra vez. Todos sem exceção, inclusive as mulheres, olharam pra ela e o silêncio de cada um valia mais que mil elogios.

Ela voltou com um sundae de morango. Nunca vi um sundae tão caprichado. Mas desta vez ela foi se sentar na mesa perto do celular e claro que veio aquela angústia (que todos vocês caros amigos sabem qual é) de o sujeito puxar assunto, e tal… e se ela corresponder e se no meio do papo soltar aquela gargalhada bacana, já viu né: c’est fini !!!!

Vocês estão calculando o tempo? Pois é! O timer do meu celular tocou e agora eu tinha dez minutos para abandonar um lanche intacto e voltar para o estacionamento.

O que vocês fariam, meus amigos?

Lembrem-se…o aroma que o pescoço dela exalava, a camiseta frouxa, a tatuagem bem ali, a penugem naquela pele de pêssego e ok, hora do xeque-mate: ela tirou os óculos escuros para comer o sundae e os pousou sobre a mesa em qualquer posição, deu uma olhada lá pra fora, a luz do dia enchia o salão e quando ela virou o pescoço eu naufraguei naqueles olhos azuis, de modo que…meus amigos, honestamente, eu senti pena de mim. Vocês sabem do que estou falando. A gente cresce ao longo da adolescência e adentra na fase adulta fazendo centenas de combinações para idealizar a mulher com a qual sonhamos nos casar. A gente mede tudo, o tamanho disso, o tamanho daquilo, o formato da boca, a cor dos olhos e dormimos muitas noites fazendo ajustes, porque ora a gente quer se casar com uma ruiva ora com uma morena, ora com uma de cabelo curto ora com outra do cabelão, enfim vocês sabem do que estou falando…nossa mais antiga penitência: sonhar com a mulher ideal.

Daí eu fiz o timer do celular se calar antes de disparar o alarme e pensei: “e se eu deixar vencer o ticket do estacionamento”?

Meus amigos, será que logo naquele dia eu seria injustiçado com uma multa grudada no meu pára-brisas? O que você faria, hein?

Pois é, foi o que eu fiz.

Outra coisa: tirei a aliança do dedo.

Daí ela terminou o sundae dela e apesar de meia-dúzia de palavras trocadas com o sujeito que lhe emprestou o carregador, nenhum sorriso foi trocado, ok, ufa, graças a Deus. Ela se levantou, pegou o celular e quando disse “muito obrigada” indo em direção à saída, o sujeito virou discretamente o pescoço e só ali deu pra ver que era um japonês, ou seja, que sorte hein. Se fosse um carioca, um baiano, um espanhol, um libanês…já sabe né…

Ela saiu.

Fui atrás e ela digitava…parou para cruzar a rua transversal, fui atrás…e ela entrou numa loja dessas que vende brincos, pulseiras…daí complicou né. O que um cara como eu ía fazer lá dentro? Se você entra sozinho numa loja dessas vai sempre parecer um cara comprometido em busca de um presente para a esposa, a namorada. Olha, eu até entraria (puta merda, eu sei que vocês me entendem) porque sou casado e compraria com todo meu amor (isso vocês entendem também) um brinco para minha esposa, ou um colar. Mas a prudência me exigiu que eu ficasse do lado de fora.

Então, fingi que estava digitando no meu celular de costas para a loja. Acionei a câmera e coloquei no modo self, e assim podia ver como no retrovisor o momento que ela se preparasse para sair da loja. Fiquei ali com um olho no padre e outro na missa. E aí aconteceu um milagre. Uma voz atrás de mim: – oi, minha bateria acabou, você deixa eu dar um telefonema?

Quando me virei: BUM !!! Aqueles olhos azuis reluzentes, aquela boca rosada, e meus olhos escorregaram pela camiseta dela e duas setas pontiagudas apontavam pra mim e aquela voz complementa seu pedido, sua ordem, sua lei gravitacional: – é uma ligação rápida, deixa?

Eu entreguei o celular e descobri que hipnose existe !!!

Aí ela falou: – tá bloqueado!

Eu entendi outra coisa e fechando a boca, estalei os olhos e disse: “ãnhnn”?
– tá bloqueado, tá pedindo a senha.

E eu disse: 1963.

Ela digitou a senha e abriu um sorriso tão angelical, tão iluminado…e sorrindo me disse “você me deu sua senha”!

E enquanto teclava um número de telefone eu pensava que além da senha eu lhe daria meu abraço, meu beijo, minhas promessas, outro abraço, outro beijo agora malvado, meu corpo, minhas armas, minha vida de novo…

Ela tirou o cabelo pro lado e colocou no ouvido o celular (o meu celular)…viva a Apple, viva a conexão 4G, viva o semáforo vermelho!!

– Oi, sou eu. Você pode me levar no clube de xadrez hoje à tarde e na loja de pianos amanhã de manhã?

Meus amigos, HELP!

Não sei vocês, mas eu jogo xadrez, eu toco piano e…ok, sou casado. Mas, sabemos o que está acontecendo certo? Todos unidos, ok…vamos ouvir o resto da conversa.

– Sério? Você volta quando?

Ôpa, ôpa, meus amigos!

– Então aproveita bem a viagem, eu vou de ônibus mesmo e vai lá em casa quando voltar, beijo Kakáu.

E me devolveu o celular ao mesmo tempo que recolocava os óculos escuros, dizendo “muito, muito obrigada”.

Eu nem estendi a mão para pegar o celular. E fiz o que o destino implorou para eu fazer. Eu disse com a calma dos monges tibetanos:

– Você joga xadrez e precisa de carona? Seu namorado (pô meus amigos Kakáu podia ser Carla ou Carlos, eu tinha que tirar essa dúvida) não pode lhe levar? Eu amo jogar xadrez. Será um prazer lhe levar.

Então né!!!! Quantas vezes uma situação dessas exige a nossa mais fingida calma? Pois eu fui. A gente carrega nossas granadas, nossa mira telescópica, nossa bússola e agora eu tava do outro lado do arame farpado.

– Não…eu não tenho namorado. Kakáu é minha irmã.

Eu emendei dizendo que o sol estava quente, e a gente em pé ali na rua…perguntei onde ela morava, ela apontou com o dedo para um prédio todo branco, na direção da bendita faixa de pedestres.

– Mas a gente nem se conhece e você me oferece carona até o clube de xadrez?

E respondi pausadamente:

– E uma carona amanhã para a loja de piano.

Meus amigos, eu juro…juro de pés juntinhos…ela soltou uma gargalhada tão gostosa, daquelas que a gente espera anos pra ouvir e obviamente eu correspondi. Eu já tinha saído do piloto automático e estava no câmbio manual. Cada reação tinha uma medida arquitetônica, milimétrica, exata. O alvo caminhou em direção à flecha!

Enquanto caminhávamos de volta em direção à casa dela, contou-me que se formou em piano, tem doutorado em astronomia, é campeã internacional de xadrez com um rating de 2300, mora em Quebec, no Canadá e tirou uma licença da universidade onde leciona a física da trajetória dos asteróides, para participar de um torneio de xadrez aqui na Flórida, onde estou passando uma temporada. Perguntei sobre o motivo de ir a uma loja de pianos e me disse que comprou pela internet um modelo de piano de meia-cauda e precisava acertar os detalhes do pagamento do transporte até o Canadá.

Chegamos à faixa de pedestres onde tudo começou, ela apontou pro outro lado da rua e disse: – eu moro ali, terceiro andar, apartamento 35…é do meu pai…ele deixa a chave comigo desde que foi morar em Paris. Você jura que pode vir me buscar mais tarde? Às cinco?

Eu dei aquela olhada pra ela com os olhos por baixo das sobrancelhas, ali com o som dos automóveis ao redor, como se ela não soubesse como funciona um homem determinado.

Abri a boca e com uma voz falsamente calma disse sim, o semáforo ficou verde para os pedestres, ela se foi e eu devo ter ficado ali mais uns vinte minutos depois dela entrar no prédio. Eu sei, meus amigos, vocês também ficariam.

Dobrei a esquina e antes de entrar no carro estava ali, grudada no meu pára-brisas uma linda multa de U$485 dólares por manter o carro ocupando vaga de estacionamento com o ticket vencido.

Meus amigos, HELP!

Minha conta bancária é conjunta com minha esposa. Não tem mágica. Vão sumir U$485 dólares da conta e, vocês sabem: ela vai perguntar como um cara como eu que usa o timer até pra cozinhar ovos, timer pra ser avisado do início do UFC aos sábados, sempre sempre sempre uso o timer quando estaciono e nunca deixo vencer o horário, e dessa vez o horário venceu ! Já estão imaginando a sequência de perguntas né, e os intermináveis contra-argumentos né…

Amigos, vocês fariam uma vaquinha de U$485 dólares? To colocando esse assunto aqui no grupo do WhatsApp e quem se dispuser a me tirar dessa enrascada, eu envio meus dados bancários pelo inbox.

Eu já escondi a multa, já levei a Dominique ao clube de xadrez, trouxe-a de volta ao apartamento dela e estamos aqui ouvindo “killing me softly” no YouTube.

Prometo contar o resto da história no inbox de cada um que me ajudar.

Meus amigos, HELP !