Virgínia Feu Rosa

Hostaria del Sapori, 08/abr/2017.

Com um repertório dedicado às canções francesas, Brasília conta com uma oportunidade única para apreciar a música francesa do século XX enquanto saboreia um menu de pratos franceses. Vejam algumas das músicas que irão iluminar a noite:

J’ai deux amours
Sous le ciel de Paris
Syracuse
La question
La vie en rose
Je veux
L’été 42
Dans mon île
C’est si bon
Ne me quitte pas
Je ne regrette rien
La mer
Gymnopédie n.1 (piano solo)
Gymnossienne ( piano solo)
La bohème
La javanaise
La chansonette
Et maintenant
Un homme et une femme
Tu sais je vais t’aimer

VirginiaFeuRosa-08abr2017_________________________________________________________________________________

Teatro Eva Herz, Livraria Cultura, 26 e 27/nov/2016.

Nos dias 26 e 27 de novembro de 2016 tive a grata satisfação de integrar a banda da cantora e compositora Virgínia Feu Rosa, no palco do Teatro Eva Herz, da Livraria Cultura, em Brasília. Conheci a Virgínia quando o embaixador Antenor Bogéa (pianista, compositor e cantor) me convidou para ir vê-la cantar num Pub da capital. Ficamos no mezanino e logo na primeira música…

 
Uma raridade para se ver e ouvir
 
… percebi que estava diante de uma raridade no cenário artístico contemporâneo. Refiro-me ao modo como Virgínia Feu Rosa trata a música. É como se seu próprio sobrenome oferecesse pistas de sua relação com a música: “Feu” (sugere o movimento do fogo, sua luz, sua intensidade) e “Rosa” (sugere perfume e delicadeza). Virgínia trata a música com respeito (como quem observa o movimento das chamas) e com zelo (como quem recebe uma flor). Eu não sei como é ouvir música sem ser músico. Comecei a estudar música aos cinco anos e ao longo do tempo ouvi música influenciado pela formação musical erudita e popular. Sem minha formação musical, talvez eu escutasse música de outra maneira. Além de intérprete eu componho. Isso abre outra dimensão para a escuta musical. Nessa dimensão, busco aquilo que é raro. Existem conceitos subjetivos como “beleza”, mas “raro” me parece um conceito objetivo à medida em que a percepção de um maior número de pessoas  coincida de que estão diante de um evento raro, desde que a escuta esteja comprometida em garimpar um tratamento musical raro. Em outras palavras, um tratamento musical mais focado na música do que nos cânones mercadológicos.
 
A música pela música
 
A música tornou-se um produto nas prateleiras reais e virtuais da indústria fonográfica. E não há nenhum problema nisso. Há padrões estéticos disponíveis para todos os consumidores. Há mais de um século uma rede se organizou para a mercantilização de músicas: gravadoras, rádios, TVs, empresários de shows e mais recentemente, a disponibilização de produtos musicais na Internet. Percebam que em NENHUM momento me referi à “beleza” ou à qualidade musical. Em NENHUM momento quis julgar este ou aquele produto musical. Se em algum momento da trajetória profissional um intérprete ou um compositor fizer parte da indústria de consumo, continuarei ouvindo esta ou aquela música sob influência de minha formação musical em que a música erudita e a música popular caminharam lado a lado. Minha formação musical está menos ligada à noção de gosto e mais enraizada à noção de respeito e zelo pela música. Em outras palavras, se o músico aparece mais do que a própria música, isso não me chama a atenção. Se a música aparece mais do que o músico, isso me chama a atenção. E neste último caso, no mundo sistematizado da música industrializada para todos os gostos, Virgínia Feu Rosa faz emergir uma música que se adapta às prateleiras da forte e sólida indústria musical e, ao mesmo tempo, se encaixa na curiosidade de quem busca ouvir composições diferentes. Diferentes, especialmente, pelo respeito e zelo a cada compasso de uma música que aparece mais do que a intérprete, mais do que o músico que a executa. Foi assim que aprendi a cultivar: a música pela música, em vez do músico ou intérprete que almeja ser maior que a música.
 
Mensagem artística
 
Tem dias que a gente quer tomar um café diferente, comer um prato diferente, ouvir uma música diferente. Respeito e zelo são os referenciais da artista Virgínia Feu Rosa para escolher os músicos que vão dividir o palco com ela. Quando uma mensagem artística é feita através da música, há ouvintes que apontam seus tímpanos para a afinação de quem canta, outros miram na técnica de cada músico em seu instrumento. Se o show é em um teatro, há quem aponte os olhos para a iluminação e cenário. Nunca se sabe como alguém escuta uma música. Tampouco aquilo que julga ou imagina enquanto ouve. Fato é que Virgínia escolhe músicos comprometidos com a Música – esta entidade histórica – domesticável ou não, industrializável ou não, são músicos que respeitam a força indômita e latente que reside nos porões de cada instrumento: o baixo da diretora musical Carol Setubal, a harpa de Hallisson Nogueira, a guitarra de Kino Lopes, a bateria de Caio Fonseca, a percussão de Keu Aragão, e com muito prazer fiz parte do grupo como pianista no show de lançamento do álbum “Primeiro Impacto”.
 
Ouvindo com lupa
 
Virgínia Feu Rosa: compositora e intérprete – nos ensaios, na passagem de som, no palco, ela embala com sua voz as canções de compositores brasilienses, e canções de sua autoria. Às vezes a gente ouve uma intérprete e não raro fazemos comparações estilísticas com outros intérpretes. Todavia, Virgínia (com uma presença em cena é inegavelmente elegante) parece ter encontrado um caminho próprio para com sua voz e seus gestos manter em primeiro plano a atenção da audiência na música que interpreta. Em outras palavras, não quer nos surpreender por meio de questões técnicas, mas antes pelo tratamento estético e emocional de cada canção.
 
Carol Setubal: baixista – a diretora musical do show soube conduzir com simplicidade os ensaios e a apresentação do show. Seu estilo de tocar faz o baixo soar melodicamente enquanto pavimenta a base das harmonias. Explora as regiões do instrumento de modo a protagonizar solos conscientes para dar à cada nota a mesma importância.
 
Caio Fonseca: baterista – raramente tive oportunidade de tocar com bateristas que transformaram a bateria em um instrumento para dialogar com a intérprete. Não se trata daquela bateria de bumbo e caixa, de ritmo de relógio ou algum tipo de motor. Caio Fonseca faz sua bateria soar para rimar com a voz, rimar com a guitarra, rimar com o piano, rimar com o baixo, rimar com a percussão, rimar com a dinâmica da música, de modo que bumbo, caixa, pratos, transcrevem um poema sem molduras, tal qual os sons que preenchem os espaços e nele se dissipam.
 
Kino Lopes: guitarrista – jazz e minimalismo, liberdade e precisão, som e silêncio, assim soa a guitarra de Kino Lopes, um músico que planeja como vai soar sua guitarra no próximo compasso. Sua performance lhe converte em um comentarista sonoro a dizer melodicamente coisas diferentes para os diferentes ritmos e acordes de uma canção. Sua técnica refinada está por trás do resultado artístico ao fazer com que escalas conhecidas soem como novidades melódicas. O timbre de sua guitarra parece transcrever a sua personalidade musical onde criador e criatura convivem no mesmo compasso.
 
Hallisson Nogueira: harpista – um momento ímpar na cena musical foi proporcionado pela harpa de Hallisson Nogueira que de mãos dadas com a voz de Virgínia Feu Rosa, envolveu os ouvintes com uma textura acústica pluralizada, em que notas e acordes ocupam diversas posições no imaginário.
 
Keu Aragão: percussionista – eu comparo o percussionista a um alquimista que está em seu laboratório misturando fórmulas secretas. E Keu Aragão traz para o palco uma sonoridade das ondas do mar, do vento no quintal, das nuvens que se espalham. A maneira como intervém em momentos específicos faz de sua percussão um instrumento que protagoniza surpresas aos ouvintes. Sua percussão não está vinculada ao ritmo da música, mas sim às possibilidades emocionais que uma música é capaz de transmitir.
 
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Estudar música

O músico durante sua formação tem muitas preocupações para atingir bons resultados técnicos e artísticos: o estudo da teoria, o estudo e a repetição de escalas e exercícios típicos para o seu instrumento, a formação de um repertório, tocar sozinho, tocar em grupo, e encontrar as melhores oportunidades profissionais, dentre outras necessidades com as quais vai lidar durante seu desenvolvimento. Este post eu preparei para aqueles músicos interessados numa metodologia de estudar música.
 
Se fosse possível, eu adoraria saber como Chopin, Bach, Villa-Lobos, Oscar Peterson, Bill Evans estudavam, isto é, como era a rotina de estudos de cada um, o método que usavam para se desenvolver como instrumentista e compositor.
 
Eu vou disponibilizar aqui o meu método de estudo, composto de sete propostas para você testar.
 
1 – Referência afetiva
 
Um músico costuma ser fã de muitos músicos, compositores e instrumentistas. Eu optei por conhecer e estudar o máximo de composições de um mesmo compositor. Vi que seria uma oportunidade de compreender os padrões melódicos, harmônicos e rítmicos no conjunto da obra daquele compositor. Eis os artistas cujas obras estudo sistematicamente: Chick Corea, Chopin, Debussy. Busco manter na minha rotina a manutenção de um repertório com músicas destes três compositores. Esta referência afetiva começou quando ouvi pela primeira vez “La fiesta” (Chick Corea), “Prelúdio Opus 28 n. 4” (Chopin) e “Clair de lune” (Debussy). Foi uma espécie de “amor à primeira vista”.  Assim, passei a estudar outras composições deles.
 
2 – Desafio racional
 
Escolho uma música que eu já toque com desenvoltura. A tarefa consiste em tocá-la noutra tonalidade com a execução perfeita da melodia e dos acordes sem falhas rítmicas, ao final de no máximo trinta minutos. O estudo fica cada vez mais rico à medida que se escolhem novas tonalidades para tocar a música.
 
3 – Reflexo auditivo
 
Pelo menos uma vez por mês vale à pena tocar, ao mesmo tempo em que se escuta, uma música que esteja na moda e são veiculadas nas rádios, na TV, no YouTube. Isso não tem a ver com o gosto musical. Em termos de estudo é uma atividade que tem muito valor para apurar o reflexo auditivo, além de nos preparar para a realidade profissional.
 
4 – Leitura à primeira vista
 
Uma vez por semana escolho uma partitura para treinar a leitura à primeira vista. Geralmente escolho um chôro (Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Waldyr Azevedo, Patápio Silva, Zequinha de Abreu, Dilermando Reis, João Pernambuco). O chôro tem uma “arquitetura” consolidada:
 
-forma A-B-A-C-A
-modulações 
-síncopes
 
Além disso é comum ter semicolcheias que funciona como um estímulo para aprimorar a leitura à primeira vista.
 
5 – Repertório obrigatório 
 
Faz parte do estudo ter embaixo do dedo algumas músicas. Não falo aqui das “músicas de sucesso” do momento, como a bela “Love yourself”, cantada por Justin Bieber. Isso fica resolvido com a prática do item 3 do meu método de estudo. Sobre “repertório obrigatório”, refiro-me às músicas populares do repertório nacional e jazzístico que sobrevivem ao modismo. Por exemplo, é inconcebível um músico profissional não saber tocar o Hino Nacional, Carinhoso, Garota de Ipanema, All the things you are (Hammerstein/Kern), Stella by starlight (Victor Young), A night in Tunisia (Dizzy Gillespie), Spain (Chick Corea), All of me (Jimone/Marks), Cantaloop Island (Herbie Hancock), Satin doll (Duke Ellington), etc. Isto é, aquelas músicas que numa Jam Session todo mundo sabe tocar. O ideal é saber solar a música, além de conhecer a harmonia.
 
6 – Refinamento da técnica
 
Cada instrumento requer dedicação ao estudo e refinamento da técnica. Significa a adoção de livros destinados a exercícios de repetição de escalas, arpejos e composições específicas para a independência das mãos e dos dedos. No meu caso que sou pianista, os exercícios para piano que adotei a partir da orientação do conservatório onde estudei foram os dos seguintes autores: Hanon, Czern, Cramer e Beringer.
 
7 – Modelagens
 
Trata-se do método que desenvolvi para a criação de minhas composições. As composições baseadas em “modelagens” fazem parte de meu próximo álbum chamado “Music and emotion”. Comecei a desenvolver este método de composição por “modelagens” nas horas vagas de estudo. Mais tarde, percebi o valor das modelagens como um tipo de estudo à parte, e testei o método com três alunos tanto para o desenvolvimento de novas harmonias como para o tratamento melódico empregado em novas composições e improvisação.
 
Eu moro em Brasília, e mantenho-me à disposição para trocar ideias sobre como estudar música.
Farlley Derze
info@farlleyderze.com

Encontros e despedidas na Sala Cassia Eller-20nov2016

Sala Cássia Eller, Funarte, 20/nov/2016.

Sandra Dualibe e Antenor Bogéa são artistas reconhecidos pelo talento, pela voz, pela empatia e pelo amor à música. No dia 20 de novembro de 2016 nós três estivemos na Sala Cássia Eller, Funarte, na cidade de Brasília, para mostrar ao público nossas emoções acumuladas em mais de dez anos de viagens pelo Brasil e exterior (Grécia, Chipre, França).

 
Encontros e despedidas
 
A ideia deste show partiu da Sandra que vive um momento muito especial em sua carreira com o lançamento de seu DVD “Celebrizar”. Ela criou o roteiro, deu o nome ao show – Encontros e despedidas – e contratou a ABÈBÈ PRODUÇÕES que organizou o evento de modo brilhante. O cenário foi composto por objetos dos vários países onde cada um residiu ao longo dos anos. O artista plástico Páris Bogéa cedeu uma de suas obras para compor o cenário. Na iluminação contamos com o trabalho de Jamile Tormann, que já iluminou Leila Pinheiro, Cássia Eller, Adriana Calcanhoto, Carlinhos Brown, Ed Motta, Lenine…
 
 
Estar no palco com Sandra Dualibe e Antenor Bogéa é uma experiência fascinante. Já tive a oportunidade de tocar piano na casa de ambos e é impressionante como cantam como se estivessem fazendo um show, ou gravando um disco, pois se entregam à música independentemente do local, do público, da ocasião.
 
Que honra estar ao lado deles !
 
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Malandro-Jorge Aragão-arranjo-e-piano-Farlley Derze

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Malandro (Jorge Aragão)

Arranjo e piano: Farlley Derze. Gravação: 16-07-2016.

Consuelo

Consuelo

Meus queridos amigos do sexo masculino, tem coisas na vida que acontecem apenas uma vez. Vocês sabem do que estou falando: o arrependimento!

Óbvio que arrependimentos ocorrem mais de uma vez. Mas tem aquele que volta e meia espeta a memória de modo que faz a gente sentir uma dor daquelas. E hoje recebi uma dose letal.

Foi assim: eu precisei fazer uma limpa no álbum de fotos do meu celular. Sabem como é né, a gente sai clicando, fotografando tudo e um belo dia a memória do telefone explode. Fui selecionando aquele monte de fotos que a gente sabe que já dá pra deletar…fotos de 2016…fotos de 2015 e, de repente, surge uma foto que fiz quando estava morando em Madri. Primeiro olhei a foto com um sorriso de canto de boca, um sorriso silencioso que logo foi seguido pelo nefasto sentimento do qual falei lá em cima: o arrependimento!

Explico-lhes meus nobres amigos.

Foi assim. Era novembro de 2015 em Madri. Ou seja, era outono, uma estação de belíssimas paisagens. Eu pensei comigo mesmo: “poxa, to aqui morando na Europa…e hoje é um bom dia para andar sem rumo pelas ruas, entrar numa cafeteria, sentar no banco de uma praça, admirar a folhagem no chão, levo um livro comigo e só volto ao anoitecer”.

Antes, porém, naquela manhã preparei o café para minha esposa e meus filhos e fiz um banquete que foi muito elogiado por todos. Daí lhes disse: “ah, hoje to super animado, vou andar pelas ruas de Madri, sem destino”. Meus filhos são adolescentes com diagnóstico de dependência em estágio avançado da internet. Minha esposa leva quase uma hora para despertar de verdade, mesmo após o café, de modo que peguei o livro na estante, contei quantos euros eu levaria no bolso, dei um beijo em todo mundo e fui-me.

Eu estava morando há onze meses em Madri e era meu primeiro outono naquela cidade charmosa.

Abri a porta, desci os três andares pela escada pensando “por onde começo?”. Saí do prédio, na Avenida Reina Victoria, olhei para direita, olhei para esquerda e decidi ir pela esquerda, rumo a Cuatro Caminos e de lá rumo à Calle Fuencarral.

Nenhuma pressa!

Eram 8:50 da manhã.

Vou pular os detalhes da caminhada e avançar a narrativa até o banco numa praça da Calle Fuencarral, onde sentei-me para tomar um sorvete de banana caramelada, nozes e amarena.

Apoiei o livro no banco, olhei aquelas três bolas de sorvete, olhei para o céu com vários galhos secos ao redor, fechei os olhos, inspirei o ar daquela manhã e quando abri os olhos para começar a tomar o sorvete, uma moça estava de pé à minha frente e… sorrindo.

Atrás de seu sorriso veio o som de sua voz:

– Buenos días.
– Buenos días, respondi.

E sorrindo me perguntou:
– ¿Usted podría sacarme una fotografía?
– Por supuesto, respondi.

Coloquei o sorvete ao lado do livro, ela me deu o seu celular para fazer a foto. Foi naquele momento que o destino resolveu interferir, de tal modo que hoje estou aqui contando esta história para vocês, meus amigos que certamente guardam na memória alguma lembrança que ao ser acessada vem como uma lâmina para fazer sangrar a dor do arrependimento.

Pois bem, naquele momento o destino fez o seguinte: na hora que ela se posicionou para a foto, eu mirei o celular nela e disse: “Yo le haré dos fotografías, una de su sonrisa y otra más distante con usted en la calle”.

E aí…

É ! O destino entrou em cena. A bateria do celular dela estava tão baixa que se desligou no exato momento que eu fazia o zoom para capturar o sorriso dela. Eu lhe disse: “lo siento pero su teléfono se ha apagado”.

Ela disse sorrindo que se esquecera de carregar durante a noite. E o destino deu sua prova de amizade por mim, pois meu celular estava com 100% de bateria. Eu tinha o outono daquele dia para fotografar, mas a primeira foto do dia foi o sorriso daquela moça.

Antes, porém, vi seus olhos se espantarem de repente ao olhar para o banco onde eu estava sentado e disse “perdóname, tu helado se pone a derretirse”.

Aquelas três bolas de sorvete começavam a formar uma amálgama. Todavia, eu sorri e ela sorriu, e o destino fez-me outro favor. Ela disse que compraria um sorvete para ela e voltaria.

Eu a acompanhei e a fotografei dentro da sorveteria. Ela adorou e me perguntou: ¿”tu podrías enviármela por email”?

Anotei o email dela e saí para esperá-la.

Eu a vi na fila, abri o celular, olhei a foto e pensei “isso não está acontecendo” !!!

Ela voltou com uma bola de “dulce de leche”. Sorridente, estendeu-me a mão dizendo “encantada, me llamo Consuelo”.

Eu disse meu nome e ela certamente percebeu meu sotaque, pois me perguntou se eu era das Ilhas Canárias. Respondi que era brasileiro e ela citou imediatamente Paulo Coelho, Gisele Bündchen, Neymar e Tom Jobim. Ela me contou que era de Málaga e estava passando três dias em Madri, depois iria conhecer El Escorial onde estão os túmulos de todos os reis da Espanha, desde a renascença. Eu disse que já havia visitado o local e achei belíssimo.

Sentamo-nos no banco da praça e depois de algumas colheradas de sorvete, ela percebeu o livro que eu trazia comigo e perguntou que história era. Eu contei que era uma história triste de um casal que vai para a maternidade para ganhar o primeiro filho, e a criança nasceu morta. Ela tirou um bloquinho da bolsa e anotou o nome do livro: “El nadador en el mar secreto (William Kotzwinkle)”.

Agora vem a parte do arrependimento.

Quando o sorvete acabou ela me disse que iria para El Escorial no dia seguinte e perguntou-me se eu gostaria de acompanhá-la numa viagem de trem. Eu olhei sutilmente de canto de olho pra aliança em meu dedo, pensei imediatamente na dificuldade de dizer à minha esposa que passaria o dia seguinte fora novamente, coisa que ela estranharia porque não é do meu feitio, daí cogitei contar-lhe tudo isso que estou contando pra vocês meus amigos, e óbvio que a resposta dela seria um sonoro NÃO, e a moça perguntou “¿tú vienes mañana conmigo?”… respondi sem querer de supetão: NÃO. Bem-dizer ouvindo a voz da minha esposa. E amenizei a resposta dizendo que tinha uma reunião na universidade e blá blá blá, sabe quando você diz coisas sem vontade dizer…hein meus amigos?!!

To quase acabando a história.

Aí ela diz “qué lástima, pues tú podrías ayudarme a sacar muchas fotos”.

Ela se levantou e disse que aguardaria o email com a foto que fiz dela. Eu a vi cruzar a rua com uma mão apoiada sobre o chapéu em sua cabeça, as folhas do outono caindo sobre ela e se foi…perdi de vista. Olhei pra minha aliança, olhei pro copo vazio do sorvete, olhei de novo pro outro lado da rua…mas ela já havia se misturado aos demais pedestres. Amassei sem perceber o copo de papelão e falei em voz alta “calma, levanta, bota esse copo na lixeira bem ali e vai atrás dela”.

E fui!

Ao chegar à primeira esquina veio aquele golpe fatal do destino quando não perdoa uma resposta negativa para algo bom. Na esquina me deparei com o metrô da estação Quevedo, gente subindo as escadas, gente descendo, gente que estava andando na calçada…eu pensei “e agora…ou ela desceu para pegar o metrô, ou seguiu pela rua”.

Fiquei ali paralisado como se o destino me dissesse “eu fiz a minha parte e você não fez a sua”.

Cheguei em casa de noitinha, tendo passado o resto do dia sentado no mesmo banco onde aquela moça surgiu parada à minha frente. Fiquei ali com aquela esperança tola dos homens de que ela pudesse passar de novo, e minha resposta seria “sim, Consuelo, posso acompanhar-lhe até El Escorial”.

Eu já tinha a desculpa per-fei-ta para passar o dia fora.

Enfim, meus amigos. Nada feito!

Daí, enviei o email pra ela, anexei a foto com o seguinte texto:

– Hola, Consuelo. Muy encantado conocerte y cuando vuelvas de El Escorial, llámame y tomamos otro helado juntos”.

Recebi sua resposta duas semanas depois, dizendo que estava em Granada, gostou muito da fotografia e me agradeceu mas não disse “hasta la vista” e terminou simplesmente com “muchas gracias” e ponto final.

Hoje, aqui na Flórida onde estou passando uma temporada e, como disse no início da história, eu estava fazendo uma limpa nas fotos para aliviar a memória cheia de meu celular, eu me deparei com a foto dela. Eu fiquei olhando um bocado, titubeante nos pensamentos que sobrevoavam avulsos como pássaros que disputam um lugar no ninho da memória de algo que podia ter acontecido no vagão de um trem, um vinho sobre a mesa, a paisagem do outono lá fora, o sorriso dela lá dentro e eu reluzente com aquele presente do destino.

Salvei a foto dela no meu computador, numa subpasta de outra pasta onde salvo minhas partituras.

Óbvio que já enviei outros emails pra ela e mais óbvio ainda que jamais me respondeu.

Meus amigos, se algum dia um de vocês for passear na Espanha, for conhecer Málaga e encontrar a Consuelo por acaso, diga a ela que seu amigo aqui se arrependeu. E diga que guardo a foto dela junto com minhas partituras. Diga que o sorriso dela é a música que jamais esqueci.

Dominique

Dominique

Meus amigos, alguém me ajude.

Aliás, antes de mais nada, estou me dirigindo aos amigos homens, então…as mulheres nem precisam ler o que vou relatar aqui.

Amigos homens, help !

Na manhã de hoje eu estava numa boa, plena terça-feira, onze da manhã, dirigindo e cantando uma super música que tocava no rádio do carro. O sinal fechou e meus amigos, era preferível que fechasse depois de eu passar. Ou não.

Meus amigos, eu parei certinho antes da faixa de pedestres e estava cantando o refrão da música “killing me softly” e PÔW !!!!

Calma. Não foi nenhum caminhão me alborroando pela traseira, mas uma mulher que cruzava a faixa de pedestres. Adeus refrão da música. Meu carro – PÔW – virou uma bolha de silêncio. Meus olhos…ah….meus olhos, há quanto tempo não via nada igual. Era uma mulher andando e digitando no celular sem nenhuma pressa, vinha lá do outro lado da rua e passaria bem ali, defronte meus olhos, raspando no capô do carro e assim foi, chegou, passou e até fez uma pausa antes de subir na calçada, para não tropeçar no meio-fio. E ao subir a calçada ficou ali, digitando, eu olhei o semáforo com as mãozinhas postas dizendo com a boca fechada “não abre agora, não abre agora”, mas puta que pariu de sinal, abriu e ela ali digitando no celular, e eu com a marcha preguiçosa saindo sem vontade de sair, mas tive que sair e vi pela janela do carona a moça, depois conferi pelo retrovisor e ela ali no mesmo lugar e pronto: fui forçado (amigos: juro, vocês hão de entender, fui compelido entendem?) a dobrar a primeira rua à direita e me deparei com a sorte de uma em um milhão de chances, a de um carro saindo de uma vaga ao longo do meio-fio, liguei a seta como quem tem o direito urgente de parar ali e oba: estacionei. Ela tinha que estar ainda naquela calçada defronte ao semáforo! Tinha que estar!!! Daí, claro né, ninguém pensa que numa metrópole é só chegar, estacionar na rua e tudo bem. Não mesmo. Tem que pagar, tem que comprar o ticket para não dar moleza pro reboque ou aquelas multas pesadas.

Adivinhem!!!

Isso mesmo meus amigos. Corri até a esquina e conferi: ela estava ali, de pé, digitando. Então, corri de volta em direção ao meu carro igual barata tonta, olhei ao redor e não via onde comprar o ticket, entrei numa cafeteria e pedi essa informação e obviamente eu estava cego. A cinco metros estava o aparato pra comprar o ticket e deixá-lo exposto, no interior do veículo, acima do painel. Pensem comigo, meus amigos homens da gloriosa mentalidade masculina: vocês comprariam um ticket de quinze minutos ou sessenta minutos?

Abri o carro, deixei lá o papelzinho e corri em direção à moça…à mulher…à deusa que só aparece de mil em mil anos. Foi só eu dobrar a esquina e a vi, finalmente, tirando os olhos do celular e caminhando em direção ao fundo da avenida. Fui atrás, puxei meu iphone do bolso, acionei o timer e marquei lá cinquenta minutos, afinal em dez minutos (de onde quer que eu estivesse) eu poderia estar de volta ao meu carro.

Agora vamos lá: quem de vocês meus amigos (e sinceros amigos) nunca na vida, na adolescência, na idade adulta, no shopping, no coração, na agonia, nunca seguiu uma mulher sem ela saber? Vocês sabem do que estou falando né?! Muito bem, agora vamos às perguntas de vocês:

– “era loira”?
– sim, meu amigo!
– “vestido curto ou calça comprida”?
– um shortinho jeans com aqueles fiapos soltinhos.
– “qual era o tamanho do short”?
– eu disse shortinho! …inho, inho, inho.
– “camiseta branca, aposto”!!!
– na mosca.
– “camiseta sem manga e frouxa”!
– acertou.
– “camiseta recortada mostrando a barriguinhha”.
– e que barriga, que umbigo lindo meus amigos.
– “mas…tava cortada até que altura essa camiseta”?
– logo abaixo dos seios.
– “com ou sem sutiã”?
– imagine e vai acertar !!!
– “óculos escuros, aposto”!
– com certeza, meu amigo.

Então meus nobres, sabe aquela mulher deliciosamente solta, deliciosamente liberta? Pois é!

Deixa eu contar !!! Olha só…eu estava numa boa, cantando dentro do carro e me deparo com aquela coisa que parecia que tinha levantado da cama às dez da matina, sem compromisso e só ajeitou os cabelos com os dedos avulsos, deixou a camisola largada na cama, lavou o rosto com água fria, escovou os dentes e saiu do banheiro sem se olhar no espelho (mas benza-deus, nem precisa se olhar no espelho viu), deve ter aberto o guarda-roupa e tirou de lá o que estava mais perto, shortinho, camiseta e uma sandália que deve acompanhar seus passos desde a adolescência e saiu assim, bagunçadinha com o celular na mão, e agora eu estava ali calculando os metros atrás dela. De repente ela parou, olhou ao redor e entrou numa lanchonete. Tá, vou dizer o nome: era um McDonalds. Que maravilha, pensei. Posso entrar sem levantar suspeitas.

Caramba: eu ali na fila, atrás dela. Aaah, meus amigos, ela fez um gesto de jogar os cabelos com uma das mãos que fez evaporar um aroma guardado atrás do pescoço, aquele cheiro gos-to-so de hidratante que espetou meu peito e fez minha taquicardia subir mais dez pontos. Senti a pressão na jugular. Chegou a vez dela fazer o pedido e sorte de vocês que não estavam lá, porque vou levar o som daquela voz para o meu túmulo. Honestamente, é impossível descrever a música daquela voz.

Na minha vez pedi o mesmo: McFish e suco de laranja. Só ali pensei na idade dela.

Óbvio. Lógico. Claro que me sentei bem pertinho numa mesa vizinha, e naquele momento cheguei a cogitar que ela sabia. Ela devia ter certeza que eu a seguira. Mas em nenhum momento me olhou, como desde o semáforo não olhou pra ninguém.

Eu acho que ela acordou tarde e agora estava ali tomando seu café da manhã.

Dei uma olhada geral e claro, né: vários homens olhando pra ela disfarçadamente com olhos de crocodilo e o canudo na boca. Eu era o mais próximo daquele aroma pecaminoso, daquela penugem que recobria o par de coxas mais escandalosamente lindo que um homem deseja ver na face da terra, aqueles cabelos que foram penteados com os dedos, aquela camiseta sem manga e vejam meus amigos o tamanho de minha sorte: ela estava sentada de perfil, a uma distância que dava para ouvir a mordida dela no pão macio, e nenhum de vocês me perguntou mas digo agora: numa das mordidas a camiseta frouxa se desgrudou e pude ver que era rosinha e meu ângulo privilegiado deixou ver a tatuagem de uma borboleta voando na direção do néctar.

Meus amigos: estou de peito aberto relatando o que me ocorreu nesta manhã de 1° de março de 2016, e retirem já qualquer interpretação pornográfica. Calma lá! Vejam a coisa toda do jeito que merece ser vista: poeticamente, please!

Daí, meus amigos, a bateria do celular dela acabou porque ela estava digitando e de repente reagiu como qualquer um de nós quando isso acontece. Um olhar de frustração. Só que…ela olhou ao redor e viu numa mesa lá do canto um magrelo barbudo com o celular sobre a mesa e o carregador na tomada. Adivinhem!!!!

Pois é. Ela se levantou e foi até o sujeito e “nossa senhora”, “benza-deus”, “putaquilpariu”, que visual!!!

Óbvio que o cara emprestou o carregador. Ela plugou o celular dela e deixou ali mesmo na mesa do sujeito e voltou à mesa dela. Todos os homens pareciam estátuas naquele momento.

Eu prometo a partir de hoje andar com meu carregador do iphone no bolso.

Ela terminou o lanche e eu sequer tinha mordido meu sanduíche e o canudo do suco ainda lacrado sobre a mesa. Daí ela se levantou e foi pra fila outra vez. Todos sem exceção, inclusive as mulheres, olharam pra ela e o silêncio de cada um valia mais que mil elogios.

Ela voltou com um sundae de morango. Nunca vi um sundae tão caprichado. Mas desta vez ela foi se sentar na mesa perto do celular e claro que veio aquela angústia (que todos vocês caros amigos sabem qual é) de o sujeito puxar assunto, e tal… e se ela corresponder e se no meio do papo soltar aquela gargalhada bacana, já viu né: c’est fini !!!!

Vocês estão calculando o tempo? Pois é! O timer do meu celular tocou e agora eu tinha dez minutos para abandonar um lanche intacto e voltar para o estacionamento.

O que vocês fariam, meus amigos?

Lembrem-se…o aroma que o pescoço dela exalava, a camiseta frouxa, a tatuagem bem ali, a penugem naquela pele de pêssego e ok, hora do xeque-mate: ela tirou os óculos escuros para comer o sundae e os pousou sobre a mesa em qualquer posição, deu uma olhada lá pra fora, a luz do dia enchia o salão e quando ela virou o pescoço eu naufraguei naqueles olhos azuis, de modo que…meus amigos, honestamente, eu senti pena de mim. Vocês sabem do que estou falando. A gente cresce ao longo da adolescência e adentra na fase adulta fazendo centenas de combinações para idealizar a mulher com a qual sonhamos nos casar. A gente mede tudo, o tamanho disso, o tamanho daquilo, o formato da boca, a cor dos olhos e dormimos muitas noites fazendo ajustes, porque ora a gente quer se casar com uma ruiva ora com uma morena, ora com uma de cabelo curto ora com outra do cabelão, enfim vocês sabem do que estou falando…nossa mais antiga penitência: sonhar com a mulher ideal.

Daí eu fiz o timer do celular se calar antes de disparar o alarme e pensei: “e se eu deixar vencer o ticket do estacionamento”?

Meus amigos, será que logo naquele dia eu seria injustiçado com uma multa grudada no meu pára-brisas? O que você faria, hein?

Pois é, foi o que eu fiz.

Outra coisa: tirei a aliança do dedo.

Daí ela terminou o sundae dela e apesar de meia-dúzia de palavras trocadas com o sujeito que lhe emprestou o carregador, nenhum sorriso foi trocado, ok, ufa, graças a Deus. Ela se levantou, pegou o celular e quando disse “muito obrigada” indo em direção à saída, o sujeito virou discretamente o pescoço e só ali deu pra ver que era um japonês, ou seja, que sorte hein. Se fosse um carioca, um baiano, um espanhol, um libanês…já sabe né…

Ela saiu.

Fui atrás e ela digitava…parou para cruzar a rua transversal, fui atrás…e ela entrou numa loja dessas que vende brincos, pulseiras…daí complicou né. O que um cara como eu ía fazer lá dentro? Se você entra sozinho numa loja dessas vai sempre parecer um cara comprometido em busca de um presente para a esposa, a namorada. Olha, eu até entraria (puta merda, eu sei que vocês me entendem) porque sou casado e compraria com todo meu amor (isso vocês entendem também) um brinco para minha esposa, ou um colar. Mas a prudência me exigiu que eu ficasse do lado de fora.

Então, fingi que estava digitando no meu celular de costas para a loja. Acionei a câmera e coloquei no modo self, e assim podia ver como no retrovisor o momento que ela se preparasse para sair da loja. Fiquei ali com um olho no padre e outro na missa. E aí aconteceu um milagre. Uma voz atrás de mim: – oi, minha bateria acabou, você deixa eu dar um telefonema?

Quando me virei: BUM !!! Aqueles olhos azuis reluzentes, aquela boca rosada, e meus olhos escorregaram pela camiseta dela e duas setas pontiagudas apontavam pra mim e aquela voz complementa seu pedido, sua ordem, sua lei gravitacional: – é uma ligação rápida, deixa?

Eu entreguei o celular e descobri que hipnose existe !!!

Aí ela falou: – tá bloqueado!

Eu entendi outra coisa e fechando a boca, estalei os olhos e disse: “ãnhnn”?
– tá bloqueado, tá pedindo a senha.

E eu disse: 1963.

Ela digitou a senha e abriu um sorriso tão angelical, tão iluminado…e sorrindo me disse “você me deu sua senha”!

E enquanto teclava um número de telefone eu pensava que além da senha eu lhe daria meu abraço, meu beijo, minhas promessas, outro abraço, outro beijo agora malvado, meu corpo, minhas armas, minha vida de novo…

Ela tirou o cabelo pro lado e colocou no ouvido o celular (o meu celular)…viva a Apple, viva a conexão 4G, viva o semáforo vermelho!!

– Oi, sou eu. Você pode me levar no clube de xadrez hoje à tarde e na loja de pianos amanhã de manhã?

Meus amigos, HELP!

Não sei vocês, mas eu jogo xadrez, eu toco piano e…ok, sou casado. Mas, sabemos o que está acontecendo certo? Todos unidos, ok…vamos ouvir o resto da conversa.

– Sério? Você volta quando?

Ôpa, ôpa, meus amigos!

– Então aproveita bem a viagem, eu vou de ônibus mesmo e vai lá em casa quando voltar, beijo Kakáu.

E me devolveu o celular ao mesmo tempo que recolocava os óculos escuros, dizendo “muito, muito obrigada”.

Eu nem estendi a mão para pegar o celular. E fiz o que o destino implorou para eu fazer. Eu disse com a calma dos monges tibetanos:

– Você joga xadrez e precisa de carona? Seu namorado (pô meus amigos Kakáu podia ser Carla ou Carlos, eu tinha que tirar essa dúvida) não pode lhe levar? Eu amo jogar xadrez. Será um prazer lhe levar.

Então né!!!! Quantas vezes uma situação dessas exige a nossa mais fingida calma? Pois eu fui. A gente carrega nossas granadas, nossa mira telescópica, nossa bússola e agora eu tava do outro lado do arame farpado.

– Não…eu não tenho namorado. Kakáu é minha irmã.

Eu emendei dizendo que o sol estava quente, e a gente em pé ali na rua…perguntei onde ela morava, ela apontou com o dedo para um prédio todo branco, na direção da bendita faixa de pedestres.

– Mas a gente nem se conhece e você me oferece carona até o clube de xadrez?

E respondi pausadamente:

– E uma carona amanhã para a loja de piano.

Meus amigos, eu juro…juro de pés juntinhos…ela soltou uma gargalhada tão gostosa, daquelas que a gente espera anos pra ouvir e obviamente eu correspondi. Eu já tinha saído do piloto automático e estava no câmbio manual. Cada reação tinha uma medida arquitetônica, milimétrica, exata. O alvo caminhou em direção à flecha!

Enquanto caminhávamos de volta em direção à casa dela, contou-me que se formou em piano, tem doutorado em astronomia, é campeã internacional de xadrez com um rating de 2300, mora em Quebec, no Canadá e tirou uma licença da universidade onde leciona a física da trajetória dos asteróides, para participar de um torneio de xadrez aqui na Flórida, onde estou passando uma temporada. Perguntei sobre o motivo de ir a uma loja de pianos e me disse que comprou pela internet um modelo de piano de meia-cauda e precisava acertar os detalhes do pagamento do transporte até o Canadá.

Chegamos à faixa de pedestres onde tudo começou, ela apontou pro outro lado da rua e disse: – eu moro ali, terceiro andar, apartamento 35…é do meu pai…ele deixa a chave comigo desde que foi morar em Paris. Você jura que pode vir me buscar mais tarde? Às cinco?

Eu dei aquela olhada pra ela com os olhos por baixo das sobrancelhas, ali com o som dos automóveis ao redor, como se ela não soubesse como funciona um homem determinado.

Abri a boca e com uma voz falsamente calma disse sim, o semáforo ficou verde para os pedestres, ela se foi e eu devo ter ficado ali mais uns vinte minutos depois dela entrar no prédio. Eu sei, meus amigos, vocês também ficariam.

Dobrei a esquina e antes de entrar no carro estava ali, grudada no meu pára-brisas uma linda multa de U$485 dólares por manter o carro ocupando vaga de estacionamento com o ticket vencido.

Meus amigos, HELP!

Minha conta bancária é conjunta com minha esposa. Não tem mágica. Vão sumir U$485 dólares da conta e, vocês sabem: ela vai perguntar como um cara como eu que usa o timer até pra cozinhar ovos, timer pra ser avisado do início do UFC aos sábados, sempre sempre sempre uso o timer quando estaciono e nunca deixo vencer o horário, e dessa vez o horário venceu ! Já estão imaginando a sequência de perguntas né, e os intermináveis contra-argumentos né…

Amigos, vocês fariam uma vaquinha de U$485 dólares? To colocando esse assunto aqui no grupo do WhatsApp e quem se dispuser a me tirar dessa enrascada, eu envio meus dados bancários pelo inbox.

Eu já escondi a multa, já levei a Dominique ao clube de xadrez, trouxe-a de volta ao apartamento dela e estamos aqui ouvindo “killing me softly” no YouTube.

Prometo contar o resto da história no inbox de cada um que me ajudar.

Meus amigos, HELP !