A imperatriz

 

Farlley Derze,  2005


Hoje acordei de várias maneiras.

Na primeira vez ainda não havia luz lá fora. Só o silêncio e alguma incerteza.

Na segunda vez foi o som da chuva e os rascunhos de luz vazando pela cortina.

Na última vez o som da chuva era ainda mais forte. Fechei os olhos que olhavam para o teto e correntezas de lembranças começaram a me levar.

Passadas em alta velocidade, sob minhas retinas, tantas variedades de imagens, cores e sensações, indo e vindo na velocidade da chuva, de repente, tudo some exceto uma imagem. Puxo o lençol um pouquinho para me recobrir, e fico inerte entre as paredes e os sons das águas, quieto como o mármore, para resguardar aquela imagem que se fixou, vinda do fundo das outras.

Abaixo de minhas pálpebras, presa em minha respiração morna e lenta, eis o rosto dela.

Silêncio.

Uma imperatriz.

Gotejam os pingos em minha janela, ouço os sons e uma sinfonia inicia o seu tráfego, os seus     acordes, notas transcrevendo um mapa de mistérios.

O rosto dela permanece, preenchendo toda a tela de minha visão.

Minhas pálpebras resguardam a bela imagem, como uma porcelana.

Rosto de pele branca, suavidade encoberta como um pêssego.

Sob os olhos emergem um promontório de sinais discretos que recobrem e transpassam o nariz, de     um    lado a outro, como uma discreta ferrugem.

Atrás de seu olhar repousam cabelos… tantos… quietos.

Composição feita de cor, sinais e olhar, suavidade e mistério.

Antes fosse apenas beleza com a qual se afeiçoam os homens.

Antes fosse apenas vontade de dizer e ouvir.

Antes fosse um truque com palavras e gestos.

Antes fosse uma sinfonia que começa e acaba, uma chuva que nos acorda e depois seca, uma luz que escapa, um dia que torna um homem feliz.

Antes fosse, tantas coisas possíveis.

Mas a poesia prefere o impossível, a prece, o intocável, o vivo.

Ontem ouvi a voz desta imperatriz.

Não lembro bem suas palavras, porque me dizia mais o próprio som.

Debaixo dos lençóis e das pálpebras, seu rosto e sua voz. Lá no fundo, a minha sinfonia predileta, minha          respiração esquenta, acelera, o peito sobe e desce, minha pele se fragiliza como o tecido de uma bandeira presa ao vento.

Meu ritmo sai do compasso da música.

O rosto dela cresce em minhas retinas, cresce e se agiganta.

Aperto os lençóis, mordo os lábios, escuto o som da voz, meu coração interfere com seu ruído veloz, o ar desorganiza-se em minhas narinas, a bandeira e a ventania, seus olhos estão mais perto dos meus,

a fina ferrugem, o hálito juvenil, sou tragado e águas lá fora carregam folhas e outras incertezas.

Abro os olhos e … Silêncio entre mim e o teto, entre o quarto e a chuva que se foi há tempo.

Lá fora as folhas rolam entre o seco e o molhado.

Dentro de mim novas incertezas, e uma voz morna e escondida.

PRÁTICA ARTÍSTICA

Farlley Derze, Thiais, France, 2012.

Farlley Derze, Thiais, France, 2012.

1985    Foi Diretor Cultural da Sociedade de Alunos da Escola de Especialistas de Aeronáutica (Guaratinguetá, SP).

1986    Pianista da Academia de Ballet Valéria Moreira, no Centro de Dança (Rio de Janeiro).

1986    Tecladista da banda de baile OS DELTAS.

1986    Gravou uma faixa no disco “Tributo a Ary Barroso”, a convite da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro).

1987    Tocou na solenidade de inauguração do Espaço Cultural Sérgio Porto – RJ, presidida por Darcy Ribeiro.

1987    Tecladista da banda de baile PIQUE TOTAL.

1988    Tecladista da banda TURBA MULTA, de música instrumental autoral, com Samuel Lima (sax), Juninho (Bateria), Ramatis Moraes (Baixo).

1988    Tecladista da banda da cantora Claudinha Telles.

1988    Montou com o ator Guilherme Bozzeti o musical “DOIDO PELO PIANO”, viajando pelo Brasil durante quatro anos.

1989    Tecladista, arranjador e diretor musical do cantor Elymar Santos, até 1995.

1991    Compôs a trilha de abertura do Show ÓPERA ROCK, no CANECÃO, do guitarrista Robertinho de Recife.

1992    Esteve no JÔ SOARES ONZE E MEIA, com o grupo METABOLAR, do qual era integrante juntamente com Luiz Alberto de Filippo e Dom Fla, em entrevista que culminou com apresentação da música CAÇADA de sua autoria.

1995    Tecladista do grupo de samba RAZÃO BRASILEIRA, até 1997.

1998    Integrou, como pianista, o elenco do Musical DESGRAÇAS DE UMA CRIANÇA, de Martins Pena, dirigida por Wolf Maia e encenada por Cláudia Ohana, Eduardo Dusek, Hélio Ary, Marcelo Antony e Malú Vale.

1998    Pianista da Rio Jazz Orchestra, até 1999 (Rio de Janeiro).

1999    Tecladista da banda de Cláudio Lins, e Orquestra ARTFOLIA (Rio de Janeiro).

2000    Diretor musical e compositor da trilha do espetáculo O MUNDO NOVO DO TOPETÃO, produzido por Xuxa Meneguel, com direção geral de Eduardo Martini.

2000    Foi pianista suplente do musical DOLORES, a história de Dolores Duran, com direção musical de Tim Rescala.

2000-2002       Gravou três CDs: “Gênese” (2000), “Naquelas Noites de Natal” (2001) e “Acalanto” (2002).

2001-2002       Pianista da Brasília Popular Orquestra (Brasília).

2002    Ganhou o 1º lugar no Festival de Música do Gama, com sua música MEMÓRIAS, tocada ao piano com letra de José Roberto Gabriel e interpretação vocal de Janette Dornellas.

2002    Tecladista da Toccata Produções Artísticas, até 2014 (Brasília).

2004    Pianista brasileiro no 1o Festival Internacional de Jazz de Cabo Verde (África).

2004    Participou do lançamento em Cannes, Paris e Marselha, do livro “MÚSICA POPULAR BRASILEIRA”, editado pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil, acompanhando nos eventos a cantora Simone Guimarães.

2004    Participou do Festival de Jazz à Vienne, França. Turnê em Marselha e Paris.

2005    Pianista, representante brasileiro no Ano do Brasil na França (Paris).

2005    Compôs a Trilha Sonora para os documentários sobre o Timor Leste (de Ivan Canabrava) e a vida de Santos Dumont (de Pedro Jorge), e dos filmes “Jorge Buche” (de Cristiano Vieira) e “A Vingança da Bibliotecária”, (de Santiago Delape), este último, um curta concorrente no Festival de Cinema de Brasília que ocorreu entre 22 e 25 de novembro de 2005.

2006-2012       Pianista do Programa de Radio “Um piano ao cair da tarde”,FM 89,9 Mz (Brasília).

2010    Organizador de uma banda com músicos do Uruguai, México, Cuba e Grécia para levar a música brasileira à Ilha de Creta (Grécia).

2012    Participação como pianista no 4º Festival de Bossa-Nova, em Orly, (França).

2015    Participação como convidado do Trio LSP na primeira edição do Rendez-vouz Jazzonotes, em Thiais, França, 21 Mars 2015 .

2015    Concerto Paisagens da Música Brasileira, em Munique, Alemanha, 19 Jun 2015. Convidada especial: a cantora e compositora brasileira Maria Rita Stumpf.

Entre 1988 e 2015 teve a honra de como pianista e tecladista participar de shows e gravações de CD com os seguintes artistas: Jorge Benjor, Eduardo Dusek, Cláudio Lins, Lucinha Lins, Antenor Bogéa (Rio de Janeiro, Brasília, São Luís, Salvador, Mar Chipre, França, Grécia, Cabo Verde), Sandra Dualibe, Janette Dornellas, Jorge Aragão, Robertinho de Recife, Zeca do Trombone, Dudu Nobre, Cláudia Telles, Golden Boys, Danilo Caymmi, Elza Soares, Luís Alberto de Filippo, Dom Fla, Juliano Torres (argentino no RJ), Sandra Bonilla (chilena no RJ), Debbie Wicks (estadunidense no RJ), Elymar Santos (turnê nacional), Claudete Ferraz, Lívia Diniz, Razão Brasileira (turnê nacional, Paraguai, Japão), Samuel Lima, Murilo Brito, Cristine Soares, Coral Arcanjos da Força Aérea, Canuto, Zila Siquet, Demétrio Bogéa, Jean-Phillipe Crespin (França, Grécia), Sylvan Sourdeix (França), Ramatis Moraes, Robson Rodrigues, Cadu (República do Chipre), Simone Guimarães (Cannes, Paris, Marselha), Maitê Tchu, Jards Macalé, Nando Gabrielli, Vanessa Barum, Falcão, Mièle, Maria Rita Stumpf (Rio de Janeiro, Curitiba, Alemanha).