Farlley Derze. Brasília, DF, 16 de novembro de 2011

Danca dos ventos

A saudade faz duas coisas com a gente: faz a gente olhar pela janela e permanecer ali por algum tempo, inerte, a desfolhar as páginas de um momento que agora percebemos como foi bom ter vivido, e então a segunda coisa é aquela palpitação dentro do peito, às vezes os olhos mareados, o ritmo diferente da respiração, como me ocorre agora ao ouvir dentro da mente a música “Dança dos ventos”. Eu acordei às 4h da manhã com uma pequena e indesejável crise alérgica, espirros, tosse, fui até a cozinha tomei um antialérgico e descongestionante, enfiei duas pastilhas efervescentes de vitamina C num copo d’água. Tomei essa bebida com duas torradas de pão de milho que pus para tostar enquanto exercitava a respiração para um melhor fluxo de ar. Deitei-me para tentar dormir, mas nada feito porque descobri nos primeiros 5 minutos que não conseguiria dormir de novo, então me levantei e liguei o computador para finalizar um texto sobre a música “O concerto dos sapos” que comecei dois dias atrás. No penúltimo parágrafo da primeira página onde cito alguns compositores e suas músicas, isto é, enquanto eu relia o que havia escrito, foi nesse ponto da leitura onde cito músicas como “Sinfonia nº 101 – o relógio”, “As quatro estações”, “Clair de lune” e “Trenzinho do caipira”, e a lista seria enorme para casos idênticos de compositores que buscaram descrever objetos, cenas, pessoas, animais, por meio de um ou mais instrumentos… foi nesse ponto da leitura que desejei inserir a música “Dança dos ventos”, e nesse momento a melodia dessa música invadiu a minha mente na forma que a ouvi pela primeira vez, e não na forma que hoje ouço quando a toco no piano. Então, enquanto a ouvia com o solo do violino acompanhado pelo baixo elétrico, a guitarra elétrica e a bateria, meus olhos já estavam para além da janela de onde eu estava sentado, às 4h30 da manhã, grudados na cena do passado que vivi. Saudade e vontade de rever o Simô (o autor da música, vocalista, guitarrista, violonista), Zeca Armesino (baixista), Mário (baterista, que se formou em odontologia) e André Araújo (violinista). Vou narrar a saudade que inundou minha mente ao som da “Dança dos ventos”. Era 1986. Eu tinha sido aprovado no vestibular para o Curso de Licenciatura Plena em Educação Artística, na UNIRIO. Antes das aulas começarem, resolvi ir na Universidade para conhecer os espaços, os prédios…e até o bairro, Urca, onde desembarcou Estácio de Sá para fundar a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em 1º de março de 1565. Eu fui criado em Guadalupe, subúrbio da zona norte, a 40km da Urca. Conclusão: 80km ida e volta todos os dias. Ao adentrar no espaço da universidade não encontrei ninguém desde a entrada do portão, o corredor que nos conduz por uma praça atrás da qual se encontram os prédios e suas salas de aula. Da praça vazia ouvi uma música que vinha lá do fundo de um dos prédios. Apressei o passo: havia gente ali, em pleno período de férias. Ao chegar na janela, pelo lado de fora vi os quatro rapazes, em idade próxima à minha, 20 anos, que tocavam como magnetizados pela música, mas hoje sei que magnetizado estava eu. Que música! …”Dança dos ventos”. Na época, por causa de minha timidez não tive coragem de me aproximar deles, aliás, fiquei escondido sem aparecer na janela, dava uma espiada ou outra quando aumentava a coragem, eu realmente achava que podia levar uma bronca. Isso tinha a ver com a criação que tive em casa. Entretanto, com o decorrer das aulas onde estudei com eles na mesma sala, fiz amizade com os integrantes daquele quarteto que se chamava “Solar”, uma banda de universitários que fazia apresentações na zona sul, e tinha um “compacto simples” gravado, que era um disco de vinil onde cabiam duas músicas de cada lado. Apenas o baterista, o Mário, não era estudante de música na UNIRIO, mas de odontologia noutra faculdade. Em dois anos eu já fazia parte do grupo que deixou de se chamar “Solar” e passou a se chamar “Aura vital”. Não me lembro quem mudou o nome tão pouco o motivo, mas com o novo nome veio também a voz feminina da Cacala (Maria Clara), além da minha entrada como tecladista. Fizemos juntos muitas apresentações nos espaços da zona sul da cidade, guardo até hoje os recortes de jornal com nossa foto, inclusive. Neste exato instante, enquanto a música trafega em minha mente estou na página do google, no link imagens onde digitei a palavra UNIRIO. Agora, enquanto ouço a música que navega junto com os meus olhos por essa janela a mergulhar na madrugada, vejo no site várias fotos da universidade, o portão envelhecido e suas grades de metal, me vejo ali outra vez sem a barba grisalha, sem os óculos de grau, sem as rugas das mãos, sem asma e sem saudade. Hoje a “Dança dos ventos” me carregou pela maquina do tempo que é a música até 1986, me fez cruzar a praça vazia em direção à janela onde estavam aqueles quatro rapazes de quem me tornei amigo tempos depois, estou ali agora, escondido a espiar pela janela os gestos iluminados do André a correr seus dedos pelo violino, os olhos fechados do baixista Zeca Armesino, o sorriso quieto feito um rio silencioso do guitarrista Simô, autor da música, a sutileza do Mário na bateria na qual flutuam suas mãos, e meus olhos que deviam brilhar mais que a luz do poste da madrugada lá fora, meus ouvidos não acreditavam na dignidade daquele momento honesto de infância eterna que eu vivia, e sem a qual não seria possível nem esse texto, nem essa saudade.