De repente você acorda e vê que o despertador está sem ponteiros, os números que marcam as horas foram trocados de lugar, você se esqueceu de fechar a janela e foi um temporal que acordou você. Você corre e fecha a janela, sente a água gelada grudando embaixo dos pés, caminha devagar até o banheiro e sente vontade de dizer um palavrão. Enquanto se olha no espelho com os cabelos bagunçados, escuta o despertador e acorda de verdade. Deitado na cama, estica o braço e trava o relógio, vê a janela fechada e o chão seco. Agora sim, vai ao banheiro e dessa vez sem nenhuma vontade de xingar. Faz o que tem que fazer, se arruma, pega o elevador e vai se encontrar com um amigo para um café da manhã naquele feriado.

Chegando ao local, cumprimenta seu amigo dizendo “tive um sonho esquisito”. O garçom chega, eles fazem o pedido e continua…

“Sonhei que era jornalista e estava na Europa para cobrir um encontro de compositores. De repente eu estava num auditório e vários compositores tocavam suas obras ao mesmo tempo. Era preciso se aproximar de cada um para conseguir ouvir o que cada um tocava. E o mais esquisito: eram compositores de diferentes períodos históricos. Vi Johann Sebastian Bach tocando num órgão de tubo a sua tocata e fuga em ré menor; vi Chopin tocando um de seus noturnos; vi Debussy tocando clair de lune; vi um coro de monges em trajes medievais cantando um canto gregoriano e eu não sabia ao certo o que teria que fazer ali. Notei um clarão vindo de uma porta lateral do auditório e fui naquela direção. Atravessei a porta e cheguei a uma cafeteria onde havia um homem sentado com uma xícara na mão. Sentei-me numa mesa ao lado e ele sem olhar pra mim disse que todas aquelas composições tinham um elemento em comum. Fiz uma cara de curioso, ele me cumprimentou com um bom dia em sotaque alemão e falou seu nome: Schoenberg. E sem atalhos me disse que a música ocidental atingira seu limite

na invenção e na criatividade da composição. Disse que as composições ao longo dos séculos eram normatizadas por uma relação hierárquica entre as sete notas. Uma era mais importante que outras. Terminou seu café dizendo que chegara a hora de uma revolução. Puxou-me pelo braço e fez-me acompanhá-lo a uma sala nos fundos da lanchonete, onde havia um piano. E começou a tocar o que chamou de “Peças para piano opus 11”. Após três minutos, interrompeu sua performance, pôs-se de pé e me disse “viu, não há nenhuma nota mais importante que outra. Em vez das setes notas tradicionais (do, re, mi, fa, sol, la, si) eu utilizo todos os doze sons, tanto as sete notas das teclas brancas como os sustenidos nas teclas pretas, e assim não é necessário ficar refém de uma tonalidade específica. Viva o dodecafonismo”. Sentou-se novamente e continuou a tocar. Um jornal da época sobre o piano marcava o ano de 1909. Uma espécie de tic-tac invadia meus ouvidos, uma janela do recinto estava fechada e rompeu-se de uma vez só numa tempestade de vento e chuva que parecia a trilha sonora daquela música. Acordei sobressaltado dentro do meu quarto. E aqui estamos num café e você ouvindo meu sonho esquisito.

Meu amigo pegou o celular, abriu o Youtube e digitou “Peças para piano opus 11”. Com menos de dois minutos de audição, deu pausa e comentou “parece música de trilha sonora daueles filmes de suspense, ou daqueles dramas de incertezas e solidão”. Havia outras obras de Schoenberg no YouTube. Clicamos em “Five pieces for orchestra opus 16”, também de 1909. Enquanto o vídeo carregava meu amigo comentou que nesse mesmo ano surgiu o “movimento futurista” na pintura italiana. A música começou a tocar. “Five pieces for orchestra opus 16”, soava como outra trilha sonora perfeita para os filmes de suspense. Em 1909 ainda não havia cinema com som. Schoenberg, com sua revolução dodecafônica, pavimentou o caminho para a trilha sonora de suspense. Faz todo o sentido. A música dodecafônica, ao retirar a hierarquia das notas da música ocidental, deixou-as todas (as doze) com igual importância. Não era possível antever, isto é, perceber antecipadamente o final de um música dodecafônica, como era de costume nas obras tradicionais pela forma como a audição foi educada ao longo dos séculos. Tampouco era possível se dizer em que tom a música estava, pois todas as notas tinham a mesma importância tanto no trajeto da melodia como na formação dos acordes. Em outras palavras, o dodecafonismo retirou dos ouvidos ocidentais suas antigas e sólidas referências. Alfred Hitchcock agradece. Afinal, o compositor das trilhas de seus filmes, Bernard Herrmann, trocou ideias com Arnold Schoenberg.

Para ouvir com medo, embaixo da cama: Five pieces for orchestra opus 16.

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