No passado pintamos figuras nas paredes das cavernas? Sim.

Fizemos desenhos em papirus? Sim.

Pinturas em telas? Sim.

Depois inventamos a fotografia? Sim.

E se fosse possível representar imagens com sons?
Digamos… em vez de desenhar, pintar ou fotografar uma paisagem, uma pessoa, ou animais, substituíssemos o grafite, a tinta e a fotografia por uma combinação de sonoridades e instrumentos musicais para descrever uma paisagem, uma situação?

Por que não pensei nisso antes?

Simplesmente porque nasci atrasado. Músicos de séculos passados tiveram essa ideia de representar um cenário, ou uma situação, por meio de combinações sonoras calculadas para provocar a imaginação do ouvinte e lhe “transmitir” imagens pela via da audição.

Des pas sur la neige (Passos na neve), composta em 1909 pelo compositor francês nascido no século XIX, Claude Debussy (22/8/1862-25/3/1918).

Debussy simula uma pessoa a caminhar na neve. A música é lenta, tal qual a dificuldade de se caminhar na neve. Enquanto se a ouve, pode-se imaginar a

cena em algum inverno europeu, árvores, casas e ruas cobertas pela neve que pinta de branco todo o cenário, e alguém lá distante a caminhar lentamente com os pés que vão deixando pegadas fundas à medida que a pessoa se esforça para se deslocar. Durante os trinta segundos iniciais da composição feita para piano, as notas da mão esquerda representam as passadas enquanto a mão direita esboça uma melodia para emoldurar a monotonia daquele momento. Depois a mão direita assume as notas que vinham sendo tocadas pela mão esquerda, para que a mão esquerda passe a trafegar por uma melodia igualmente lenta, monótona e assim as mãos se alternam pelos 4min12seg da composição entre notas repetitivas, projetadas para simular o ritmo da caminhada, e notas de uma melodia consequente que circula pelas teclas graves e agudas do piano para descrever um ambiente ao redor.

O Ministério da Música adverte: não é música feita para dançar ou participar de festivais ou premiações … é música noutro formato, que pede emprestada a nossa imaginação e até nossa admiração por essa empreitada de tentar descrever imagens por meio dos sons.

“Des pas sur la neige”, ouça aqui

Outro compositor francês, contemporâneo de Debussy, foi o Camille Saint- Säens (9/10/1835-16/12/1921). Se você gosta de animais veio ao lugar certo, pois Saint-Säens nos convida a fechar os olhos e imaginar “a marcha do rei leão”, que juntamente com outros títulos faz parte da obra “Carnaval dos animais”, composta em 1866. O compositor guardou as partituras e não as apresentou, pois receava que a crítica falasse mal dele. Naquela época os elogios eram destinados a quem seguisse as regras acadêmicas de composição. E o carnaval dos animais estava longe dessas regras. Saint-Säens não quis publicá-la para poupar sua reputação de compositor sério. Composta para dois pianos e orquestra durante suas férias numa aldeia da Áustria, a obra é um conjunto de composições de curta duração. Apenas “O cisne” foi publicada em vida. Faz parte da obra: “Galos e galinhas”, “Cangurus”, “Pássaros”, “Mulas”, “Tartarugas”, “O elefante”, dentre outros títulos. Reza a lenda que cada peça faz referência a determinados compositores. À parte esta questão suscetível a debates, Saint-Säens nos convida a, por exemplo, imaginar um cisne a deslizar num lago. Não por acaso, escolheu o violoncelo como instrumento solista cujo arco desliza sobre as cordas.

Ouça “O cisne” aqui

E aqui, a obra completa do “Carnaval dos animais”.

Numa época em que não havia cinema, nem mp3…a música descritiva foi a trilha sonora da imaginação.

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