Não tinha opiniões formadas sobre os assuntos em geral. Numa rodada de assuntos tinha sempre a mesma estratégia: lançava uma ideia ou uma teoria qualquer que funcionava como uma espécie de bumerangue psicológico já que se tornava ouvinte da própria opinião recém-manifestada a ponto de se perguntar como ou de onde surgiu aquilo que dissera. Pois, não gostava de ler, não gostava de filmes e, no íntimo, sabia que não gostava de si próprio. O problema era que após lançar sua estratégia, alguém que fazia parte da conversa às vezes lhe pedia “você pode explicar o que acabou de dizer”? Perante tal situação tinha a resposta na ponta dos pés, isto é, como já se acostumara à sua leviandade intelectual, pedia licença para ir ao banheiro. Lá dentro, diante do mictório e sua vontade falsa de urinar, se perguntava como poderia explicar o que dissera se sequer se lembrava do que havia dito. Alguém entrou no banheiro, mas tudo bem era um estranho, não era ninguém dentre aqueles lá da mesa, todavia ali de pé se viu obrigado a gesticular seu fingimento. Felizmente o estranho foi mais rápido, aliás o cara urinou e saiu sem lavar as mãos. Sozinho outra vez no banheiro onde se refugiou, fechou o zíper depois do vazio de sua cena teatral e, mesmo assim, achou de bom tom lavar as mãos antes de retornar à mesa com a esperança de encontrar outros assuntos para que não tivesse que explicar nada e, preferencialmente, se manter em silêncio em meio aqueles colegas historicamente mais inteligentes e sensatos que ele. No fundo queria ser como um deles que liam tanto a filosofia grega como a alemã, os estudos historiográficos franceses e norte-americanos, a estética de Hegel e o neoplatonismo medieval, as influências nacionalistas na música de Villa-Lobos e Béla Bartók, a literatura comparada baseada em ícones do romantismo inglês e do modernismo latino-americano, enfim tudo aquilo que sua atividade de professor de física lhe impedia de conhecer. Ganhava seu salário com aulas repetitivas para alunos de ensino médio de uma escola pública. Aliás, nunca soube por que optara fazer aquele concurso público dez anos atrás e tampouco como tinha conquistado a vaga. Quando saiu do banheiro em direção à mesa onde os demais professores se encontravam em mais um almoço de confraternização de fim de ano, caminhava com passos decididos a sair do restaurante, se despedir polidamente com a desculpa de um compromisso inadiável às 15h num lugar longe dali. Tinha consciência que ninguém se importaria com sua ausência. Virou a chave de seu Corsa 1.0 e foi aonde decidira ir naquele último dia do ano: uma barbearia.

Sentou-se na poltrona da barbearia de um bairro que escolheu avulso e pediu que lhe cortasse aquela cabeleira obsoleta e extemporânea que não devia estar ali desde seus quinze anos. Chegou a se arrepender de não ter servido o exército onde teria recebido um rosto novo emoldurado por um cabelo masculino, e lhe disciplinariam a vida desde a cama arrumada após se levantar e lavar a louça, diferentemente de seu apartamento caótico como vivesse no espaço cósmico curvo envolto em nebulosas siderais que nunca chegou a compreender com sua clara inaptidão para ser físico, não fosse ter passado no concurso público por pura decoreba.

– Tira a barba também? – perguntou o barbeiro.

Balançou a cabeça num gesto positivo e tentava interpretar se o espelho comemoraria sua decisão de extrair da cara aquela aparência de monturo para se converter em gente. Aliás, enquanto sua aparência se transformava sua mente lhe sussurava que era hora de ter contato com a literatura, com o cinema e com a música de Villa-Lobos. Que coisa horrível ter nascido no interior do Goiás e nunca ter escutado “O trenzinho do caipira” de Villa-Lobos.
Enquanto o barbeiro esfacelava seu antigo eu, via no espelho seu escombro de gente como quem busca num lance de xadrez saber se o tempo lhe daria outra chance caso varresse para a lata do lixo seus quarenta anos de vida despenteada. Lembrou-se que naquele momento em que ouvia o som agudo da tesoura raspando-lhe os ouvidos, seus colegas professores muito provavelmente ainda estariam no restaurante, uns a degustar uma torta de limão outros um pavê de nozes com o aroma do café espresso e o sorriso da professora de literatura a levitar na imaginação de cada um.

– São quarenta reais – disse o barbeiro.

Entrou no carro e se olhou no retrovisor como quem duvida do que acabara de fazer e, sem tirar os olhos do espelho, enfiou a chave sem pressa e virou o motor como quem acaba de comprar um carro. Com os olhos fixos no retrovisor interno disse em voz alta “seja benvindo, muito prazer”. Digitou no GPS a palavra “clínica”. O menu lhe despejou inúmeras opções por ordem de quilometragem desde a mais próxima onde se encontrava, em Brasília, até às mais distantes em Goiânia e Belo Horizonte. Seu instinto momentaneamente lhe convidava a clicar em “clínica de psiquiatria” na L2 norte, mas abriu mão do instinto e manteve-se agarrado ao objetivo original de ir a um oftalmologista, porque aqueles óculos de fundo-de-garrafa só faziam sentido no cenário da cabeleira extinta. Agora, com aquele novo visual adequado a quem vai ler “Os detetives selvagens”, de Roberto Bolaño, título que sua memória de decoreba prodigiosa salvou num dos momentos da confraternização, merecia uns óculos modernos ou mesmo umas lentes de contato. Clicou rumo à Asa Sul da cidade.

– Os óculos ficam pronto em uma semana – disse a moça das Óticas Fluminense da 112 sul, de cuja pele mulata exalava o aroma do sabonete phebo, que o fez se lembrar de ir comprar um sabonete na farmácia da quadra.

Tendo gasto trezentos reais na consulta oftalmológica e outros mil e quinhentos na ótica que lhe seduziu a aceitar uma armação de óculos Persol PO3189V, preto brilhante, além das lentes Varilux Confort com anti-reflexos da marca Crizal, deu graças a Deus (chegou a murmurar entre os lábios) pelo dinheiro extra que ganhava em aulas particulares como professor de xadrez. E para fechar com chave de ouro, a ótica parcelou sua compra em dez vezes sem juros no cartão.

Na semana seguinte, voltou à ótica e saiu de lá com a sensação de que o mundo estava mais iluminado com seus novos óculos, vestido nos trajes novos adquiridos com o décimo-terceiro numa loja masculina do shopping Pátio Brasil. Agora faltava o passo final para completar a inauguração de sua nova vida: ir à Livraria Cultura comprar “Os detetives selvagens”, de Roberto Bolaño e, claro, quando a vendedora lhe perguntou se era fã da literatura latino-americana, precisou fazer outro lance de xadrez, mas não tão radical como fizera na barbearia. Moveu um peão no estilo “lance livre” e respondeu “não sou fã, porque não conheço essa literatura”. A moça, sorridente, simpática, jovem e com uma cintura que lhe deu a certeza de ter feito um ótimo investimento nos óculos, o conduziu à prateleira dos latino-americanos.

– Quatrocentos e vinte reais – cobrou-lhe o rapaz do caixa ao mesmo tempo que lhe perguntava se era um cliente “Mais Cultura”, se queria o “Nota Legal” e se seria no débito ou no crédito.

Entrou no carro com aquelas sacolas que exalavam a promessa de intelectualidade para além dos assuntos de cinemática ou aceleração da gravidade. Aliás, sobre a gravidade, lhe indignava que nem seus colegas bacharéis dos tempos de universidade nem os cientistas laureados pelo nobel de Física soubessem explicar de forma clara, e por que não dizer honesta, o que era realmente a tal da gravidade. Desde a maçã de Newton até os dias de hoje, a verdade é que nenhum físico conseguiu explicar esse fenômeno e sua origem, quando muito repetem a ladainha dos efeitos das forças gravitacionais, mas nunca a causa da gravidade. Ainda no estacionamento da Livraria Cultura, dentro do carro, rasgou as sacolas de plástico como quem tira o sutiã da primeira namorada. Vislumbrou horizontes mais palpáveis de felicidade. Os livros adquiridos fermentavam sua mente com aquela esperança da terra prometida. Leonardo Padura, Isabel Allende, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Roberto Bolaño, Edmundo Paz Soldán, Federico Andahazi, Jorge Luis Borges, todos agora como profetas culturais.

Começou por Roberto Bolaño e calculou sua velocidade de leitura: 0,6 página por minuto, portanto, 36 páginas por hora. Puxou o calendário e calculou o número de dias de férias escolares, o número de sábados, domingos e feriados ao longo do ano letivo, e concluiu que voltaria mais vezes à Livraria Cultura de três em três meses, para conhecer os românticos da literatura francesa e inglesa, os filósofos gregos e alemães, de modo que na próxima confraternização não precisaria fugir dos assuntos indo ao banheiro e fingir qualquer necessidade básica.

Seu novo visual, aliás, fez muito sucesso durante o ano letivo seguinte. Ao fim do primeiro trimestre, numa reunião na sala de professores, a professora de literatura lhe passou às mãos, muito discretamente, um bilhete que ele teve o cuidado de manter trancado em sua mão fechada enquanto a coordenadora pedagógica conduzia a reunião. Obviamente, ele estranhou aquela atitude da professora mais bonita, mais charmosa, mais sensual e mais culta da escola. No término da reunião, ela foi a primeira a se retirar enquanto ele optou por ser o último a sair. Ao se retirar da sala, carregou o bilhete lacrado na palma da mão e punho cerrado até o estacionamento. Entrou no carro, deu uma olhada de trezentos e sessenta graus ao redor e abriu o bilhete, que dizia: você aceitaria vir jantar em meu apartamento no próximo sábado? Traz um vinho da uva Syrah”.

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