Um disco de jazz na casa da mata

UM DISCO DE JAZZ NA CASA DA MATA

 

Por Jorge Alves Joia Machado

Brasília, 27 de setembro de 2017.

Bons doces neste Cosme e Damião

(Para o pianista, tecladista e compositor: Farlley Jorge Lourenço Derze.)

Quem chegava ao Estúdio da Casa da Mata, ouvia uma música muito elaborada. Um som jazzístico, no sentido da sua riqueza rítmica e brejeirice que a música norte-americana, sempre nos proporciona. Este som estava presente e a gente sentia logo ao entrar. Ao mesmo tempo, eu sentia que aquele som pretendia me dizer bem mais que os bons improvisos que os músicos ali ofereciam.

Eu relato um acontecimento especial. Sim, especial. Porque eu estava na gravação do álbum: “Metamorphoses” de Farlley Jorge Lourenço Derze; ou, apenas, Farlley Derze. E, ali, eu sentia perfeitamente a fusão da sutileza do som criado nas ruas norte-americanas e mais tarde, também, nas ruas brasileiras e de várias outras partes do mundo, com aquele poder de descrição e composição que se percebe quando o artista é por certo um estudioso, um grande erudito.

Juntas numa só ideia construtiva, popular e erudito formaram um ambiente único. Senti uma atmosfera própria de uma música feita para agradar acima de tudo.

Ao ouvir a obra de Farlley Derze, se faz impossível separar um estilo do outro que ocupava o mesmo frasco. Uma vez que a fusão os tornara coloidal. Então, aquilo que era contado em 2/4, de repente quebrava para um 6/8. Daí se ouvia 9/8, voltando depois para um moderado 4/4 e por aí segue. Aquilo que era nota longa, terminava por se tornar pontilhada, como se para ouvirmos um dó de 8 tempos, precisássemos ouvir todos os harmônicos caminhando até formar o dó maior.

Eu cheguei para curtir o som de um grande amigo. Cheguei para um dia de jazz com a gravação das músicas do meu melhor amigo. A Casa da Mata estava totalmente tomada pela atmosfera criada por sua música. Ali se ouvia o que meu amigo gosta de curtir, de tocar, e que acabou por se tornar parte dele mesmo. A Casa da Mata se apresentara, mais que nunca, um lugar leve e feliz. Como foi bom estar ali presenciando o divino som do seu jazz.

Que surpresa eu tive com seu som. Senti que cresceu a música, com tão elaborados arranjos e tão finos dedilhados de pianos e teclados. Além da guitarra, que foi como pegar um doce surpresa no pacotinho oferecido a São Cosme e São Damião. Mas desse eu falo depois. Haviam outros músicos.

Farlley convidou nomes importantes da música brasiliense para fazer valer a importância de seu trabalho. Os músicos convidados foram escolhidos a dedo e cada um sabia de sua competência e seu valor. Farlley, revestido da presença do maestro que é, regia arranjos intrigantes, desafiadores e fortes. Arranjos que, se o músico não tem bagagem, não tem como se atrever a executar. Mas os músicos que aceitaram o desafio, tinham.

Ouvir a bateria de Sandro Araújo ou João Ricardo Denicol, fazia mexer todo nosso esqueleto e vibrar com encanto nossos corações. Mais tarde, também apareceu, Sandro Souza, mas não tive a oportunidade de constatar sua performance. Certamente este trouxe um toque a mais de energia matuta, este me lembra muito um músico rústico, como antigamente tínhamos na música instrumental brasileira, que antes de tudo era a dança e o balanço de cada corpo vibrando pelos seus tons, caixas e bumbos.

Ouvir Oswaldo Amorim, é outra maravilha. O baixo exige preparo físico, força e dedos delicados. Oswaldo tem todos esses pré-requisitos com a bagagem de quem estudou o instrumento de forma a dissecá-lo por completo. Ouvir Oswaldo Amorim transporta o ouvinte para a frente de uma batalha, onde você tem certeza que está protegido ali, pois este sabe cuidar dos seus. Depois vi Igor Diniz o substituir. Adoro o baixo do Igor e para essa empreitada montada pelo Farlley, ele bem trouxe um frescor e uma inovação. Técnico e pesado, Igor não deixou o grupo esquecer para o que estavam ali e a coisa toda ficou grande.

Tivemos um naipe de metais: Isaac Gomes (saxofones), Argemiro Jr. (trompete) e Paulinho (trombone). O sax soprano do Isaac merece destaque. Que timbre é esse?! Isaac cativa todo mundo. Seu som é muito sensual e muito profundo. Belíssima escolha, Farlley! Argemiro, conduz os golpes de metais de forma segura e ele se preocupa em estar correto, limpo e preciso no ritmo. Ele deu cor, forma e vida aos ataques. Paulinho é um primor. Que profissional, que timbre maravilhoso e acima de tudo, que pessoa linda. Completa a nossa vida, conhecer um homem como Paulinho. Seu som é divino, correto e preciso. Um artista que interfere diretamente naquilo a que se propõe interpretar. Ele causa algo novo a cada momento que precisa repetir uma mesma frase. Se não bastasse a competência, ele, também, entrega para nós o seu carisma, o seu amor e todo o seu cuidado, para que aquele que o está apreciando não se canse, e sim se encante mais e mais com aquela música que ouvimos.

            Farlley Derze se propunha a mostrar no repertório as diversas nuances de sua transformação de estudante de conservatório a universitário, passando pela escola da noite e do palco, até seu momento atual, onde sua carreira é vista como referência para qualquer aspirante a instrumentista. Então, ao escolher os músicos que o acompanhariam, Farlley nos trouxe uma surpresa: Gabriel Oliveira. Um guitarrista maravilhoso, que prova que pouca idade, não quer dizer pouca experiência. Gabriel é delicado, erudito no sentido estudioso da palavra e perfeccionista. Prepare o coração, porque é justamente ele que nos leva para passear nas músicas do compositor Farlley Derze. O compositor deu ao guitarrista o poder de fazer as ligações das histórias criadas por ele. Nosso guitarrista não titubeia. Ele pega o tema e o transforma em seu argumento, como toda boa ideia deve se tornar. Pega a ideia e nos apresenta um outro ângulo da mesma visão. Ele é a personificação da guitarra-arte. Conheço pouco o guitarrista. Além deste dia, o outro lugar que o vi tocar foi no Clube do Choro de Brasília ao lado de nada mais, nada menos que Toninho Horta. Ali ele já chamou sua atenção. O confundi com o guitarrista Pedro Martins, que há pouco ganhara um prêmio em Montreux, mas vou falar uma coisa: Gabriel Oliveira ganharia também. A música de Farlley Derze, foi enriquecida e nos enriqueceu, depois de todas as notas cuidadosas e certeiras de Gabriel Oliveira.

            Quem acredita que se tratou apenas da gravação de um grupo, perdeu aí! Farlley tem uma arma secreta que faz com que este dia de gravação, possa se transformar num evento cultural. Essa arma chama-se Jamile Tormann Derze. Sim a esposa, companheira de tantos anos, que com seu empoderamento construiu o cenário perfeito para que a música não chegasse apenas através do som, mas também pelos demais sentidos que possuímos. Assim, sentimos os cheiros maravilhosos da Casa da Mata, tivemos visões inesquecíveis de detalhes da natureza da mesma casa, e pudemos tocar no compositor, como ele pôde nos tocar. Foi a grande caixa para o som que ouvimos. Parabéns comadre!

Para completar: músico há mais de trinta anos, adorei o que ouvi. Farlley Derze me surpreendeu mais uma vez. Espero, poder ouvir o resultado, ainda com essa pegada sentimental e diria, ainda muito intrigado. Certamente estarei torcendo para que ainda esteja vivendo na pele aquela atmosfera etérea, cativante e contagiante, quanto tudo se metamorfosear em som prensado e digitalizado de um dos grandes músicos de hoje, que se tornou referência do teclado, do piano e por que não dizer: da Música Instrumental Brasiliense.

            Evoé, Farlley Jorge Lourenço Derze.

 

Gravação do CD Metamorphoses, de Farlley Derze

Gravação do CD Metamorphoses, de Farlley Derze

Por Jakceline Spies

Brasília, 23 de setembro de 2017

 

A gravação do CD Metamorphoses, do pianista e compositor Farlley Derze, despertou um clima especial em Brasília, acompanhado de análises musicais interessantes em torno de sua obra. O disco, que será dividido em mais de um volume, carrega mais de 40 anos de composições do músico. Seu primeiro volume, gravado nesse sábado (23/09), é composto por 9 faixas – as quais receberam participações especiais de músicos convidados.

O evento caracterizou-se por seu clima agradável, pois foi como uma reunião de amigos, segundo as palavras dos convidados. Era notável uma certa diversidade nas participações, pois havia músicos experientes e renomados como Oswaldo Amorim – que conheceu o Farlley durante o trabalho que ambos fizeram com cantora Priscila de Ávila – e músicos jovens no cenário musical brasiliense como o guitarrista de 15 anos de idade, Gabriel Oliveira, descoberto por Farlley quando o jovem músico fazia uma participação especial no show do guitarrista Toninho Horta, no Clube do Choro.

Cada um dos músicos convidados contribuiu de maneira brilhante para o álbum. Todos, apesar de ecléticos, possuem um apreço por gêneros musicais como choro, mpb, jazz, baião, além da formação erudita. Alguns dos instrumentistas se diferenciam por gostos que variam entre o blues e o rock nacional, como é o caso do jovem Gabriel. Outros se afeiçoam também por forró, frevo e sertanejo raiz, como o saxofonista Isaac Gomes.

Ao conversar com alguns músicos que participaram do evento, é possível perceber como o compositor cativa a essência de cada música. Oswaldo Amorim – hoje professor de baixo elétrico e acústico na Escola de Música de Brasília – diz que Farlley está sempre preocupado com cada um individualmente encaixado na música. “Ele (Farlley) pensa não apenas no instrumento que precisa para sua composição, mas na pessoa que o toca. Tenta encaixar o estilo do músico em questão na hora de criar suas performances”, diz Amorim. Ele define, ainda, seu estilo pessoal como “Eclético e sem Rótulos” e está sempre disposto a entender novos cenários da música nacional.

Também advinda da escola de música, a musicista Tânia Bernauss estava presente no evento. Ela, por sua vez, define seu estilo na frase “música é identidade” e diz que cada um tem seus trejeitos na hora de tocar. Ela cita Oswaldo como exemplo: “Eu nunca vi ele (Oswaldo) tocar de olho aberto, por exemplo. Ele sempre está sentindo a música que toca como a maior profundidade possível”. Tânia diz que possui muitas influências da música clássica e de arranjos vocais, além do rock e do grupo 14 Bis. Ela diz que a formação musical ajuda muito na escuta, principalmente na hora que começa a perceber as passagens complexas pelas quais o músico tem que resolver. “Um músico formado em música erudita consegue facilmente passar para o popular. Já o contrário é muito difícil de acontecer. É uma base necessária”, completa a artista.

Farlley possuía o desejo de gravar seu segundo disco autoral há bastante tempo – o primeiro, Gênese, foi lançado em 2000 no Rio de Janeiro e relançado em 2015 qunando foi inserida a faixa 6, Tristesse, gravada no Chipre, país insular no leste mediterrâneo. Sua esposa, a arquiteta e lightin designer Jamile Torman Derze, é uma das maiores responsáveis pela concretização do sonho do pianista. “Quando se é artista, surge a necessidade de alguém que cuide da logística. Assim passamos da idealização para a realização”, ressalta Jamile. Ela diz que incentivar a rotina produtiva foi essencial para que o disco ganhasse vida.

Ela também cita a forma como o disco foi construído. “Através dos ideais que Farlley queria passar no disco, ofereci algumas sugestões que se encaixaram para organizar o repertório. Logo, eu e ele conseguimos dar uma direção para elaborar o CD.” E Jamile ainda completa: “As músicas, por exemplo, estão em ordem cronológica de criação”. Isso revela, segundo Farlley, a transformação ao longo tempo pela qual suas composições passaram – daí o nome do CD, Metamorphoses. Para tanto, ganhou de presente a capa do disco, feita pelo artista plástico Páris Bogéa. Farlley explica:

“O nome da obra é Madonna. Para mim é uma metamorfose também, pois vários artistas pintam a Madonna, e cada um em sua linguagem e releitura. Meu disco passa por uma transformação a cada faixa – cada uma trazendo uma releitura de momentos diferentes da minha vida”.

Ordem das músicas no CD:

  1. Cavalaria real (1978)
  2. Caçada (1986)
  3. Ponta e faca (1988)
  4. O céu de terça-feira (1988)
  5. O beijo e os cabelos da sereia (1988)
  6. Pura (1988)
  7. Pintura, renda e pesca (1990)
  8. O tempo (1995)
  9. Quintais (2016)

Por último, o pianista diz que a inspiração e o objetivo para começar o projeto eram, simplesmente, saber se era capacitado a criar música. Ele define seu estilo composicional como “um miscigenado das linguagens populares”, o que é muito perceptível ao ouvir suas performances.

Entre os comentários dos que estavam presentes no evento, que aconteceu de forma privada na casa dos Derze, referiam-se além do estilo musical ao próprio clima agradável gerado pela família.

– O clima familiar ajuda na própria harmonia da música (Naiça)

– É desafiador entender a música, mas não causa uma ansiedade, é muito firme (Stênio, fomado em jornalismo)

– A música instrumental nos traz mais para o presente e não nos causa uma ansiedade como em outros estilos (Tályta Almeida Coelho)

– As músicas dele me lembram um quebra-cabeça. Nada está ali por acaso e tudo se encaixa com maestria. (Jorge Alves)

– Compartilhar o momento de gravação com os amigos acaba deixando tudo mais fluido e relaxado, tornando um ambiente mais propício para as improvisações, por exemplo. O Farlley tem essa pegada erudita, uma veia fusionada, mas é uma música que respira, uma composição refinada, não engessada – que é a cara do evento em si. (Hugo Coelho)

– O Farlley tem uma sensibilidade diferente: Amorosa, acolhedora. Geralmente a música costuma ficar em um plano mais etéreo. Mas aqui não, aqui todo mundo entende. (Gisele Leite L’Abbate)

Em uma análise da obra, percebe-se que há passagens bem complexas e músicas repletas de momentos que, apesar de seguir uma lógica composicional, surpreendem com improvisações excelentes e arranjos muito bem preparados. Gravar um CD parece fácil, mas é muito trabalhoso. E quanto mais trabalho, mais gratificante é o resultado.

Na lista de convidados a participar da gravação, encontram-se nomes como os dos músicos Oswaldo Amorim, Igor Diniz e Pablo Oliver, no contrabaixo; Sandro Araújo, Sandro Souza e João Ricardo Denicol, na bateria; Isaac Gomes, nos saxofones tenor, alto e soprano; Gabriel Oliveira, na guitarra; Paulinho do Trombone, no trombone; Argemiro Jr., no trompete; e Páris Bogéa como o designer gráfico do álbum. Cada um com um instrumento que, além de integrar as músicas do disco, obteve espaço de improvisação no CD Metamorphoses.

O compositor dedica sua criação aos músicos e amigos que se integraram em suas composições e à sua família, que fez parte da concretização de seu sonho.