A carta

Farlley Derze,11maio2015, 20:45,Madri, Espanha

a carta

“mira hombre, tengo la prueba y esta es la historia de amor que Shakespeare ha perdido”.

 


 

Há uma semana, às 17:53, sentei-me numa praça na Calle de Fuencarral, 133, Madri. Havia sentado para tomar uma taça de sorvete com três sabores: pêssego (meloncoton), banana (plátano) e maçã verde (manzana verde). Cinco idosos conversavam noutro banco da praça. Quando sentei-me próximo a eles, lhes cumprimentei: “buenas tardes”. “Buenas tardes”, responderam e retomaram a conversa.

Quatro deles repetiam “eso no es posible”, “no me lo puedo creer” enquanto o quinto lhes dizia “es la máxima verdad”.

O assunto era sobre um jornal que um deles encontrou: “pero estoy seguro, yo lo he encontrado aquí mismo en el invierno”.

A questão não era tanto sobre o jornal, mas sobre uma carta que estava dentro dele. Subitamente, o ancião que falava sobre o fato levantou-se e sacou do bolso de trás a carta dobrada em quatro partes. Eu me sentia um voyeur auditivo e tomava meu sorvete de maneira mais lenta a cada colherada, enquanto lhes escutava. “Mira hombre, tengo la prueba y esta es la historia de amor que Shakespeare ha perdido”.

Sentou-se para ler a carta datada de 2 de janeiro de 2015, Calle de Fuencarral, 133, Madrid, España e o título “Imperdonable”.

Antes que a leitura fosse feita um dos idosos se manifestou e disse aos demais que ler uma correspondência alheia não era correto e era um crime civil e, “peor hombre, mucho peor”, Nuestra Señora del Carmen sabia que estavam incorrendo num pecado.

Enquanto argumentos e contra-argumentos se misturavam sobre se era lícito ou não ler a carta, apressei-me para acabar o sorvete e abrir meu bloco de notas do celular para, caso a carta fosse lida (perdoe-me Nuestra Señora del Carmen), eu anotaria o que conseguisse.

De repente, um idoso chamado Alonso levantou-se, ajustou a mão na bengala e sem dizer “hasta luego” se retirou daquela conversa “pecaminosa”, quando a maioria votou favorável à leitura da carta. Todavia, esperaram até que Alonso a passos lentos dobrasse a esquina e desaparecesse dos olhos do grupo.

Calle de Fuencarral, 133

Madrid, 2 de enero de 2015

“Imperdonable”.

(Segue o conteúdo da carta traduzido para o português).

“Lembra-se de quando caminhamos pela Granvía no primeiro dia que nos conhecemos? Eu queria ter dito “este é um dia lindo em minha vida”, mas não te disse. Eu quis beijar teu rosto na Plaza de España, mas não te beijei. Queria ter dito como era mais bonito o pôr do sol aoteu lado no Templo de Debot, enquanto contempávamos aquele momento, mas nada disse. Quando você me beijou no terceiro encontro, ao sairmos da Iglesia de Nuestra Señora del Carmen y San Luiz, eu quis dizer “te quiero”, mas não disse”.

Nesse momento um dos idosos disse: “espera, quem assinou esta carta”? Quem lia respondeu “ninguém. É anônima”. Outro idoso disse “mas cita a Calle de Fuencarral, 133. É onde estamos. Ali está a porta do número 133. Estou seguro que é alguém que mora num desses apartamentos do edifício 133”. Outro disse: “pode ser que não…talvez a carta tenha sido escrita neste banco, em frente ao número 133, mas por alguém que mora em outro lugar”. Outro disse “continue a leitura”.

E assim foi.

“É imperdoável querer dizer, mostrar, fazer coisas boas e não fazer. Especialmente diante de alguém que melhora o nosso dia-a-dia. É imperdoável ver o tempo escoar pelo ralo do tempo, e nunca agradecer à pessoa que escolheu viver ao nosso lado. Não me perdôo por não ter repetido mais vezes a palavra “te amo”, ou “você mudou minha vida”, ou “vamos ali tomar um sorvete”, ou “me perdoa porque não consigo me perdoar”.

De repente fez-se um silêncio e um dos idosos disse “continue”, ao que ouviu “acabou”.

“Como assim acabou”? “Quem assina?”,  perguntou um deles. “Já disse! Ninguém assina nem diz a quem está endereçada”.

Todos se entreolharam em suas idades avançadas e um deles disse: “pelo menos esse homem escreveu seus sentimentos, pois muitos não o fazem, além de nada dizerem”.

A quietude daquele momento foi quebrada com a sirene de uma ambulância que passou por detrás do banco onde eles estavam e estacionou dez metros depois. Desceram correndo dois homens com uma maca e sumiram de vista.

Quem leu a carta se pôs de pé, dobrou-a, guardou-a no bolso de trás da calça e sentou-se. Outro lhe perguntou: “o que pretende fazer com esta carta”? “Não sei”, respondeu.

Nossa atenção foi desviada pelos olhares das demais pessoas da praça que olhavam ressurgir na esquina os dois homens que traziam na maca uma pessoa. Junto à maca uma mulher que chorava e um dos idosos a reconheceu: “mira hombre, es la mujer de Alonso”.

E viram a maca entrar na ambulância para transportar o amigo deles que instantes antes estava ali e se retirou quando decidiram ler a carta. A mulher entrou também na ambulância que invadiu o silêncio da Calle de Fuencarral com sua sirene urgente, até desaparecer dos olhos e depois dos ouvidos.

Hoje, 11 de maio de 2015, às 18:50, enquanto tomava outro sorvete no mesmo lugar da semana passada (a sorveteria fica no número 131 da Calle de Fuencarral), reconheci a mulher de Alonso que sentou-se sozinha no mesmo banco da praça onde seu marido costumava estar com seus amigos. Levantei-me e sentei-me ao lado dela “buenas tardes señora”. Ela respondeu “buenas tardes caballero”. E sem nenhuma cerimônia eu lhe disse: “semana passada vi a senhora entrar numa ambulância que parou nesta rua”. Ela disse: “vieram buscar meu marido que sofreu um infarto”. Perguntei: “ele passa bem”? Respondeu: ”Muito bem”. E complementou: “Faleceu nesta manhã. Hoje às 19:30 será a missa de corpo presente, na Iglesia de Nuestra Señora del Carmen y San Luiz. Ele era muito católico e sei que agora está no céu ao lado de Nuestra Señora del Carmen e de Nosso Senhor Jesus”.

Nesse momento um carro parou, abriram-lhe a porta e ela se foi: “hasta luego”, me disse. Eu me levantei rapidamente, caminhei até a estação de metrô “Tribunal” a poucos metros dali. Desci na Puerta del Sol onde há a estátua de um homem sobre um cavalo. Defronte à estátua existe um edifício em cuja calçada há uma inscrição indicativa que ali foi fundada a cidade de Madri. No lado oposto, atrás do cavalo com sua cauda imponente, está a Calle del Carmen. Da cauda do cavalo em direção à Calle del Carmen caminhei por 2 minutos e 10 segundos, 216 passos até a entrada da Iglesia Nuestra Señora del Carmen y San Luis, fundada no século XVII, e onde faltava um minuto para começar a missa. Entrei e vi reunidos no primeiro banco a viúva com familiares de Alonso, e no segundo banco seus quatro amigos de conversas na praça e que há uma semana falavam de uma carta esquecida dentro de um jornal.

Eu não conhecia Alonso nem as demais pessoas ali presentes; vi Alonso e sua voz de desacordo deixando seus companheiros naquela tarde da carta; vi que dobrou uma esquina com sua bengala; e agora eu estava ali onde Alonso repousava em seu ataúde próximo ao altar.

Velas acesas, cânticos e palavras conduziam a cerimônia. Após quarenta e cinco minutos, antes de encerrar a missa, o padre dirigiu-se ao ataúde. Ao lado do caixão chamou a viúva. O padre pôs a mão no bolso do terno do defunto e tirou de lá um pedaço de papel dobrado em quatro partes e entregou à viúva. Ela abriu e leu em silêncio:

Calle de Fuencarral, 133

Madrid, 2 de enero de 2015

“Imperdonable”

“Lembra-se de quando caminhamos pela Granvía no primeiro dia que nos conhecemos? Eu queria ter dito “este é um dia lindo em minha vida”, mas não te disse. Eu quis beijar teu rosto na Plaza de España, mas não te beijei. Queria ter dito como era mais bonito o pôr do sol aoteu lado no Templo de Debot, enquanto contempávamos aquele momento, mas nada disse. Quando você me beijou no terceiro encontro, ao sairmos da Iglesia de Nuestra Señora del Carmen y San Luiz, eu quis dizer “te quiero”, mas não disse”.

Novas lágrimas desceram pelo rosto da viúva, que com as mãos trêmulas leu até o final. Enquanto dobrava a carta para guardá-la, o padre a abraçou.

Antes de Alonso falecer, enquanto estava internado, o padre recebeu a visita de um de seus amigos da praça, que buscou o padre para se confessar. Disse ao padre que havia achado uma carta dentro de um jornal, numa praça de Fuencarral, e se sentia um pecador por ter lido para seus amigos a carta de uma pessoa que não conhecia. O padre lhe aplicou uma penitência leve de três Aves Marias e três pai-nossos durante uma semana. Ao se despedir, o penitente passou a carta pela fresta do confessionário. O padre a pegou e quando ficou sozinho em seus aposentos, reconheceu a letra de Alonso. Lembrou do pedido dele: “meu querido amigo de infância, Padre Miguel, guarde esta carta e entregue à minha esposa no dia de meu funeral, caso eu morra antes dela”. O padre fez o sinal da cruz, se ajoelhou e agradeceu o milagre de ter recuperado a carta que havia perdido dentro de seu jornal esquecido no banco da praça.

Quando a missa acabou, deu-se o momento de todos se aproximarem do caixão e dar as condolências à viúva, dar um último adeus ao amigo. Percebi a inquietude de seus quatro amigos quando a viúva lhes mostrou orgulhosa a carta que o marido lhe deixara. Alonso morreu sem desconfiar que a carta que se negou a ouvir naquela tarde era a que escreveu para sua mulher no dia que soube pelo seu médico que poderia sofrer um infarto repentino e fatal. Sua viúva nunca saberá que a carta foi devassada antes da hora. O padre nunca poderá expor o caso, pelo sagrado direito de preservar a quem entra num confessionário, mas também pela vergonha de ter perdido a carta.

Ao sair da igreja relembrei o momento quando encontrei aqueles homens idosos há uma semana. Relembrei as primeiras palavras que ouvi deles ao sentar-me no banco da praça: “eso no es posible”, “no me lo puedo creer”, “es la máxima verdad”.

Apenas sete pessoas são testemunhas do ocorrido:

– os quatro amigos;

– eu;

– o padre;

– e Nuestra Señora del Carmen.

Comments.

Currently there are no comments related to this article. You have a special honor to be the first commenter. Thanks!

Deixe uma resposta