Farlley Derze, 2001.


Você é convidado a entrar num palácio. Grande, suntuoso. Você entra e seus olhos mal podem se fixar tamanha a variedade de objetos raros, obras de arte, tapetes, lustres, uma música que vem de algum lugar…, tudo limpo e calmo. Sobe a escadaria, a música se torna mais presente, uma brisa passou de repente, e no andar de cima dois corredores, um de paredes e outro, com portas. O corredor das paredes intriga por não conter nada além das paredes cuidadosamente pintadas. Mas o corredor das portas…

Ao abrir a primeira porta, entra e depara-se com uma sala cujo chão, teto e paredes, tudo é espelho, nenhum móvel no ambiente completamente espelhado. Você entra e se percebe no centro do infinito. Uma certa sensação de desequilíbrio, nada em volta onde se segurar, nenhum objeto. Você se recompõe diante de sua imagem pluralizada, multiplicada, um monte de “eus”. Você faz gestos, começa a brincar e vê que todos eles lhe imitam com exata perfeição. Você sorri, brinca mais, inventa gestos e mais gestos, e se enxerga rodeado da mesma figura ali se divertindo aos montes. Sai da sala, expira o ar que se acumulou com a experiência e gira a maçaneta da porta à frente. Um vendaval lhe descabela completamente e você rapidamente fecha a porta, e só pôde ver as cortinas esvoaçantes, enquanto realinha os cabelos. Encosta o ouvido na porta e ouve aquela música que tocava enquanto subia as escadas. Que estranho! Olha para o fundo do corredor e segue em direção à outra porta, contígua à sala do vendaval. Abre-a com extrema suavidade, curvando-se remediadamente para trás. Nada. Abriu-a então e era um aposento muito bem arrumado, roupa esticada na cama, fotos sobre um armário, o tic-tac de um relógio de parede com pêndulo e ponteiros reluzentes. Permaneceu ali ao som das horas até perceber que os ponteiros não se moviam, embora ouvisse o tic-tac. Sentindo-se um invasor, retira-se e fecha a porta cautelosamente. Olha a porta da sala dos espelhos, a porta do vendaval e aquela que acabara de sair. De repente uma porta ao fundo se abre e saíram de lá dois homens abraçados, bateram a porta dando gargalhadas e dirigiram-se às escadas. Você foi até aquela porta e percebeu que lá dentro muitas outras vozes gargalhavam. Você girou a maçaneta duas vezes e nada. Desiste e caminha em direção à última porta que faltava abrir naquele corredor. Antes de abri-la encosta o ouvido e nota um profundo silêncio. Abre-a! É uma sala de aparência doméstica com várias bacias pequenas distribuídas pelo chão. Você as conta: são trinta e duas bacias. Aproxima-se pé ante pé por entre as bacias, olhando uma a uma, e nota que há terra seca em cada uma, exceto numa que estava úmida onde havia uma semente pousada no centro. Sem saber o que pensar, seu instinto faz com que pegue a semente da bacia. Abaixa-se e a toma nas mãos e a observa ali, naquela posição de cócoras. Olhou ao redor e só o silêncio lhe fazia companhia. Deu-se conta de que deixar a porta aberta. Caminhou até ela com a semente na mão. Todavia, algo inesperado aconteceu. Você não conseguia atingir a porta. À medida que caminhava em direção à mesma, ela se movia de modo a se afastar de você. Depois de cruzar pelo local onde estava a porta, você pára e nota que a porta também pára. Você olha para trás e conclui que apenas o trecho por onde você caminhou foi alterado, como se fosse um espaço elástico. Você olha outra vez a porta e dá mais dois passos em sua direção, todavia ela também se afasta. Você resolve correr e porta parece flutuar sobre o solo e permanece à distância ao deslocar-se com a mesma velocidade que a sua. Você pára outra vez e se pergunta onde estão as outras portas. Ah, sim, estão todas no mesmo lugar. Você as vê embaçadas pelo espaço distorcido. Decide voltar à sala das bacias. À medida que caminha dá uma olhadela para trás e vê que porta também regressa, em velocidade amena como a sua. De propósito você pára. Ela também. Você caminha, ela vem. Finalmente, ao chegar à sala, dirige-se à bacia de onde retirou a semente. Abaixa-se e a recoloca no mesmo lugar. Ao levantar-se, a porta está no devido lugar. Você se levanta, vai em direção à saída com os olhos fixos na porta e a cruza se nenhum problema. Uma brisa fecha a porta delicadamente e você está outra vez naquele corredor. Você decide ir embora e segue em direção à saída, em direção ao portão por onde chegou. O corredor é longo e você avista a luz do dia lá no fundo, distante. Quando chegara ali, não percebera a distância entre o portão e a porta dos fundos onde estão as bacias. Você passa pela porta das gargalhadas, depois a dos espelhos, depois a porta do vendaval e só lhe resta o corredor bem pintado e sem portas à frente, mas percebe que nunca atinge o portão. O corredor parece longo. Você caminha, você aperta o passo e nota que nada se altera. Olha para trás e está tão distante que não consegue mais ver aquelas portas. Aperta ainda mais a passada em direção à saída, mas a luz que vem de lá parece tão longe. Você não ouve nada ao redor, nada se altera. Você decide caminhar sem pressa e nunca saberá que o corredor é infinito.

A sala do vendaval tinha uma janela !

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