Farlley Derze. Brasília, DF, 14 de novembro de 2011

Tonico do Padre (1837-1903).

Li com grande curiosidade o título do CD “Concerto dos sapos” exposto na vitrine de uma loja de souvenirs em Pirenópolis. A capa tinha a foto do compositor, Tonico do Padre (1837-1903), em preto-e-branco, óculos e cavanhaque, no estilo de sua época, o século XIX. Por que entrei na loja e comprei o CD? Porque fiquei curioso para ouvir a música “Concerto dos sapos”. Sou pianista, graduado em Licenciatura Artística pela UNIRIO (1986-1992, RJ) e com aquele CD nas mãos minha curiosidade queria buscar alguma relação do título da música com o que na história da música ocidental foi classificada como “música descritiva”. Simples assim: na música descritiva a ideia era “retratar” com sons um determinado ambiente, cenário, paisagem, pessoa, animais, objetos. O compositor e pianista francês Saint-Saens (1835-1921) compôs “Carnaval dos animais”, onde com instrumentos da orquestra sinfônica quis representar o elefante, os cangurus, galinhas e galos, pássaros, um aquário, a marcha do rei leão, o cisne. Em “O cisne” a melodia é feita por um violoncelo. Não foi uma escolha casual ou aleatória, pois o arco do violoncelo desliza pelas 4 cordas do instrumento com a mesma suavidade com a qual desliza um cisne sobre a superfície de um lago. Para “descrever” os pássaros, o compositor francês usa as flautas como solistas. Quando entrei naquela loja eu tinha Saint-Saens em minha mente e muitas perguntas que germinavam em minha mente quando peguei o CD nas mãos: o compositor de “Concerto dos Sapos” era brasileiro? Sim, nascido e criado em Pirenópolis, no século XIX, mesma época do compositor francês Saint-Saens e seu “Carnaval dos animais”. Não havia Internet no século XIX, google, discos gravados, eletricidade, rádio, então… será que Tonico do Padre estudou na França e foi influenciado pela música descritiva que era feita na Europa? Não, nunca saiu de Pirenópolis. Então trata-se daqueles casos clássicos em que duas ou mais pessoas têm a mesma ideia, na mesma época, mas em lugares geográficos diferentes? Essa é uma boa hipótese, mas quando descobri que Pirenópolis foi um nome dado por franceses àquela cidade pela semelhança de três montes com os Montes Pirineus (antes a cidade se chamava Meia-Ponte), cheguei a pensar que tais franceses tivessem comentado (pelo método do boca-a-boca, como era feito antes das tecnologias de informação de massa) que na França os compositores tentavam descrever com sons coisas como paisagens, animais… Saí da loja com tais perguntas cujas respostas foram obtidas após arregaçar as mangas e pesquisar se Tonico do Padre havia sofrido tal influência francesa, resposta que lamentavelmente não descobri porque ao ouvir o CD em casa outras perguntas tomaram o lugar desta cuja resposta a uma delas fez valer a pesquisa. Antes, porém, cabe lembrar que muito antes do século XIX essa ideia de música descritiva foi posta em prática por Haydn (1732-1809) com sua Sinfonia nº 101 – “o relógio”, ou antes dele Vivaldi (1678-1741) com suas “As quatro estações” (primavera, verão, outono, inverno), ou outro francês contemporâneo de Saint-Saens e Tonico do Padre, Debussy (1862-1918) com o seu “Clair de lune” e o nosso brasileiro Villa-Lobos (1887-1959) com o seu “Trenzinho do caipira”, e a lista seria enorme para casos idênticos de compositores que na tentativa de descrever objetos, cenas, pessoas, animais, por meio de um ou mais instrumentos findaram por validar uma alternativa para a prática da composição. Tonico do Padre usou instrumentos de percussão (para imitar trovões) e instrumentos de sopro (para imitar o coaxar dos sapos), como tuba, bombardino, trombone, piston, requinta, clarinete e saxofone. Ao ouvir essa obra o que me chamou a atenção foram os trechos desafinados. E aí nasceu a pergunta que se fez como minha curiosidade central: por que alguns trechos da gravação eram desafinados? Eu era aluno de pós-graduação em história da música, em 2002, na UnB (DF). Resolvi investigar a origem da desafinação. Eu tinha uma hipótese em mente: os trechos desafinados eram devido à má qualidade de fabricação dos instrumentos de sopro, que deviam ser de origem nacional. Elaborei essa hipótese com base em minha experiência como músico profissional desde 1983. Eu ouvi frequentemente as queixas de músicos sobre a má qualidade dos instrumentos fabricados no Brasil (pianos, flautas, trompetes, violão, saxofone, guitarra, bateria, etc.). Faço minha defesa ao piano nacional da marca Essenfelder, cuja fábrica era em Curitiba e nós chegamos a exportar esse piano para países da América do Sul, mas lamentavelmente… a fábrica não foi adiante. Não é fácil manter um negócio em nosso país, os impostos para sustentar os governantes de ocasião são aviltantes! Para o músico que desejasse qualidade sonora (afinação resistisse por algumas horas, materiais que resistissem às variações de temperatura, timbre mais enriquecido pela série harmônica que se desdobra de cada som emitido) a alternativa era importar, ou seja, comprar um instrumento musical fabricado em outro país… (e pagar mais caro), ou conviver com os de marca nacional e aguentar as limitações de acabamento do material, etc. Outra coisa: é sabido que há bem pouco tempo os produtos importados eram sobretaxados para entrar no Brasil e, em muitos casos, sequer era possível importá-los porque as leis impediam com a velha desculpa de se proteger a produção nacional. O ex-presidente Collor de Melo, deposto em  1992 pelos “cara-pintada”, nos fez o favor de abrir as portas para os produtos importados e de melhor qualidade do que aqueles existentes aqui em Pindorama City, por exemplo: os automóveis. Collor chegou a dizer (e foi noticiado nos telejornais e mídia impressa da época) que os carros nacionais eram “carroças”. E no  bojo dos produtos importados (liberados), vieram além de bebidas e remédios, os instrumentos musicais, dentre outros bens importados. Pois bem, sobre o “Concerto dos sapos” e minha hipótese de instrumentos nacionais serem a causa dos trechos desafinados, descobri que não era devido à má qualidade dos instrumentos. Essa minha hipótese, embora sustentável para instrumentos de metais (trompete, tuba, trombone… que são os que existem na obra gravada), e sustentável porque me refiro ao interior do Brasil nos anos 70 (onde a TV era preto-e-branco também na capital), a hipótese não sobrevive se a gente ouvir as gravações dos anos 70 feitas em gravações de discos de artistas com instrumentos nacionais, onde consta boa qualidade de afinação dos músicos da metrópole comparados aos músicos do interior de Goiás do mesmo período, isto é, da mesma época em que foi gravada a música de Tonico do Padre, em 1970. Então, a causa (grande descoberta)  é que os trechos desafinados da gravação tiveram como motivo um tanto inusitado quanto real para aqueles dias de vida no interior, o seguinte fato: os músicos eram desdentados (banguelas). Os instrumentistas de sopro afirmam que para se tocar instrumentos de sopro, sobretudo aqueles como trompete, tuba, trombone, isto é, instrumentos de “pisto” (em vez de palheta como saxofone, clarineta, oboé, fagote), a embocadura só funciona se houver uma dentição completinha na parte da frente da arcada dentária (incisivos, caninos e até os pré-molares). Banguela não afina! A primeira turma de Odontologia formada no Brasil, em curso de 4 anos… foi em 1951 na então capital do Brasil (Pindorama), Rio de Janeiro. Aqueles músicos viviam no interior do Goiás e descobri que eram lavradores (trabalhavam na agricultura)… e a obra foi gravada em 1970. Será que havia dentistas por lá? Ou o método sumário de tratamento dos lavradores (gente pobre) era extrair seus dentes? Só foi possível descobrir isso após entrevistar o maestro que foi o responsável pela gravação de algumas obras de Tonico do Padre, inclusive “Concerto dos sapos”, composta em 1888 e gravada em 1970 dentro da Igreja Matriz de Pirenópolis. Localizei o maestro dias depois que cheguei em casa daquele passeio turístico a Pirenópolis, quando comprei o CD. Após ouvi-lo, em minha casa, em Brasília, procurei pelo nome do responsável pela gravação, o maestro José Joaquim do Nascimento. Pensei em fazer uma série de telefonemas aleatórios para pessoas residentes em Pirenópolis, até encontrar alguém que conhecesse o maestro. Mas tive uma ideia antes de fazer essa empreitada. Entrei no site de busca google e localizei um livro de autoria de Belkiss Carneiro intitulado “A música de Goiás”. Consegui adquirir o livro num sebo. Depois procurei por números de telefones de quem tivesse parentesco com a autora e famílias tradicionais citadas no livro. Após alguns telefonemas cheguei ao número do telefone de onde residiam os netos do maestro. Ao entrar em contato e explicar que gostaria entrevistar o maestro, e onde ele vivia, me disseram que vivia em Jaraguá (GO). Deram-me o telefone dele, consegui falar e agendei uma entrevista. No dia marcado peguei minha filmadora VHS, enchi o tanque de gasolina e segui para Jaraguá, mas antes passei em Pirenópolis porque seus netos foram comigo para servir de guia até o destino. Cheguei em Jaraguá por volta das 19h e encontrei o maestro dentro de um alojamento do Corpo de Bombeiros da cidade. Fomos para uma sala, liguei minha filmadora e bati um papo muito agradável com ele sobre a música “Concerto dos sapos”. A partitura original foi encontrada por ele na residência de uma família tradicional de Pirenópolis que era conhecida por salvaguardar documentos históricos, além da participação ativa na vida política da cidade. O maestro encontrou a partitura completamente picotada, porque o próprio autor, Tonico do Padre, rasgou-a em dezenas de pedaços num ataque de fúria quando vários músicos se puseram a rir durante um ensaio. Achavam engraçados os sons que emitiam com seus instrumentos, quando a intenção era imitar sapos que coaxam na beira do Rio das Almas, existente na cidade, portanto, sons esparsos sem caracterizar uma melodia tradicional, como aquelas das festas das cavalhadas e das cantorias. Furioso e impaciente com os risos soltos, interpretados pelo compositor  como um escárnio, puxou da estante a partitura daqueles que ainda riam e as rasgou em mil pedaços espalhados no chão, e abandonou a sala de ensaio. Um músico reuniu os cacos de partitura que tempos depois já estariam sob a guarda da família mais tradicional da cidade, naquela época. O fato ficou famoso e sobreviveu ao tempo como sobrevivem os folclores numa cidade de interior. Foi assim que o maestro tomou conhecimento do motivo de ter encontrado as páginas rasgadas em pequenos pedaços. O maestro teve o fôlego de juntar pedaço por pedaço, tal qual um quebra-cabeça, e reorganizar a partitura outra vez. O próximo passo foi passar a limpo toda a partitura nas folhas em branco de uma pauta. Em 1970 reuniu um grupo para gravar a obra que teve seu registro sonoro pela primeira vez, 67 anos após a morte de seu compositor que morreu sem ouvi-la. Há muitos exemplos de música descritiva caso queiram conhecer mais: “O VÔO DO BESOURO”, “O CISNE”, “AS QUATRO ESTAÇÕES”, “DANÇA MACABRA”, “PÁSSARO DE FOGO”, “CLAIR DE LUNE”, tentem ouvir no youtube. O título da música é a dica daquilo que o compositor pretendeu descrever ou representar.

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